Sem
qualquer especulação religiosa ou trama mirabolante,
O Caçador de Pipas foi a única obra que tirou o Código
da Vinci do topo da lista de livros de ficção mais vendidos
do Brasil. Qual seria o “código” secreto de sucesso
do seu romance?
Fiquei
maravilhado com a recepção que o livro esta recebendo,
inclusive no Brasil, onde tenho feito bastante sucesso. Acho que a
resposta para sua pergunta é que nas entrelinhas, seja em Cabul,
Paris ou Rio de Janeiro algumas emoções e experiências
são universais.
É
possível ler O Caçador de Pipas a partir de duas perspectivas
diferentes: como um romance sobre as inúmeras tentativas de
um filho para resgatar o amor do pai, ou como um relato dos últimos
momentos da monarquia do Afeganistão. Qual historia você
pensou primeiro em escrever?
Para
mim, essa história sempre foi sobre um triângulo amoroso
envolvendo Amir, seu pai e seu criado. Isso era o mais importante
da história, era o motor que fazia esse livro sair do lugar
enquanto eu o escrevia. As observações sobre a monarquia,
a guerra soviética ou sobre o Taliban são apenas o pano
de fundo. Todos os acontecimentos políticos servem como um
contexto histórico onde o leitor irá encontrar as provações
e dúvidas de Amir.
Sua
família se exilou nos Estados Unidos logo após a invasão
soviética, mais ou menos como acontece com o seu protagonista
Amir. O Caçador de Pipas seria uma autobiografia disfarçada?
A
maior parte do enredo é ficção. Mas, como em
geral ocorre na ficção, os autores escondem fragmentos
das suas próprias vidas nas narrativas. As descrições
de Cabul durante os anos 70, as discussões políticas,
a organização social, tudo isso é baseado nas
minhas lembranças da época. As disputas de pipa e os
demais jogos que aparecem no livro espelham como eu e meu irmão
costumávamos brincar; assim como o amor de Amir e Hassam por
filmes americanos, especialmente os de westerns. Provavelmente, as
passagens que mais lembram minha própria vida se passam nos
Estados Unidos, com Amir e Baba tentando reconstruir uma nova vida.
Eu também cheguei aos Estados Unidos como um imigrante e me
lembro claramente dos primeiros anos que vivi na Califórnia,
dos poucos momentos felizes e da dificuldade de assimilar uma nova
cultura. Meu pai e eu trabalhamos por um tempo no mercado de pulgas,
onde havia inúmeros afegãos trabalhando; com alguns
deles eu ainda tenho algum tipo de ligação hoje em dia.
Mas a última parte, com Cabul dominada pelo Taliban, é
completamente ficcional.
A
condiçção de imigrante, as dificuldades que você
precisou enfrentar para assimilar uma nova cultura, como tudo isso
influenciou sua maneira de escrever?
Metade
de O Caçador de Pipas foi inspirado em experiências pessoais
que vivi como imigrante aqui nos Estados Unidos. E, devido à
situação de exílio vivida por minha família,
eu acho que consigo escrever com algum nível de segurança
e autoridade em relação a minha terra natal, apesar
de Salman Rushdie dizer que o espelho do exilado está sempre
partido.
Para
a maioria das pessoas, o Afeganistão de hoje está atado
à idéia de Fundamentalismo. Seria uma idéia correta
ou exagerada?
Para
mim, é uma vergonha escutar uma coisa dessas. Embora eu compreenda
que esse tipo de pensamento é fruto de tudo o que tem acontecido
recentemente no Afeganistão, sobretudo depois do 11/9, a verdade
é que o Afeganistão, na maior parte do século
20, foi uma nação pacífica. O fundamentalismo
não começou a se infiltrar no governo até o fim
da guerra soviética. E esse foi o meu ponto de partida para
escrever o livro, para lembrar as pessoas que existiu um Afeganistão
antes do 11/9, antes do Taliban e de Bin Laden. Eu recebo muitos e-mails
de meus leitores surpresos em terem descoberto que, nos anos 60 e
70 Cabul foi uma cidade cosmopolita e com um enorme avant-garde. Mesmo
sendo capital de um país religioso, foi uma cidade bem liberal.
