:: ENTREVISTA | NAS BIBLIOTECAS, TODA A MEMÓRIA DO MUNDO
 


A biblioteca ideal já existente é o mundo

 

Logo no primeiro capítulo de "A biblioteca à noite", livro que a Companhia das Letras lança no Brasil este mês, o escritor e ensaísta argentino Alberto Manguel cita uma distinção que Virginia Woolf fez entre o homem que ama a leitura. O primeiro é um “entusiasta sedentário e concentrado, que percorre os livros em busca de um certo grão de verdade, almejado de coração. Mas se a paixão pela leitura levar a melhor sobre ele, suas conquistas vacilarão e desaparecerão entre seus dedos”. O segundo, ao contrário, deve dominar o desejo de erudição desde o começo: “Se algum conhecimento aderir a ele, muito bem, mas sair à procura, ler sistematicamente com o objetivo de tornar-se um especialista ou uma autoridade é coisa bem capaz de matar aquilo que preferimos considerar a paixão mais humana pela leitura pura e desinteressada”.

O maior elogio que se pode fazer a Manguel, impressão que já ficava de seus ensaios anteriores, é que se trata de um integrante do último time. Embora de um rigor transbordante, que sugere anos de anotações sistemáticas, seu texto nunca deixa de transparecer um amor genuíno e maravilhado pelo hábito de sentar à noite entre prateleiras, num momento em que o mundo pode ser “confortavelmente reimaginado”. É a um ambiente assim, com seu descompromisso aconchegante, que remete esta mistura de história e relato pessoal, uma reflexão sobre o fenômeno do livro e da leitura tanto em seu aspecto concreto – o fetichismo do objeto, suas características como meio, sua conservação no tempo – quanto em suas implicações humanas – a experiência cultural, sentimental e sociológica inerente às bibliotecas.


Numa época em que a leitura virou uma espécie de mito da “sociedade da informação” – e, contraditoriamente, um hábito cada vez mais raro -, é um alívio de alguém escreva não para explicá-la de forma redutora, com um programa que contemple seus atalhos e usos para ascensão pessoal no mundo, mas para expor sua natureza impalpável e aleatória. A paixão pelos livros é um sentimento anacrônico, que traz muito mais inquietação e isolamento do que integração e alívio, mas é preciso ser do ramo para enxergar essa verdade óbvia: “Como nos ensinam nossas bibliotecas, os livros por vezes nos ajudam a formular as perguntas, mas não necessariamente a decifrar as respostas. Por meio das vozes que recolhem e das histórias que imaginam, apenas permitem que recordemos o que jamais sofremos e jamais conhecemos. O sofrimento em si mesmo pertence às vítimas. Todo leitor é, nesse sentido, um outsider, um estranho”. Se há uma busca em A biblioteca à noite, ela é estritamente íntima. A exemplo de autores como Jorge Luis Borges, Manguel acredita que o indíviduo é aquilo que lê.

 

Não apenas num sentido banal, o do acaso que põe Crime e castigo ou O estrangeiro na mão de um garoto de 15 anos, mas até na forma material como a experiência é vivida. É quando a sombra das bibliotecas começa a aparecer: “Não leremos da mesma maneira se estivermos dentro de um círculo ou quadrado, num cômodo de teto baixo ou em outro de caibros altos”. O interesse pelo tema, portanto, pode ter nascido como uma interrogação sobre si mesmo: “A biblioteca que eu imaginara para meus livros, muito antes que suas paredes fossem erguidas, refletia o modo como eu desejava ler”. Manguel seria outra pessoa se tivesse passado a juventude entre as formas octogonias de Buckingan House, na sucessão de discos ascendentes da Toronto Reference Library ou no prédio da Universidade Livre de Berlim, projetado por Norman Foster para se parecer com um crânio? Que motivos fazem alguém classificar volumes por ordem alfabética, língua, gênero, período, formato, cores ou, como na Biblioteca do Congresso americano, “banana, pesquisa sobre”, “bastões, amarração de”, “galinhas na religião e no folclore” e “esgoto: obras completas”? Tornando Manguel um parente próximo do juiz iraquiano Ahmad Ibn Muhammad Ibn Khalikan, autor de 826 biografias em seu Obituários dos homens célebres e relatos dos filhos do seu tempo, no século XIII, ou do novaiorquino Patrice Moore, que em 2003 foi salvo depois de passar dois dias sob uma avalanche de jornais e revistas acumulados por mais de uma década.


