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Manaus, dezembro de 2006

A LEITURA NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO

Partindo de um conceito peculiar, a fundação Dixtal cria o projeto “Um milhão de rodas” que por meio da leitura coletiva de livros busca promover a colaboração em prol da educação e do desenvolvimento social

 

 

Fundada em 1978, a Dixtal Biomédica Indústria e Comércio, especializada em equipamentos médico-hospitalares, há sete anos criou, para uma atuação socialmente responsável, a Fundação que leva o mesmo nome da empresa. Seu enfoque é no conceito da “Nasch colaboração”, a partir do qual o desenvolvimento pessoal se dá pela colaboração de grupos. Atualmente, entre os três projetos que mantém está o “Um milhão de rodas”, uma programação dirigida a crianças de 7 a 10 anos, que tem no livro um instrumento para a troca do saber. “As rodas com crianças melhoram sua capacidade de leitura e interpretação de textos, incentivando-os a valorizar mais a instrução eescolar tradicional”, define Albert Holzhacker, fundador e presidente da Dixtal.
Ele, que também é o presidente da Fundação, imprimiu esse conceito, que permeia todas as ações da instituição, inspirado em teoria do matemático norte-americano John Nash, Prêmio Nobel de Economia em 1944. “Em 1950, Nash provou, por meio da Teoria dos Jogos, que o melhor resultado provém quando todos os membros de um grupo fazem o que é melhor para si e para o grupo. A ambição individual, cada um por si, até serve ao bem comum, mas não é a que dá o melhor resultado.” Contudo, completa: “A transição do instinto da ambição individual para um querer e pensar o melhor para si e para o grupo requer mudanças importantes: um conjunto coerente e harmonioso de práticas e conceitos, colaboração intencional e pensada em larga escala”.
Por isso, embora os programas desenvolvidos pela Fundação sejam voltados para a comunidade do Jardim São Luís, região carente da Zona Sul de São Paulo, onde está sediada (e também próxima da empresa), a proposta é criar modelos que possam orientar outras iniciativas com os mesmos objetivos. Daí o sugestivo nome “Um milhão de rodas” para o programa de leitura, como explica a coordenadora da Fundação Dixtal, Ruth Goldberg. “Queremos muito mais de um milhão, porque a idéia é criar modelos que possam ser facilmente replicados. Para isso temos de trabalhar com rigor na padronização. Este é um diferencial: como aliar a formação, o desenvolvimento da inteligência coletiva, e o livro, que tem uma capacidade de criatividade, de viagem enorme, com algo que tenha sistematização, orientação e padronização? É um super desafio.”

O embrião das rodas
Segundo Ruth, o atual modelo do “Um milhão de rodas” partiu de uma experiência realizada há três anos. “O Albert achou que uma forma muito importante de desenvolver a discussão e a prática da “Nash colaboração” era por meio da criação de círculos de leitura”. Batizado à época de “Roda de gênios”, o programa consistia em formar grupos de crianças e jovens que, sentados em círculo, liam, simultaneamente, o mesmo livro em voz alta. “Isso partia do princípio de que a energia criada quando todo mundo lê a mesma coisa ao mesmo tempo é forte, reforça o poder da própria roda, da sua magia”, completa a coordenadora, informando que o trabalho foi desenvolvido com algumas entidades do Jardim São Luís, utilizando basicamente dois títulos e alguns voluntários para mediar as rodas. "Essa foi uma experiência muito legal, mas o que tinha por trás era tentar fazer isso mobilizando também o empresariado local , pequenos negociantes, donos de lojinhas etc., para estabelecer uma rede de voluntários. Houve uma certa participação, mas tivemos problemas com a sua continuidade."
No entanto, observa Ruth, foi uma proposta de sucesso, que trouxe muitos aprendizados a todos os participantes, o que motivou a equipe da Fundação a estruturar o projeto "Um milhão de rodas", colocado em prática há três meses. "Com aquela experiência foi possível perceber o poder do livro e despertar um potencial de articulação, tanto do empresariado local quanto dos jovens. Então, ficamos com o desafio de montar um programa estruturado, com uma metodologia bem definida."
Assim, foram estabelecidos os critérios para as atividades iniciadas em 2006 que, explica a coordenadora, darão o norte para a sistematização do modelo. Para cada roda há um mediador voluntário, anteriormente capacitado pela equipe da Fundação, e um grupo de não mais do que dez crianças, cuja faixa etária definida como prioritária, neste momento, é de 7 a 10 anos. Durante três meses, período da roda, um único livro é adotado como referência para todas as atividades do grupo.
As crianças participantes são indicadas por organizações não-governamentais ou escolas da região, parceiras do projeto. Elas fazem o convite, combinam com as famílias e oferecem o espaço para a realização. "Queremos ampliar para que as rodas aconteçam em praças públicas e outras áreas, como em estabelecimentos comerciais. Mas, agora estamos focando em escolas e em entidades", informa Ruth, complementando que a fundação ajuda na definição de critérios para a composição do grupo. "Percebemos que nas escolas, por exemplo, às vezes, o critério dos professores é indicar aquelas crianças que têm dificuldade na leitura. E não é esse o nosso público-alvo. Queremos trabalhar com a diversidade, crianças que através das rodas possam desenvolver as competências da colaboração. Mas, se eventualmente, os grupos são montados pelas escolas baseadas nesse critério, tudo bem".

A dinâmica
A programação das rodas prevê 12 encontros, um por semana, com duração de uma hora e meia. Os dois primeiros, conforme explica a coordenadora, são dedicados à interação do grupo. "Têm como objetivo, basicamente, a criação do vínculo, da confiança entre as crianças e o voluntário, e o encantamento pelos livros."
Para isso, são colocados à disposição das crianças vários livros e gibis, inclusive, de modo que elas fiquem livres para manuseá-los e lê-los. Também nesse momento é apresentado o conceito que é o pano de fundo do projeto: a colaboração. "Usamos dois livros referenciais, que ajudam a colocar o grupo todo em sintonia e a explicar porque estamos lá juntos, numa linguagem e com elementos que as crianças têm condições de compreender", completa Ruth. E, ainda, são esses encontros que permitem a definição do livro que será o fio condutor para todas as atividades, nas dez rodas seguintes, levando em conta aquelas características apontadas, assim como o rítmo de leitura e o assunto de maior interesse, identificados durante esse período.

* Esta matéria faz parte da revista Multicultural – dezembro de 2006

 
 
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