:: ENTREVISTA | Juçara Dutra Vieira

As prefeituras podiam enviar pelo menos um jornal diário para cada escola do seu município

Ao lançar, em 2003, o livro Identidade Expropriada – Retrato do Educador Brasileiro, a professora gaúcha revelou o alarmante cenário em que vivem os professores do Brasil. A obra é baseada na pesquisa Retrato da Escola 3 (realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE, da qual é presidente), em que foram entrevistadas 4.656 pessoas, que atuam em todos os níveis e redes de ensino de dez Estados. Entre outros dados preocupantes, o trabalho mostra que apenas 41,6% dos educadores e funcionários, a maioria da escola pública, lêem um ou mais livros por mês. Segundo a professora, formada em Letras com especialização em Literatura Brasileira, a constatação é dramática porque o educador é um dos principais responsáveis pela formação de novos leitores. Para ela, professor não-leitor reproduz alunos não-leitores, perpetuando um modelo que explica, em parte, os baixos índices de leitura do País.

Panorama Editorial – Como surgiu a idéia do livro Identidade Expropriada – Retrato do Educador Brasileiro?

Juçara Dutra Vieira – Desde o final da década de 90, a CNTE em feito algumas investigações sobre os trabalhadores em Educação. A primeira da série, chamada de Retrato da Escola 1, feita com recursos da Organização Internacional do Trabalho (OIT), abordou a questão da saúde mental destes trabalhadores. Em 2002, em Retrato da Escola 2, não trabalhamos apenas com os educadores, mas inserimos temas como infra-estrutura de ensino, a sua relação com a violência, com as drogas e com a gestão democrática. Em seguida, produzimos a pesquisa Retrato da Escola 3, mais focada na situação dos trabalhadores em Educação, a partir de uma amostragem de 4.656 profissionais, distribuídos por dez Estados (Tocantins, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Paraná, Alagoas, Mato Grosso, Piauí, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul). Os dados deste último estudo foram trabalhados pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos). No momento da divulgação, achei que devíamos dar à pesquisa um outro tratamento. Então, escrevi este pequeno livro.

Panorama Editorial – E quais são os resultados mais expressivos deste trabalho? Que revelações ele traz?

Juçara – O livro é dividido em quatro capítulos. O primeiro mostra, entre outros aspectos, que somos mais mulheres (83%), como sobrevivemos, como cuidados da saúde e, também, como nos relacionamos com a leitura e o lazer. O segundo aborda questões como a formação e a capacitação dos professores e funcionários em Educação (66,3%, por exemplo, têm curso superior); salários, carreira e jornada de trabalho; e ainda, trata da relação escola/aluno, considerando que o estudante, hoje, é bastante diferente daquele do passado. O outro discute a questão social, das nossas lutas e como a legislação foi ampliando nossas demandas. Tudo isso leva a várias constatações, contidas na conclusão do livro, que coincidem com as análises pontuais que tenho publicado em revistas e periódicos educacionais, reelaboradas, e contextualizadas à luz desses indicadores da pesquisa. Os dados reforçam a tese de que os trabalhadores em Educação vivem, mais do que uma situação conjuntural, um processo de expropriação de identidade como componente e reflexo da redução do próprio papel da Educação. Veja, não pretendo alimentar o ceticismo em torno de um quadro difícil, mas somar essas reflexões às muitas iniciativas que os setores sociais, especialmente os vinculados à área, têm produzido ou fomentado. A Educação é estratégica para as mudanças culturais do País e os educadores são, também, fundamentais. Discuto a busca de uma nova identidade a partir do que nos está desafiado.

Panorama Editorial - O trabalho aborda também a questão da leitura os professores. Quais são os resultados e a que conclusões eles levam?

Juçara – Nós já tínhamos levantado esse assunto na pesquisa Retrato da Escola 2, em 2001, que revelou, por exemplo, que professores com tempo suficiente para cultivar o hábito da leitura obtêm melhores rendimentos de seus alunos. O mesmo vale tanto a para a leitura de referência como para literatura, jornais, revistas e, inclusive, histórias em quadrinhos. Aliás, os quadrinhos permitem ao educador conhecer o universo dos alunos e se aproximar deles, porque fala a mesma língua, usando exemplos desse universo como paradigma para as aulas. Daí a importância de haver tempo livre para apreensão de conhecimento e de vivência de outras fontes para a qualidade da Educação. Evidentemente, a falta de tempo e os baixos salários prejudicam essas atividades. O acesso a programas culturais, por exemplo, praticamente inexiste no âmbito dos trabalhadores em Educação, restando somente a TV como opção de lazer.

Panorama Editorial – E na pesquisa que originou o livro, Retrato da Escola 3, quais são esses índices?

