:: ENTREVISTA | KHALED HOSSEINI

A ficção deve tratar de coisas desconfortáveis

Khaled Hosseini

 

O caçador de Pipas
Livro que mostra um lado surpreendente da realidade social do Afeganistão e que tirou o Código da Vinci do primeiro lugar da lista dos mais vendidos no Brasil. Não é apenas mais uma obra sobre o Afeganistão. É um relato sobre as conseqüências de um triângulo
amoroso Familiar.


O escritor afegão que entrou na lista dos mais vendidos em 29 países e é o novo fenômeno do mercado editorial. Tem Cabul como a cidade próspera e cosmopolita no pano de fundo deste best-seller que tomou o lugar do Código da Vinci. Mais que uma obra sobre o Afeganistão, é um relato sobre as conseqüências de um triângulo amoroso familiar: o jovem Amir não aceita dividir a atenção do pai com o criado e amigo de infância Hassam e acaba envolvendo todas as pontas deste triângulo numa grande mentira, que irá mudar o destino de todos eles. Estreante na literatura, Khaled, que até então trabalhava como médico na Califórnia, conversou com o repórter sobre a adaptação do seu romance para o cinema, sobre a surpresa do sucesso e revelou como foi voltar para Cabul após quase três décadas de exílio.
 

Sem qualquer especulação religiosa ou trama mirabolante, O Caçador de Pipas foi a única obra que tirou o Código da Vinci do topo da lista de livros de ficção mais vendidos do Brasil. Qual seria o “código” secreto de sucesso do seu romance?

Fiquei maravilhado com a recepção que o livro esta recebendo, inclusive no Brasil, onde tenho feito bastante sucesso. Acho que a resposta para sua pergunta é que nas entrelinhas, seja em Cabul, Paris ou Rio de Janeiro algumas emoções e experiências são universais.

É possível ler O Caçador de Pipas a partir de duas perspectivas diferentes: como um romance sobre as inúmeras tentativas de um filho para resgatar o amor do pai, ou como um relato dos últimos momentos da monarquia do Afeganistão. Qual historia você pensou primeiro em escrever?

Para mim, essa história sempre foi sobre um triângulo amoroso envolvendo Amir, seu pai e seu criado. Isso era o mais importante da história, era o motor que fazia esse livro sair do lugar enquanto eu o escrevia. As observações sobre a monarquia, a guerra soviética ou sobre o Taliban são apenas o pano de fundo. Todos os acontecimentos políticos servem como um contexto histórico onde o leitor irá encontrar as provações e dúvidas de Amir.

Sua família se exilou nos Estados Unidos logo após a invasão soviética, mais ou menos como acontece com o seu protagonista Amir. O Caçador de Pipas seria uma autobiografia disfarçada?

A maior parte do enredo é ficção. Mas, como em geral ocorre na ficção, os autores escondem fragmentos das suas próprias vidas nas narrativas. As descrições de Cabul durante os anos 70, as discussões políticas, a organização social, tudo isso é baseado nas minhas lembranças da época. As disputas de pipa e os demais jogos que aparecem no livro espelham como eu e meu irmão costumávamos brincar; assim como o amor de Amir e Hassam por filmes americanos, especialmente os de westerns. Provavelmente, as passagens que mais lembram minha própria vida se passam nos Estados Unidos, com Amir e Baba tentando reconstruir uma nova vida. Eu também cheguei aos Estados Unidos como um imigrante e me lembro claramente dos primeiros anos que vivi na Califórnia, dos poucos momentos felizes e da dificuldade de assimilar uma nova cultura. Meu pai e eu trabalhamos por um tempo no mercado de pulgas, onde havia inúmeros afegãos trabalhando; com alguns deles eu ainda tenho algum tipo de ligação hoje em dia. Mas a última parte, com Cabul dominada pelo Taliban, é completamente ficcional.

A condiçção de imigrante, as dificuldades que você precisou enfrentar para assimilar uma nova cultura, como tudo isso influenciou sua maneira de escrever?

Metade de O Caçador de Pipas foi inspirado em experiências pessoais que vivi como imigrante aqui nos Estados Unidos. E, devido à situação de exílio vivida por minha família, eu acho que consigo escrever com algum nível de segurança e autoridade em relação a minha terra natal, apesar de Salman Rushdie dizer que o espelho do exilado está sempre partido.

