ENTREVISTA     Marco Adolfs

 

“Temos apenas que lamentar o látex derramado
junto com o sangue de tantos heróis”

Por Tony Santos
Fotos: Hamilton Salgado

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arco Adolfs nasceu no Rio de Janeiro a 6 de agosto de 1956. Veio para Manaus ainda criança. Desde menino, a literatura e o cinema lhe despertaram fascínio, o que acabou por levá-lo a trabalhar com textos e vídeos. Estréia na literatura com o romance “Látex”, um texto leve, que discorre sobre uma época relevante para o Amazonas e para o mundo.
Escreve sobre vidas que foram marcadas pela busca de um futuro melhor, enfrentando sacrifícios, delírios e tragédias. Em “Látex” a história do Amazonas se faz em meio aos seringais, à ficção e à realidade, com cartas que relatam fatos de um tempo não tão distante.

Tony Santos – O ciclo econômico, auge e declínio da produção da borracha seriam as principais características de sua obra?

Marco Adolfs - Sim. O livro trata desse momento econômico.

Tony - O seu livro LÁTEX trata de três histórias distintas ou elas se costuram criando uma unidade?

Adolfs - São três histórias distintas, sim. Mas é impossível dissociar-se da temática geral do livro, que é a questão do ciclo econômico da exploração do látex na Amazônia. É claro que a primeira história é um exercício livre de ficção; até absurda. Mas, nos capítulos que perpassam o restante da obra, justifico a ficção existente com a narração da crua realidade de fatos acontecidos naquele tempo, inclusive com um caso verídico, que foi o naufrágio do vapor Paes de Carvalho, em 1926.

Tony - Qual a relação de sua obra com o cotidiano da época, a Belle Époque?

Adolfs - Uma relação inevitável, já que parte do livro se passa naquele sonho de uma época boa na aparência de fastígio e na ganância dos homens.

Tony - Para o senhor qual é a ligação entre o jornalismo, a literatura e o cinema?

Adolfs - A da imagem. Trabalha-se sempre com imagens: reais, oníricas ou inventadas. Numa captação constante de idéias que geram idealizações ou fotografias de uma realidade.

Tony – Antes de escolher o gênero literário deste livro, o senhor pensou em escrevê-lo como um roteiro?

Adolfs - O roteiro está saindo do romance. Estou adaptando e trabalhando nele e espero, quem sabe, vê-lo um dia em um cinema como uma produção de nossos cineastas.

Tony – Se na época da grande oferta de borracha feita pelos asiáticos o governo tivesse se empenhado para agilizar nossa forma de extrair o látex, o senhor acredita que nossa região poderia ter tomado rumos diferentes em relação aos grandes centros econômicos do País?

Adolfs - Sim. Mas não foi o que aconteceu e, então temos apenas que lamentar o látex derramado junto com o sangue de tantos heróis dessa produção econômica e desse delírio coletivo.

Tony – Vejo em sua obra, bons questionamentos para quem estuda economia, história e marketing. O senhor acha que seu livro está direcionado para que público?

Adolfs - Pode ser analisado nesse sentido. Uma obra, seja ela qual for, pode mostrar muitos caminhos.

Tony – Como o senhor vê a atual situação da literatura amazonense?

Adolfs - Boas edições locais, mas pouco incentivo no que diz respeito à revelação de novos escritores, seja por meio de bolsas, projetos ou concursos literários.

Tony – Quais os seus autores preferidos?

Adolfs - Olha, sempre li muito e muitos. Para citar alguns, gosto de Kafka, Kundera, Sam Shepard, Llosa e do Márcio Souza, que muito me influenciou na questão da abordagem histórica.

Tony - O senhor está escrevendo algum livro atualmente?

Adolfs - Sim. Estou trabalhando em um romance histórico sobre a construção de nossa Catedral e, também, em um livro de contos.

*Marco Adolfs
Formado em jornalismo, é roteirista, produtor e diretor. Trabalha atualmente na TV Cultura do Amazonas, onde produz documentários sobre temas regionais e sociais

 



 

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