m dos maiores sucessos de público do romantismo brasileiro foi, certamente, Iracema – Lenda do Ceará, publicado em 1865. O escritor cearense José de Alencar (1829 – 1877), que já havia escrito outros livros nas categorias de ficção, críticas e peças teatrais, perfaz nessa narrativa indianista o seu texto de maior lirismo, tendo Machado de Assis chegado a classificá-lo como poema em prosa. Anteriormente, Alencar tinha tentado escrever um poema épico sobre a cultura e os costumes indígenas, “Os Filhos de Tupã”, tendo abandonado o projeto no quarto canto. Contudo, quem conseguiu em poesia o que Alencar fez em prosa em seus livros sobre a temática indígena foi exatamente o maranhense Gonçalves Dias num poema como “I-Juca Pirama” – o que há de ser morto. Para Manuel Bandeira, na biografia deste poeta, “I-Juca Pirama” ‘é o mais importante poema indianista de Gonçalves Dias, tanto pelo conteúdo épico-dramático, como pelo sustentado vigor da linguagem, que atinge a sua maior força na admirável maldição do velho tupi’. A compulsão de escrever sobre o país e seus habitantes nativos envolvia uma orientação política de documental que ultrapassava a simples exclusão de africanos dessa literatura ou a negação do legado histórico-cultural dos portugueses, estendendo-se mais longe, intentando formar uma identidade nacional a partir da valorização da terra com sua natureza tropical privilegiada e do acirramento do sentimento localista.
O texto de Iracema foi republicado recentemente numa edição gráfica memorável – capa dura, papel revestido fosco com impressão policromada, ilustrações em bicos-de-pena, xilogravuras e aquarelas – pela Universidade Federal do Ceará, para comemorar os 140 anos de sua edição primeira. O texto vertido para o francês e publicado em Paris em 1928, por Philéas Lebesgue, aparece agora em fac-símile nesta nova edição. E os textos críticos são também inteiramente traduzidos para o francês – os de Machado e do próprio Alencar, do professor e crítico José Aderaldo Castello e os dos professores cearenses Sânzio de Azevedo, Beatriz Alcântara e Ângela Gutiérrez, além dos sonetos de Virgílio Maia. A disposição gráfica atual com que a obra foi concebida, numa forma especialmente solta, sem finalização rígida de frases na página, em muito auxilia a sua leitura que pode ser executada à maneira de como se lê um poema.
A idealização dos povos indígenas ao lado de um preciosismo de linguagem que refunde termos tupis com o português aqui praticado leva às metáforas exuberantes, quase sempre associadas a elementos naturais como árvores e rios, vales e animais, frutos e rochas. São personagens destacados o guerreiro pitiguara Poti, que foi batizado e adotou o nome de Antonio Felipe Camarão; Iracema, a filha do pajé tabajara Araquém e o estrangeiro representante dos brancos colonizadores Martim Soares Moreno, amigo inseparável e irmão de armas de Poti. O chefe tabajara Irapuã, consumando os ritos guerreiros, fará oposição cerrada à iminente união de Iracema e Martim: “Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do espumante cauim, se inflamam à voz de Irapuã, que tantas vezes os guiou ao combate quantas à vitória. A placa o vinho a sede do corpo, mas acende outra sede maior na alma feroz. Rugem vingança contra o estrangeiro audaz que, afrontando suas armas, ofende o deus de seus pais e o chefe de guerra, o primeiro varão tabajara”.Martim, apesar das recomendações quanto aos poderes de Iracema entre os tabajaras e principalmente em relação ao pajé, e mesmo ante a impossibilidade dela de deixar de ser virgem, se tornará seu esposo. Iracema “guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o pajé a bebida de Tupã”. O fato é que ela apaixona-se por Martim, hóspede de seu pai, e passa posteriormente a viver entre os pitiguaras, a tribo inimiga da sua gente.
A história de Iracema não revela apenas, pela inversão de papeis, a via do amor idílico e impossível dos românticos (o preterido era geralmente o homem, que externava o seu amor através de versos derramados e melancólicos), aplicado num meio remoto e distante dos acontecimentos da civilização, mas a sua tragicidade inicial pela diferença cultural e de perspectiva entre os namorados. Martim, mesmo ao pintar o corpo segundo os costumes indígenas, não perderá a sua condição de colonizador português e de combatente da invasão holandesa. Na época em que conheceu Iracema, o seu ímpeto se afirmava na luta contra os inimigos dos pitiguaras, preferindo a aventura e a guerra à vida de caça, pesca ou repouso numa cabana no litoral cearense. Aquela com quem se casou será mãe na sua ausência, gerando Moacir, “o filho do sofrimento”. O seu leite secará e ela morrerá de tristeza e saudade. O seu filho viajará com o pai para ser criado entre os brancos. Talvez para amenizar o impacto do desfecho final, Alencar termina o seu livro com uma das muitas máximas existentes no texto: “Tudo passa sobre a terra”. Ao contrário do prólogo, que pede um leitor livre de preocupações de ordem material e afetiva, este final serve para mostrar que nem tudo no texto é adocicado, leve ou suave. E que a tragédia de Iracema logra acontecer mesmo em meio a todas as nuances positivas de ambientações e pessoas, às imagens e cores de uma natureza que vibra em todos os seus recônditos, do solo abissal e rico em minérios aos “verdes mares bravios”, das “profundas cavernas da montanha” até os reflexos de um céu que, na visão romântica, ensejava ser mais azul que o próprio azul.
*Esta matéria de Luiz Carlos Monteiro faz parte da revista Continente Multicultural do mês de março.
Serviço: O novo livro "Iracema - Lenda do Ceará", de José de Alencar
é um lançamento da Editora da Universidade Federal do Ceará, 343 páginas
R$ 70,00 E-mail: editora@ufc.br
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