A
arte de escrever bem

O
conhecimento acumulado desde os anos 1970 permite ao professor
reformular conceitos e práticas para formar leitores
de verdade
Ao
ser apresentada aos cordéis, turma de 8a série
toma
gosto pela
leitura e aprende que a linguagem
falada é rica, mas que a escrita
deve seguir a norma culta
(Denise Pellegrini)
eus senhores
e senhoras, que aqui estão presentes queiram ouvir
um cantor que propala simplesmente palavras da ignorância
do tempo de sua infância da classe dos inocentes. Esses
versos são de Neco Martins, cordelista e cantador.
Ou melhor, de Manoel de Oliveira. Ou melhor, de Manoel de
Oliveira Martins, fazendeiro que fundou, no fim do século
19, São Gonçalo do Amarante, a 60 quilômetros
de Fortaleza. Nem a origem cidade nem os cordéis de
Neco, reunidos e preservados pela família, conseguiram
impedir que essa tradição perdesse a força
com o tempo.Um século depois, no entanto, a professora
Francisca das Chagas Menezes Sousa levou os moradores de Cágado-distrito
rural de São Gonçalo onde está localizada
a EEF João Pinto Magalhães – a procurar
entre seus guardados os antigos livretos. O material se tornou
uma preciosa fonte de pesquisa para a turma de Francisca,
que, como o projeto Cordel: Rimas que Encantam, conquistou
o título de Educadora do Ano no Prêmio Victor
Civita 2006.
Durante os três meses em que estudaram essa arte, os
45 alunos de 8a série aprenderam que a língua
falada é diferente da língua escrita e que a
variação da fala, tão comum no país,
precisa ser respeitada. Na hora de escrever, no entanto, é
necessário seguir uma norma-padrão.
Os alunos de Chaguinha, como é mais conhecida tinham
dificuldade de inferir as idéias de um texto e a escrita
deles era carregada de marcas da oralidade. Filhos de pais
analfabetos ou sami-analfabetos, não têm em casa
incentivo para a leitura. A professora percebia a dificuldade
deles em diferenciar a linguagem popular da linguagem escrita.
“Apostei nos poemas de cordel, tão próximos
das histórias contadas por pais e avós”,
conta. “Ao valorizar a cultura popular, Francisca conseguiu
levar a turma a reconhecer e legitimar o mundo letrado”,
explica a consultora Heloisa Cerri Ramos.
Em uma roda de conversa, Chaguinha avaliou o que os alunos
já tinham ouvido falar sobre cordel e pediu que eles
pesquisassem mais sobre o tema. Como o acervo da escola é
pequeno, foram à biblioteca na sede do município.
Lá, encontraram varias publicações que
tratam da temática do projeto e também conheceram
obras como O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Um dos
garotos descobriu um livro de Neco Martins, o fundador da
cidade, que ninguém sabia ser cordelista, e outro sobre
Patativa do Assaré.
Aos poucos os mais desconfiados se interessaram pelo tema.
“Eu achava que era enrolação. Para mim,
a gente precisava de aula de Português”, lembra
Francisca Rosiane Barroso Lima, 15 anos. Mas não demorou
para ela perceber que aquilo era aula, sim, e das boas! Ainda
mais quando todos foram ao Centro Vocacional Tecnológico
pesquisar na Internet. Depois de explicações
sobre o funcionamento dos computadores – a maioria nunca
tinha usado –, um mundo de informações
se abriu. Alguns textos, como biografias de autores e vários
cordéis, acabaram sendo impressos para serem estudados
depois na escola.
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Conversa
na comunidade
Os
moradores mais velhos foram outra fonte de informação
preciosa sobre o tema. Ao visitá-los, os jovens conseguiram
30 livretos, copiados e devolvidos aos donos. Em sala ou debaixo
das árvores do pátio, as cópias passavam
de mão em mão em animadas rodas de leitura.
Para que os alunos colocassem em prática todo o conhecimento
adquirido, a professora discutiu com eles as características
do gênero, incluindo as rimas e a métrica: os
versos são escritos em forma de sextilha, estrofe de
seis linhas, cada uma com sete sílabas poéticas,
e rimas iguais nos versos pares. A classe começou a
escrever, mas sem fazer a contagem das silabas. As produções
eram corrigidas, relidas e aprimoradas com a consulta a livros
e dicionários. “Eu apontava versos com tamanhos
muito diferentes ou rimas feitas com a mesma palavra”,
diz Chaguinha.
Durante a produção, ela percebeu que eram mencionados
versos contados por familiares ou conhecidos e sugeriu uma
entrevista com uma dessas pessoas, João Evangelista
Ferreira dos Santos, 48 anos. Estudante de EJA na própria
escola, ele sabe muitos cordéis de cor e os declamou
para a garotada. A transcrição da conversa foi
feita em papel pardo, colado na parede da classe, e analisada.
