A
estrutura da trama, invariavelmente, é assim: um casal
que se apaixona, enfrenta uma série de obstáculos
para ficar junto, mas, ao final da história alcança
a plenitude de seu amor. Como elementos variáveis dessas
histórias estão a época, o país,
a ambientação e todo um conjunto descritivo
de modos e costumes, no qual ela se desenvolve. Estamos falando
dos romances populares, água-com-açúcar
ou cor-de-rosa, entre outros adjetivos usados para expressar
uma literatura que tem como objetivo o puro entretenimento.
De fácil acesso – estão disponíveis
em qualquer banca de jornal, do Oiapoque ao Chuí –
e a preços que cabem no orçamento de uma grande
maioria, já que os valores variam de R$ 5,90 a R$ 12,00,
vendem milhares de exemplares por mês e contam com um
público cativo de mulheres, de uma ampla faixa etária,
que vai dos 20 aos 50 anos, e de todas as classes sociais,
em maior ou menor escala. E, mais, elas compram com regularidade,
geralmente de duas a três edições por
mês, e fazem esses livros circularem constantemente,
emprestando e trocando exemplares com as amigas.
Além disso, a demanda nada esprezível desses
livros gerou um mercado paralelo praticado pelos róprios
jornaleiros, que aceitam e suas clientes exemplares já
lidos omo parte do pagamento de uma dição nova
e revendem os usados para outras leitoras. E, como se a paixão
apenas por ler esses romances não bastasse, suas fiéis
leitoras ainda criaram a comunidade “Adoro Romance”,
no Orkut – rede de relacionamento virtual –, pela
qual se comunicam diariamente e promovem grupos de discussão.
Em meio a essas informações e levando em conta
que o último estudo realizado sobre o hábito
de leitura no País (Retrato da Leitura no Brasil, pesquisa
realizada em janeiro de 2001, patrocinada pelas entidades
CBL, Snel, Abrelivros e Bracelpa) indica que a população
lê, em média, 1,8 livro por ano, cria-se um fértil
e talvez proveitoso terreno para discussões. Por exemplo:
quais seriam os componentes que levam as leitoras desses romances
populares a esse comportamento consumidor de fazer inveja
a muitos editores e livreiros? Estaria no canal de distribuição
utilizado, mais popular do que as livrarias? Nos preços
praticados, que são imbatíveis para esse tipo
de produto, que é em formato de bolso e com papel jornal?
Ou seria tão somente pelo gosto por esse gênero,
restrito a um universo romântico, onde só cabem
enredos que terminem em final feliz? E, por fim, em que medida
esse tipo de literatura pode significar uma porta de entrada
para ampliar o hábito de leitura?
CONTEXTO
Em
números, o que as empresas que publicam esses romances
movimentam são espantosos, mas também chama
a atenção o conhecimento que elas têm
sobre seu público. Para isso, investem em freqüentes
pesquisas e estabelecem canais diretos de comunicação.
Basicamente, duas editoras disputam o mercado de romances
populares vendidos em banca: a Nova Cultural e a Harlequin
Books Brasil.
Até agora líder no segmento, a Nova Cultural
inaugurou sua série de romances em 1978, com Sabrina,
e hoje conta com outras sete – Julia Históricos,
Julia Mulheres Modernas, Sabrina Sensual, Bianca, Clássicos
Históricos, Clássicos Históricos Especial
e BestSeller –, que somam cerca de 400 títulos
publicados anualmente. Só a série Sabrina vende
aproximadamente 40 mil exemplares por mês e, no total,
são comercializados em torno de dois milhões
de livros por ano, o que significa uma média de 170
mil exemplares por mês. As edições mais
baratas são Sabrina e Bianca, vendidas a R$ 5,90, e
a mais cara é a BestSeller, no valor de R$12,00. Seu
público é composto por 99% de mulheres, das
quais 40% entre 20 e 29 anos e 33% na faixa dos 30 aos 39
anos. Destas, 70% trabalham fora, 19% são donas-de-casa
e 10% são estudantes. Em termos de escolaridade, 43%
completaram o ensino médio e 28% têm curso superior
completo.
Já a distribuição por classe social é
a seguinte: 9% pertencem à classe A, 42% à B,
33% à C e 15% à D. De origem canadense, a Harlequin
Books, há cerca de 50 anos no mercado, hoje presente
em 96 países, aportou no Brasil em abril de 2005, por
meio de uma joint-venture com a Editora Record, em que cada
uma das empresas detém 50% do capital.
