ENTREVISTA     Regina Melo


A autora do Romance Ykamiabas
lança revista em quadrinhos


"Eu sou muito ligada a Mitologia. E eu estou nessa fase,
buscando esse foco. Acredito que tem uma
mensagem de crescimento pra gente"

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epois do romance de sucesso "Ykamiabas" – Filhas da Lua, Mulheres da Terra”, editado pela Travessia, em 2004 e recentemente lançar em Brasília um poema no formato de revista em quadrinhos intitulado “Os Anseios das Cunhãs”, Regina faz comparações de sua obra atual com trabalhos anteriores, fala de projetos e sua visão crítica do cenário artístico, político e cultural de Manaus.

Por Tony Santos
Fotos: arquivo pessoal

 

Tony Santos – Como surgiu a revista “Os Anseios das Cunhãs”?
Regina Melo – Eu tinha vontade de transformar o poema “Os Anseios das Cunhãs” em quadrinhos. Esse poema já existia há muito tempo. Por sinal, foi ele que me inspirou a fazer o romance das amazonas "Ykamiabas", porque ele tem uma história.

Tony – Então o seu livro Ykamiabas também surgiu a partir desse poema?
Regina Sim, porque quando surgiu à idéia de escrever sobre as amazonas, eu queria escrever algo mais simples, como se fosse uma brincadeira, meio sem compromisso. Então eu me lembrei que tinha o poema “Os Anseios das Cunhãs”. Era um material que falava sobre as mulheres da região, mulheres que saíam do interior e vinham para a cidade trabalhar em casa de família, viver outra realidade.

Tony – Para fazer a história em quadrinhos o poema sofreu alterações?
Regina Não. Eu nunca alterei o poema. Mesmo nesta revista em quadrinhos, o poema está intacto. Sofre apenas interrupções, pois, é entremeado pelas narrativas, que fazem uma pontuação para as cenas. Entretanto, sem perder o próprio ritmo. Eu não entendo de quadrinhos. Não sou uma especialista em quadrinhos, mas fui atrás de uma pessoa que entendesse minhas idéias, que as colocasse no papel.

Tony - As idéias das ilustrações são suas?
Regina – Sim. Todas as cenas foram concebidas por mim. Mas o artista, que é o Mayr Mendes, completou com muito acerto, aquilo que eu esperava dele.

Tony - Nessa revista tem alguma abordagem ligada a prostituição infantil?
Regina – Eu acredito que tem, devido à condição que a mulher pode estar exposta em uma sociedade como Manaus, que se transformou depois da criação da Zona Franca, com uma agressividade maior. O trânsito mostra isso. O perfil das pessoas também.

Tony - Na realidade isso não continua sendo uma agressão para essas mulheres, que hoje, ainda vêm do interior para a cidade?
Regina – Eu fiquei sabendo que a prostituição está acontecendo não só com as mulheres que vem do interior para a capital, mas também, já acontece lá no interior mesmo.

Tony – Por que lançar esta revista em Brasília, com tantos espaços culturais em Manaus?
Regina – Porque em Brasília me ofereceram propostas melhores. Apesar de ter recebido um prêmio do Governo do Amazonas em 2005, eu também fui buscar apoio de empresas privadas, e em Brasília, tudo aconteceu muito mais rápido.

Tony – No resultado dessa produção, a arte gráfica ficou como o planejado?
Regina – Ah! Ficou sim. As cores ficaram bem fortes, vivas, brilhantes. E condiz com o que eu queria passar da história. Um misto de ansiedade, de alegria, de situações fortes.

Tony – O livro “Ykamiabas” também ficou com um visual bastante interessante. Você participou das idéias para a criação gráfica dele?
Regina – Também. Aliás, nesse momento eu fui buscar o meu lado como profissional do marketing. No "Ykamiabas", fui amadurecendo a idéia do livro em si. Tanto que o resultado final é um livro de capa dura com a embalagem que lembra uma caixa de presente. E eu queria dar esse tom; de presentear as pessoas. Eu também recebi idéias de outras pessoas, como a intérprete Lucinha Cabral, que chegou a fazer alguns desenhos, o designer gráfico Stefson, da Espaço Comunicação, também chegou a fazer algumas artes. Enquanto isso, o livro ia se transformando, até virar um romance. E olha que esse processo durou quase dez anos. (risos)

Tony – Durante essa produção aconteceu algo inusitado?
Regina – Bom, quando eu estava fazendo essa pesquisa, descobri que tinha outra pessoa fazendo algo semelhante. O Renato de Gasperi – escritor que mora em Envira e estava fazendo um trabalho sobre os ídolos das Amazonas – O interessante é que, quando ele viu o andamento da realização do meu livro, "Ykamiabas", me escreveu uma carta lindíssima que durante um determinado tempo fez parte da concepção do meu romance.
Tony – Você já pensou em transformar o “Ykamiabas” em filme?
Regina – Já tenho a proposta de um grupo e estamos estudando a idéia. O nome do filme seria “O Reino das Mulheres Doidas – Filhas da Lua, sem lei e sem marido”, porque esse era o primeiro título do livro, antes de se chamar "Ykamiabas". A minha amiga produtora, Nathy Passos, está articulando com cineastas a possibilidade de transformar o romance em filme.