Para a maioria das pessoas, o Afeganistão de hoje está atado à idéia de Fundamentalismo. Seria uma idéia correta ou exagerada?

Para mim, é uma vergonha escutar uma coisa dessas. Embora eu compreenda que esse tipo de pensamento é fruto de tudo o que tem acontecido recentemente no Afeganistão, sobretudo depois do 11/9, a verdade é que o Afeganistão, na maior parte do século 20, foi uma nação pacífica. O fundamentalismo não começou a se infiltrar no governo até o fim da guerra soviética. E esse foi o meu ponto de partida para escrever o livro, para lembrar as pessoas que existiu um Afeganistão antes do 11/9, antes do Taliban e de Bin Laden. Eu recebo muitos e-mails de meus leitores surpresos em terem descoberto que, nos anos 60 e 70 Cabul foi uma cidade cosmopolita e com um enorme avant-garde. Mesmo sendo capital de um país religioso, foi uma cidade bem liberal.

Desses e-mails que você recebe, há de afegãos exilados? Qual a reação deles em relação ao romance?

As respostas dos afegãos tem sido bastante positivas. Costumo receber e-mails de amigos afegãos que gostaram do livro, que viram suas próprias vidas e lembranças na trama. É muito bom receber uma reação tão boa da minha comunidade. O papel da ficção é tratar de questões difíceis, sobre temas desconfortáveis, que gerem debate e, talvez, algum entendimento. Acho que falar sobre assuntos que assombraram o Afeganistão por um longo tempo é importante, especialmente hoje.

Em O Caçador de Pipas basicamente não há personagens femininos. Qual era o papel da mulher durante a época em que você crescia no Afeganistão?

Eu venho de família educada, de classe média alta. Minha mãe era professora de história num colégio para garotas. Nessa época as mulheres eram personagens vitais na economia, o que faz a tragédia do Taliban mais dolorosa.

Você retornou a Cabul depois de 27 anos de exílio. A cidade que havia nas suas lembranças guardava alguma semelhança com a capital afegã que você reencontrou?

Há um momento no meu livro que Amir diz a seu guia “Eu me sinto como um turista no meu próprio país”. Por uma grande parte da viagem, eu me senti desse mesmo jeito. No fim das contas, eu tinha estado longe por mais de um quarto do século. Eu não estava lá na guerra contra os soviéticos, na ascensão do Taliban. Não perdi nenhum membro do meu corpo em minas ou precisei viver num campo de refugiados. Por um outro lado, me sentia um outsider, cheio de sorte, mas definitivamente ou outsider. Havia também uma abundância de armas pela cidade, uma verdadeira cultura de armamentos, algo que não faz parte de minhas lembranças lá dos anos 70.

Até O Caçador de Pipas, você trabalhava como médico. Qual foi o momento em que você pensou “eu quero ser um escritor”?

O curioso é que nunca houve um momento em que pensei, “quero ser escritor”. Quando era muito jovem, como Amir em O Caçador de Pipas, eu escrevia pequenas peças e histórias. Pelo que me lembro, sempre fui fascinado em criar tramas. Mas até agora nunca havia pensado na escrita como uma profissão, apenas como um hobby. Agora já tem dias em que eu me vejo como escritor, especialmente desde que tirei uma folga da medicina.

Já existe alguma trama em andamento para o próximo livro?

Estou preparando um novo livro que vai se passar no Afeganistão, desta vez centrado nas afegãs. Enquanto o primeiro romance lidava com questões de raça, com classes sociais e religão, o novo, ainda sem título, vai falar do problema dos gêneros sexuais. Assim, os personagens principais são duas mulheres, que se tornam amigas devido a circunstancias bem particulares. Espero que esteja pronto nos próximos meses.

O Caçador de Pipas vai ser levado para o cinema. Você tem alguma voz ativa nessa adaptação?

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que tenho grandes expectativas em relação a esse filme. Sempre soube que para um autor não é fácil ver sua obra adaptada, mas um filme é uma mídia diferente e mudanças precisam ser feitas. Apesar disso, o script de Daniel Benioff (que também está escrevendo o roteiro de Wolverine), além de ser muito tocante, é bem fiel ao livro. Basicamente eu trabalhei como consultor para o filme e fiquei bem próximo do diretor Marc Forster (de À Procura da Terra do Nunca).

Por Schneider Carpeggiani

* Entrevista publicada na revista Continente Multicultural) em agosto de 2006 



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