Se ainda estivéssemos em um tempo de manifestos, como o
do Surrealismo e o Futurista, para citar apenas alguns, eu teria
um imenso prazer de elaborar um novo junto com alguns outros e
poucos companheiros de escrita. Um manifesto que propalasse e
defendesse uma nova e necessária forma do fazer literário:
a literatura fusion. A literatura da Globalização.
“Isso é invenção”, diria o Joaquim,
um amigo de conversa fiada, mas que entende de literatura como
o diabo. “É uma possibilidade”, responderia
de imediato. E continuaria, tentando explicar: Neste nosso tempo
de blogs e postagens internáuticas --- tempo de fragmentação
e globalização; tempo de confissões múltiplas
e múltiplos tempos --- um fazer literário dessa
forma pode até não ser novo, mas se adapta como
uma luva a essa nova realidade.
Mas como se daria essa tal da literatura
fusion? Seria uma literatura de sabores, ingredientes e estilos
diferentes a serem misturados na dose certa. Uma literatura que,
ao ser feita, altere o próprio fazer literário.
Sendo o seu sabor final, o resultado de uma mistura global de
gêneros e técnicas. Uma literatura sem definição
exata a não ser a própria necessidade de fusão.
Precisa, em um estilo que misturaria tudo. Uma literatura do eu
com os outros num amalgama geral. Da diversidade cultural na qual
vivemos e sendo explicada pela nova gastronomia que grassa no
mundo.
Seu espelho inicial seria essa nova
cozinha “sem nacionalidades”, que mistura técnicas
e ingredientes, em busca de um sabor transcendental. Se a gastronomia
é arte e funciona para os mais variados apetites, essa
literatura com a sua mistura de gêneros poderia contentar
a todos. Mesmo porque seria uma literatura confessional e mentirosa
ao mesmo tempo. Onde a realidade e a ficção seriam
fronteiriças e movediças. Um escrever literário
que pudesse atingir o grau de sofisticação conceitual
de um prato dos cozinheiros Ferran Adriá ou Martin Barasategui,
com suas culinárias que apelam para uma “desestruturação
estruturante”.
Na verdade o que esse “novo
fazer literário” procuraria sempre, seria uma literatura
desestruturada da forma clássica; com a modificação
constante de suas texturas internas, sublimando desejos e impressionando
com misturas variadas. Uma nova espécie de romance sem
a estrutura pesada e clássica.
Mas como ela se daria de forma
prática?
Um exemplo prático desse novo
tipo de literatura é a que vem sendo praticada pelo escritor
espanhol Enrique Vila-Matas. Ele exercita uma escrita que é
uma espécie híbrida entre o processo de se escrever
um diário; de se documentar uma dada situação
e de se misturar tudo isso a uma ficção possível.
Isabel Allende explicita, da forma mais memorialista possível,
no seu livro A Soma dos Dias, essa idéia de se escrever
sobre os a soma de seus dias. Seria na verdade uma autoficção
diarista que perpetuasse o cotidiano e as citações.
Produzindo, antes de tudo, uma literatura que reúna o ensaio,
a memória, o diário, o livro de viagem e um pouco
de ficção narrativa que bem poderia ser verdade.
Vivendo da pura verdade ficcionada ou revelada. Essa seria a narrativa
contemporânea, por excelência.
Quando a literatura do século
XIX se fez repleta de personagens, eufemismos e comparações
o mundo literário precisava dessa representação
como uma verdade. Personagens e mais personagens eram imersos
em um romance histórico ou de realidades contemporâneas,
permeando atitudes representativas de classes e desejos. Pressionando
assim nossas impressões. O romance clássico. Mas,
agora, no mundo de hoje, a personagem maior deve ser o escritor
confesso que escreva com total liberdade, como se estivesse a
criar receitas de pratos a serem degustados. Embora não
se descarte totalmente o enredo romanesco, aspectos de uma autobiografia
estariam sempre presentes nesse tipo de escrita. E já temos
exemplos, inclusive premiados, desse escrever confesso.
Como já previu Alberto Moravia
em O Homem como Fim, ao escrever que memória, conversas
fúteis, monólogos e solilóquios seriam os
únicos exercícios de escrita da única personagem
ainda hoje possível, aquela que diz “eu”.
É o que já vem acontecendo na literatura do nosso
tempo. Resultado de uma crise decorrente de outras crises: a crise
da identidade e a crise do romance.
Nessa literatura diarista, confessional,
memorialista e até ficcional, nós --- eu e você
---, seríamos como um Ulisses de Homero; ou mesmo como
o Leopold Bloom de Joyce. Em uma viagem-aventura em busca de uma
nova literatura possível no dia-a-dia de nossas lembranças.
Em busca do nosso Velócimo de Ouro. Artistas libertos das
amarras da composição formal já esgotada,
navegaríamos fundindo percepções da realidade
e das lembranças. Escreveríamos por um exercício
de fusão química, a nossa literatura do novo século
de bites e bytes, de blogs e twiters.
De confissões múltiplas
e de reais ficções. Pois, na literatura, tudo ainda
é possível. Principalmente inventar uma verdade.
*
Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é
roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha
na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre
temas regionais e sociais.