Juçara – Foram entrevistados, proporcionalmente, professores de educação infantil, fundamental e média e, também, funcionários de escolas, em um número menor. E colocamos tanto a leitura quanto o cinema, o teatro e a televisão dentro do tempo livre dos educadores. Agrupamos por categoria teatro e cinema; leitura; e televisão. Aí, perguntamos com que freqüência eles iam ao teatro e cinema. Pela média ponderada, uma ou mais vezes, apenas 5,9%; de vez em quando, 13,1%; quase nunca, 18,4%; e nunca, 62,6%. Esses índices são mais alarmantes nos Estados de Tocantins e Piauí do que no Rio Grande do Sul e Espírito Santo, por exemplo, e se relacionam com o poder aquisitivo. Depois, perguntamos com que freqüência eles assistiam à TV. A grande maioria assiste diariamente (36%) e eventualmente (18%). Isso acontece, basicamente, porque eles têm acesso ao bem. O problema é que, uma vez que a formação do professor é essencialmente humanística, a televisão não deveria ser a única fonte de formação e informação, pois, na verdade, trata-se de uma informação reprocessada muitas vezes. Depois, entramos na categoria de leitura que mostrou a seguinte média ponderada: 41,6% lêem um livro ou mais por mês; de vez em quando, 33,9%; não lê, 6,7%; e não responderam, 17,8%. Achamos muito alto o percentual de pessoas que não responderam e atribuímos o comportamento a um eventual constrangimento.

Panorama Editorial – Para a senhora estes dados são positivos ou negativos?

Juçara – Em comparação com as outras atividades de cultura e lazer consideremos que a média de quem lê um ou mais livros por mês, somada com a de quem lê de vez em quando, acaba sendo até um percentual significativo. Porém, não podemos esquecer de que o livro está entre as principais ferramentas de trabalho dos educadores. Portanto, provavelmente muitos deles lêem porque precisam, porque a leitura, é na verdade, uma ferramenta de trabalho e não uma atividade realizada com prazer. Infelizmente, não desdobramos a pesquisa nesse nível. Mas esse dado até me chamou a atenção depois. Talvez devêssemos fazer uma nova pesquisa, especificando a questão dos livros de literatura, por exemplo.

Panorama Editorial – De qualquer maneira, o percentual de professores que não lêem é alto. O que significa ter um professor não-leitor?

Juçara – Significa reproduzir não-leitores. Como o livro é uma das matérias-primas a partir da qual o educador constrói seus raciocínios, suas idéias, sua base de informações, não dispor deles perpetua o problema dos baixos índices de leitura do País. E, se compararmos a leitura com a falta de outras atividades culturais como o cinema, o teatro e as artes plásticas, a situação é ainda mais grave. Veja, apesar da emergência de novas possibilidades e suportes, nossa cultura continua sendo, fundamentalmente, letrada. Daí a importância do cultivo do hábito de ler.

Panorama Editorial – A pesquisa conseguiu mensurar a dimensão do problema e há quanto tempo ele se instalou entre os educadores brasileiros?

Juçara – São fatores combinados. Tivemos nos últimos 40 anos uma inversão da população brasileira do campo para as áreas urbanas. Há quatro décadas 70% dos brasileiros viviam na zona rural; hoje, vivemos um processo de urbanização muito forte. Naquele contexto, os professores do antigo primário e ginásio eram recrutados em uma classe social de maior poder aquisitivo, sem necessidade de trabalhar o dia inteiro. As antigas professoras primárias trabalhavam 20 horas semanais e dedicavam as outras 20 horas a outras atividades. Os alunos, na minha geração, mesmo da escola pública, estudavam pela manhã e à tarde faziam cursos de música, pintura etc. A massificação da Educação fundamental, uma coisa extremamente importante, iniciada nos anos 70, também mudou o cenário. Em 1971, o nível da escolarização – primário com cinco anos e o ginásio com quatro – já encolheu. Por uma medida de economia, a educação fundamental passou para oito anos. A isso se somou a necessidade de uma rápida formação de professores. Foi quando surgiram as licenciaturas de curta duração, para dar conta desse contingente de novos alunos que chegavam à escola. Este é um fato positivo, mas eles iam à escola, digamos, nessa correria.

Panorama Editorial – E qual foi o impacto desse processo no surgimento dos professores não-leitores?

Juçara – Primeiro, os candidatos aos cursos da área de Educação passaram a ser buscados nas classes populares. Veja, esse é um dado positivo, porque significou a democratização, a função de professor não mais restrita à elite. No entanto, trouxe a reboque um dado muito problemático: as universidades não se prepararam para suprir essa falta de leitura dos candidatos a professor. Como profissional, vivi essa experiência de perto. Dava aulas de Língua Portuguesa e de Literatura tanto na rede pública quanto em faculdade particular do Interior do Rio Grande do Sul. De repente, minhas alunas nos cursos de Letras e Pedagogia passaram a ser trabalhadores de baixa qualificação e remuneração. O que aconteceu? No começo, pedia que comprassem em torno de cinco livros por mês, até que a direção da faculdade disse que eu não podia mais fazer essa recomendação, porque só a mensalidade já era cara demais para este grupo. Aí, fui diminuindo, inventei uma técnica de compra em grupo e uma ia passando o livro para a outra. No final, decidi que não podia mais dar aula sem que as pessoas lessem. Eu saí em 1993, quando começou a se acentuar esse processo.