“A
Harlequin Canadá é líder nesse segmento
mundialmente. Em todos os países em que se estabeleceu
conquistou a liderança na categoria de romances. A
Record, por sua vez, entendendo que o mercado internacional
é muito forte na publicação de pockets,
decidiu se alinhar a uma empresa líder nesse segmento”,
conta Vânia Tavares, gerente-geral da editora. Até
agora vendeu 450 mil livros de suas séries –
Jéssica, Paixão, Desejo, Grandes Romances, Grandes
Romances Históricos e Harlequin Romances –, cujos
preços variam entre R$ 7,50 e R$ 10,90, com uma tiragem
média de 12 mil livros, dependendo da série.
Em termos de perfi l de público, a editora informa
que é composto essencialmente por mulheres, numa faixa
etária que vai de 26 a 50 anos sendo que 66% têm
uma atividade profissional e compram de um a três livros
por mês. Esse comportamento de compra se repete com
os títulos da Nova Cultural. “Nossas leitoras
compram em média, três exemplares por vez. Muitas
delas visam a quantidade de histórias que podem adquirir.
Assim, dependendo de sua condição de investimento,
em vez de gastar R$ 12,00 com um título da série
BestSeller, preferem comprar dois ou três da série
Sabrina”, destaca Da niella Tucci, gerente de Marketing
de Romances da editora. Se o consumo per capita indicado pelas
editoras já impressiona, ainda existe uma considerável
circulação e comercialização paralela
dessas séries. As leitoras têm por hábito
trocar esses romances com amigas, assim como os jornaleiros
fazem o negócio com obras já lidas. “É
uma prática que não temos como controlar; tentamos,
mas é impossível e, assim como dizemos aqui,
concorremos com nós mesmos. O jornaleiro não
deveria fazer isso, teoricamente estaria perdendo venda, mas
ele mesmo incentiva. A leitora leva os velhos, traz um novo,
aí ele pega os velhos e vende mais barato, como se
fosse sebo”, explica Daniella, complementando que os
sebos são outro canal que as clientes buscam para se
abastecer. “É só ir até um para
ver o que se acha desses livros lá. É também
impressionante o que esse mercado movimenta”.
Independente disso, a gerente da Nova Cultural atesta a eficiência
do canal de distribuição que adota, exclusivamente
bancas de jornal. Hoje as obras são encontradas em
cerca de 30 mil pontos, o que significa 90% das bancas de
jornal em todo o Brasil.
Já a Harlequin Books Brasil, segundo a gerente-geral,
quer também conquistar outros canais. “Nossa
distribuição é voltada para a banca de
jornal e o varejo. Estamos começando a colocar nossos
livros em alguns supermercados, como a rede Bom Preço,
no Nordeste, e algumas drogarias em São Paulo”.
Ela também não descarta a possibilidade de vender
em livrarias. “Mas somente em algumas”, esclarece.
Outra característica comum desses títulos é
a origem do texto: as obras são de autores estrangeiros,
embora isso esteja mudando. Na Nova Cultural as histórias
são solicitadas às editoras norte-americanas,
e depois de uma avaliação prévia, compra
os títulos de interesse e providencia a tradução.
No entanto, a editora começa a contar com a colaboração
de escritoras brasileiras. “Desde o ano passado abrimos
a oportunidade para autoras nacionais. O motivo por não
termos trabalhado assim antes era, principalmente, porque
não conseguíamos aqui o volume de produção
que precisávamos. Lançamos em torno de 15 a
20 títulos por mês. Então, precisaríamos
de inúmeros autores escrevendo pelo menos três
ou quatro romances por mês. Uma demanda difícil
de atender no mercado interno, por isso buscamos fora do País”,
justifica a gerente da empresa.
