Por
que tem sido tão difícil formar leitores
na América Latina?
DELIA - A dificuldade não
se limita a esta ou aquela região. Na América
Latina, sobretudo nos setores mais pobres, a tarefa
fica muito a cargo da escola, o que a torna mais complexa.
Isso porque há muitas tensões vinculadas
ao tempo disponível para ensinar e também
ao entendimento sobre o que é formar leitores.
Tradicionalmente as escolas consideram que o objeto
de ensino não é leitura e escrita, mas
a língua. Entre esses dois objetivos existem
diferenças. Quando se concebe que o tema é
a língua, os conteúdos prioritários
são os descritivos, principalmente a gramática
e a ortografia. Mas, se o objeto fundamental são
as práticas de leitura e escrita, a língua
passa a ser incluída num assunto maior, em que
não é tão fácil determinar
a ordem dos conteúdos, como ocorre com a gramática.
O
processo de formação de leitores deve
começar com a alfabetização?
DELIA – As duas coisas
não se distinguem. A participação
na cultura escrita deveria começar muito antes
de concluída a aprendizagem da própria
escrita. As crianças cujos pais lêem histórias
para elas ou que presenciam comentários sobre
noticias de jornal estão aprendendo muito sobre
linguagem e escrita. Para isso não faz falta
saber ler e escrever no sentido convencional. Ao adotar
uma perspectiva global, o conhecimento se aprofunda.
Só
que essa convivência inicial com a leitura não
existe nos setores mais pobres...
DELIA–
Normalmente, é isso o que ocorre, mas não
é a regra. Eu trabalho em bairros de periferia
na Venezuela e conheci famílias que lêem
assiduamente. Lembro de uma menina que chegou a 1ª
série muito avançada na construção
do sistema de escrita. O que acontecia: sua mãe
é cabeleireira, levava para casa revistas para
aprender novos penteados e as compartilhava com a garota.
Portanto o contato pode ser maior ou menor com certos
materiais, mas existe. Só que a escola é
uma instituição cujas expectativas estão
modeladas à imagem e semelhança da classe
média para cima. Estou de acordo com isso, porque
creio que uma de suas funções é
democratizar a cultura dominante. Se, assim que entram
na creche, as crianças ouvem a leitura de diferentes
materiais, conseguem ingressar na escrita dominante
desde pequenas.
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Até
que ponto o aprendizado é melhor se escolarização
começa mais cedo?
DELIA–
Antes se pensava que, para conhecer as histórias
infantis, era preciso saber ler. A escola deve começar
a ler para os alunos o mais cedo possível. Para
os de família de baixa renda, está a cargo
do professor provocar situações desse
tipo, de que os outros dispõe desde que nascem.
Isso não significa antecipar a exigência
de que saibam ler e escrever. O sistema escolar tem
um limite tênue entre dar oportunidades de aprender
certos conteúdos e cobrar seu conhecimento.
De
que forma os conhecimentos científicos das últimas
décadas mudaram o conceito de leitura?
DELIA–
Em minha história, tudo começou com os
estudos de Emilia Ferreiro sobre a psicogênese
da língua escrita, que mostraram o processo de
aquisição de conhecimento como um conjunto
de problemas cognitivos – e não somente
uma técnica. Em relação às
práticas sociais, foram fundamentais os estudos
em História, Sociologia e Antropologia e autores
como Roger Chartier e Jean Hébrard. Investigações
psicolingüísticas, desde os anos 70, mostram
que não se lê letra por letra, que a leitura
implica numa construção de significados
e que eles não estão no texto, mas são
construídos pelo leitor. Tudo isso começou
a abrir a possibilidade de conceituar de outra maneira
o objeto de ensino e a participação dos
sujeitos na apropriação dessas práticas.
Que
tipo de atividade favorece a apropriação
de significado?
DELIA
- Temos construído situações didáticas,
como os projetos de produção e interpretação
dirigidos a um fim. Por exemplo: uma antologia de contos
fantásticos da literatura inglesa no século
19. Os alunos lêem para escolher, algo que normalmente
não se faz na escola. Ou então o professor
propõe a composição de um texto
sobre um conteúdo, o que implica um trabalho
de aprendizado e de seleção, tendo em
vista que o produto final será afixado no mural
ou publicado em site, Isso restitui os propósitos
comunicativos da leitura e da escrita, sem abrir mão
da finalidade didática.
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O
que são práticas sociais de leitura?
DELIA
- Em nossas sociedades, ainda que não fisicamente,
existem comunidades de leitores. Cada um de nós
pertence a várias delas, de um jornal diário,
de um determinado autor etc. Nessas comunidades, há
questões que são práticas sociais
e não só de cada um. É o que chamamos
de comportamentos leitores: comentar livros, discutir
o sentido de um trecho, interpretá-lo, indicar
textos que são importantes para nós, consumir
resenhas e informações sobre literatura.
Em que sentido a escola cumpre esse papel?
DELIA–
Em muitos casos, o enfoque se distancia das práticas
sociais de leitura. Fora da escola, lê-se para
aprender a fazer certas coisas ou saber algo sobre um
assunto de interesse ou inteirar-se sobre os acontecimentos.
No caso da literatura, pode-se dizer que se lê
para entrar num outro mundo possível. Na escola,
costuma-se ler para aprender, e só. Pode ser
que as crianças, sobretudo as que provêm
de meios sociais onde não se produzem leitores,
aprendam como se faz, mas não para quê.
