ENTREVISTA
   

 

escritor Lewis Carroll, conhecido pelos famosos livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através dos Espelhos, morreu há 110 anos; entretanto, suas obras cada vez mais se mostram imortais, sendo conhecidas em diversos países e culturas. Carroll também escreveu A Caçada do Snark, recentemente traduzido para o português pelo escritor amazonense Jorge Bandeira e publicado pela Editora Valer. Nesta entrevista, Bandeira fala como foi traduzir Snark, além contar curiosidades sobre a obra e o autor.

por Tony Santos


1 - Como foi para você conhecer e chegar ao ponto de traduzir Snark?
Jorge Bandeira - Eu conheci Snark por meio da crítica comentada, que li numa edição de Alice no País das Maravilhas. A tradução começou em 2005, eu dei um pequeno reparo nela, juntamente com o acadêmico Zemaria Pinto, ele fez também uma revisão da obra. Mas para fazer algumas junções, mantendo a métrica, a rima e a musicalidade, algumas vezes empacava e parávamos tudo. Porque não encontrávamos uma solução na tradução. Mesmo sendo uma obra de cem páginas, é considerada um dos grandes poemas “non sense” em língua inglesa da literatura universal.

2 - Em que época foram lançadas as obras mais famosas de Lewis Carroll?
Bandeira - A história de Alice no País das Maravilhas é de 1865; em 1872, ele dá a continuação com Alice Através do Espelho e o que ela encontrou por lá. Já em 1876, foi a vez de A Caçada do Snark.

3 - O quê significa a palavra snark?
Bandeira - Não dá para dizer um significado tão ao pé da letra. Mas a variação das traduções existentes em língua portuguesa: snark – snake (cobra) + shark (tubarão), cobrarão (cobra e tubarão) e Turpente (tubarão e serpente). Isso, na tradução de Álvaro A. Antunes. Eu optei em manter a original, sem traduzir “snark”, visando garantir a proposta lúdica e fonética de Lewis Carrol. Até a pronúncia do nome original, snark, remete ao sibilar de uma cobra e a mordida de um tubarão. Ou seja, a onomatopéia está adequada.

4 - Conte outra curiosidade na tradução do livro.
Bandeira - O nome Bell-man, que optei em traduzir para Leiloeiro, e não Sineiro. Sineiro seria Bellringer ou Bell maker, porque, juntamente com as passagens do poema, há um homem que toca insistentemente um sino. O que me remeteu à profissão dos leiloeiros, que tocavam sinetas e batiam martelos para fechar as vendas. Além disso, a imagem de um leiloeiro dentro de um barco à procura do inexistente é carregada de uma simbologia bem mais interessante. “Quem dá mais por um sonho?” (risos).

 

5 – Você optou pelo inglês britânico ou americano?
Bandeira - Na verdade, o meu inglês está mais para o britânico, mas eu não freqüentei cursos, fui autodidata, talvez pela facilidade que tenho para lidar com as palavras, ou, também, pelo meu envolvimento com o teatro e a música, quando fui o vocal da banda “Alma Nômade”.

6 – Existem outras traduções dessa obra em português?
Bandeira - Existem sim. Mas essa nova tradução de Snark é um marco na literatura nacional. Sei que há uma lusófona, chamada de A Caçada ao Turpente, e que também é uma edição esgotada há muito tempo. O que fizemos, porém, nesta nova, foi transcrever tendo o cuidado de não descaracterizar a obra. Até porque uma tradução literal é impossível. Quando ele coloca esse ser que não aparece no poema, tudo é simbólico.

7 - Como era Lewis Carrol?
Bandeira - Na verdade, Lewis Carrol era um pseudônimo do autor, o nome real dele era Charles Lutwidge. Ele era um representante oficial da Igreja Anglicana, bastante religioso. Praticamente um sacerdote. Além de ser um ótimo fotógrafo e, claro, um grande artista e escritor.

8 - Por que a frase “Uma agonia em oito crises”?
Bandeira - Quando já estava famoso, por conta do sucesso de Alice no País das Maravilhas, Lewis tinha um afiliado, Charles Wilcow, que estava à beira da morte, com tuberculose. E ele acompanhou os últimos dias desse jovem, que acabou morrendo. Talvez, por isso, ele tenha dividido a obra em “uma agonia em oito crises“. No fundo, ele está falando, também, desse afilhado, pois muitas vezes Lewis escrevia quando estavam juntos. Há também a possibilidade de ele ter dado algumas idéias para Carrol.

9 - A história de Alice no País das Maravilhas é cheia de aventuras e figuras exóticas, como aquele gato que vive sorrindo e fica invisível. O que Snark tem de inusitado?
Bandeira - Snark é considerado pela crítica o poema non sense mais longo da língua inglesa, e, ao longo do poema, existem combinações absurdas. Lewis escreveu o poema de trás para frente, numa espécie de lógica invertida. Suspense e humor foram colocados na medida certa. O que importava para ele era a diversão do leitor. Outra curiosidade: no original, todos os nomes dos personagens começam com a letra “B”. Baker, Butcher, Beaver, Barristerm Bonnet-maker, Banker, Boots, Broker, Billiard-maker e Bell-man.

10 - As obras de Alice, assim como Andy Warhol, inspiraram a escola da arte pop. E Snark, qual sua contribuição para a arte?
Bandeira - Muita. O poema foi fartamente utilizado em diversos ramos da arte, como o teatro, a pintura, a comédia musical, televisão, charge, a música pop, etc. O ator Alec Guiness já fez a leitura dramatizada na rádio BBC.

11 - Fale um pouco sobre o próprio Snark.
Bandeira - O Snark possui cinco características: a primeira é o seu sabor (ele é magro, oco, mas é crocante); a segunda, seu hábito de acordar tarde (ele toma café da manhã na hora do chá das cinco e almoça no dia seguinte); a terceira, Snark é lento para entender piadas (ele nunca acha graça quando houve uma); a quarta, ele tem mania de usar roupas portáteis (e as carrega sempre consigo); e, finalmente, Snark é conhecido por um detalhe: sua ambição.

12 – Mas o que era o Snark na verdade, um animal?
Bandeira - Ao falar o nome dele, já estamos praticamente descrevendo esse ser, uma serpente, um tubarão, um deus. O próprio Lewis Carroll brincava com os seus entrevistadores, quando lhe perguntavam o que representaria esse animal. “Quando você souber me diga”, finalizou sorrindo.


. Sobre o autor:
Jorge Bandeira é formado em História, com especialização em História Social da Amazônia, pela Ufam; História e Crítica de Arte, também pela Ufam, e Africanidades e Cultura Brasileira, pela UnB. Foi conselheiro de Cultura de Manaus, diretor de teatro, ator, dramaturgo, crítico de arte e vocalista da banda intitulada “Alma Nômade”.

Outras obras traduzidas:
“Beckett: Não há muita coisa para falar”, de Samuel Becktt
“Poemínimos” (antologia), de Samuel Becktt
“Bela Crueldade”, de Antonin Artaud

 

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