No caso da Harlequin é adotado o portfolio da editora
no Canadá. “Montamos com eles a programação
para o Brasil. Em geral, buscamos avaliar as preferências
das nossas consumidoras, privilegiando as autoras que fazem
mais sucesso”, comenta Vânia. Essa sintonia fina
com as leitoras, aliás, é super valorizada,
segundo a gerente da Nova Cultural. O que elas gostam ou não
gostam nas obras facilmente é refletido no desempenho
das vendas. Esse resultado, aliado às opiniões
das leitoras que se manifestam espontaneamente – a editora
recebe em média 1.200 correspondências por mês,
entre cartas e e-mails –, é fundamental para
orientar as edições, assim como as telenovelas
que vão alterando o destino de suas personagens em
função dos níveis
de audiência. “Sabemos, por exemplo, que elas
adoram romance com criança. Não é fácil
conseguirmos um original que tenha uma trama com elas, mas
quando lançamos algum vendemos muito mais. Também
é importantíssimo que o casal que está
na foto da capa tenha as mesmas características das
personagens que são descritas lá dentro. Se
colocarmos uma loira e no romance ela for morena, elas reclamam.
São vários detalhes que você tem de estar
sempre atenta”, afirma Daniella, complementando que
as leitoras em suas mensagens fazem todo tipo de comentário.
“Elas escrevem falando que adoram determinado romance,
que lêem aquela série há anos, nos dão
parabéns, mas também dizem que acharam determinada
autora uma porcaria e não deveríamos publicar
mais nenhum livro dela”.
Além desse canal de comunicação, periodicamente
a editora faz pesquisas junto às leitoras, por meio
de questionários encartados nas obras ou pelo site
específico dessas publicações da Nova
Cultural (www.romances.com.br). E, de dois em dois anos, realiza
pesquisas em grupo, reunindo um determinado número
de leitoras para uma conversa direta. “Entro, ainda,
na comunidade “Adoro Romance” do Orkut, e informo
sobre lançamentos, pergunto a opinião delas
e discuto qualquer mudança que vai acontecer. Elas
são o elemento-chave para aperfeiçoar nossos
produtos”.
INGREDIENTES
DE SUCESSO
Pois
bem, o sucesso é indiscutível, mas quais seriam
as razões para que uma fórmula que se repete
há tanto tempo – considerando que sua fonte vem
da mesma estrutura dos romances do século XIX –
continue a conquistar e fidelizar tantas leitoras?
Para Ailton Amélio da Silva, psicólogo e professor
do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
(USP) e autor dos livros O Mapa do Amor e Para Viver um Grande
Amor, o ingrediente básico está no ideal de
amor romântico. “Fiz um estudo sobre fantasias
sexuais, utilizando uma lista com quase 80 fantasias de uma
universidade norte-americana, que eu apliquei em homens e
mulheres, demonstrando que eles e elas são muito semelhantes,
mas a diferença está no fato de que as mulheres
tendem a ir para o romance. Uma das fantasias femininas, por
exemplo, é casar. Os homens jamais colocariam isso
como tal”. Mesmo considerando o sexo importante, assim
como os homens, completa, as mulheres impõem o requisito
romance. Talvez por isso, pondera, a tentativa de lançar
uma versão feminina da Playboy tenha fracassado. “Já
vi uma analogia entre esses romances e esta revista masculina,
alguém que dizia que a série Sabrina era a Playboy
das mulheres.
Isso parece fazer sentido, porque tentaram lançar a
Playgirl, e não pegou. Sexo explícito não
é muito o gosto das mulheres, elas gostam muito é
de romance”, comenta o Psicólogo, acrescentando
que diferente dos homens as mulheres não se excitam
visualmente. “Por isso, geralmente, elas não
gostam de filme pornô. Só de ver, o homem já
se excita, mas a mulher quer uma historinha, mesmo no filme
erótico”.
Segundo ele, uma das explicações para essa valorização
do ideal romântico estaria na teoria psicobiológica,
na história filogenética (da evolução
da espécie). “Na época em que éramos
nômades o sexo casual para as mulheres tinha um custo
enorme, porque a gravidez representava um empecilho para realizar
uma série de tarefas e até mesmo se locomover.
E as dificuldades continuavam depois com a amamentação
e os cuidados com a criança, que ficava dependente
até cerca de 11 anos. Já os homens, tudo que
tinham a perder eram meros espermatozóides, enquanto
podiam ganhar muito, a descendência”. Por isso,
ele completa, a mulher não podia tratar o sexo com
a mesma displicência que o homem. “Para chegar
ao sexo teria de ser alguém de quem gostasse e que
demonstrasse o mesmo por ela. Para essas mulheres, ainda segundo
essa teoria, na medida em que tinham um parceiro para compartilhar
tudo, aumentou tremendamente a chance da sobrevivência
de sua cria”. Isso explicaria essa eterna busca por
um parceiro.