Embora tratado com delicadeza, esse fio subterrâneo tem um lado um tanto sombrio. Ele diz respeito à obsessão que, a par de seus aspectos virtuosos e eventualmente poéticos, faz alguém dedicar a vida a uma convenção inútil e inexplicável. Na tradição ocidental, a consciência de tal comportamento forjou um tipo de abordagem muito particular, que tem o próprio Borges o mais bem-acabado de seus artífices. Na época da Biblioteca de Alexandria, estimava-se que o total de livros do mundo poderia ser registrado em quinhentos mil rolos. Em 1988, só a Biblioteca do Congresso recebia uma quantidade semelhante de volumes por ano. Diante de dados assim, da percepção de que fracassará qualquer tentativa de fazer frente a eles, resta ao homem de letras sucumbir antecipadamente, seja ao fazer ficção, seja ao estudar o assunto. Na literatura borgiana, o resultado do impasse é um humor irônico, que ao mesmo tempo demonstra júbilo e fastio pela existência infinita de romances, poemas, biografias, tratados. Em A biblioteca à noite, o registro por vezes é semelhante. A busca pela completude do conhecimento pode ser a semente da ruína. Mas que se há de fazer a respeito? A quem apelar se viver os detalhes do fracasso pode ser o grande prazer de uma existência? Manguel sabe, como seu antecessor argentino, que
 
“a biblioteca ideal já existente, é o mundo”, mas não se deixa fascinar pelos que tentaram fazer um recorte definitivo do todo. São trajetórias sui generis, de fato, porque põem o indivíduo diante de questões de aparência banal, mas que levam a caminhos quase metafísicos: cada volume numa prateleira, por exemplo, remete a livros excluídos daquela sala, o que por sua vez remete a conhecimentos perdidos no tempo, a um universo paralelo de cenários, pessoas e fatos que, por uma escolha arbitrária e irreversível, foram delegados ao limbo do que deixou de existir. Da mesma maneira, a presença física de uma coleção é um dado que pode não ter valor em si: a biblioteca real é a que está na memória do seu usuário, no lugar do cérebro reservado a frases, capítulos e obras que digam algo sobre suas idéias e paixões.  

Para seguirmos nas considerações etéreas, a formação de uma biblioteca é também uma luta contra o esquecimento: “Qual o romance que começa com as palavras ‘Numa noite de primavera de 1890? Onde li que o rei Salomão usou uma lente de aumento para saber se a rainha de Sabá tinha pernas peludas? Quem escreveu aquele livro singular, Flight into darkness, do qual só recordo a descrição de um corredor sem janelas, tomado por pássaros esvoaçantes?”. No impulso de ordenação do colecionador há algo de moralista, uma incapacidade de aceitar a realidade fragmentada e ilógica como é. Seu resultado, porém, é inofensivo comparado ao dos que tentam reduzi-la a um sistema classificatório por meio da política ou da religião. Daí o tom carinhoso com que são tratados casos como o das autoridades provinciais de Oulu, na Finlândia, que criaram um arquivo das cartas enviadas por crianças de todo o mundo para o “Serviço Postal do Papai Noel”. Ou do estudioso Ibn Jama’a, que no século XIII desenvolveu um método de memorização de textos para a qual ajudam mel, palitos de dente e 21 uvas-passas por dia, enquanto era pouco recomendável “ler inscrições tumulares, caminhar entre camelos parados em filas e catar piolhos”.


