Fundada
em 1978, a Dixtal Biomédica Indústria e Comércio,
especializada em equipamentos médico-hospitalares, há
sete anos criou, para uma atuação socialmente
responsável, a Fundação que leva o mesmo
nome da empresa. Seu enfoque é no conceito da “Nasch
colaboração”, a partir do qual o desenvolvimento
pessoal se dá pela colaboração de grupos.
Atualmente, entre os três projetos que mantém está
o “Um milhão de rodas”, uma programação
dirigida a crianças de 7 a 10 anos, que tem no livro
um instrumento para a troca do saber. “As rodas com crianças
melhoram sua capacidade de leitura e interpretação
de textos, incentivando-os a valorizar mais a instrução
eescolar tradicional”, define Albert Holzhacker, fundador
e presidente da Dixtal.
Ele, que também é o presidente da Fundação,
imprimiu esse conceito, que permeia todas as ações
da instituição, inspirado em teoria do matemático
norte-americano John Nash, Prêmio Nobel de Economia em
1944. “Em 1950, Nash provou, por meio da Teoria dos Jogos,
que o melhor resultado provém quando todos os membros
de um grupo fazem o que é melhor para si e para o grupo.
A ambição individual, cada um por si, até
serve ao bem comum, mas não é a que dá
o melhor resultado.” Contudo, completa: “A transição
do instinto da ambição individual para um querer
e pensar o melhor para si e para o grupo requer mudanças
importantes: um conjunto coerente e harmonioso de práticas
e conceitos, colaboração intencional e pensada
em larga escala”.
Por isso, embora os programas desenvolvidos pela Fundação
sejam voltados para a comunidade do Jardim São Luís,
região carente da Zona Sul de São Paulo, onde
está sediada (e também próxima da empresa),
a proposta é criar modelos que possam orientar outras
iniciativas com os mesmos objetivos. Daí o sugestivo
nome “Um milhão de rodas” para o programa
de leitura, como explica a coordenadora da Fundação
Dixtal, Ruth Goldberg. “Queremos muito mais de um milhão,
porque a idéia é criar modelos que possam ser
facilmente replicados. Para isso temos de trabalhar com rigor
na padronização. Este é um diferencial:
como aliar a formação, o desenvolvimento da inteligência
coletiva, e o livro, que tem uma capacidade de criatividade,
de viagem enorme, com algo que tenha sistematização,
orientação e padronização? É
um super desafio.”
O
embrião das rodas
Segundo Ruth, o atual modelo do “Um milhão de rodas”
partiu de uma experiência realizada há três
anos. “O Albert achou que uma forma muito importante de
desenvolver a discussão e a prática da “Nash
colaboração” era por meio da criação
de círculos de leitura”. Batizado à época
de “Roda de gênios”, o programa consistia
em formar grupos de crianças e jovens que, sentados em
círculo, liam, simultaneamente, o mesmo livro em voz
alta. “Isso partia do princípio de que a energia
criada quando todo mundo lê a mesma coisa ao mesmo tempo
é forte, reforça o poder da própria roda,
da sua magia”, completa a coordenadora, informando que
o trabalho foi desenvolvido com algumas entidades do Jardim
São Luís, utilizando basicamente dois títulos
e alguns voluntários para mediar as rodas. "Essa
foi uma experiência muito legal, mas o que tinha por trás
era tentar fazer isso mobilizando também o empresariado
local , pequenos negociantes, donos de lojinhas etc., para estabelecer
uma rede de voluntários. Houve uma certa participação,
mas tivemos problemas com a sua continuidade."
No entanto, observa Ruth, foi uma proposta de sucesso, que trouxe
muitos aprendizados a todos os participantes, o que motivou
a equipe da Fundação a estruturar o projeto "Um
milhão de rodas", colocado em prática há
três meses. "Com aquela experiência foi possível
perceber o poder do livro e despertar um potencial de articulação,
tanto do empresariado local quanto dos jovens. Então,
ficamos com o desafio de montar um programa estruturado, com
uma metodologia bem definida."
Assim, foram estabelecidos os critérios para as atividades
iniciadas em 2006 que, explica a coordenadora, darão
o norte para a sistematização do modelo. Para
cada roda há um mediador voluntário, anteriormente
capacitado pela equipe da Fundação, e um grupo
de não mais do que dez crianças, cuja faixa etária
definida como prioritária, neste momento, é de
7 a 10 anos. Durante três meses, período da roda,
um único livro é adotado como referência
para todas as atividades do grupo.
As crianças participantes são indicadas por organizações
não-governamentais ou escolas da região, parceiras
do projeto. Elas fazem o convite, combinam com as famílias
e oferecem o espaço para a realização.
"Queremos ampliar para que as rodas aconteçam em
praças públicas e outras áreas, como em
estabelecimentos comerciais. Mas, agora estamos focando em escolas
e em entidades", informa Ruth, complementando que a fundação
ajuda na definição de critérios para a
composição do grupo. "Percebemos que nas
escolas, por exemplo, às vezes, o critério dos
professores é indicar aquelas crianças que têm
dificuldade na leitura. E não é esse o nosso público-alvo.
Queremos trabalhar com a diversidade, crianças que através
das rodas possam desenvolver as competências da colaboração.
Mas, se eventualmente, os grupos são montados pelas escolas
baseadas nesse critério, tudo bem".
A
dinâmica
A programação das rodas prevê 12 encontros,
um por semana, com duração de uma hora e meia.
Os dois primeiros, conforme explica a coordenadora, são
dedicados à interação do grupo. "Têm
como objetivo, basicamente, a criação do vínculo,
da confiança entre as crianças e o voluntário,
e o encantamento pelos livros."
Para isso, são colocados à disposição
das crianças vários livros e gibis, inclusive,
de modo que elas fiquem livres para manuseá-los e lê-los.
Também nesse momento é apresentado o conceito
que é o pano de fundo do projeto: a colaboração.
"Usamos dois livros referenciais, que ajudam a colocar
o grupo todo em sintonia e a explicar porque estamos lá
juntos, numa linguagem e com elementos que as crianças
têm condições de compreender", completa
Ruth. E, ainda, são esses encontros que permitem a definição
do livro que será o fio condutor para todas as atividades,
nas dez rodas seguintes, levando em conta aquelas características
apontadas, assim como o rítmo de leitura e o assunto
de maior interesse, identificados durante esse período.
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Esta matéria faz parte da revista Multicultural –
dezembro de 2006