:: Entrevista ::

 

Quebrando Paradigmas

Primeira mulher a dirigir a CBL, a nova presidente afirma que dará continuidade ao trabalho desenvolvido por seu antecessor, mantendo a entidade na vanguarda das ações em prol do livro e da leitura. Ciente do desafio de aglutinar editores, livreiros, distribuidores e profissionais de venda direta em torno desta causa comum, ela diz que os maiores concorrentes do mercado editorial brasileiro são o analfabetismo funcional e os baixos índices de leitura. Disposta a promover um novo salto de qualidade da CBL, diz: "Chego à presidência com uma bagagem editorial bem diferente da tradicional e quero trazer este know-how para a Câmara".

 


1 - Como vice-presidente, a senhora participou intensamente das ações promovidas na gestão passada. Que avaliação faz deste trabalho e quais serão os primeiros passos desta diretoria que está se iniciando.

Rosely Boschini - Nos últimos quatro anos, a direto­ria da Câmara, liderada por Oswaldo Siciliano, fez um belíssimo trabalho de organização interna, implemen­tando a estrutura que levou a entidade a um patamar de modernidade e profissionalização inédito em mais de 50 anos de história. Do ponto de vista administrati­vo, a CBL está funcionando, hoje, como nunca funcio­nou antes, o que permitiu melhorar e diversificar os serviços prestados aos associados. Resgatou e aprimo­rou toda a área de comunicação, colocando as iniciati­vas da entidade em evidência junto aos formadores de opinião. E, o mais importante, consolidou a Câmara como porta-voz da cadeia produtiva do livro, graças à interação com outras entidades e, principalmente, com o poder público.Enfim, as bases para o próximo salto qualitativo da CBL estão solidificadas. Portanto, temos as condições para implementar um fortíssimo planejamento estratégico.

2 - E de que maneira a senhora pretende execu­tar este planejamento?
Rosely - Vamos começar a trabalhar por projetos, com começo, meio e fim, que contemplarão todos os passos: estudo de viabilidade, alocação de recursos, avaliação de desempenho e mensuração de resulta­dos. Isso implica em mudança de cultura, e, por isso, a atuação da diretoria anterior foi tão importante.

3 - No âmbito externo, qual será o papel da CBL durante seu mandato?
Rosely -
Precisamos de uma causa comum que agregue todos os segmentos do mercado e que faça as pessoas participarem, cada vez mais, do dia-a-dia da Câmara. Aí, realmente, teremos um mercado editorial coeso, proativo, expressivo. Hoje, concretamente, pouca gen­te se envolve com os projetos e com a rotina da CBL, inclusive os membros da diretoria. Nas entidades for­tes, com grande representatividade e participação dos associados, as pessoas estão sempre aglutinadas em torno de causas comuns. A idéia é resgatar um pou­co a história da CBL como um fórum permanente de discussões e debates. E este será o aspecto mais trabalhoso, o nosso grande desafio. Mas, na medida do possível, vamos realizar encontros informais, sem pauta definida, que estimulem as pessoas a vir para cá conversar, trocar idéias, discutir alternativas para os seus negócios.

4 - Seria o mesmo espírito dos Encontros de Edi­tores e Livreiros, que a CBL realiza anualmente?

Rosely - Exatamente. Queremos transformar a Câmara em um espaço de aproximação entre os vários agentes do mercado editorial, porque favorece a criação de uma rede de contatos entre editores, livreiros e distri­buidores, favorece o estreitamento de relações. É um conceito de network mesmo, que propicia e estimula a integração de maneira mais descontraída e, por isso mesmo, mais produtiva. Os encontros não terão uma pauta específica; servirão para sentirmos que há uma possibilidade real de participação dentro da entidade. Só o fato de termos alguém para conversar e expor as dificuldades do dia-a-dia de uma empresa já é um conforto para alma. Sabe aquela coisa de dizer "puxa, a minha formação de preço não está privilegiando tal custo; como você faz para definir o seu preço final?". Ficamos muito solitários nas nossas empresas, com os problemas corriqueiros, mas que certamente outras vi­venciam. Juntos podemos encontrar alternativas viáveis para questões como esta.

5 - Estimular a solidariedade entre os associa­dos depende de uma mudança cultural. A senhora acredita que é possível aglutinar solidariamente empresas que, em principio, são concorrentes?

Rosely - No mercado editorial brasileiro não concor­remos uns com os outros. Nossos concorrentes são o analfabetismo funcional, os baixos índices de leitura. O que precisamos entender é que na medida em que deixamos de enxergar a empresa ao lado como con­corrente teremos condições de nos unir em torno de um movimento que amplie a base de leitores do País. Naturalmente, quando isso acontecer de fato, vamos vender mais livros, aumentar as tiragens, que são nosso grande gargalo. Veja, nossa produção é maravilhosa, não devemos nada para outros centros de excelência editorial. Mas de que adianta nos esmerarmos na produção, se não temos leitores? E essa é uma questão que influi diretamente no preço de capa do livro.

