Panorama
Editorial – Como surgiu a idéia do
livro Identidade Expropriada – Retrato do Educador Brasileiro?
Juçara
Dutra Vieira – Desde o final da década de 90, a CNTE
em feito algumas investigações sobre os trabalhadores
em Educação. A primeira da série, chamada de
Retrato da Escola 1, feita com recursos da Organização
Internacional do Trabalho (OIT), abordou a questão da saúde
mental destes trabalhadores. Em 2002, em Retrato da Escola 2, não
trabalhamos apenas com os educadores, mas inserimos temas como infra-estrutura
de ensino, a sua relação com a violência, com
as drogas e com a gestão democrática. Em seguida,
produzimos a pesquisa Retrato da Escola 3, mais focada na situação
dos trabalhadores em Educação, a partir de uma amostragem
de 4.656 profissionais, distribuídos por dez Estados (Tocantins,
Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Paraná, Alagoas,
Mato Grosso, Piauí, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande
do Sul). Os dados deste último estudo foram trabalhados pelo
Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos
Sócio-Econômicos). No momento da divulgação,
achei que devíamos dar à pesquisa um outro tratamento.
Então, escrevi este pequeno livro.
Panorama Editorial –
E quais são os resultados mais expressivos deste trabalho?
Que revelações ele traz?
Juçara
– O livro é dividido em quatro capítulos. O
primeiro mostra, entre outros aspectos, que somos mais mulheres
(83%), como sobrevivemos, como cuidados da saúde e, também,
como nos relacionamos com a leitura e o lazer. O segundo aborda
questões como a formação e a capacitação
dos professores e funcionários em Educação
(66,3%, por exemplo, têm curso superior); salários,
carreira e jornada de trabalho; e ainda, trata da relação
escola/aluno, considerando que o estudante, hoje, é bastante
diferente daquele do passado. O outro discute a questão social,
das nossas lutas e como a legislação foi ampliando
nossas demandas. Tudo isso leva a várias constatações,
contidas na conclusão do livro, que coincidem com as análises
pontuais que tenho publicado em revistas e periódicos educacionais,
reelaboradas, e contextualizadas à luz desses indicadores
da pesquisa. Os dados reforçam a tese de que os trabalhadores
em Educação vivem, mais do que uma situação
conjuntural, um processo de expropriação de identidade
como componente e reflexo da redução do próprio
papel da Educação. Veja, não pretendo alimentar
o ceticismo em torno de um quadro difícil, mas somar essas
reflexões às muitas iniciativas que os setores sociais,
especialmente os vinculados à área, têm produzido
ou fomentado. A Educação é estratégica
para as mudanças culturais do País e os educadores
são, também, fundamentais. Discuto a busca de uma
nova identidade a partir do que nos está desafiado.
Panorama Editorial -
O trabalho aborda também a questão da leitura os professores.
Quais são os resultados e a que conclusões eles levam?
Juçara
– Nós já tínhamos levantado esse assunto
na pesquisa Retrato da Escola 2, em 2001, que revelou, por exemplo,
que professores com tempo suficiente para cultivar o hábito
da leitura obtêm melhores rendimentos de seus alunos. O mesmo
vale tanto a para a leitura de referência como para literatura,
jornais, revistas e, inclusive, histórias em quadrinhos.
Aliás, os quadrinhos permitem ao educador conhecer o universo
dos alunos e se aproximar deles, porque fala a mesma língua,
usando exemplos desse universo como paradigma para as aulas. Daí
a importância de haver tempo livre para apreensão de
conhecimento e de vivência de outras fontes para a qualidade
da Educação. Evidentemente, a falta de tempo e os
baixos salários prejudicam essas atividades. O acesso a programas
culturais, por exemplo, praticamente inexiste no âmbito dos
trabalhadores em Educação, restando somente a TV como
opção de lazer.
Panorama Editorial –
E na pesquisa que originou o livro, Retrato da Escola 3, quais são
esses índices?
Juçara
– Foram entrevistados, proporcionalmente, professores de educação
infantil, fundamental e média e, também, funcionários
de escolas, em um número menor. E colocamos tanto a leitura
quanto o cinema, o teatro e a televisão dentro do tempo livre
dos educadores. Agrupamos por categoria teatro e cinema; leitura;
e televisão. Aí, perguntamos com que freqüência
eles iam ao teatro e cinema. Pela média ponderada, uma ou
mais vezes, apenas 5,9%; de vez em quando, 13,1%; quase nunca, 18,4%;
e nunca, 62,6%. Esses índices são mais alarmantes
nos Estados de Tocantins e Piauí do que no Rio Grande do
Sul e Espírito Santo, por exemplo, e se relacionam com o
poder aquisitivo. Depois, perguntamos com que freqüência
eles assistiam à TV. A grande maioria assiste diariamente
(36%) e eventualmente (18%). Isso acontece, basicamente, porque
eles têm acesso ao bem. O problema é que, uma vez que
a formação do professor é essencialmente humanística,
a televisão não deveria ser a única fonte de
formação e informação, pois, na verdade,
trata-se de uma informação reprocessada muitas vezes.