 

Tony – O que você achou do espetáculo das “Ykamiabas” na montagem do coreógrafo Welson Rodrigues?
Regina – Ah! Eu achei maravilhoso. Principalmente porque o trabalho do Welson, feito com adolescentes, é muito interessante.

Tony – Aliás, você está sempre em meio aos artistas, intelectuais. Você se sente uma artista?
Regina – Eu sou uma artista. Intelectual não. Vamos considerar que eu seja uma artista da palavra. Mas, eu não quero ficar em rodadas de discussões sobre temas e mais temas, se não tiver um fundo voltado para o social, contribuindo de alguma forma para que tenhamos uma mudança positiva, que melhore a nossa forma de viver, o respeito ao próximo.

Tony – É essa mudança social que a senhora tenta mostrar nessa revista?
Regina – Também. Porque eu estou mostrando por meio de um poema e de sua ilustração, um conceito sobre as mulheres que viviam na Zona Franca de Manaus, nas ruas, e mesmo assim, falavam docemente pela verve do poeta. É como se fosse uma dança. Pois o poema foi concebido nessa época e, nesse período, eu vivi como observadora de um momento. Mulheres que vinham para a cidade em busca de dias melhores.

Tony – Qual a linha editorial da revista “Os Anseios das Cunhãs”?
Regina – Erótica, adulta, real. Está dentro do cotidiano. A história propõe um olhar sobre os excluídos, principalmente pelas pessoas que se vêem numa situação de exclusão. Apesar de ser em quadrinhos, a revista não é uma história para crianças. É para os adultos mesmo, uma reflexão sociológica da atual situação da mulher no contexto regional.

Tony – Qual a comparação entre a produção da revista “Os Anseios das Cunhãs” com o romance "Ykamiabas"?
Regina – Bom, a revista em quadrinhos é mais simples, já o romance "Ykamiabas", eu levei quase uma década para concluir. Porém, eu tenho menos expectativa com “Os Anseios das Cunhãs”, do que com o "Ykamiabas". Tudo estava prontinho na minha cabeça, eu só cheguei e falei: “vou fazer dessa forma”. É claro que ele tem um conceito bem contemporâneo, bem atual. Na verdade, eu tenho até certo receio de como as pessoas irão julgar – Porque apesar de eu ter pontuado as cenas, deixei a criação das imagens para o Mayr Mendes – Se fosse outro artista, poderiam até sair imagens totalmente diferentes dessas, mais lúdicas. Mas, eu deixei o desenhista viajar na letra do poema, e ele criou as imagens da forma que viu no texto, é por isso que o Mayr assina o co-roteiro comigo.

Tony – Como foi a aceitação da revista em Brasília?
Regina – Fizemos o lançamento na livraria “Livro.com” e Sebo Virtual. Tive o apoio da bancada amazonense em Brasília, de alguns deputados federais e senadores. E também fizemos o lançamento no Mercado Municipal de Brasília. Lindo, muito chique. A revista “Os Anseios das Cunhas”, foi lançada como a primeira revista de história em quadrinhos no Brasil, que traz a questão da prostituição indígena e das mulheres do interior e capital do Amazonas.

Tony – No romance “Ycamiabas”, mesmo trechos documentados, há uma carga forte entre o mito e o real. Você gosta de Mitologia?
Regina – É isso mesmo. Eu sou muito ligada a Mitologia. E eu estou nessa fase, buscando muito esse foco. Acredito que tem uma mensagem de crescimento pra gente, a Mitologia nos mostrou conceitos para a filosofia, ajudou nas descobertas para a psicanálise, para entender as culturas, na sociologia, na antropologia.

Tony – Seria uma fase de busca pessoal?
Regina – Não, na verdade eu estou em busca de entendimentos. Eu acredito que o mito nos ajuda a compreender o próprio eu.

Tony – No romance “Ykamiabas” existe algum personagem inspirado numa pessoa real?
Regina – Eu recriei. Mas, de vez em quando, eu me sentia a própria “Yara” do livro, porque quando a gente escreve um personagem, procura se sentir um pouco dele. E a gente é assim. Nessa revista em quadrinhos, têm imagens que eu tive na minha infância, pois as imagens mais fortes de nossa vida são dessa época.

Tony – Você pensa em fazer uma autobiografia?
Regina – Ainda não. Mas acho que aos poucos, estou me organizando. Eu já escrevi a cronologia “A vida e obra de Regina Melo”. Eu me inspirei na Nicole, uma amiga que trabalha com ecologia. Ela contava que a avó dela, uma grega, construiu na Grécia, uma biblioteca no porão, só com as obras dela. Recebia as pessoas e mostrava o seu trabalho. E eu achei isso ótimo.