6 - Em termos de ações institucionais, quais são os projetos imediatos e de que maneira a senhora pretende colocá-Ios em prática?

Rosely - Ao longo dos anos, a Câmara teve sua ima­gem muito associada aos temas do mercado paulista. Uma maneira de nos aproximarmos de outros mer­cados é intensificar nossa atuação nas feiras de livros, estimulando algumas, organizando outras e, na medi­da do possível, apoiando todas. Claro que não é fácil organizar uma feira e associar a ela a marca da CBL. Uma alternativa talvez seja o desenvolvimento de um sistema de transferência de know-how de organização de eventos deste tipo. Contudo, o mais importante é a qualificação do público que os freqüenta. Quer dizer, tem de existir um trabalho que anteceda a visitação, para evitar, por exemplo, que as crianças cheguem à feira despreparadas. De modo geral, elas não fazem idéia do que seja uma feira de livros e o que vão encontrar lá.

7 - E de que forma a CBL poderia qualificar o públi­co? E qual é a importância desta ação para a feira?

Rosely - Como normalmente a Secretaria de Edu­cação local está envolvida na organização do evento, não é difícil realizarmos um trabalho junto à rede de ensino, seis meses antes da sua realização, por exem­plo. O resultado concreto deste trabalho é que ele con­segue, efetivamente, impactar o público visitante em relação à leitura, à cultura. Preparado para a visitação, sua adesão ao evento é maior e, conseqüentemente, os seus resultados são mais perenes e abrangentes. E
precisamos fazer isso já, sob o risco de formarmos na cabeça das crianças e jovens a idéia de que as feiras de livros são um verdadeiro horror. Aí, quando a escola sugerir um passeio deste tipo os estudantes vão querer qualquer coisa, até ficar de castigo, menos isso.

8 - Outro aspecto imprescindível para a am­pliação do mercado editorial é o das bibliotecas. Como a CBL se insere nesta discussão?

Rosely - Penso que se o poder público só tiver ver­ba para uma ação na área do livro e da leitura, ela deve ser investida em biblioteca. É ali que o acesso ao livro é feito, de fato, democraticamente e onde as pessoas aprendem a gostar de ler. Por isso, em qualquer país civilizado há bibliotecas aos montes. Nos Estados Unidos, por exemplo, elas existem em todos os bairros, em todas as escolas. E por que é tão importante? De um lado, a biblioteca forma o leitor e ele, uma vez fisgado, nunca mais vai abandonar os livros. E de outro, exige compras governamentais em grandes volumes para a atualização dos acervos. Aí as tiragens sobem exponencialmente. O que num cenário como o nosso não ultrapassa cinco mil exem­plares, com uma política de bibliotecas consistente salta para 100 mil. No final, lá na livraria, graças a esta tiragem maior, o livro que custaria 30 reais será vendido por 15 reais. Com uma única ação, forma-se novos leitores e se estimula a vendagem das livrarias. É um círculo virtuoso.

9 - Por falar em ações de incentivo à leitura, a CBL tem projetos neste sentido?

Rosely - A Câmara participa de uma série de fóruns, como o PNLL e a CNIC Plano Nacional do Livro e Leitura e a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura, nos quais esta questão é for­temente trabalhada. Acredito que não só podemos como devemos intensificar nossa participação nas ações que já existem, atuando como um centro ca­talisador e não obrigatoriamente como organizador. Assim, poderia se transformar em um grande foro de discussão sobre a formação de leitores, políticas para bibliotecas, mecanismos de democratização do acesso ao livro. Um exemplo desta ação deu-se com a Jornada Literária de Passo Fundo. Fomos além do apoio; decidimos lançar na sede da Câmara o evento. Com isso, aumentou sua visibilidade. A Jornada que tem consistência, estabilidade e respeitabilidade, ao receber a chancela da CBL cresceu ainda mais, chamando a atenção da imprensa, dos formadores de opinião, em âmbito nacional. Aliás, toda vez que a Câmara abraça uma causa, esta se expande, porque se trata de uma marca forte, muito bem usada nos últimos quatro anos. E sabemos que os eventos rela­cionados a livros estimulam o hábito de leitura junto à população local. As livrarias, por exemplo, vendem mais em época de Bienal. Isso porque o assunto livro ganha espaço e permanece na mídia pelo tempo que dura o evento. Ou seja, chama a atenção das pessoas, que se sentem estimuladas a comprar.

*Essa entrevista faz parte da Revista Panorama Editorial - Abril de 2007



 
Entrevistas e matérias:
Efeito Estufa - Terezinha Soares
Pollyanna Furtado - Lança livro produzido artesanalmente
Marco Adolfs - Sobre o livro "Látex"
Maria Dolores - O gênio Milton Nascimento
João_Falcão e Adriana Falcão - A Imagem do Livro
Khaled Hosseini - O Caçador de Pipas
 
Reportagens e matérias:
John Gladson - Capitu a mulher que Machado criou
Juçara Dutra - Resgate de um Papel Essencial
Paulo Oliver - O Incentivo à Cultura
Roque Jacoby - Vocação Para a Leitura