Porque a obsessão, para Manguel, pode muito bem se transfigurar numa forma de saúde. Nas palavras de G. K. Chesterton, é o que afasta o indivíduo da “hipocondria e ócio que destrói o espírito”. E é o que nos vincula a uma noção especifica de passado, uma resistência para além da nostalgia e da imobilidade. Não por caso, A biblioteca à noite contrapõe o gosto pela tradição das estantes e catálogos, que aponta para uma ótica pouco afeita ao imediatismo e relativismo, à Internet e seu “presente constante”, termo que os pensadores medievais consideravam “uma das definições do inferno”. A web, segundo o argumento, pode tirar da leitura um de seus aspectos mais característicos: se 70% de seus conteúdos ficam no ar menos do que quatro meses, é pouco provável que, como uma biblioteca, ela possa reabilitar um velho livro esquecido. Que possa continuar fazendo da leitura um “rito de renascimento”.

 
Manguel vai mais além na crítica: “Para os humanistas, havia uma correlação entre a idéia de um espaço infinito, que não pertence a ninguém, e o conhecimento de um passado riquíssimo, que pertence a todos”. Trata-se do oposto da Internet: “A web se define como um espaço que pertence a todos, ao mesmo tempo que frustra toda a idéia de passado. Nela não há nacionalidades (não fosse o fato de que a língua franca é uma versão aguarda do inglês) nem censura (não fosse o fato de que os governos estão descobrindo maneiras de impedir o acesso a certos sites). O menor livro do mundo (o Novo Testamento gravado numa tabuleta de cinco milímetros quadrados)
 

ou o códice mais antigo (seis folhas encadernadas de ouro 24 quilates, escritas em língua etrusca e datadas do século V a.C.) possuem qualidades que não podem ser percebidas apenas por meio das palavras que contêm e devem ser apreciados em sua presença física plena e única. Na web, [tudo está] convertido e imagem fotográfica” Palavras tão ásperas podem deixar a impressão de que, no fim das contas, A biblioteca à noite é um estudo pessimista. Não é verdade. Primeiro, porque Manguel reconhece a saúde as qualidades extraordinárias da Internet, que não vai substituir, mas complementar a experiência humana com o livro em papel. Segundo, e principalmente, porque seu propósito não é discutir o futuro dos suportes ou qualquer tema de escala semelhante. Afinal, trata-se de uma obra que fala do que é particular, e por conseqüência marginal e obsoleto, no hábito de colecionar livros. Algo tão específico e único que, como se disse antes, é capaz de formar a identidade de um indivíduo. De reforçar a esperança tola, mas imprescindível, de que “nós e o mundo somos feitos à imagem de algo maravilhosa e caoticamente coerente (...), de que nosso cosmo estilhaçado e nós mesmos, pó de estrelas, sejamos dotados de sentido e métodos inefáveis”.


O AUTOR

Alberto Manguel nasceu em Buenos Aires, em 1948. Filho de diplomata, mudou-se com a família para Israel ainda na infância. Morou também na Espanha, na Itália, na França, na Inglaterra e no Taiti. Em 1985, naturalizou-se canadense. É autor de livros de ficção e ensaios. É também editor e tradutor, além de colaborar com jornais e revistas de vários países. No Brasil, a Companhia da Letras publicou Uma história da leitura. No bosque do espelho – ensaios sobre a palavra e o mundo, Lendo imagens, O amante detalhista, Dicionário de lugares imaginários e Stevenson sob as palmeiras.


TRECHO de A biblioteca à noite

“Atribuímos às bibliotecas certas qualidades de nossas esperanças e pesadelos; acreditamos compreender bibliotecas evocadas de entre as sombras; imaginamos livros que deveriam existir para nosso deleite e nos entregamos à tarefa de inventá-los sem temor à impressão ou à tolice, à tolice, à cãibra ou ao ‘branco’, às limitações do tempo e do espaço. Os livros sonhados por contadores de histórias sem peias compõem uma biblioteca bem mais vasta do que aquelas nascidas da invenção da imprensa – talvez porque o reino dos livros imaginários permita existência possível de um livro, ainda não escrito, que escape a todos os erros e imperfeições a que estamos condenados. No escuro, sob minhas duas árvores, meus amigos e eu acrescentamos desavergonhadamente aos catálogos de Alexandria estantes inteiras de volumes perfeitos que desaparecem sem deixar vestígios ao raiar do dia”...

       

Por Michel Laub


* Reportagem extraída da revista
EntreLivros
Pág. 16
Setembro de 2006

   


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