Panorama
Editorial – Panorama Editorial – Adaptada
para cinema, teatro e televisão a obra literária sofre
uma transmutação tão grande que acaba gerando
um produto totalmente diferente do livro. Por que diretores e roteiristas
estão, constantemente, usando a literatura como ponto de
partida?
Adriana
Falcão – Idéia é ouro. Ter num produto
um monte de idéias, às vezes com um monte de diálogos
prontos que já se prestam para aquilo, é fantástico.
Mesmo que, muitas vezes, a obra não tenha diálogos,
há uma idéia, uma forma literária inspiradora
que pode ser transposta para uma outra linguagem. Foi assim com
A Máquina [Editora Objetiva], uma obra com a qual temos toda
uma relação carinhosa. Acho que para muita gente,
melhor do que partir do zero, é partir já de uma boa
idéia, de um fio condutor.
João
Falcão – Além disso, mesmo que o adaptador faça
uma coisa absolutamente fiel ao livro, ao transformá-lo em
filme, peça ou programa de televisão está criando
uma obra nova, porque são veículos completamente diferentes.
Vira um outro produto. O resultado difere também dependendo
do ator, do cenário, do diretor. Por exemplo, se A Máquina
não fosse interpretado por Paulo Autran [ que faz Antônio,
personagem central do romance], mas por Cuoco [ o ator Francisco
Cuoco] eu teria um outro filme, uma outra energia, um resultado
totalmente diverso do atingido. Portanto, mesmo usando as mesmas
palavras e cenários descritos no livro, tudo mudaria se o
ator, o cenário e diretor fossem outros.
Panorama
Editorial – A leitura é um exercício
absolutamente individual e solitário e cada leitor, lendo
a mesma cena, cria uma imagem mental própria. A adaptação
obedece ao mesmo princípio, ou seja, muda de acordo com quem
está escrevendo o roteiro?
Adriana
– Claro. Para um adaptador algo na obra literária pode
chamar a atenção e para outro não. Por exemplo,
quem leu A Máquina vê no filme ampliadas as participações
de alguns personagens que apenas são citados no livro, como
dona Nazaré, mãe do Antônio; outros simplesmente
não existiam, como o pai da Karina [por quem Antônio
é apaixonado], os loucos do hospício. Foram criados
personagens e situações sem os quais o filme não
teria a agilidade e a sustentação necessárias
a uma obra cinematográfica. É um universo imenso a
ser explorado. Imagine uma coisa bem simples: em A Branca de Neve,
pensando dramaturgicamente, existe um momento em que a madrasta
desaparece da trama, enquanto Branca de Neve está com os
sete anões, só voltando a aparecer no final da história.
Imagine que um adaptador resolva contar o que aconteceu com a madrasta
neste período.
João
– Pode ser que algum adaptador queira entender, ou explicar
à sua maneira, o que aconteceu à madrasta, porque
ela virou aquela pessoa tão horrenda. Talvez isso seja interessante
para alguém explorar.
Panorama
Editorial – Esta “licença poética”
é o que move o processo de adaptação de uma
obra?
Adriana
– Diria que esta investigação, esta curiosidade
é mágica. O roteirista diz assim “tem esta situação
aqui que não foi bem explorada; por que será que esta
história acaba assim?” Na verdade, é uma continuação
daquilo que o escritor escreveu.
João
– Como adaptador, fico imaginando que aquela história
não contada talvez desse uma boa cena. Por outro lado, o
que está muito bem resolvido no livro, como uma personagem
que pensa em matar alguém, não funciona em cena, porque
isso foi decidido mentalmente. Resolver só na cabeça
é facilmente entendido num livro, mas difícil de mostrar
na tela. Neste caso, por exemplo, talvez eu tenha de mostrar a personagem
abrindo uma gaveta e tirando de lá uma arma com a qual pretende
matar alguém. Ou seja, precisamos sempre do recurso que cada
linguagem exige.
Panorama
Editorial – Existe o risco do empobrecimento
da linguagem escrita quando o texto é transposto para outra.