Depois, entramos na categoria de leitura que mostrou a seguinte
média ponderada: 41,6% lêem um livro ou mais por mês;
de vez em quando, 33,9%; não lê, 6,7%; e não
responderam, 17,8%. Achamos muito alto o percentual de pessoas que
não responderam e atribuímos o comportamento a um
eventual constrangimento.
Panorama Editorial –
Para a senhora estes dados são positivos ou negativos?
Juçara
– Em comparação com as outras atividades de
cultura e lazer consideremos que a média de quem lê
um ou mais livros por mês, somada com a de quem lê de
vez em quando, acaba sendo até um percentual significativo.
Porém, não podemos esquecer de que o livro está
entre as principais ferramentas de trabalho dos educadores. Portanto,
provavelmente muitos deles lêem porque precisam, porque a
leitura, é na verdade, uma ferramenta de trabalho e não
uma atividade realizada com prazer. Infelizmente, não desdobramos
a pesquisa nesse nível. Mas esse dado até me chamou
a atenção depois. Talvez devêssemos fazer uma
nova pesquisa, especificando a questão dos livros de literatura,
por exemplo.
Panorama Editorial –
De qualquer maneira, o percentual de professores que não
lêem é alto. O que significa ter um professor não-leitor?
Juçara
– Significa reproduzir não-leitores. Como o livro é
uma das matérias-primas a partir da qual o educador constrói
seus raciocínios, suas idéias, sua base de informações,
não dispor deles perpetua o problema dos baixos índices
de leitura do País. E, se compararmos a leitura com a falta
de outras atividades culturais como o cinema, o teatro e as artes
plásticas, a situação é ainda mais grave.
Veja, apesar da emergência de novas possibilidades e suportes,
nossa cultura continua sendo, fundamentalmente, letrada. Daí
a importância do cultivo do hábito de ler.
Panorama Editorial –
A pesquisa conseguiu mensurar a dimensão do problema e há
quanto tempo ele se instalou entre os educadores brasileiros?
Juçara
– São fatores combinados. Tivemos nos últimos
40 anos uma inversão da população brasileira
do campo para as áreas urbanas. Há quatro décadas
70% dos brasileiros viviam na zona rural; hoje, vivemos um processo
de urbanização muito forte. Naquele contexto, os professores
do antigo primário e ginásio eram recrutados em uma
classe social de maior poder aquisitivo, sem necessidade de trabalhar
o dia inteiro. As antigas professoras primárias trabalhavam
20 horas semanais e dedicavam as outras 20 horas a outras atividades.
Os alunos, na minha geração, mesmo da escola pública,
estudavam pela manhã e à tarde faziam cursos de música,
pintura etc. A massificação da Educação
fundamental, uma coisa extremamente importante, iniciada nos anos
70, também mudou o cenário. Em 1971, o nível
da escolarização – primário com cinco
anos e o ginásio com quatro – já encolheu. Por
uma medida de economia, a educação fundamental passou
para oito anos. A isso se somou a necessidade de uma rápida
formação de professores. Foi quando surgiram as licenciaturas
de curta duração, para dar conta desse contingente
de novos alunos que chegavam à escola. Este é um fato
positivo, mas eles iam à escola, digamos, nessa correria.
Panorama Editorial –
E qual foi o impacto desse processo no surgimento dos professores
não-leitores?
Juçara
– Primeiro, os candidatos aos cursos da área de Educação
passaram a ser buscados nas classes populares. Veja, esse é
um dado positivo, porque significou a democratização,
a função de professor não mais restrita à
elite. No entanto, trouxe a reboque um dado muito problemático:
as universidades não se prepararam para suprir essa falta
de leitura dos candidatos a professor. Como profissional, vivi essa
experiência de perto. Dava aulas de Língua Portuguesa
e de Literatura tanto na rede pública quanto em faculdade
particular do Interior do Rio Grande do Sul. De repente, minhas
alunas nos cursos de Letras e Pedagogia passaram a ser trabalhadores
de baixa qualificação e remuneração.
O que aconteceu? No começo, pedia que comprassem em torno
de cinco livros por mês, até que a direção
da faculdade disse que eu não podia mais fazer essa recomendação,
porque só a mensalidade já era cara demais para este
grupo. Aí, fui diminuindo, inventei uma técnica de
compra em grupo e uma ia passando o livro para a outra. No final,
decidi que não podia mais dar aula sem que as pessoas lessem.
Eu saí em 1993, quando começou a se acentuar esse
processo.
Panorama Editorial –
A senhora diria que este quadro é mais grave no ensino público
do que no privado?
