:: ENTREVISTA | João Falcão e Adriana Falcão

 



João Falcão, Cena do filme "A Máquina"
e Adriana Falcão

A IMAGEM DO LIVRO

Universo de infinitas possibilidades, literatura é fonte constante para cinema, televisão e teatro. Nesta entrevista, o casal Adriana e João Falcão, ela escritora e ele diretor, roteirista e músico, fala sobre os caminhos e descaminhos da adaptação de obras literárias para estas linguagens. Carioca criada em Recife, Adriana é autora, entre outras obras, do romance A Máquina que o pernambucano João adaptou para o teatro e, agora, levou para as telas do cinema. Apaixonados pela linguagem escrita, eles destacam a importância do livro no trabalho de ambos, muitas vezes realizado em parceria na qual ela é o verbo e ele a ação.

 

Panorama Editorial – Panorama Editorial – Adaptada para cinema, teatro e televisão a obra literária sofre uma transmutação tão grande que acaba gerando um produto totalmente diferente do livro. Por que diretores e roteiristas estão, constantemente, usando a literatura como ponto de partida?

Adriana Falcão – Idéia é ouro. Ter num produto um monte de idéias, às vezes com um monte de diálogos prontos que já se prestam para aquilo, é fantástico. Mesmo que, muitas vezes, a obra não tenha diálogos, há uma idéia, uma forma literária inspiradora que pode ser transposta para uma outra linguagem. Foi assim com A Máquina [Editora Objetiva], uma obra com a qual temos toda uma relação carinhosa. Acho que para muita gente, melhor do que partir do zero, é partir já de uma boa idéia, de um fio condutor.

João Falcão – Além disso, mesmo que o adaptador faça uma coisa absolutamente fiel ao livro, ao transformá-lo em filme, peça ou programa de televisão está criando uma obra nova, porque são veículos completamente diferentes. Vira um outro produto. O resultado difere também dependendo do ator, do cenário, do diretor. Por exemplo, se A Máquina não fosse interpretado por Paulo Autran [ que faz Antônio, personagem central do romance], mas por Cuoco [ o ator Francisco Cuoco] eu teria um outro filme, uma outra energia, um resultado totalmente diverso do atingido. Portanto, mesmo usando as mesmas palavras e cenários descritos no livro, tudo mudaria se o ator, o cenário e diretor fossem outros.

Panorama Editorial – A leitura é um exercício absolutamente individual e solitário e cada leitor, lendo a mesma cena, cria uma imagem mental própria. A adaptação obedece ao mesmo princípio, ou seja, muda de acordo com quem está escrevendo o roteiro?

Adriana – Claro. Para um adaptador algo na obra literária pode chamar a atenção e para outro não. Por exemplo, quem leu A Máquina vê no filme ampliadas as participações de alguns personagens que apenas são citados no livro, como dona Nazaré, mãe do Antônio; outros simplesmente não existiam, como o pai da Karina [por quem Antônio é apaixonado], os loucos do hospício. Foram criados personagens e situações sem os quais o filme não teria a agilidade e a sustentação necessárias a uma obra cinematográfica. É um universo imenso a ser explorado. Imagine uma coisa bem simples: em A Branca de Neve, pensando dramaturgicamente, existe um momento em que a madrasta desaparece da trama, enquanto Branca de Neve está com os sete anões, só voltando a aparecer no final da história. Imagine que um adaptador resolva contar o que aconteceu com a madrasta neste período.

João – Pode ser que algum adaptador queira entender, ou explicar à sua maneira, o que aconteceu à madrasta, porque ela virou aquela pessoa tão horrenda. Talvez isso seja interessante para alguém explorar.

Panorama Editorial – Esta “licença poética” é o que move o processo de adaptação de uma obra?

Adriana – Diria que esta investigação, esta curiosidade é mágica. O roteirista diz assim “tem esta situação aqui que não foi bem explorada; por que será que esta história acaba assim?” Na verdade, é uma continuação daquilo que o escritor escreveu.

João – Como adaptador, fico imaginando que aquela história não contada talvez desse uma boa cena. Por outro lado, o que está muito bem resolvido no livro, como uma personagem que pensa em matar alguém, não funciona em cena, porque isso foi decidido mentalmente. Resolver só na cabeça é facilmente entendido num livro, mas difícil de mostrar na tela. Neste caso, por exemplo, talvez eu tenha de mostrar a personagem abrindo uma gaveta e tirando de lá uma arma com a qual pretende matar alguém. Ou seja, precisamos sempre do recurso que cada linguagem exige.

