ENTREVISTA     Pollyanna Furtado

 

Livro artesanal é a alternativa
para poetas regionais


"Não foi feito por uma editora,
mas vai mostrar meu trabalho
"

Por Tony Santos
Fotos: arquivo

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la é natural de Assis Chateaubriand, Paraná, mas morou durante toda sua infância em São Paulo, aos 17 anos veio para Manaus, momento em que já estava produzindo seus textos. Formou-se em Letras e atualmente é estudante de Psicologia. Fez teatro, desenho e entende bem de diagramação digital. Como poeta, Pollyanna já ganhou prêmios, e um deles foi o primeiro lugar em poesia falada no Festival da Canção de Itacoatiara (Fecani). Com a dificuldade em conseguir uma editora para publicar seus trabalhos, cansou de esperar e resolveu fazê-lo de próprio punho. Com conhecimentos em computação gráfica, usando um PC editou e imprimiu um livro de bolso, artesanal, com alguns dos seus poemas. Aqui "Polly" nos conta um pouco de sua história e seus projetos.

 

Tony Santos - Como você descobriu que era uma poetiza?
Pollyanna Furtado - Lá pelos meus 15 ou 16 anos comecei a escrever algumas coisas, como paródias, fazendo uma espécie de exercício de linguagem, transformando a letra de músicas populares, conforme as emoções que eu sentia. Já em Manaus eu mudei o ritmo, me desliguei das letras de música e comecei a escrever os meus sentimentos, as minhas emoções. Quase como um diário, aleatório, não uma coisa sistemática e sim de momentos de inspiração.

Tony - Então foi a partir desse diário você se descobriu como poeta?
Pollyanna
-Foi um momento até curioso, porque uma noite a minha mãe pegou meu diário, ficou lendo admirada e mostrou ao meu pai, dizendo: "Eu não sabia que ela tinha esse dom", aquilo me despertou. Parece que a partir dali eu passei a escrever com mais intensidade e vontade.

Tony - E quando começou a fazer suas ilustrações?
Pollyanna
-Foi na época em que entrei em contato com o "Clube dos quadrinheiros", que se reuniam sempre com escritores, desenhistas e poetas no Espaço Cultural Valer. Eu lembro que conheci o Edgar Franco, um desenhista paulista que veio ministrar uma palestra. Ele me deu um fanzine feito numa folha de papel A4. Era tão simples e tão lindo, com textos muito poéticos e ilustrações maravilhosas, eu fiquei encantada. E ele também sugeria a todos os presentes: vocês também podem. Está ao alcance de vocês.

Tony - Então nesta época você também despertou seu lado designer?
Pollyanna
- Eh! (risos) Antes eu ajudava colaborando com poemas para o fanzine, mas a partir do contato com o Edgar, me deu vontade de fazer o próprio fanzine. E acabei fazendo junto com minha prima, fiz desenhos abstratos e, usando o computador juntava com meus poemas depois distribuía para os amigos e familiares. Isso serviu como base para me dar vontade de escrever um livro de poemas.

Tony - E como estão os contatos para lançar suas obras?
Pollyanna
- Hoje estou tentando lançar o livro "Simetria do Caos", ele é um projeto que já está todo esquematizado e são textos que eu fui reunindo de 2000 a 2006. Na verdade, estou correndo atrás disso desde o ano passado. Entretanto, até agora ainda não consegui editar. Segundo o professor Tenório Telles, eu poderia lançar por meio do projeto "Jovens Escritores", mas eu teria de ir atrás de um patrocinador. Já fui a algumas secretarias, porém ainda não obtive nenhuma resposta positiva. 

Tony - O Fractais é um livro que você mesmo está fazendo?
Pollyanna
- Sim. Na verdade é uma coletânea de vários poemas, que estou usando para fazer uma divulgação do meu trabalho. Tenho participado de eventos musicais e de literatura. Sempre que recito meus poemas, no final, chega alguém dizendo que gostaria de ter algum texto meu. Então pensei: Preciso ter um livro, mesmo que seja pequeno e simples, mas que vai mostrar meu trabalho. Não foi feito por uma editora, mas é uma alternativa que funciona.