Juçara
– Acho que é mais grave no público, porque os
salários são mais achatados. Mas vejo também
no ensino privado aspectos que agravam a situação,
como a alta rotatividade de professores. Veja, se este educador
é constantemente substituído, não há
tempo para prepará-lo, capitá-lo. Essa questão
envolve responsabilidades tanto do gestor – prefeito, governador,
presidente da República, o ministro da Educação
– como também da universidade. Aliás, a universidade
não se deu conta de que, ao receber esses estudantes não-leitores,
tem de fazer uma espécie de compensação. Quando
um novo aluno chega ao curso de Letras e Pedagogia tendo lido apenas
cinco livros na vida, a instituição deveria promover
um ano básico de nivelamento. O paradoxo é que os
currículos continuam sendo aplicados como se essas pessoas
fossem leitoras, e não o são. Nos últimos anos
que lecionei, simplesmente tive de abandonar os livros e comecei
a trabalhar com textos. Sublinhava a idéia principal do texto
para que houvesse entendimento. Sabe por quê? Eu recomendava
uma leitura, presumia que ela tinha sido entendida, mas isso não
acontecia.
Panorama Editorial –
Esse quadro é ainda mais perverso no ensino superior porque
a pirâmide se inverte: vai para a instituição
pública quem estudou nas escolas particulares e para as particulares
e estudante da rede pública. Nesse sentido, a senhora diria
que a responsabilidade dessas instituições privadas
é maior? E como se controla a qualidade do ensino que elas
oferecem?
Juçara
– Não tem controle. Veja, existe controle na autorização
dos cursos, mas não há qualquer fiscalização
sobre o que acontece dentro da universidade. Se o reitor for preso
por corrupção, por exemplo, isso já não
é assunto do Ministério da Educação.
Como os cursos de licenciatura – à exceção
daquelas áreas que exigem laboratório – são
os mais baratos, também fica mais fácil instituir
esses cursos. E, depois, se ele não tiver qualidade alguma
não há como controlar. Acho que deve haver um controle
social e governamental maior. Não significa tirar a liberdade
acadêmica, mas exigir um mínimo de qualidade e rigor
sobre ela. Dentro do projeto de reforma de ensino superior, um dos
aspectos positivos é reapropriação pelo poder
público dessas instituições, funcionando como
uma política de Estado. Para mim, a questão da qualidade
do ensino superior é fundamental, porque a ampliação
da base de leitores passa, necessariamente, pela melhoria da qualidade
da formação do educador. Não tenho a menor
dúvida disso. E insisto que não temos como formar
leitores se nossos educadores, em todos os níveis, são
não-leitores.
Panorama Editorial –
Na sua opinião existem caminhos possíveis para o Brasil
para reverter esse quadro?
Juçara
– Existem soluções sim, algumas simples e baratas.
Por exemplo, para atender a demanda por informação,
as prefeituras podiam enviar pelo menos um jornal diário
para cada escola do seu município. Além de não
ser nenhuma fortuna, já ajuda o professor a formar sua base
de informações. Fora isso, os gestores públicos
precisam criar e manter políticas de incentivo à leitura.
Há governos municipais e estaduais que repartem o remanescente
de dinheiro de fundos públicos e tais recursos poderiam ser
transformados em livros para as escolas. Essas pequenas iniciativas
melhorariam os índices de leitura dos professores, pois,
para mim, eles não lêem porque não gostam, mas
porque não é prioridade.
Panorama Editorial –
E de que maneira o mercado editorial poderia contribuir?
Juçara
– Quando se começou, bem ou mal, uma política
de livro didático, que acaba sendo necessária, alguns
editores foram pelo caminho mais fácil, colocando o seu livro
na escola e ponto final. Depois, já no governo Fernando Henrique
Cardoso, quando foram instituídos alguns parâmetros
curriculares, os editores já foram mais atrás das
sugestões. Mas esse avanço atingiu, basicamente, alunos.
Agora, em relação ao professor, ainda não.
O que é até natural, afinal, estamos ainda engatinhando
na responsabilidade do poder público em formar os professores.
Há menos de dois anos iniciamos as discussões sobre
a implantação de uma rede nacional de formação,
na qual o poder público tem a responsabilidade também
de formar professores. Portanto, entendo que apenas a partir desse
projeto poderemos chamar para discussão o editor.
Panorama Editorial –
E de maneira ele poderá colaborar?
Juçara
– Talvez apostando em formatos de fácil aquisição,
como os livros de bolso, com foco maior não apenas na área
de Literatura, mas nas de Filosofia e Sociologia, por exemplo. O
livro técnico, de alguma forma, as pessoas se esforçam
e compram. Sabe aquela obra para ensinar logaritmo? Esse o professor
vai lá e compra. Mas os outros precisam de estímulo,
senão o professor não prioriza.
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Entrevista publicada na revista Panorama Editorial (Câmara
Brasileira do Livro), ano II, nº16
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