Uma
pergunta inevitável: quantas vezes o senhor teve de escutar
“mas por que tanto interesse num escritor brasileiro?”
Você está perguntando por que eu me interesso tanto
num autor brasileiro? Bem, em boa parte é porque fiz
minha carreira acadêmica estudando literatura e língua
românicas, e brasileiras em especial. Vim ao Brasil pela
primeira vez em 1970, para fazer uma tese sobre Carlos Drummond
de Andrade. Mas aconteceu uma coisa que, aliás, não
é única comigo – acabei interessando-me
pelo país também, e foi esse interesse em parte
que me levou para Machado, além da queda que eu devo
ter por autores irônicos, elusivos e alusivos. A grande
ligação (entre Machado e o Brasil) para mim foi
feita por Roberto Schwarz, em Ao Vencedor as Batatas (1977),
que faz uma ligação estreita entre a estrutura
social do país e os primeiros romances de Machado. O
interesse no país e no autor foram crescendo lado a lado.
Machado de Assis trouxe inegavelmente um sem-fim de
inovações para a estrutura do romance. Na sua
opinião, o fato de a sua obra ser em português
foi decisivo para que ele não tivesse a aclamação
de um Marcel Proust ou de um James Joyce?
Essa falta de repercussão deve ser em boa parte resultado
do status “periférico” de Machado e da língua
portuguesa. A prova disso talvez seja que houve um momento,
nos anos 50 nos Estados Unidos, quando se fizeram as primeiras
traduções dos principais romances, em que a voz
única de Machado, que não é nem Proust
nem Joyce, é outro peixe, teve uma influencia de técnica
de romance, e de tom em alguns romancistas americanos, John
Barth por exemplo. Mas foi um momento curto, e desde então
não houve, que eu saiba, fenômeno semelhante. Há
um excelente artigo de Daphne Patai, “Machado in English”,
que está pedindo urgentemente uma tradução
para o português, em que ela dá a medida do problema
– nessa altura, nos fins dos anos 90, quando ela foi à
livraria local dela, numa cidade universitária americana,
tinha um exemplar de um livro de Machado, que tinha estado ano
e meio nas prateleiras, e 17 de Dostoieski, em varias traduções,
com vários exemplares. Não sei se as coisas mudaram
um pouco desde então, mas em todo o caso o processo de
“vender”, sim. Machado no exterior tem muito caminho
a andar.
Um outro grande autor de língua portuguesa, contemporâneo
de Machado, foi o português Eça de Queiroz. É
possível fazer algum tipo de paralelo entre ambos?
É
claro que é possível fazer paralelos, ainda mais
porque Machado comentou, negativamente, a ficção
do Eça, num momento muito importante da carreira dele,
pouco antes de Memórias Póstumas de Brás
Cubas. Mas há diferenças básicas. Eça
é reconhecivelmente europeu, e portanto de um mundo até
certo ponto familiar para um leitor de Balzac, ou Flaubert,
além de ser, o que é óbvio, muito gostoso
de ler, muito divertido sobre tudo. Tanto é assim que
Machado, justificavelmente ou não, o acusou de plagiar
Balzac e Zola no Crime do Padre Amaro. Machado, em contrapartida,
pode ser frustrante – parece europeu, vem dessa mesma
tradição, mas tem alguma coisa, difícil
de definir, que não é desse “nosso”
mundo. O humor é também mais elusivo, difícil
de pegar, que o do Eça. Mas (na minha experiência
pelo menos) “pega” mais, dura mais, até irrita
mais que Eça.
O seu
livro procura desvendar Machado de Assis a partir de um ponto
de vista, na maioria das vezes, deixado de lado pela crítica
brasileira, o da sexualidade. Qual seria a razão do silêncio
em relação a este tema?
Na época de Machado, não devemos esquecer, a sexualidade
andava solta nos romances naturalistas, franceses e brasileiros
– A Carne, O Cortiço, Bom Crioulo e outros são
todos dessa época. O diferente no caso de Machado de
Assis é que o sexo está escondido – Talvez
não seja a palavra adequada, porque anda escondido mais
ou menos como está escondido, disfarçado na vida
diária, ainda mais nesses tempos “Vitorianos”
– tem por exemplo, um capítulo de Dom Casmurro,
o 58, que é uma descrição, podemos dizer,
do “processo” de masturbação, que
entretanto não usa a palavra, nem olha direito para o
próprio processo, que é descrito do ponto de vista
do jovem mais ou menos envergonhado do que faz. O sexo em Machado
é isso – não uma coisa separada do resto
da vida, mas parte natural dela – e é por isso,
paradoxalmente, que as pessoas não notam. No livro, dou
bastantes exemplos da mesma coisa, alguns bem engraçados,
vistos através da ironia machadiana. Sem dúvida,
há outras razões para o silêncio da crítica,
mas essa “obviedade escondida” é uma delas.
