MATÉRIA
      

Câmara Amazonense do Livro e Leitura assume nova diretoria

Tenório Telles, eleito presidente da Câmara do Livro, promete lutar para que uma política consistente de acesso a leitura seja implementada

por Raquel Caetano


escritor Tenório Telles assumiu, na última terça-feira, a presidência da Câmara Amazonense do Livro e Leitura – Call, para o biênio 2009/2010, em substituição ao professor Renan Freitas Pinto. A Call tem como finalidade a defesa dos interesses dos livreiros, editores e distribuidores de livros e a promoção do livro e da leitura. O novo presidente tem a leitura como orientação de vida. Filho de ribeirinhos, aprendeu a ler aos cinco anos numa localidade do rio Solimões, chamada Costa do Cabaleana, em Manacapuru. No local não havia escola e as crianças aprendiam as primeiras letras, num espaço improvisado. Sua mãe, interessada que o filho freqüentasse uma escola, mudou-se para Manaus. Tenório, formou-se em Letras e Direito pela Universidade Federal do Amazonas. É professor, poeta, editor, autor de diversos livros e ensaios sobre cultura, literatura brasileira e regional. Seu trabalho como editor marcou uma revolução no mundo editorial. Membro da Academia Amazonense de Letras, atualmente é o seu vice-presidente. É um dos principais organizadores do Flifloresta. Eleito presidente da Câmara Amazonense do Livro e Leitura, terá a responsabilidade de lutar ainda mais para que a leitura e o livro deixem de ser um privilégio de poucos. É sobre mais este desafio que vamos conversar com ele.

TL – O seu interesse pela literatura brasileira, especialmente a que se produz no Amazonas, fez do senhor uma referência para os leitores. Ao assumir a presidência da CALL, uma entidade que representa setores comerciais do segmento livreiro, o senhor se vincula aos que vendem. Isso lhe preocupa?
Tenório Telles – A atuação da Câmara do Livro não se limita apenas a defender os pleitos do setor livreiro e editorial. A entidade tem compromisso com ações e instituições que tenham como meta promover a cultura do livro e o estímulo à leitura. Além disso, é seu objetivo contribuir com as discussões e iniciativas que visem a formulação de políticas públicas para o livro no Amazonas. Os gestores públicos devem ser provocados no sentido de que percebam a importância social do livro como instrumento de formação e enriquecimento espiritual dos cidadãos. Sobre os livreiros, a verdade é que são mais do que vendedores, cumprem uma função cultural na sociedade. Não estaria exagerando se afirmasse que são agentes a serviço da civilização: promovem o conhecimento, semeiam livros, ajudam os autores.

TL – No discurso de posse na Presidência da Call, o Sr. mencionou que o Governo precisa dedicar maior atenção ao livro e à leitura. Explique melhor essa sua afirmativa.
Tenório – Há um consenso entre os estudiosos da educação e setores da administração de que a leitura é um meio importante para ajudar a melhorar os índices de aprendizagem no Brasil. Eu acredito nisso. Estou certo de que a leitura transforma a vida das pessoas. Afinal, quem lê não só sabe mais, mas, pelo conhecimento e aprimoramento da sua sensibilidade, tem condições de se tornar um ser humano melhor. Esclarecido e consciente do seu papel na sociedade. Nesse sentido, há duas questões: por meio do conhecimento, uma pessoa pode mudar positivamente a sua história e, assim, incluir-se socialmente. A outra, é que um jovem que desenvolve sua competência leitora alcança melhores resultados em termos de aprendizagem. Com base nesse entendimento, penso que o poder público, no âmbito federal, estadual e municipal, deve considerar esse aspecto no momento da formulação de seus planos de governo e investir mais na construção de bibliotecas nos bairros, na montagem de acervos atualizados e organizados com critérios.


TL – Entre as ações da Call para o biênio 2009/2010, mencionadas pelo Sr. no discurso de posse, está a adoção do Flifloresta pela Câmara. Esta mudança vai interferir na programação e no formato do evento? Ele vai acontecer ainda este ano?

Tenório – Câmara do Livro ampliará suas ações, promovendo eventos, encontros e campanhas de divulgação da leitura. O Flifloresta fará parte da programação da Call, inclusive com sua ramificação para alguns municípios. O Festival foi um sucesso e seu formato sofrerá apenas alguns ajustes para que a próxima edição seja ainda melhor. Já estamos trabalhando na organização das versões que ocorrerão no interior. Pretendemos construir uma grande mobilização pelo livro e a leitura no Amazonas, divulgando nossos autores e promovendo debates que contribuam com o enriquecimento intelectual da sociedade, em especial dos jovens. Em breve divulgaremos as primeiras informações sobre o Flifloresta Manaus.

TL O livro é tido como um objeto caro no Brasil. Porque isso acontece?
Tenório – As circunstâncias do processo de produção e circulação do livro contribuem para que o seu preço se torne um fator limitativo. Devemos considerar igualmente o poder aquisitivo da população em geral, que é baixo. Acredito que com a ampliação do número de leitores as tiragens dos livros serão maiores e isso ajudará a baixar o preço. Os fatores econômicos contribuem para essa situação, especialmente a concentração de renda e os baixos salários. Essa realidade pode ser minimizada com criação de bibliotecas públicas e revitalização das salas de leituras e bibliotecas escolares. Quem não dispõe de recursos para comprar livros, vai à biblioteca.

TL – O que a leitura e o livro representam na sua vida?
Tenório – Eu não seria nada sem os livros. A leitura transformou a minha vida para melhor. O saudoso professor Paulo Graça costumava dizer que o conhecimento, portanto o acesso à educação, é um fator de inclusão social. Aprendi a ler no interior onde morava, na beira do Solimões, com meu tio Cristiano Castro. Com ele me apaixonei pelas palavras. Minha mãe trabalhava plantando juta e, um dia, ela chegou em casa e me encontrou lendo a Bíblia. Ficou emocionada e até chorou, me trouxe para estudar em Manaus. Ela não sabia ler. O aprendizado da leitura e a decisão e o cuidado de mamãe com minha formação foram decisivos na minha história. Não vivo sem as palavras, sem os livros e sem a leitura. Eu sou fruto dessa força e magia que habita os livros. Por isso tenho lutado para que a leitura e o livro deixem de ser um privilégio de poucos para ser um bem e um direito de toda a sociedade.