Para a antropóloga Mirian Goldenberg, pesquisadora
e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
e também autora das obras Os Novos Desejos, Toda Mulher
é Meio Leila Diniz e De Perto Ninguém é
Normal, esses livros fazem parte de um todo da socialização
feminina que é voltada para a fantasia, para o romance,
para a irrealidade. “O desejo do final feliz é
uma expectativa universal, porque nós somos socializadas
com contos de fadas, com romances, com novelas, que têm
o ápice no final feliz. Aliás, o que é
interessante é que ninguém sabe o que acontece
depois disso. Porque o final desses romances, na verdade,
é o começo de algo, talvez não tão
feliz. Porque é quando começam a vida juntos
e o cotidiano de um casal, que forma uma família, tem
coisas boas e coisas problemáticas sempre. Assim, esse
gênero de romance dá a ilusão de que é
possível paralisar naquele momento do ápice
da relação, que é quando os dois se comprometem”.
GOSTO
PELA LEITURA OU PELO GÊNERO?
As
editoras que produzem esses romances deixam claro o propósito
dessas publicações, referindo-se a elas como
literatura de entretenimento. Nesse sentido, está claro
que não será por meio delas que as leitoras
ampliarão o seu repertório, seu universo, assim
como acontece com outros produtos da indústria cultural
de massa. Mas, afinal, poderiam ter algum papel no sentido
de ampliar o hábito deleitura e fazer com que suas
leitoras pudessem migrar para outros gêneros, atendendo
aos anseios de elevar os índices nacionais de leitura?
Para Márcia Abreu, professora e diretora do Instituto
de Estudos da
Linguagem (IEL), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
é uma pergunta complicada de responder. Tanto pode
como não acontecer, mas com certeza não é
uma relação direta. “Pode desenvolver
o gosto pela leitura, porque descobre que nos livros há
tramas interessantes, que ela pode se emocionar ou pensar
na vida. Nunca se tem certeza sobre o que a leitora atribui
àquilo. Alguns afirmam que é para fugir da vida
cotidiana, mas tem gente que lê para pensar sobre sua
vida. A leitura não é uma coisa tão direcionada,
que o autor consiga conduzir tão fortemente. Então,
pode acontecer da pessoa começar a ler esse tipo de
literatura, e como ela é repetitiva, algumas se cansam
da fórmula e aí buscam outra. Não acho
que é uma evolução, 'daí vai se
tornar um bom leitor depois’, mas pode passar disso
para outro tipo de romance ou livros que tratem de temas esotéricos
ou de auto-ajuda. Não diria que vai passar para um
Guimarães Rosa, mas também não é
possível que todo mundo leia Guimarães Rosa”.
Como professora do curso de Letras, ela utiliza esses romances
populares não para analisá-los, mas exatamente
para discutir sobre a questão de se o brasileiro lê
ou não. “Diante dos números que esse segmento
movimenta, não dá para falar que não
lê”. Mais democrática em comparação
aos demais acadêmicos que lidam com Literatura, Márcia
diz que jamais classificaria esses livros como subliteratura.
“Eles mantêm uma fórmula que vem do século
XIX. O romance moderno é cultura de massa, assim como
eram naquele período. Romances que hoje consideramos
bons, como Robison Crusoé e Viagens de Gulliver, em
sua época eram consumidos como cultura de massa e classificados
de subliteratura, pois o gênero valorizado então
era a poesia, os épicos”. Por outro lado, ela
destaca que essa estrutura não é simplesmente
repetida; com o passar do tempo são agregados aspectos
da atualidade. “Tenho uma aluna que fez um trabaho para
final de curso, comparando os romances de agora com os de
uma coleção de sua mãe e se percebe que
desses para os atuais os ingredientes foram mudando. As mulheres
vão trabalhar, passam a ter outro tipo de problema.
Então, a fórmula não é tão
estática”. Márcia pondera que o hábito
por um gênero de literatura está relacionado
à sua formação cultural e também
a uma questão econômica.