Por exemplo, em Caminhos Cruzados, Erico Verissimo escreve “a
tarde envelheceu” ao invés de “anoiteceu”.
É possível criar imagens que tenham a mesma força
desta frase? A propósito, a prática da adaptação
pode, eventualmente, levar o escritor a uma simplificação
do texto?
Adriana
– Sou completamente apaixonada pela escrita e me emociono
com frases muito mais do que com imagens. Acredito que um mau adaptador
pode ser, sim, levado a cometer uma simplificação.
Mas o bom adaptador sabe que não deve somente fazer anoitecer,
porque o livro diz que “a tarde envelheceu”. Se ele
apenas fizer anoitecer vai perder uma oportunidade enorme de imprimir
à imagem uma poesia cinematográfica. Ele sabe que
há ali uma idéia muito poética e simplificar
a cena seria burrice.
João
– Por isso é tão difícil adaptar a boa
literatura. Veja, “a tarde envelheceu” tem muito mais
força do que “anoiteceu”. A Adriana, como ela
mesma diz, não virou uma pessoa de cinema; continua da literatura,
portanto, não há este risco no seu texto. Ela nunca
vai se deixar levar pela simplificação, porque tem
paixão pela palavra escrita.
Adriana
– Aliás, se o mercado existisse, se fosse possível
viver só de literatura, não faria outra coisa, escreveria
apenas livros. Se alguém falasse em roteiros, teria urticárias.
O que eu amo, o que eu gosto, o que eu quero é a literatura.
Mas é impossível viver só de livros no Brasil.
Então, faço roteiros para a televisão, o cinema,
o teatro.
Panorama
Editorial – Como é que você garante
a força poética em seus roteiros?
Adriana
– Eu escrevo “a tarde envelheceu” e sei que o
João vai encontrar um caminho. Confio e sou admiradora do
trabalho dele, tenho certeza de que a frase que criei será
transposta de maneira tão linda ou mais.
João
– A Máquina é um livro cheio de coisas deste
tipo e na adaptação preservei este espírito.
No filme há uma frase imensa: “A noite se espichou
até onde tinha de se espichar, mas uma hora a manhã
cansou de esperar e se apresentou, e Antônio não tinha
outra alternativa a não ser inaugurar o dia, muito embora
não tivesse a menor idéia do que fazer com o mesmo,
devido ao estado de agonia em que se encontrava”. Aí,
embora quisesse, sim, fazer cinema e não literatura ilustrada
com imagens, não abri mão da força literária,
porque também sou apaixonado por ela. Os personagens falam
assim, o que permitiu colocar em cena uma realidade mais fabular.
Paulo Autran narra a história, 50 anos à frente, desta
maneira. Claro que poderia ter usado uma narrativa de ação,
mas a literatura é a força que dá ritmo ao
filme. Não abri mão da literatura foi uma escolha
pessoal, porque, normalmente, no “manual do cinema”,
filme é ação. Foi um riso, mas entendo que
fiz a escolha certa. Apresentei o filme no Festival de Cinema de
Miami e foi uma surpresa ter sido entendido, apesar das legendas,
o que não fica igual.
Panorama
Editorial - A propósito do ator, existe diferença
na interpretação quando ele é um leitor?
João
- Sem dúvida. Quanto mais referências um ator tiver
mais comunicação com o diretor. Lógico que
existem atores intuitivos, que nunca leram nada, nunca viram nada
e têm uma capacidade de interpretação quase
mediúnica; baixa o santo mesmo. Acontece o mesmo com os escritores
populares que tiveram pouco ou nenhum contato com alta literatura,
mas que escrevem bons livros.
Adriana
- Mas são exceções. A regra deveria ser que
todos tivessem acesso aos livros.
Panorama
Editorial - Qual a importância
do livro para o cinema, para o teatro, para a televisão?
Qual o papel da literatura afinal?