Seu estudo aponta Machado de Assis como um precursor
do feminismo, pela maneira como ele retrata, e algumas vezes
ataca, a figura da mulher, sobretudo em pontos como a vaidade.
Como seria o feminismo machadiano?
Em certo sentido o caso do feminismo é parecido com a
sexualidade – é tão difuso na obra dele
que as pessoas nem notam; e também, em parte, é
porque Machado põe em cena a vida real do Brasil da época
dele, uma realidade em que as mulheres, sobretudo as da classe
média, tinham vidas muito limitadas – mas descrevê-las
desse jeito é apenas honestidade e realismo, não
implica que Machado aprove essa situação; não
esqueçamos que ele escrevia para essas mulheres, em revistas
femininas. Muitas vezes, por uma frase solta, por uma referência
curta, por um narrador que se revela não-confiável
(o caso mais óbvio é o Bentinho), vira-se a mesa,
e o que parecia normal, subitamente mostra o lado opressivo
e até meio enlouquecido dos homens ciumentos, “autoritários
e voluntários” (palavras de um conto tratado longamente
no livro, Capítulo dos Chapéus).
Há alguns anos, Décio Pignatari publicou
uma peça chamada Céu de Lona, que partiu da defesa
de uma tese polêmica: que o abandono do romantismo inicial
machadiano deveu-se muito à postura da sua mulher, Carolina,
que havia impregnado a literatura do marido de uma intensa ironia.
O que o senhor acha dessa hipótese?
Como é que íamos saber se Pignatari tinha razão
ou não? Não temos evidências, e aí
as pessoas constroem seus castelos no ar. É um pouco
como essas teorias loucas de que Shakespeare não existiu,
era Christopher ressuscitado, Francis Bacon, o Conde de Southampton,
seilá...As pessoas não acabam de acreditar que
Machado de Assis basta a si mesmo, era um sujeito mulato, gago,
epilético, de classe inferior, tudo que quiserem, e ao
mesmo tempo de uma inteligência e imaginação
literárias fora do comum, e com uma coerência interna
que falta ainda desvendar mais. O resto é perda de tempo.
E com isso não estou subestimando Dona Carolina, sem
dúvida, pelos retratos que temos dela, uma mulher sofrida,
inteligente etc. Mas tenho uma forte suspeita de que essas “teorias”
têm bases em preconceitos de raça, de classe, até
de nação. Fiquemos no mais verossímil.
Ainda falando das mulheres de Machado, o senhor dedica
um capítulo inteiro do seu livro a Capitu, a personagem
feminina mais famosa da literatura brasileira. No seu texto,
o senhor aponta que tentar explicá-la pode ter como resultado
“fazê-la parecer menos notável do que é”.
Capitu é assim tão fascinante, ou ela é
uma construção dos devaneios de Bentinho? Por
sinal, qual seria a sua visão da grande dúvida:
houve ou não traição?
Sobre a traição, já me pronunciei várias
vezes, e tenho uma resposta pronta – nunca vamos saber,
porque Machado construiu seu romance nesse sentido, para que
não houvesse resposta certa à pergunta. Nesse
capítulo do livro que você menciona, argumento
que Capitu talvez seja a mulher mais ousada que Machado criou
– a que com mais inteligência e força tenta
quebrar as limitações do sexo e de classe que
a limitam. “Beata! Carola! Papa-missas!” não
são palavras de uma pessoa que vai se deixar dominar
pela família da qual, entretanto, ela quer fazer parte;
os devaneios de Bentinho podem ter sua importância, mas
ela escapa das suas redes o suficiente para se afirmar como
pessoa independente.
Um dos capítulos do seu livro retrata o patriotismo
machadiano. Como era esse patriotismo?
Que Machado era patriota não há dúvida,
mas era um patriotismo, como ele diz que é “outra
coisa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas”.
É uma coisa para ser tratada em detalhe, e dentro do
seu contexto – por exemplo, não era republicano,
era monarquista liberal, e um dos motivos dessa oposição
à República, era o medo (justificado) de que o
federalismo levasse ao que ele chama de “oligarquia absoluta”.
Há outros detalhes curiosos – ele achava, por exemplo,
que o tamanho do Brasil não era uma vantagem ou um motivo
de orgulho, levava ao perigo da cisão. No ensaio que
você menciona, dá para ver um pouco da complexidade
e a profundeza do seu pensamento sobre o assunto.