E questiona: “Se as pessoas são tão diferentes,
porque vão ler a mesma coisa?” E faz um recorte
ao lembrar de uma experiência que teve numa época
em que trabalhava na formação de professores
no Mato Grosso. “Eles costumavam dizer que as meninas
que liam Sabrina eram ótimas, por que tinham mais vocabulário
e uma redação melhor. Então, depende
do referencial. Se as alunas vêm de uma família
culta, estudam num colégio de elite, a professora pode
até não gostar que leiam Sabrina, mas entre
meninas pobres, com pouco acesso aos livros, as que lêem
esse tipo de obra são as intelectuais da classe”.
Já Mirian Goldenberg acha difícil que esses
romances possam ser um caminho para ampliar a leitura. “Tenho
dúvida se é um gosto pela leitura ou se é
um gosto similar ao que teria em relação a uma
novela, um filme romântico. Não sei se alimentam
a leitura ou o desejo por mais e mais romances, em diferentes
meios. Acho
que quem busca esse tipo de livro não procura o prazer
da leitura, mas o prazer da fantasia que ele oferece. Não
tenho capacidade para dizer de forma afirmativa, mas me parece
que é outro tipo de busca”. Para ela, suprir
esse desejo da fantasia e o de livros são coisas que
correm em paralelo, tomando por base seu próprio exemplo.
“Quando jovem li inúmeras fotonovelas e também
livros, mas não foi a fotonovela que me levou para
a literatura. O que eu buscava na fotonovela era o romance.
Com os livros tinha um outro tipo de desejo: o conhecimento,
o desenvolvimento intelectual, o crescimento pessoal”.
Ou seja, cada gênero cumpre um papel distinto para suprir
diferentes necessidades do leitor. “Esses romances levam
a leitora a se alienar da vida dura, da concretude da vida
cotidiana. Ao lê-los entra no mundo da fantasia e isso
não é ruim, assim como a gente vai ao cinema
e assiste a uma comédia romântica. Não
leio mais esses livros, mas tenho com a novela, com o filme
de Hollywood, com os seriados românticos da televisão
essa mesma relação. É uma necessidade
totalmente feminina e que esses romances preenchem e isso
é positivo”.
Menos condescendente do que a professora Márcia, Luiz
Percival Leme Britto, professor e presidente da Associação
de Leitura do Brasil – entidade organizadora do Congresso
de Leitura do Brasil (Cole), um dos mais importantes eventos
do gênero no País – não tem dúvida
em classificar essas obras como subliteratura. “É
uma produção industrial, sem intenção
estética clara. Tem por base o entretenimento, a distração.
Então, a sua validade é dar às pessoas
a possibilidade de preencher o tempo. Eu não vejo nenhuma
diferença entre elas e as antigas fotonovelas ou uma
novela de televisão. Têm um formato definido,
com um enredo conhecido e com estratégias narrativas
todas também conhecidas. Então, não existe
investimento artístico, investimento em função
dos seus hábitos culturais.
E quanto ao fato de poderem representar um meio para formar
novos leitores, afirma que não somente esta, mas nenhuma
literatura forma leitor. “Os leitores é que formam
ou que permitem a sobrevivência de certas literaturas”.
Para ele, são as formas de inserção na
cultura que fazem com que as pessoas tenham interesse em ler.
“Inserida num ambiente cultural elas têm disponibilidade,
vontade, digamos, de fazer esse investimento pessoal na leitura.
Quer dizer, são muito mais as formas de inserção
na cultura do que a disponibilidade dos objetos que permitem
e que fazem com que subjetivo nenhum. Nesse sentido, é
subliteratura”.
Ele acredita que essas obras respondem a uma demanda. Isso
não quer dizer que a disponibilidade não seja
importante. Quanto mais acessível uma boa obra estiver,
evidentemente que a possibilidade de mais pessoas virem a
usufruir e a conviver com esse objeto é maior”,
enfatiza Britto. E acrescenta: “A cultura circula em
função das relações das classes
sociais, dos subgrupos de classe. Então, nesse sentido,
se a pessoa lê Julia não é porque tem
a intenção de ser ou deixar de ser leitora,
mas porque está inserida num ambiente cultural em que
isto faz sentido para ela”.
Em relação aos números que esse mercado
de romances populares movimenta ele comenta: “Quando
você vai dizer ‘leitor’ tem de dizer leitor
de quê. Ler é verbo transitivo, importa o quê.
É uma ambigüidade muito grande, pois as pessoas
entendem que ler é bom, mas não importa o quê.
E não é essa a questão”.