Panorama Editorial – Existe o risco do empobrecimento da linguagem escrita quando o texto é transposto para outra. Por exemplo, em Caminhos Cruzados, Erico Verissimo escreve “a tarde envelheceu” ao invés de “anoiteceu”. É possível criar imagens que tenham a mesma força desta frase? A propósito, a prática da adaptação pode, eventualmente, levar o escritor a uma simplificação do texto?

Adriana – Sou completamente apaixonada pela escrita e me emociono com frases muito mais do que com imagens. Acredito que um mau adaptador pode ser, sim, levado a cometer uma simplificação. Mas o bom adaptador sabe que não deve somente fazer anoitecer, porque o livro diz que “a tarde envelheceu”. Se ele apenas fizer anoitecer vai perder uma oportunidade enorme de imprimir à imagem uma poesia cinematográfica. Ele sabe que há ali uma idéia muito poética e simplificar a cena seria burrice.

João – Por isso é tão difícil adaptar a boa literatura. Veja, “a tarde envelheceu” tem muito mais força do que “anoiteceu”. A Adriana, como ela mesma diz, não virou uma pessoa de cinema; continua da literatura, portanto, não há este risco no seu texto. Ela nunca vai se deixar levar pela simplificação, porque tem paixão pela palavra escrita.

Adriana – Aliás, se o mercado existisse, se fosse possível viver só de literatura, não faria outra coisa, escreveria apenas livros. Se alguém falasse em roteiros, teria urticárias. O que eu amo, o que eu gosto, o que eu quero é a literatura. Mas é impossível viver só de livros no Brasil. Então, faço roteiros para a televisão, o cinema, o teatro.

Panorama Editorial – Como é que você garante a força poética em seus roteiros?

Adriana – Eu escrevo “a tarde envelheceu” e sei que o João vai encontrar um caminho. Confio e sou admiradora do trabalho dele, tenho certeza de que a frase que criei será transposta de maneira tão linda ou mais.

João – A Máquina é um livro cheio de coisas deste tipo e na adaptação preservei este espírito. No filme há uma frase imensa: “A noite se espichou até onde tinha de se espichar, mas uma hora a manhã cansou de esperar e se apresentou, e Antônio não tinha outra alternativa a não ser inaugurar o dia, muito embora não tivesse a menor idéia do que fazer com o mesmo, devido ao estado de agonia em que se encontrava”. Aí, embora quisesse, sim, fazer cinema e não literatura ilustrada com imagens, não abri mão da força literária, porque também sou apaixonado por ela. Os personagens falam assim, o que permitiu colocar em cena uma realidade mais fabular. Paulo Autran narra a história, 50 anos à frente, desta maneira. Claro que poderia ter usado uma narrativa de ação, mas a literatura é a força que dá ritmo ao filme. Não abri mão da literatura foi uma escolha pessoal, porque, normalmente, no “manual do cinema”, filme é ação. Foi um riso, mas entendo que fiz a escolha certa. Apresentei o filme no Festival de Cinema de Miami e foi uma surpresa ter sido entendido, apesar das legendas, o que não fica igual.

Panorama Editorial - A propósito do ator, existe diferença na interpretação quando ele é um leitor?

João - Sem dúvida. Quanto mais referências um ator tiver mais comunicação com o diretor. Lógico que existem atores intuitivos, que nunca leram nada, nunca viram nada e têm uma capacidade de interpretação quase mediúnica; baixa o santo mesmo. Acontece o mesmo com os escritores populares que tiveram pouco ou nenhum contato com alta literatura, mas que escrevem bons livros.

Adriana - Mas são exceções. A regra deveria ser que todos tivessem acesso aos livros.

Panorama Editorial - Qual a importância do livro para o cinema, para o teatro, para a televisão? Qual o papel da literatura afinal?

Adriana - A televisão está tão decadente que as pessoas que pensam o veículo se acostumaram com bobagens. Não há mais espaço para programas como “Brasil Especial” [produzido pela TV Globo, nos anos 1990], que adaptava escritores de alto nível. Era uma maneira de fazer com que a população tivesse acesso à literatura. O núcleo responsável por este programa, dirigido pelo Guel Arraes, podia trabalhar com roteiros originais, mas internacionalmente escolheu a literatura.

João - A televisão, cada vez mais, está voltada para produções em que o sucesso é garantido. Existem sistemas muito sofisticados de pesquisa de opinião sobre o que o público gosta e quer ver e o veículo investe no que é certo. E isso é uma pena porque o bom mesmo é mostrar aquilo que o público não sabia que queria ver.

