:: ARTIGO ::
* Por Marco Adolfs

 

 

 

Por uma literatura fusion!

      Se ainda estivéssemos em um tempo de manifestos, como o do Surrealismo e o Futurista, para citar apenas alguns, eu teria um imenso prazer de elaborar um novo junto com alguns outros e poucos companheiros de escrita. Um manifesto que propalasse e defendesse uma nova e necessária forma do fazer literário: a literatura fusion. A literatura da Globalização. “Isso é invenção”, diria o Joaquim, um amigo de conversa fiada, mas que entende de literatura como o diabo. “É uma possibilidade”, responderia de imediato. E continuaria, tentando explicar: Neste nosso tempo de blogs e postagens internáuticas --- tempo de fragmentação e globalização; tempo de confissões múltiplas e múltiplos tempos --- um fazer literário dessa forma pode até não ser novo, mas se adapta como uma luva a essa nova realidade.
      Mas como se daria essa tal da literatura fusion? Seria uma literatura de sabores, ingredientes e estilos diferentes a serem misturados na dose certa. Uma literatura que, ao ser feita, altere o próprio fazer literário. Sendo o seu sabor final, o resultado de uma mistura global de gêneros e técnicas. Uma literatura sem definição exata a não ser a própria necessidade de fusão. Precisa, em um estilo que misturaria tudo. Uma literatura do eu com os outros num amalgama geral. Da diversidade cultural na qual vivemos e sendo explicada pela nova gastronomia que grassa no mundo.
     Seu espelho inicial seria essa nova cozinha “sem nacionalidades”, que mistura técnicas e ingredientes, em busca de um sabor transcendental. Se a gastronomia é arte e funciona para os mais variados apetites, essa literatura com a sua mistura de gêneros poderia contentar a todos. Mesmo porque seria uma literatura confessional e mentirosa ao mesmo tempo. Onde a realidade e a ficção seriam fronteiriças e movediças. Um escrever literário que pudesse atingir o grau de sofisticação conceitual de um prato dos cozinheiros Ferran Adriá ou Martin Barasategui, com suas culinárias que apelam para uma “desestruturação estruturante”.
      Na verdade o que esse “novo fazer literário” procuraria sempre, seria uma literatura desestruturada da forma clássica; com a modificação constante de suas texturas internas, sublimando desejos e impressionando com misturas variadas. Uma nova espécie de romance sem a estrutura pesada e clássica.
      Mas como ela se daria de forma prática?
     Um exemplo prático desse novo tipo de literatura é a que vem sendo praticada pelo escritor espanhol Enrique Vila-Matas. Ele exercita uma escrita que é uma espécie híbrida entre o processo de se escrever um diário; de se documentar uma dada situação e de se misturar tudo isso a uma ficção possível. Isabel Allende explicita, da forma mais memorialista possível, no seu livro A Soma dos Dias, essa idéia de se escrever sobre os a soma de seus dias. Seria na verdade uma autoficção diarista que perpetuasse o cotidiano e as citações. Produzindo, antes de tudo, uma literatura que reúna o ensaio, a memória, o diário, o livro de viagem e um pouco de ficção narrativa que bem poderia ser verdade. Vivendo da pura verdade ficcionada ou revelada. Essa seria a narrativa contemporânea, por excelência.
     Quando a literatura do século XIX se fez repleta de personagens, eufemismos e comparações o mundo literário precisava dessa representação como uma verdade. Personagens e mais personagens eram imersos em um romance histórico ou de realidades contemporâneas, permeando atitudes representativas de classes e desejos. Pressionando assim nossas impressões. O romance clássico. Mas, agora, no mundo de hoje, a personagem maior deve ser o escritor confesso que escreva com total liberdade, como se estivesse a criar receitas de pratos a serem degustados. Embora não se descarte totalmente o enredo romanesco, aspectos de uma autobiografia estariam sempre presentes nesse tipo de escrita. E já temos exemplos, inclusive premiados, desse escrever confesso.
     Como já previu Alberto Moravia em O Homem como Fim, ao escrever que memória, conversas fúteis, monólogos e solilóquios seriam os únicos exercícios de escrita da única personagem ainda hoje possível, aquela que diz “eu”.
É o que já vem acontecendo na literatura do nosso tempo. Resultado de uma crise decorrente de outras crises: a crise da identidade e a crise do romance.
     Nessa literatura diarista, confessional, memorialista e até ficcional, nós --- eu e você ---, seríamos como um Ulisses de Homero; ou mesmo como o Leopold Bloom de Joyce. Em uma viagem-aventura em busca de uma nova literatura possível no dia-a-dia de nossas lembranças. Em busca do nosso Velócimo de Ouro. Artistas libertos das amarras da composição formal já esgotada, navegaríamos fundindo percepções da realidade e das lembranças. Escreveríamos por um exercício de fusão química, a nossa literatura do novo século de bites e bytes, de blogs e twiters.
     De confissões múltiplas e de reais ficções. Pois, na literatura, tudo ainda é possível. Principalmente inventar uma verdade.

 

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.

 


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