:: ESPECIAL ::


A ocasião faz o leitor


Carioca da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro, o escritor e promotor de leitura Otávio Júnior descobriu o universo literário aos 8 anos, após encontrar um livro
no lixo. Hoje, 15 anos depois, trabalha para apresentar o mundo das letras às crianças carentes e planeja construir uma biblioteca em sua comunidade.

 


ara quem vive o cotidiano do subúrbio carioca, marcado por uma rotina de violência, é difícil imaginar uma solução para afastar os jovens da criminalidade. Nascido e criado na comunidade do Caracol, no bairro da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, filho de pai pedreiro e mãe dona-de-casa, Otávio César Santiago de Souza Júnior encontrou uma saída quando descobriu o mundo literário. Com 24 anos recém-completados – nove deles dedicados ao livro e à literatura -, Otávio Júnior já é autor de duas obras infanto-juvenis, publicadas de maneira independente.
Seu maior orgulho, contudo, é o trabalho que desenvolve como promotor de leitura para crianças e adolescentes da região onde mora. “Atuo como mediador de leitura, conto historias, dou palestras de motivação, falo sobre a importância da leitura. É um trabalho árduo, porém muito gratificante. Para algumas crianças, esse é o primeiro contato com os livros e com as atividades culturais”, diz Otávio, que desde 2003 visita escolas e centros comunitários com o projeto Ler é 10/ Leia Favela. Somente no ano passado, ele organizou 12 apresentações em oito comunidades diferentes da Zona Norte do Rio, reunindo mais de 500 participantes entre 6 e 14 anos.
Além de ressaltar o valor dos livros e d leitura, o projeto inclui atividades como o Lanchinho Literário, versão infantil dos cafés literários. Nessa hora, além de ganharem um reforço na alimentação, as crianças ouvem histórias e participam de diversas atividades lúdicas. No Cineminha Literário, são exibidos filmes baseados em livros. “Na última sessão, todo mundo se emocionou com Oliver Twist”, revela o promotor.
Mas é na mala que Otávio carrega o material primordial do projeto e a diversão da meninada: livros. Entre os autores preferidos estão Monteiro Lobato, Ruth Rocha e Ziraldo. “Levo sempre cerca de 70 títulos. Quando abro a mala sobre um tapete e aviso que elas podem ficar à vontade para ler o que quiser, as crianças adoram. São 30, 50, 70 meninos e meninas a cada encontro. É tudo muito diferente da realidade que elas vivem”, diz, queixando-se apenas por não deixar as obras com a garotada.
Este ano, Otávio estendeu o trabalho que desenvolve na Penha para o Complexo do Alemão, uma área da Capital fluminense que costuma freqüentar o noticiário por causa da violência provocada pelo crime organizado. “Tem toda uma dificuldade, alguns moradores são muito arredios. Felizmente, há sempre gente disposta a colaborar.”

CULTURA NO LIXO
O primeiro mergulho de Otávio no universo literário aconteceu quando tinha apenas 8 anos. Semi-analfabetizado, o garoto encontrou no lixo uma caixa de brinquedos, ma foi um livro que estava ao lado que mais o atraiu. “Chamava-se Dom Gatón. Só abri no dia em que ficamos sem energia elétrica em casa e não dava para ver televisão”, lembra o rapaz. Desde então, conta ter lido mais de sete mil obras – e algumas acabaram por formar sua modesta biblioteca, hoje com cerca de 550 exemplares.
A paixão pela leitura fez com que Otávio começasse a escrever suas próprias historias. Em 2003, aos 15 anos, colocou o ponto final em sua primeira obra, intitulada As Aventuras do Pássaro Mágico e Outras Histórias. “Um livreto infanto-juvenil, na verdade”, diz modesto. Sem saber que seu texto precisava de edição, revisão e um projeto gráfico, ele foi atrás da editoras. E embora só tenha recebido respostas negativas, não desistiu. Sua perseverança deu resultado quando bateu na porta de uma pequena gráfica no Centro da cidade do Rio de Janeiro. “Procurava pela proprietária e fui informado que ela tinha morrido. Quase desisti, mas o filho dela, César Borges, pediu para ficar com o manuscrito e me orientou para fazer as correções. Disse, ainda, que eu deveria encontrar um ilustrador. Depois de dois meses de idas e vindas, meu livro estava pronto e meu sonho realizado. Foi uma generosidade tremenda”, recorda Otávio, que ganhou dois lotes com 100 exemplares do título.
Ainda naquele ano, veio até São Paulo para participar da 1ª Feira do Livro Infantil, Juvenil e Quadrinhos. “Tinha 100 reais no bolso e viajei com a cara e a coragem”, recorda. Como recompensa, conseguiu uma doação de 500 livros da Fundação do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Sua paixão o levou a bater ponto nos principais eventos do setor, da Bienal do Livro de São Paulo à Festa Literária Internacional de Parati (Flip). Em 2004, inclusive, foi convidado para integrar a agenda oficial de autógrafos da Feira do Livro de Ribeirão Preto.
Mesmo tendo publicado outra obra já em 2005, O Tesouro da Floresta, Otávio confessa que a prioridade no momento é sua atuação como promotor da leitura. “Vejo meu trabalho de autor crescer, pois estou mais perto do público-alvo, ouvindo suas necessidades de leitores. Só agora tenho a noção do que é qualidade em literatura infanto-juvenil. Mas, também, aprendi que esse público só vai existir e crescer se houver acesso ao livro”, explica.