Machado de Assis é notório por sua “segunda
fase”, a do realismo de Dom Casmurro e Memórias
Póstumas. Qual o valor que o senhor atribui à
fase romântica do autor, ela ainda merece ser lida?
Claro que merece, mas depende um pouco por quem. A verdade é
que a mudança entre, digamos, Iaiá Garcia e Memórias
Póstumas é enorme, e a mesma coisa acontece nos
contos. Existem obras anteriores interessantes e muito importante
– o ensaio “Instinto de nacionalidade”, por
exemplo, a crítica ao Eça, muita coisa de fato,
nos contos, nas crônicas, nos romances, na poesia. Mas
precisamos de certa tolerância, senso histórico,
reconhecimento da importância do contexto, para apreciar
esse Machado – inclusive não sei – até
que ponto é justo chamá-lo de “romântico”.
Eu pelo menos acho uma palavra abrangente demais para dar conta
da sua complexidade, até nessa época.
O senhor aponta a biografia de Jean-Michel Massa, A
Juventude Machado de Assis, como o melhor trabalho sobre a vida
de Machado. Ano passado, o jornalista Daniel Piza escreveu uma
longa biografia de Machado, bastante criticada. Em que Massa
se diferencia dos outros biógrafos do escritor e o que
o senhor achou do livro de Piza, o senhor chegou a ler essa
obra?
Sobretudo, o livro de Massa é seriamente pesquisado –
foi aos arquivos, foi às fontes, e documenta tudo, como
notas de rodapé, índice, tudo. Ele próprio
menciona as dificuldades que enfrentou, e que fizeram com que
ele se limitasse à juventude (o livro só vai até
1870, quando Machado tinha 31 anos). A biografia de Magalhães
Junior, em quatro volumes, e posterior ao Massa, é fruto
de muita pesquisa, uma mina de fatos, mas falta-lhe senso critico.
Sinto muito dizê-lo, mas concordo com boa parte das críticas
à biografia de Daniel Piza. Há muito erro, e ele
aproveita muito pouco os verdadeiros avanços que se fizeram
na crítica nos últimos 20, 30 anos – fica,
podemos dizer, no mesmo “papo” que Magalhães.
Hoje, não podemos mais fazer biografia de Machado sem
o aparato crítico, acadêmico até, que faz
com que o leitor possa confiar no que o autor diz. Agora, não
estou argumentando que seja uma tarefa fácil. Machado
até é um assunto muito difícil –
temos poucas cartas interessantes, nenhum diário, poucas
anedotas fidedignas e reveladoras para conhecer o homem de dentro;
temos uma obra completa ainda incompleta.
Guimarães Rosa foi um autor que não teve
muita sorte com tradutores, sobretudo para o inglês. Qual
foi a sorte do Machado traduzido?
Só posso falar da minha língua. A sorte de Machado
em inglês é variada, com alguns desastres. O menos
conhecido, e que tentei expor num ensaio para o 1o Concurso
Internacional Machado de Assis, iniciativa do Ministério
de Relações Exteriores, e que foi publicado agora,
é a tradução de Gregory Rabassa de Memórias
Póstumas de Brás Cubas, para o Oxford University
Press, nada menos, e que é uma péssima tradução,
sem meias palavras, descuidada, desajeitada, cheia de erros
etc. A tradução anterior, de William Grossman,
é bem melhor. Nem ousei abrir a nova tradução,
também do Rabassa, de Quincas Borba. É uma grande
pena. Quem quiser ver a prova, é só ler meu ensaio,
onde desço ao detalhes, o único jeito de avaliar
tradução. Para 2008, o centenário da morte
do autor, estou fazendo uma antologia de contos, que espero
ficará um pouco a altura dele.
O que o senhor achou do artigo sobre Machado de Assis
escrito por Harold Bloom e incluído no livro O Gênio?
Bem, Bloom começa mal, elogiando as traduções
de Rabassa, o que é quase uma prova de que não
as leu. Sem dúvida é bom que Machado receba essa
publicidade, mas é pena que Bloom faça uma divisão
absoluta entre o país e o autor – Machado é
“um milagre”, a prova da “autonomia do gênio
literário”, que pode ocorrer em qualquer lugar
– esse lugar qualquer sendo o Brasil. Em longo prazo,
acho que esse tipo de avaliação, apressada e errada,
não ajuda. Em curto prazo, tudo é útil.
*
Entrevista faz parte da revista Continente Multicultural - Janeiro
de 2007.