ENTREVISTA
  Neide Gondim

O livro que mudou
a minha vida

Por: Leyla Leong
escritora Neide Gondim, autora do livro, A invenção da Amazônia, editado pela Marco Zero em 1994, volta em pensamento à rua da sua infância para falar sobre as suas primeiras leituras, feitas em livros emprestados por uma vizinha. Doutora em Comunicação e Semiótica - Literaturas e Mestre em Teoria da Literatura, Gondim revela também suas leituras, entre elas a Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira.

 

 
Fadas e assombrações
“Vivi em uma rua onde havia muitas crianças. Brincávamos de roda e minha infância foi povoada pelas imagens dos contos clássicos que meu pai trazia para casa em discos, e pelas histórias da Foz do Jutaí, contadas pela minha mãe”.
Dessa maneira, a autora foi introduzida no mundo do fantástico e do maravilhoso.
“Minha mãe narrava histórias de almas, de cobras, aranhas e encantados do interior, deixando todos os meninos apavorados. Meu pai gostava muito de música e sempre procurou ter o melhor equipamento, a melhor eletrola, como se dizia na época. Só que ele usava de um artifício para afastar-nos do aparelho, que produzia pequenos choques. Então eu vivi nesse ambiente de música e de histórias, de fadas e de assombrações”.
Estante vazia
Uma imagem que marcou a sua infância foi a de uma estante vazia na sala da sua casa. “Eu achava ridícula aquela estante ali, vazia. Ao lado da minha casa morava a família Munneyme. Naquela casa havia uma biblioteca fantástica, e a empregada deles me passava os livros por cima do muro.
“Foi assim, de uma forma aleatória, que eu fui lendo. Não posso precisar que livro foi o que mais me impressionou naquela época. Mas lembro-me de uma coleção de 7 volumes , de 700 páginas cada um, que narrava toda a História da França, de uma forma romanceada. Não lembro o nome do autor, mas me impressionou vivamente”.
Gondim diz ter feito um paralelo entre a História da França, com seus personagens, e as histórias de fadas. “ A história de uma Maria Antonietta sendo decapitada, todo aquele horror da revolução francesa, também estava presente, de uma certa forma, nos contos de fadas”, analisa.
O exotismo
Ela confessa não ter sido muito seletiva em suas primeiras leituras. Lia tudo o que lhe caía nas mãos. Depois, passa então a depender do irmão mais velho, Nelson, que usava a mesada para comprar livros.
“O primeiro livro que o Nelson comprou com a mesada foi Deuses, Túmulos e Sábios. Esse livro também me marcou profundamente. Fiquei encantada com aquelas histórias das múmias, e a partir daí criei uma paixão pelo exótico, o desconhecido. Acho que isso tangencia bem mais tarde para as minhas pesquisas sobre a Amazônia”.
Outra leitura que apaixonou a autora de A invenção da Amazônia, na época da adolescência, foi o então best-seller A . J.Cronnin e seus romances açucarados. “ É interessante como a gente com o tempo seleciona as leituras, observa. Pode até parecer besteira, mas o Cronnin impressionou muita gente. Procurei ler todos os livros dele. Era uma prosa interessante. Lembro do romance As Chaves do Reino. Depois ele escreveu outras “chaves”, que não abriram mais nada para mim”, brinca.
Outras amizades passaram a fornecer os livros que ela lia avidamente, como os da autora francesa Colette, também um “must” literário da época. “ Quando tinha meus 17 para 18 anos, meu comportamento era esdrúxulo. Quando a gente ia para a Ponta Negra jogar volley, eu levava Kafka, para ler nos intervalos”.
Um roteiro para quem quer ler
“Não dou conselhos aos meus alunos. Chego em sala e conto uma história para eles. Não há quem não goste de uma história bem contada. Às vezes levo as Mil e Uma Noites. Acho esse livro fantástico.. Você sente a beleza, a limpeza, o perfume daquelas histórias. Você pode também perceber que Flaubert, quando escreveu Salambô, exotizou demais e acabou fazendo um texto menor”.
Para incentivar a leitura, além de contar histórias, ela também fala muito sobre os livros que leu durante a vida.
“ Falo muito sobre Balzac, que é meu autor favorito. Gosto muito de usar uma novela dele, Sarrazine, porque você pode encaixar perfeitamente a teoria literária ali dentro. É uma novela bem construída. Gosto dele, do Steinbeck, do Fitzgerald (O Grande Gatsby é um clássico). Dostoievsky, então, nem se fala.
“Minhas aulas são verdadeiras viagens, porque acho que se você amarrar demais os alunos na parte teórica, você se perde. Os alunos de Letras, inexplicavelmente , se estressam para fazer um vestibular, e alguns querem logo saber o número de páginas dos livros indicados. É uma coisa horrível”.
Segundo ela, por causa dessas aulas, muitos alunos passaram a ler. “ Leio contos do Borges ( Jorge Luís), por exemplo. Às vezes, até empresto meus livros. Muitos passam a gostar da literatura porque percebem que a coisa não é tão boba assim; tem ensinamentos e faz você crescer”.
* Este texto foi concebido para a revista Valer n.º 2
 
 
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