Adriana
- A televisão está tão decadente que as pessoas
que pensam o veículo se acostumaram com bobagens. Não
há mais espaço para programas como “Brasil Especial”
[produzido pela TV Globo, nos anos 1990], que adaptava escritores
de alto nível. Era uma maneira de fazer com que a população
tivesse acesso à literatura. O núcleo responsável
por este programa, dirigido pelo Guel Arraes, podia trabalhar com
roteiros originais, mas internacionalmente escolheu a literatura.
João
- A televisão, cada vez mais, está voltada para produções
em que o sucesso é garantido. Existem sistemas muito sofisticados
de pesquisa de opinião sobre o que o público gosta
e quer ver e o veículo investe no que é certo. E isso
é uma pena porque o bom mesmo é mostrar aquilo que
o público não sabia que queria ver.
Panorama
Editorial - A televisão desceu ao nível
mediano do público ou foi ela quem criou a média?
João
- Acho que é um pouquinho mais complicado, embora uma coisa
não exclua a outra. A televisão tem cada vez mais
concorrência e a TV Globo não é mais tão
hegemônica como no passado. Por isso, não podemos mais,
na emissora, nos dar ao luxo de ter projetos como o “Brasil
Especial”. Hoje, muitos diretores e autores têm em casa,
não só na empresa, mas em casa mesmo, um medidor de
audiência minuto a minuto. Eles sabem que as pessoas mudaram
para outro canal para assistir um programa quando determinado personagem
ou trama entrou em cena. Assim, eles passam a escrever, a produzir
para atender a expectativa do público. Não é
mais um produto do artista, autoral, é um produto industrial
muito claro.
Panorama
Editorial - Isso explica porque as produções
mais experimentais e ousadas estão concentradas no final
da noite?
João
- Claro, aí já não há tanta concorrência.
Trata-se de um horário menos competitivo, com um público
menor. Antes, arriscavam muito mais com experiências que deram
muito certo em horário nobre. Hoje, raramente, a televisão
surpreende a audiência.
Adriana
– Imagine colocar depois da novela das oito a série
baseada em Grande Sertão: Veredas. Isso já foi assim,
não é mais. Pelo menos não do ponto de vista
do pensamento industrial. Eles estão certos, porque essa
é a lógica do mercado. Se o público sai de
A Comédia da Vida Privada [produção da TV Globo
da qual ambos participaram] para ver um programa de auditório
em outro canal, a emissora diz “então vamos fazer uma
coisa parecida”. A culpa é do público ou da
televisão? Não sei, só acho tudo isso uma grande
tristeza.
João
- É um círculo vicioso que leva a uma coisa leviana
e faz da televisão cada vez mais um eletrodoméstico
e menos um meio de comunicação surpreendente. É
um veículo fantástico, com um alcance imenso, que
poderia dar uma enorme contribuição para este país
de tantos analfabetos funcionais.
Panorama
Editorial - Neste cenário, que tem como pano
de fundo um dos índices de leitura mais baixos do mundo,
o que ainda move o escritor brasileiro?
Adriana
- Uma utopia completa. Há pouco tempo, passei um ano escrevendo
um livro. Vivi esse livro 24 horas por dia. Finalmente, entrou a
primeira parte do adiantamento por um ano de trabalho: R$ 1,8 mil.
Aí, fica difícil. Por isso, não vou abrir mão
de um trabalho de roteiro que, por exemplo, pague R$ 60 mil para
ganhar, em um ano, R$ 1,8 mil. Ok, não vou ganhar só
isso, no final serão R$ 8 mil. Tenho três filhas, uma
casa, uma vida para manter. Nesse sentido, escrevo literatura por
paixão, por utopia, o que, cada vez mais, vai existir menos,
afinal, minhas necessidades de sobrevivência são maiores.
Quando acontece de alguém ganhar dinheiro com livros, fica
todo mundo de olho, porque a realidade de 99% dos autores não
é essa. Este ano, por exemplo, não vou escrever nenhum
livro. Isso é triste, porque o que eu queria mesmo era fazer
literatura. Acho que o mercado editorial não tem a audácia,
a coragem que, por exemplo, a televisão e o cinema têm
de investir mesmo. Investe nos nomes certos, nos best-sellers. Não
tenho problema algum com o best-seller. Li O Código da Vinci
e vi que o autor é competentíssimo. Você termina
um capítulo e não consegue não começar
o outro. Isso é promover o gosto pelo pensamento, pela leitura.
