:: OPINIÃO ::

 

Nosso eterno amigo, o livro

Marco Maciel*

semiólogo italiano Umberto Eco afirmou certa feita que o livro, “depois de ser inventado, vai-nos acompanhar por muito tempo”. Penso, entretanto, que essa companhia será para sempre, pois assim como a televisão não fez desaparecer o rádio, nem o cinema impediu que o teatro continuasse a ser arte tão antiga quanto admirada, a cultura digital não eliminará o livro.
À medida que se prestigia, nas últimas décadas, a educação – algo fundamental para elevar a condição de vida do nosso povo e promover o correto e justo processo de desenvolvimento do país – abre-se espaço, ao lado da cultura digital, para a continuada difusão da cultura letrada e para o aparecimento de pensadores, filósofos, cientistas e poetas, indispensáveis para que brotem novos leitores e escritores.
Conquanto ainda haja um percentual expressivo de analfabetos em nosso país, cabe registrar que, nas últimas décadas, o hábito da leitura tem crescido entre nós. Conforme revelou recente pesquisa da Câmara Brasileira do Livro, o brasileiro lê, em média, 1,8 livro por ano – obviamente um número modesto se compararmos a França, onde o índice é de 7, ou Colômbia, país vizinho ao nosso, com 2,4 livros lidos por ano.
Para isso, muito têm ensejado iniciativas governamentais e de instituições privadas, visando a estimular a leitura e a reflexão a respeito de tudo que é humano. Como ministro da Educação, em meados da década de 80, empreendi, por intermédio da criação do Programa Nacional do Livro Didático (Prodeli), ações para aumentar a oferta de livros aos estudantes da rede pública – da União, Estados e Municípios – por entender que essa seria uma forma de não somente ajudar o aluno a educar-se, mas também fazer desabrochar novas vocações e concorrer para o aggiornamento cultural e intelectual da sociedade brasileira. Infelizmente, observa-se, ainda é pequena a quantidade de bibliotecas, sobretudo nas regiões mais pobres do país.
A publicação de livros está ligada também ao fortalecimento da democracia, especialmente a liberdade de expressão. Em tempos não remotos, livros, jornais e enciclopédias era assunto de polícia e da censura, que ainda sobrevive em vários países e é o pior dos instrumentos que a liberdade de pensamento e manifestação tem de vencer.
Recorde-se a famosa Carta histórica e política endereçada a um magistrado, de Denis Diderot, talvez o principal responsável pela primeira enciclopédia do mundo.  O magistrado a quem Diderot ser referia era Antoine Gabriel de Sartine, na época, ajudante geral de Polícia da Cidade de Paris, cargo que exercia cumulativamente como de diretor de imprensa, encarregado da censura dos jornais.
O livro ademais, é de fundamental importância para a “vertebração” de nossa identidade. Esta, aliás, é antes um desejo do uma necessidade, pois não podemos deixar de reconhecer que ela é moldada pelo perpassar do tempo. O Brasil, nação ainda jovem, já ostenta, contudo, forte “instinto de nacionalidade”, como definiu Machado de Assis ao observar há mais de 100 anos: “ Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço”.
Ao Brasil se credita, embora persistam ignominiosos índices de desigualdade social e econômica, um notável melting pot, miscigenação que poucos países possuem, mormente se considerarmos a nossa extensão territorial e a grande dimensão demográfica. A busca da identidade, por se tratar de um processo que se tece ao longo do tempo, é endógena e não há tampouco lei ou critério estabelecido que a conceitue “nessa estranha máquina que se chama mundo”, como diria Camões.
Sabemos igualmente que o livro, instrumento ancilar do desenvolvimento cultural de um país, ajuda a preservar a memória nacional, a suscitar idéias para a solução de nossos problemas e a direcionar o itinerário da nacionalidade com relação ao futuro. Como disse o poeta John Milton, um dos maiores vultos da literatura universal, “Os livros são tão vivos quanto os seres humanos”. E mais: “Vetada a circulação de um livro... o que morre não é simplesmente a expressão das idéias individuais... mas todo o valor atemporal e perene, da razão”.

 

Marco Maciel*
É Senador por Pernambuco pelo DEM e membro da Academia Brasileira de Letrasmembro titular da Academia Paulista de Letras.

 

   

 


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