Nesse caso, terão dificuldade em ver sentido
na leitura.
É
possível formar uma comunidade de leitores dentro
da própria escola?
DELIA–
É desejável que a escola se abra ao exterior.
Eu participei de uma experiência em que se instalou
um quiosque no pátio, com material para os pais,
numa região em que havia muitas pessoas supostamente
analfabetas. Houve um movimento muito forte de procura
por material instrutivo sobre diferentes profissões:
mecânicos, costureiras etc. Em Buenos Aires, um
diretor atraiu a comunidade com um programa semanal
de leitura para visitantes.
A organização teórica das
situações didáticas não
conflita com a imprevisibilidade dos acontecimentos
na sala de aula?
DELIA–
Faço uma pergunta parecida. O conhecimento sobre
doenças tira dos médicos a flexibilidade
para fazer diagnósticos e definir que medicamentos
indicar a um paciente? É a mesma coisa.
O conhecimento didático nunca vai abranger tudo
o que pode acontecer durante o ensino e a aprendizagem.
Trata-se de entender as variáveis que estão
implicadas numa situação didática,
não de prescrever regras. Os resultados de pesquisa
são complexos e não receituários
do tipo “Vá e faça”. Os professores
precisam produzir respostas próprias, mas não
inventar o que já se sabe.
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Que
competências um professor de língua precisa
ter hoje em dia?
DELIA–
O professor não precisa saber história
da leitura ou Sociologia e Antropologia. Mas é
indispensável que os processos de formação
permitam elaborar situações efetivas de
aprendizagem. Insisto nisso porque em geral se encara
o docente como profissional da prática. É
preciso saber que o trabalho de ensinar é muito
difícil. É crucial reconhecer que há
um conjunto de saberes específicos a ser dominados
e eles são fundamentalmente didáticos.
Qual é o problema do tempo didático?
DELIA–
Práticas requerem períodos longos para
serem exercidas porque não dependem apenas do
conhecimento de regras. Aprende-se a ler por meio de
muitas leituras, do conhecimento de diversos autores,
de vários setores da cultura escrita etc. Tudo
isso depende de jornadas longas. É um processo
em espiral, no qual se volta a certos conteúdos
sob uma nova perspectiva. Há aspectos que ocorrem
simultaneamente e necessitam de diferentes situações
para que seja apropriados.
A
organização de horários nas escolas
costuma ser um obstáculo para esse aprendizado?
DELIA–
Sim, mas isso pode ser modificado. Na Argentina, trabalha-se
por blocos de 80 minutos, três vezes por semana.
O mais difícil de controlar é o longo
prazo. Para dar sentido à leitura são
necessários projetos que não acabem em
um dia. Por exemplo: adota-se por dois meses a atividade
de conhecer um autor para se descobrirem o que caracteriza
seu estilo, os fios condutores de sua obra etc. Infelizmente,
as escolas costumam ensinar fragmentos de saber distribuídos
em pequenas parcelas de tempo. |
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A
ênfase na formação de leitores e
produtores de escrita prejudica o ensino da gramática?
DELIA–
Sim e não. Reserva-se menos tempo à gramática,
mas esse conteúdo ganha mais sentido porque,
na prática, ele passa a ser reflexão sobre
a própria língua. Essa possibilidade permite
ao autor distanciar-se de seu texto, pondo-se no lugar
do leitor. As noções gramaticais construídas
por meio da leitura e escrita são assumidas pelos
estudantes como próprias. Do contrário,
os conhecimentos se perdem. Todo ano, os professores
têm de voltar a ensinar sujeito e predicado porque,
usualmente, ensina-se a gramática como se a língua
materna fosse algo alheio ao sujeito, não uma
tomada de consciência do que já se sabe,
embora sem conceituar.
E
quanto à ortografia?
DELIA–
Quando se escreve para comunicar, e não somente
para ser avaliado, o interesse pela ortografia cresce
muito. É preciso saber que a escrita e a ortografia
têm regras e é conveniente conhecê-las.
Todos buscam regularidades. Por isso, é importante
apresentar a ortografia como um produto social resultante
de uma história, o que leva algumas palavras
a ser escritas de um jeito e não de outro.
Que
problemas a senhora vê nas atividades habituais
de interpretação de texto?
DELIA–
O texto é um conjunto de marcas sobre um papel;
alguém deixou ali pensando num sentido e quem
lê atribuirá outro, que coincide parcialmente
como primeiro. Quem interpreta o faz em relação
ao que sabe. Além disso, entende-se de modos
diferentes, segundo o propósito.
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No caso de um manual de instruções, me
aproximo ao máximo do que quis dizer quem o escreveu.
Mas, se estou diante de um artigo de jornal no qual
procuro algo específico que me interessa, posso
ler saltando trechos. As diferentes interpretações
não dependem exclusivamente do texto em si.
Por isso, não faz sentido fazer perguntas simplesmente
sobre o que está escrito ali se elas podem ser
respondidas sem uma compreensão verdadeira do
texto.
Como
a escrita pode ser um instrumento de reflexão
sobre o próprio pensamento?
DELIA–
Quando está produzindo, por exemplo, o resumo
de um texto, o aluno é obrigado a compreendê-lo
mais do que quando apenas o lê. Precisa voltar
à obra, com perguntas feitas do ponto de vista
do escritor. Há muitas maneiras de aproximar-se
de diferentes gêneros e propósitos ao utilizar
a escrita como meio de reconstruir o conhecimento.
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