Panorama Editorial – A senhora diria que este quadro é mais grave no ensino público do que no privado?

Juçara – Acho que é mais grave no público, porque os salários são mais achatados. Mas vejo também no ensino privado aspectos que agravam a situação, como a alta rotatividade de professores. Veja, se este educador é constantemente substituído, não há tempo para prepará-lo, capitá-lo. Essa questão envolve responsabilidades tanto do gestor – prefeito, governador, presidente da República, o ministro da Educação – como também da universidade. Aliás, a universidade não se deu conta de que, ao receber esses estudantes não-leitores, tem de fazer uma espécie de compensação. Quando um novo aluno chega ao curso de Letras e Pedagogia tendo lido apenas cinco livros na vida, a instituição deveria promover um ano básico de nivelamento. O paradoxo é que os currículos continuam sendo aplicados como se essas pessoas fossem leitoras, e não o são. Nos últimos anos que lecionei, simplesmente tive de abandonar os livros e comecei a trabalhar com textos. Sublinhava a idéia principal do texto para que houvesse entendimento. Sabe por quê? Eu recomendava uma leitura, presumia que ela tinha sido entendida, mas isso não acontecia.

Panorama Editorial – Esse quadro é ainda mais perverso no ensino superior porque a pirâmide se inverte: vai para a instituição pública quem estudou nas escolas particulares e para as particulares e estudante da rede pública. Nesse sentido, a senhora diria que a responsabilidade dessas instituições privadas é maior? E como se controla a qualidade do ensino que elas oferecem?

Juçara – Não tem controle. Veja, existe controle na autorização dos cursos, mas não há qualquer fiscalização sobre o que acontece dentro da universidade. Se o reitor for preso por corrupção, por exemplo, isso já não é assunto do Ministério da Educação. Como os cursos de licenciatura – à exceção daquelas áreas que exigem laboratório – são os mais baratos, também fica mais fácil instituir esses cursos. E, depois, se ele não tiver qualidade alguma não há como controlar. Acho que deve haver um controle social e governamental maior. Não significa tirar a liberdade acadêmica, mas exigir um mínimo de qualidade e rigor sobre ela. Dentro do projeto de reforma de ensino superior, um dos aspectos positivos é reapropriação pelo poder público dessas instituições, funcionando como uma política de Estado. Para mim, a questão da qualidade do ensino superior é fundamental, porque a ampliação da base de leitores passa, necessariamente, pela melhoria da qualidade da formação do educador. Não tenho a menor dúvida disso. E insisto que não temos como formar leitores se nossos educadores, em todos os níveis, são não-leitores.

Panorama Editorial – Na sua opinião existem caminhos possíveis para o Brasil para reverter esse quadro?

Juçara – Existem soluções sim, algumas simples e baratas. Por exemplo, para atender a demanda por informação, as prefeituras podiam enviar pelo menos um jornal diário para cada escola do seu município. Além de não ser nenhuma fortuna, já ajuda o professor a formar sua base de informações. Fora isso, os gestores públicos precisam criar e manter políticas de incentivo à leitura. Há governos municipais e estaduais que repartem o remanescente de dinheiro de fundos públicos e tais recursos poderiam ser transformados em livros para as escolas. Essas pequenas iniciativas melhorariam os índices de leitura dos professores, pois, para mim, eles não lêem porque não gostam, mas porque não é prioridade.

Panorama Editorial – E de que maneira o mercado editorial poderia contribuir?

Juçara – Quando se começou, bem ou mal, uma política de livro didático, que acaba sendo necessária, alguns editores foram pelo caminho mais fácil, colocando o seu livro na escola e ponto final. Depois, já no governo Fernando Henrique Cardoso, quando foram instituídos alguns parâmetros curriculares, os editores já foram mais atrás das sugestões. Mas esse avanço atingiu, basicamente, alunos. Agora, em relação ao professor, ainda não. O que é até natural, afinal, estamos ainda engatinhando na responsabilidade do poder público em formar os professores. Há menos de dois anos iniciamos as discussões sobre a implantação de uma rede nacional de formação, na qual o poder público tem a responsabilidade também de formar professores. Portanto, entendo que apenas a partir desse projeto poderemos chamar para discussão o editor.

Panorama Editorial – E de maneira ele poderá colaborar?

Juçara – Talvez apostando em formatos de fácil aquisição, como os livros de bolso, com foco maior não apenas na área de Literatura, mas nas de Filosofia e Sociologia, por exemplo. O livro técnico, de alguma forma, as pessoas se esforçam e compram. Sabe aquela obra para ensinar logaritmo? Esse o professor vai lá e compra. Mas os outros precisam de estímulo, senão o professor não prioriza.

* Entrevista publicada na revista Panorama Editorial (Câmara Brasileira do Livro), ano II, nº16


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