Desses
e-mails que você recebe, há de afegãos exilados?
Qual a reação deles em relação ao romance?
As
respostas dos afegãos tem sido bastante positivas. Costumo
receber e-mails de amigos afegãos que gostaram do livro, que
viram suas próprias vidas e lembranças na trama. É
muito bom receber uma reação tão boa da minha
comunidade. O papel da ficção é tratar de questões
difíceis, sobre temas desconfortáveis, que gerem debate
e, talvez, algum entendimento. Acho que falar sobre assuntos que assombraram
o Afeganistão por um longo tempo é importante, especialmente
hoje.
Em
O Caçador de Pipas basicamente não há personagens
femininos. Qual era o papel da mulher durante a época em que
você crescia no Afeganistão?
Eu
venho de família educada, de classe média alta. Minha
mãe era professora de história num colégio para
garotas. Nessa época as mulheres eram personagens vitais na
economia, o que faz a tragédia do Taliban mais dolorosa.
Você
retornou a Cabul depois de 27 anos de exílio. A cidade que
havia nas suas lembranças guardava alguma semelhança
com a capital afegã que você reencontrou?
Há
um momento no meu livro que Amir diz a seu guia “Eu me sinto
como um turista no meu próprio país”. Por uma
grande parte da viagem, eu me senti desse mesmo jeito. No fim das
contas, eu tinha estado longe por mais de um quarto do século.
Eu não estava lá na guerra contra os soviéticos,
na ascensão do Taliban. Não perdi nenhum membro do meu
corpo em minas ou precisei viver num campo de refugiados. Por um outro
lado, me sentia um outsider, cheio de sorte, mas definitivamente ou
outsider. Havia também uma abundância de armas pela cidade,
uma verdadeira cultura de armamentos, algo que não faz parte
de minhas lembranças lá dos anos 70.
Até
O Caçador de Pipas, você trabalhava como médico.
Qual foi o momento em que você pensou “eu quero ser um
escritor”?
O
curioso é que nunca houve um momento em que pensei, “quero
ser escritor”. Quando era muito jovem, como Amir em O Caçador
de Pipas, eu escrevia pequenas peças e histórias. Pelo
que me lembro, sempre fui fascinado em criar tramas. Mas até
agora nunca havia pensado na escrita como uma profissão, apenas
como um hobby. Agora já tem dias em que eu me vejo como escritor,
especialmente desde que tirei uma folga da medicina.
Já
existe alguma trama em andamento para o próximo livro?
Estou
preparando um novo livro que vai se passar no Afeganistão,
desta vez centrado nas afegãs. Enquanto o primeiro romance
lidava com questões de raça, com classes sociais e religão,
o novo, ainda sem título, vai falar do problema dos gêneros
sexuais. Assim, os personagens principais são duas mulheres,
que se tornam amigas devido a circunstancias bem particulares. Espero
que esteja pronto nos próximos meses.
O
Caçador de Pipas vai ser levado para o cinema. Você tem
alguma voz ativa nessa adaptação?
Em
primeiro lugar, gostaria de dizer que tenho grandes expectativas em
relação a esse filme. Sempre soube que para um autor
não é fácil ver sua obra adaptada, mas um filme
é uma mídia diferente e mudanças precisam ser
feitas. Apesar disso, o script de Daniel Benioff (que também
está escrevendo o roteiro de Wolverine), além de ser
muito tocante, é bem fiel ao livro. Basicamente eu trabalhei
como consultor para o filme e fiquei bem próximo do diretor
Marc Forster (de À Procura da Terra do Nunca).
Por
Schneider Carpeggiani
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