Panorama Editorial - A televisão desceu ao nível mediano do público ou foi ela quem criou a média?

João - Acho que é um pouquinho mais complicado, embora uma coisa não exclua a outra. A televisão tem cada vez mais concorrência e a TV Globo não é mais tão hegemônica como no passado. Por isso, não podemos mais, na emissora, nos dar ao luxo de ter projetos como o “Brasil Especial”. Hoje, muitos diretores e autores têm em casa, não só na empresa, mas em casa mesmo, um medidor de audiência minuto a minuto. Eles sabem que as pessoas mudaram para outro canal para assistir um programa quando determinado personagem ou trama entrou em cena. Assim, eles passam a escrever, a produzir para atender a expectativa do público. Não é mais um produto do artista, autoral, é um produto industrial muito claro.

Panorama Editorial - Isso explica porque as produções mais experimentais e ousadas estão concentradas no final da noite?

João - Claro, aí já não há tanta concorrência. Trata-se de um horário menos competitivo, com um público menor. Antes, arriscavam muito mais com experiências que deram muito certo em horário nobre. Hoje, raramente, a televisão surpreende a audiência.

Adriana – Imagine colocar depois da novela das oito a série baseada em Grande Sertão: Veredas. Isso já foi assim, não é mais. Pelo menos não do ponto de vista do pensamento industrial. Eles estão certos, porque essa é a lógica do mercado. Se o público sai de A Comédia da Vida Privada [produção da TV Globo da qual ambos participaram] para ver um programa de auditório em outro canal, a emissora diz “então vamos fazer uma coisa parecida”. A culpa é do público ou da televisão? Não sei, só acho tudo isso uma grande tristeza.

João - É um círculo vicioso que leva a uma coisa leviana e faz da televisão cada vez mais um eletrodoméstico e menos um meio de comunicação surpreendente. É um veículo fantástico, com um alcance imenso, que poderia dar uma enorme contribuição para este país de tantos analfabetos funcionais.

Panorama Editorial - Neste cenário, que tem como pano de fundo um dos índices de leitura mais baixos do mundo, o que ainda move o escritor brasileiro?

Adriana - Uma utopia completa. Há pouco tempo, passei um ano escrevendo um livro. Vivi esse livro 24 horas por dia. Finalmente, entrou a primeira parte do adiantamento por um ano de trabalho: R$ 1,8 mil. Aí, fica difícil. Por isso, não vou abrir mão de um trabalho de roteiro que, por exemplo, pague R$ 60 mil para ganhar, em um ano, R$ 1,8 mil. Ok, não vou ganhar só isso, no final serão R$ 8 mil. Tenho três filhas, uma casa, uma vida para manter. Nesse sentido, escrevo literatura por paixão, por utopia, o que, cada vez mais, vai existir menos, afinal, minhas necessidades de sobrevivência são maiores. Quando acontece de alguém ganhar dinheiro com livros, fica todo mundo de olho, porque a realidade de 99% dos autores não é essa. Este ano, por exemplo, não vou escrever nenhum livro. Isso é triste, porque o que eu queria mesmo era fazer literatura. Acho que o mercado editorial não tem a audácia, a coragem que, por exemplo, a televisão e o cinema têm de investir mesmo. Investe nos nomes certos, nos best-sellers. Não tenho problema algum com o best-seller. Li O Código da Vinci e vi que o autor é competentíssimo. Você termina um capítulo e não consegue não começar o outro. Isso é promover o gosto pelo pensamento, pela leitura. Livros como este têm um papel muito importante e não se pode, de jeito nenhum, ter preconceitos contra ele. Quanto mais este tipo de livro atrair leitores, melhor.

Panorama Editorial - E fica algum sentimento de frustração?

Adriana - Já passei por isso. Mas, se for ficar me queixando, pensando o tempo todo nisso, vou perder muito mais. Então, vou e faço o roteiro com a maior alegria. Escrevo para a “Grande Família” [outra produção global] com prazer e cada vez melhor.

João - Mas a Adriana já teve grandes expectativas. Achávamos que Luna Clara & Apolo Onze [primeiro livro juvenil da autora, lançado em 2002 pela Salamandra, que considero uma obra-prima, explodiria, teria uma enorme repercussão, mas é cult.

