Tony
Santos - Como você descobriu que era
uma poetiza?
Pollyanna Furtado -
Lá pelos meus 15 ou 16
anos comecei a escrever algumas coisas, como paródias,
fazendo uma espécie de exercício
de linguagem, transformando a letra de músicas
populares, conforme as emoções que
eu sentia. Já em Manaus eu mudei o ritmo,
me desliguei das letras de música e comecei
a escrever os meus sentimentos, as minhas emoções.
Quase como um diário, aleatório,
não uma coisa sistemática e sim
de momentos de inspiração.
Tony
-
Então foi a partir desse diário
você se descobriu como poeta?
Pollyanna -Foi
um momento até curioso, porque uma noite
a minha mãe pegou meu diário, ficou
lendo admirada e mostrou ao meu pai, dizendo:
"Eu não sabia que ela tinha esse dom",
aquilo me despertou. Parece que a partir dali
eu passei a escrever com mais intensidade e vontade.
Tony
-
E quando começou a fazer suas ilustrações?
Pollyanna -Foi
na época em que entrei em contato com o
"Clube dos quadrinheiros", que se reuniam
sempre com escritores, desenhistas e poetas no
Espaço Cultural Valer. Eu lembro que conheci
o Edgar Franco, um desenhista paulista que veio
ministrar uma palestra. Ele me deu um fanzine
feito numa folha de papel A4. Era tão simples
e tão lindo, com textos muito poéticos
e ilustrações maravilhosas, eu fiquei
encantada. E ele também sugeria a todos
os presentes: vocês também podem.
Está ao alcance de vocês.
Tony -
Então nesta época você
também despertou seu lado designer?
Pollyanna -
Eh! (risos) Antes eu ajudava colaborando com poemas
para o fanzine, mas a partir do contato com o
Edgar, me deu vontade de fazer o próprio
fanzine. E acabei fazendo junto com minha prima,
fiz desenhos abstratos e, usando o computador
juntava com meus poemas depois distribuía
para os amigos e familiares. Isso serviu como
base para me dar vontade de escrever um livro
de poemas.
Tony
-
E como estão os contatos para lançar
suas obras?
Pollyanna -
Hoje
estou tentando lançar o livro "Simetria
do Caos", ele é um projeto que já
está todo esquematizado e são textos
que eu fui reunindo de 2000 a 2006. Na verdade,
estou correndo atrás disso desde o ano
passado. Entretanto, até agora ainda não
consegui editar. Segundo o professor Tenório
Telles, eu poderia lançar por meio do projeto
"Jovens Escritores", mas eu teria de
ir atrás de um patrocinador. Já
fui a algumas secretarias, porém ainda
não obtive nenhuma resposta positiva.
Tony
-
O Fractais é um livro que você
mesmo está fazendo?
Pollyanna -
Sim.
Na verdade é uma coletânea de vários
poemas, que estou usando para fazer uma divulgação
do meu trabalho. Tenho participado de eventos
musicais e de literatura. Sempre que recito meus
poemas, no final, chega alguém dizendo
que gostaria de ter algum texto meu. Então
pensei: Preciso ter um livro, mesmo que seja pequeno
e simples, mas que vai mostrar meu trabalho. Não
foi feito por uma editora, mas é uma alternativa
que funciona.

Tony
-
Eu tenho visto esse tipo de edição
em grandes capitais, como São Paulo, Belo
Horizonte e Rio de Janeiro... Onde escritores
se reúnem e lançam seus livros independentes
de Editoras. Foi o que lhe inspirou?
Pollyanna -
Também.
Na realidade, é muito trabalho mesmo. Mas,
como a necessidade é a mãe da criação,
mesmo sendo muito trabalhoso, ainda acho tempo
entre a minha atividade de professora e entre
a faculdade, porque o esforço maior é
pela produção. Um esforço
extra para ver nosso trabalho sendo apreciado,
lido. É importante a gente estar em contato
com o público e saber o que eles estão
sentindo como resultado do nosso trabalho.
Tony
-
Você acha que em Manaus ainda é
muito complicado para o novo artista, para o novo
poeta entrar no mercado da literatura?
Pollyanna -
Está
difícil não só para o novo
artista, mas também para veteranos. Principalmente
na literatura, o apoio é muito limitado.
Inclusive em conversas que tive com alguns escritores
que são amazonenses e fazem sucesso fora
daqui. Sempre me dizem a mesma coisa: Não
adianta ficar parado, isolado aqui, tem que buscar
oportunidades fora. Mesmo que seja em outro país.
Procurar todas as possibilidades, quem sabe nos
lugares mais desenvolvidos esteja a sua oportunidade.
Tony
-
Você acha a cultura local superficial
ou restrita a grupos fechados?
Pollyanna -
Eu
vejo que existem alguns movimentos com uma intenção
forte. Ao colaborar com alguns grupos literários
no Amazonas, como o "Cirrose", por exemplo.
Vi que há uma necessidade real de políticas
de incentivo ao leitor e até estimulação
do mercado literário, que também
está ligado à educação.
Até existem pessoas interessadas, envolvidas,
todavia, o apoio real é muito deficiente.
Tony
-
Você teve inspirações
em quais escritores?
Pollyanna -
Eu
tive contato com os livros de Fernando Pessoa,
Ferreira Gullar, que foi tema do meu projeto de
iniciação científica. Até
as poetizas como Lia Luft, Ana Cristina Cezar,
foram leituras que mexeram muito comigo. Então,
quando se fala de literatura, é de uma
forma muito pessoal. Cada poeta, cada autor, tem
aquela figura marcada, sua maior identificação.
Tony
-
E os poetas regionais?
Pollyanna -
Bom!
Tem o Thiago de Mello, com a sua literatura de
cunho social, com essa preocupação
muito grande com as questões amazônicas
e do homem da terra, que vive de certa forma à
margem de outros estados. Outro poeta que tenho
grande admiração é o Bacellar.
Tony
-
E como estão suas perspectivas de realizações
artísticas? O que você está
planejando para realizar em breve?
Pollyanna -
Bom!
Estou indo para o Rio de Janeiro participar da
Bienal do Livro. Vou aproveitar as oficinas ao
máximo, em vários aspectos. Tanto
as palestras de escritores como também
para conversar com os poetas, saber que alternativas
eles têm encontrado para concretizar suas
produções. Sei que aqui em Manaus
ainda me sinto muito limitada e também
sei que no Rio de Janeiro as coisas não
são fáceis. Mas será um contato
muito importante para mim. Tenho amigos que moram
lá e vou procurar aproveitar o máximo
e estabelecer um intercâmbio com o pessoal
da literatura de lá.
Tony -
Como foi receber o prêmio em Itacoatiara?
Pollyanna
-
Foi
emocionante, um grande estímulo para novas
produções que, ao mesmo tempo, me
deu retorno para receber bons convites e vontade
de seguir em frente. Até porque o poema
que fiz foi inspirado em Manaus.
Tony
-
Qual o seu recado para os novos poetas?
Pollyanna -
Eu
estou buscando não só um desenvolvimento
intelectual e lingüístico, mas também
um desenvolvimento humano, uma vontade sincera
de poder ajudar a explorar mais a sensibilidade
nas pessoas. A sociedade é muito dura,
as pessoas estão cada vez mais secas. Por
enquanto, ainda estou estudando mais os clássicos,
que são a base para nosso desenvolvimento.
Portanto, aqueles que aspiram um dia se destacar
na literatura devem levar tudo isso em consideração.