APOIO E ESTÍMULO
A publicação das obras foi decisiva para Otávio perceber a importância de incentivar a leitura entre as crianças. “Nessa época, por conta de um curso de teatro amador, passei a apresentar, nas escolas da Penha, um monólogo que falava sobre a entrada de um garoto no universo da leitura. Ligava para as escolas para falar do meu livro, era um meio de comercializar meu trabalho. A idéia foi abraçada pelas diretoras e assim surgiu o Ler é 10. Até as sessões de autógrafo serviram para mostrar como a leitura era importante para a garotada”, conta Otávio, que vendia seus livros por módicos oito reais.
Estimulado pela repercussão da iniciativa, Otávio passou a correr atrás de novas oportunidades. Ganhou bolsa de estudos para participar de oficinas de criação literária e de roteiro de histórias em quadrinhos, além de leitura e de empreendedorismo comunitário, promovidos pela Prefeitura do Rio.
Para executar o projeto, o escritor conta com o apoio de voluntários da própria comunidade. Pedagogos contribuem com o planejamento das atividades e uma monitora, Patrícia Gonçalves, ajuda a cuidar das crianças na hora das apresentações. “Hoje meu trabalho na comunidade é bastante conhecido. Com ajuda de amigos e vizinhos, criei cartazes e panfletos para divulgar as ações”, ressalta.
Ele também enfatiza que o apoio de terceiros foi decisivo para a publicação de seus livros. “O Renato Carneiro – conhecido como Renatus – fez as ilustrações do primeiro. Já o projeto gráfico e os desenhos do segundo saíram das mãos do André Brown e da Alessandra Nogueira”. Para desenvolver seu projeto, contou com a doação da obra completa da escritora Lygia Bojunga. “E a Ana Cláudia Ramos me convidou para sua oficina literária. São tantos nomes que fico constrangido por não lembrar de todos.”


“Quero usar minha criatividade como autor para formatar novas atividades que possam atrair a garotada para a leitura.”

DE OLHO NO AMANHÃ
Otávio ainda tem como meta expandir a atuação do projeto. O próximo passo é o que ele chama de Pombo-correio Literário. O objetivo é treinar e estimular a formação de jovens e adolescentes para atuarem como multiplicadores culturais e sociais. Para isso, o autor pretende ampliar seu acervo e viabilizar o empréstimo dos livros para os agentes, incentivando o hábito da leitura.
Outra proposta aventada por ele é a construção de uma biblioteca no bairro da Penha, onde existe apenas uma, administrada pelo poder municipal. “Estou buscando alguém que possa doar o material de construção. Acho que assim fica mais fácil conseguir um terreno. Se houvesse espaço, faria na minha casa mesmo”, afirma Otávio.
Ele também pleiteia instalar o que chamar de Espaço de Leitura/ Ler é 10 nos centros comunitários que já existem na região. Segundo Otávio, a idéia esbarra novamente na falta de livros para formar novos acervos e até mesmo na desconfiança de alguns poucos moradores. “Tudo por questões políticas de algumas associações.”
Além da ajuda voluntária, ele corre atrás de empresas que queiram vincular ações de responsabilidade ao projeto Ler é 10/Leia Favela. Ele aguarda a resposta de uma organização não-governamental suíça, que ajuda crianças que vivem em áreas de risco social, para avaliar oficialmente seu trabalho. “Essas crianças não são tão carentes apenas de recursos financeiros, mas também de afetividade. Quando termino as atividades, elas correm para me abraçar e perguntam quando vou voltar.”
Sua principal queixa diz respeito à justamente à falta de apoio público e privado para projetos relacionados ao livro. “Depois que comecei o Ler é 10, vi que são poucos os movimentos que trabalham em prol da leitura nas comunidades carentes do Rio de Janeiro. Há projetos de música, teatro, circo, balé, costura, reciclagem, esporte. Com os livros, dedicados 100% a eles, são poucos”, lamenta.
Sobre seus planos para o futuro, Otávio garante que pretende voltar aos estudos – concluiu o ensino médio em 2002. “Gostaria de fazer faculdade de Jornalismo já no ano que vem, vamos ver.” Mas ele tem consciência de que não precisa mais provar seu valor, ao menos para quem conhece seu empenho. “Fui muito desacreditado pelas pessoas e queria mostrar, principalmente para os meus pais, que eu era capaz.”
Otávio orgulha-se por incentivar a leitura na comunidade onde mora. “Cumpro como o objetivo de democratizar o acesso ao livro em comunidades de baixa renda e formar uma nova geração de leitores. Acho que consegui mostrar para todos que é possível, que o sonho de qualquer garoto que queira escrever pode ser realizado.

Matéria Extraída da Revista Panorama Editorial (Ano III. Nº. 31. Julho de 2007)

 



 

Entrevistas e matérias anteriores:

Voltar para página principal