Adriana – Quando o livro foi lançado, a editora fez uma festa. Mas vá procurá-lo nas grandes redes. Ele está na Livraria Argumento, Travessa, na Livraria da Vila. E o livro funciona quando é colocado em destaque na porta da Saraiva, da Siciliano, com uma pilha de exemplares e um cartaz enorme. Se o livreiro confinar três exemplares na sua estante, não vão acontecer nada. Não vou entrar na discussão se é culpa do editor ou do livreiro, porque tenho muito que fazer. Mas gostaria que as pessoas que devem fazer isso, efetivamente o fizessem. Eu estou fazendo o que tenho de fazer: escrevendo.

Panorama Editorial – Então, o livro precisa ser divulgado, o tempo todo, de qualquer forma?

Adriana – Adoro todas as pessoas da Objetiva com as quais tenho um acesso mais direto, porque são extremamente bem intencionadas. Mas na hora “H” o que se diz é “não tenho condições para divulgar esta obra”. Veja, não estou falando em ficar rica, mas de ter condições dignas de trabalho, e poder passar um ano escrevendo um livro. Tenho sempre o sonho de que um dia alguém vai investir no projeto: pagar bem, porque escrevo bem. Mas nunca acontece. Não vou culpar ninguém porque já andei com muito distribuidor de livro por esse Brasil, num calor danado, em um carro sem ar-condicionado e cheio de livros. E ele me contando como faz pra conseguir vender. É um batalhador também, que está brigando para conseguir o dinheiro do supermercado do mês, sustentar a família.

João – A verdade é que o País, neste sentido, está ficando cada vez mais difícil. Não adianta reclamar que o distribuidor está apostando só nos livros do Paulo Coelho e no Harry Potter; claro, é aposta certa. A TV Globo aposta no “Big Brother”, por exemplo. O problema é que, com isso, vai se formando um público cada vez mais limitado.

Adriana – E o que podemos fazer? Greve de fome na Praça da Sé a favor da literatura nacional? O que é complicado no Brasil, entre outras coisas, é o acesso ao livro. Imagine que Buenos Aires tem mais livrarias do que São Paulo. Fico com medo de dizer estas coisas, porque não gosto de criar polêmica; estou no meu canto e não quero chatear ninguém. Mas a expectativa, com a entrada destes grupos internacionais no mercado editorial brasileiro, era de que injetassem recursos. E não foi o que aconteceu.

João – Na verdade, continua o mesmo pensamento de exploração da mão-de-obra mais barata.

Adriana - O trabalho do escritor brasileiro, que é reconhecidamente bom, é mais barato. Trabalha com uma língua riquíssima e tem um material riquíssimo para explorar. É uma mina de ouro que vai ser explorada, explorada, explorada até se esgotar definitivamente. E há uma contradição: se pensarmos em termos de exemplares produzidos, não dá para entender porque o Ministério da Cultura, por exemplo, destina R$ 1 milhão para a produção de um filme e não dá praticamente nada para o mercado editorial. Se você colocar isso numa escala proporcional, para o livro é menos. Não consigo entender como pessoas tão inteligentes conseguem viver nesta indigência que é o mercado editorial. Mesmo assim, vou seguir neste caminho. E, se Deus quiser, tudo vai ficar melhor. Sempre acredito e penso “agora vai melhorar”. Acho que é porque quando estou mobilizada, quando estou emocionada o que eu quero é escrever.

Panorama Editorial – O fato de você ter vivido em Pernambuco moldou esta sua vocação para os livros? Aliás, o que acontece com os pernambucanos, assim como com os gaúchos e mineiros, que parecem ter uma ligação atávica com a literatura?

Adriana – É uma loucura e uma coisa que me pergunto muito. Adoro o Paulo Mendes Campos e toda aquela geração de mineiros. O que é Murilo Mendes, um poeta que eu amo e você não encontra em lugar nenhum do mundo? Ariano Suassuna teve em vida um reconhecimento, mas e o Murilo Mendes? Tem, ainda, pessoas das quais você nunca ouviu falar, e provavelmente nunca vai ouvir, que eu conheci em Recife, que me ensinaram a escrever: meu professor de literatura, o meu chefe numa agência de publicidade.

João – Fala-se muito da tradição oral, da coisa da colonização européia, que trouxe os contadores de histórias, os trovadores, e que, por sua vez, gerou a literatura de cordel. Em certo nível é literatura popular, mas em outro é também o verbo. A Máquina fala muito disso, tem parentesco com esta tradição oral. É uma coisa moderna, contemporânea, mas que vem desde sempre.
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* Entrevista publicada na revista Panorama Editorial (Câmara Brasileira do Livro), ano II, nº16


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