Tony – Eu, particularmente, gostei muito das fotos do livro “Ykamiabas”. O que você tem a dizer sobre elas?
Regina – As fotos são recriações de achados arqueológicos no Baixo Amazonas e referem-se aos ídolos das amazonas, referidos ao mito das Ykamiabas, foram coletados por Barbosa Rodrigues, um botânico naturalista, que escreveu sobre a Amazônia e resgatou o ciclo das Ykamiabas. Eu li esses textos, até para respaldar as informações no meu livro.

Tony – E o Festival de Parintins como evento cultural ligado ao mito?
Regina – Eu, realmente, nunca gostei muito. Têm algumas coisas que me chamam atenção, como as letras das toadas, o trabalho dos artistas de Parintins. Mas aquela arena, da forma que eu vejo não me atrai. Talvez seja até pela massificação, que acaba perdendo o sentido. Aí, você tem que buscar outras expressões, para sair do repetitivo.

Tony – Qual o seu gênero literário preferido?
Regina – Eu não tenho um gênero em particular, tenho temas. E são três temas importantes na minha vida: A mitologia, o estudo das sociedades antigas e a questão da mulher – um estudo do feminino. Então, eu sempre estou ligada nesses temas, nesse foco, e vou atrás.

Tony – O quê você acha do livro On-Line?
Regina – Eu acho ótimo. Sempre compro livro pela Internet, fico fazendo pesquisas até achar livros especiais.

Tony – Então você se considera uma boa usuária da Web?
Regina – Sinceramente, eu não era, mas tenho feito muitos contatos pelo computador. Mas, não faço isso para brincar, faço porque preciso. Quando você tem um veículo que proporciona maior rapidez para realizar qualquer tarefa, é claro que vai optar por ele. Não precisamos ter tudo, basta ter o necessário. Eu não quero acumular nada. Quero ter apenas aquilo que preciso para viver bem.

Tony – O que você tem a dizer para os novos escritores?
Regina – Vou deixar uma mensagem que ouvi de uma amiga: “Se você não tem um amigo pra quem possa presentear livros, repense suas amizades”. Eu poderia dizer: leiam muitos livros, leiam Carl Jung, Virginia Wolff, leia Capra, Young...

Tony – E dos autores regionais? Quais você indicaria?
Regina – Regional?! Eu prefiro indicar música. Eu gosto da Lucinha Cabral, Nicholas Júnior... (risos)

Tony – Falando em jornalismo atual. Alguns jornalistas na cidade estão lançando blogs. O que você acha disso?
Regina – É... Cada um procura a sua sobrevivência da forma que lhe convém. Aliás, temos ótimos jornalistas em Manaus, inclusive os que foram demitidos de um jornal recentemente, que eu não sei por que meus colegas jornalistas, caem nessa. Eu, com todas as necessidades que já passei, nunca caí numa dessas.

Tony – Mas você acredita que foi uma grande politicagem?
Regina – O fechamento do jornal? politicagem não. Foi uma sacanagem mesmo. Um desrespeito ao cidadão. É dizer ”quando eu voltar numa próxima eleição, quero contar com vocês de novo”, é isso aí que foi feito, em outras palavras, porque têm aqueles amigos nossos, que você sabe que tem talento, e infelizmente, tiveram aqueles que foram usados, só usados.

Tony – Como essas pessoas irão atrás de emprego em outros veículos?
Regina
– Vão com o que tem de bom. Eles precisam trabalhar. Porque o que eu questiono, não é o fato de terem aceitado um convite para sair de uma empresa e trabalhar em outra, que até lhe ofereceu melhores condições. A questão é o fato deles saberem que isso poderia acontecer. Porém, eles são profissionais e precisam ser respeitados.

Tony – Falando em profissionais de jornalismo. A Betsy Bell está lançando um blog. O que a senhora tem a dizer sobre esse segmento?
Regina – A Betsy Bell desenvolveu nesses últimos anos um estilo próprio e têm poucas pessoas que estão trabalhando com essa visão mais moderna, portanto é um nicho. Ela é uma mulher inteligente, tem a arma da comunicação nas mãos e está trabalhando em uma novidade, que é o jornalismo On-Line com humor e informação.

Tony – Você já pensou em ter um blog?
Regina – Sim, eu tenho até um título, "Reunião de Idéias".

Tony – Para escrever sobre o quê? Romances, ficção, realidade, poemas?
Regina – Depende da ocasião, eu trabalho com coisas em curto, médio e longo prazo. Em curto prazo eu escrevo poemas, em médio prazo eu faço pesquisa e em longo prazo eu concluo um romance.

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Regina Melo

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Nasceu em Manaus, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas. Pós-graduada em Design, Propaganda e Marketing. Tem como obras poéticas: Pariência, 1984; Estação do Nada, 1987; O Poema, com ilustrações da artista plástica Auxiliadora Zuazo, 1998.

>> E-mail: cunhatecoima@hotmail.com

 

 

 
 
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