“Essa atividade é muito útil para compreender
que a linguagem escrita não é a transcrição
da fala”, explica Heloisa.
Chaguinha teve o cuidado de dizer que o modo de o povo falar
não é errado. O Enredo do Diabo, um dos cordéis
declamados por Evangelista, começava assim, na transcrição:
“Sexta-fera da paixão/ U satanás deu um
fora/ Tumou um certo distino.” No trabalho de adequação
para a linguagem escrita, objetivo de seu projeto, o mesmo
texto virou: “Sexta-feira da paixão/ O satanás
deu um fora/ Tomou um certo destino.”
Depois dessa etapa, foram exibidos os DVDs de O Auto da Compadecida
e de um show de Caju & Castanha, uma dupla de mestres
no coco-de-embolada nordestino, para mostrar diferentes modos
de falar. Para socializar o conhecimento, os jovens organizaram
um calendário de apresentações e recitaram
versos para os colegas de outras salas, que aguardavam ansiosos
a troca de idéias. Quem queria podia apreciar os textos
expostos no mural da escola. Depois, foi a vez de os moradores
da vizinhança receberem a visita dos novos escritores,
numa atividade batizada de cordel ambulante.
Muita
produção textual
Os alunos partiram para a produção de um cordel
coletivo sobre um colega que havia se afogado num rio. Após
consultara a família para pedir autorização,
eles foram em busca de mais informações sobre
Nascélio Lima, 17 anos. Em dois dias de empolgação
e lágrimas, surgiram versos como estes: “Essa
é uma real história/ Que São Gonçalo
abalou/ Tragédia de um estudante/ Que em um rio se
passou/ Na localidade de Cágado/ Muita tristeza deixou”.
A última etapa do trabalho envolveu a escrita de cordéis
em duplas. Os temas eram variados: mitos e histórias
contadas pela comunidade ou temas atuais, como as diferenças
entre um menino feio e um bonito. Corrigidos os textos, a
meninada começou a produção das ilustrações.
Como forma de substituir as tradicionais xilogravuras, Chaguinha
ensinou a fazer carimbos com EVA. As capas eram grampeadas
nos livros, que depois, como manda a tradição,
terminaram presos em varais.
No fim do trabalho, a escola organizou uma noitada de cantorias.
Em uma praça iluminada por lampiões e uma grande
fogueira, a turma montou barracas com comidas típicas
e expôs suas produções. A comunidade leu
os livretos, ouviu os jovens declamando versos e artistas
locais apresentando emboladas, repentes e, como não
poderia deixar de ser, muitos cordéis. A professora
ainda comandou uma noite de autógrafos.
A avaliação do trabalho foi feita por meio de
um portfólio, com as produções e os relatórios
mensais redigidos pelos alunos. “Assim, eles e eu percebíamos
avanços na adequação do vocabulário,
na concordância, paragrafação e na ortografia”,
diz Chaguinha. Suas impressões também eram colocadas
em relatórios. “Com o aumento da leitura, eles
passaram a escrever e a falar melhor e a se interessar mais
pelos livros”. Trecho do relatório de Ednardo
Evangelista Batista, 14 anos, dá uma amostra do sucesso
do projeto: “Agora, sempre procuro, na nossa biblioteca,
livros sobre outros temas, poesias, romances e revistas”.
Raízes
que levam ao mundo letrado
A consultora Heloisa Cerri Ramos, formadora de professores
de São Paulo, foi a responsável pela seleção
do trabalho de Francisca entre os inscritos na nona edição
do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. O grande mérito
do projeto – que deu a Chaguinha o título de
Educadora do Ano de 2006 – de acordo com ela, é
partir das origens da comunidade, que ganharam valor pelas
mãos da professora. “Ela percebeu que os alunos
traziam para seus escritos a influência da linguagem
oral, emprestada das cantorias, histórias e falares
dos pais e avós”, conta. Por meio do cordel,
tão próximo ao universo local, os estudantes
se abriram para o prazer da leitura e, dessa forma, se aproximaram
da linguagem escrita.
Chaguinha pode fazer a turma ir além, segundo Heloisa,
usando a mesma metodologia aplicada no projeto, baseada no
conhecimento da classe, em modelos, na prática e em
comparações. “Assim, é possível
explorar outros gêneros, como conto, fabula, lenda,
romance e suspense”, explica a consultora. O fato de
os estudantes não terem proximidade com esses tipos
de leitura não atrapalha a atividade. Cabe ao professor
desenvolver a familiaridade. O tema ou o local da história
podem atrair a moçada.
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