Tony - Eu tenho visto esse tipo de edição em grandes capitais, como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro... Onde escritores se reúnem e lançam seus livros independentes de Editoras. Foi o que lhe inspirou?
Pollyanna
- Também. Na realidade, é muito trabalho mesmo. Mas, como a necessidade é a mãe da criação, mesmo sendo muito trabalhoso, ainda acho tempo entre a minha atividade de professora e entre a faculdade, porque o esforço maior é pela produção. Um esforço extra para ver nosso trabalho sendo apreciado, lido. É importante a gente estar em contato com o público e saber o que eles estão sentindo como resultado do nosso trabalho.

Tony - Você acha que em Manaus ainda é muito complicado para o novo artista, para o novo poeta entrar no mercado da literatura?
Pollyanna
- Está difícil não só para o novo artista, mas também para veteranos. Principalmente na literatura, o apoio é muito limitado. Inclusive em conversas que tive com alguns escritores que são amazonenses e fazem sucesso fora daqui. Sempre me dizem a mesma coisa: Não adianta ficar parado, isolado aqui, tem que buscar oportunidades fora. Mesmo que seja em outro país. Procurar todas as possibilidades, quem sabe nos lugares mais desenvolvidos esteja a sua oportunidade.

Tony - Você acha a cultura local superficial ou restrita a grupos fechados?
Pollyanna
- Eu vejo que existem alguns movimentos com uma intenção forte. Ao colaborar com alguns grupos literários no Amazonas, como o "Cirrose", por exemplo. Vi que há uma necessidade real de políticas de incentivo ao leitor e até estimulação do mercado literário, que também está ligado à educação. Até existem pessoas interessadas, envolvidas, todavia, o apoio real é muito deficiente.

Tony - Você teve inspirações em quais escritores?
Pollyanna
- Eu tive contato com os livros de Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, que foi tema do meu projeto de iniciação científica. Até as poetizas como Lia Luft, Ana Cristina Cezar, foram leituras que mexeram muito comigo. Então, quando se fala de literatura, é de uma forma muito pessoal. Cada poeta, cada autor, tem aquela figura marcada, sua maior identificação.

Tony - E os poetas regionais?
Pollyanna
- Bom! Tem o Thiago de Mello, com a sua literatura de cunho social, com essa preocupação muito grande com as questões amazônicas e do homem da terra, que vive de certa forma à margem de outros estados. Outro poeta que tenho grande admiração é o Bacellar. 

Tony - E como estão suas perspectivas de realizações artísticas? O que você está planejando para realizar em breve?
Pollyanna
- Bom! Estou indo para o Rio de Janeiro participar da Bienal do Livro. Vou aproveitar as oficinas ao máximo, em vários aspectos. Tanto as palestras de escritores como também para conversar com os poetas, saber que alternativas eles têm encontrado para concretizar suas produções. Sei que aqui em Manaus ainda me sinto muito limitada e também sei que no Rio de Janeiro as coisas não são fáceis. Mas será um contato muito importante para mim. Tenho amigos que moram lá e vou procurar aproveitar o máximo e estabelecer um intercâmbio com o pessoal da literatura de lá.

Tony - Como foi receber o prêmio em Itacoatiara?

Pollyanna - Foi emocionante, um grande estímulo para novas produções que, ao mesmo tempo, me deu retorno para receber bons convites e vontade de seguir em frente. Até porque o poema que fiz foi inspirado em Manaus.

Tony - Qual o seu recado para os novos poetas?
Pollyanna
- Eu estou buscando não só um desenvolvimento intelectual e lingüístico, mas também um desenvolvimento humano, uma vontade sincera de poder ajudar a explorar mais a sensibilidade nas pessoas. A sociedade é muito dura, as pessoas estão cada vez mais secas. Por enquanto, ainda estou estudando mais os clássicos, que são a base para nosso desenvolvimento. Portanto, aqueles que aspiram um dia se destacar na literatura devem levar tudo isso em consideração.

 



 

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