Livros como este têm um papel muito importante e não
se pode, de jeito nenhum, ter preconceitos contra ele. Quanto mais
este tipo de livro atrair leitores, melhor.
Panorama
Editorial - E fica algum sentimento de frustração?
Adriana
- Já passei por isso. Mas, se for ficar me queixando, pensando
o tempo todo nisso, vou perder muito mais. Então, vou e faço
o roteiro com a maior alegria. Escrevo para a “Grande Família”
[outra produção global] com prazer e cada vez melhor.
João
- Mas a Adriana já teve grandes expectativas. Achávamos
que Luna Clara & Apolo Onze [primeiro livro juvenil da autora,
lançado em 2002 pela Salamandra, que considero uma obra-prima,
explodiria, teria uma enorme repercussão, mas é cult.
Adriana
– Quando o livro foi lançado, a editora fez uma festa.
Mas vá procurá-lo nas grandes redes. Ele está
na Livraria Argumento, Travessa, na Livraria da Vila. E o livro
funciona quando é colocado em destaque na porta da Saraiva,
da Siciliano, com uma pilha de exemplares e um cartaz enorme. Se
o livreiro confinar três exemplares na sua estante, não
vão acontecer nada. Não vou entrar na discussão
se é culpa do editor ou do livreiro, porque tenho muito que
fazer. Mas gostaria que as pessoas que devem fazer isso, efetivamente
o fizessem. Eu estou fazendo o que tenho de fazer: escrevendo.
Panorama
Editorial –
Então, o livro precisa ser divulgado, o tempo todo, de qualquer
forma?
Adriana
– Adoro todas as pessoas da Objetiva com as quais tenho um
acesso mais direto, porque são extremamente bem intencionadas.
Mas na hora “H” o que se diz é “não
tenho condições para divulgar esta obra”. Veja,
não estou falando em ficar rica, mas de ter condições
dignas de trabalho, e poder passar um ano escrevendo um livro. Tenho
sempre o sonho de que um dia alguém vai investir no projeto:
pagar bem, porque escrevo bem. Mas nunca acontece. Não vou
culpar ninguém porque já andei com muito distribuidor
de livro por esse Brasil, num calor danado, em um carro sem ar-condicionado
e cheio de livros. E ele me contando como faz pra conseguir vender.
É um batalhador também, que está brigando para
conseguir o dinheiro do supermercado do mês, sustentar a família.
João
– A verdade é que o País, neste sentido, está
ficando cada vez mais difícil. Não adianta reclamar
que o distribuidor está apostando só nos livros do
Paulo Coelho e no Harry Potter; claro, é aposta certa. A
TV Globo aposta no “Big Brother”, por exemplo. O problema
é que, com isso, vai se formando um público cada vez
mais limitado.
Adriana
– E o que podemos fazer? Greve de fome na Praça da
Sé a favor da literatura nacional? O que é complicado
no Brasil, entre outras coisas, é o acesso ao livro. Imagine
que Buenos Aires tem mais livrarias do que São Paulo. Fico
com medo de dizer estas coisas, porque não gosto de criar
polêmica; estou no meu canto e não quero chatear ninguém.
Mas a expectativa, com a entrada destes grupos internacionais no
mercado editorial brasileiro, era de que injetassem recursos. E
não foi o que aconteceu.
João
– Na verdade, continua o mesmo pensamento de exploração
da mão-de-obra mais barata.
Adriana
- O trabalho do escritor brasileiro, que é reconhecidamente
bom, é mais barato. Trabalha com uma língua riquíssima
e tem um material riquíssimo para explorar. É uma
mina de ouro que vai ser explorada, explorada, explorada até
se esgotar definitivamente. E há uma contradição:
se pensarmos em termos de exemplares produzidos, não dá
para entender porque o Ministério da Cultura, por exemplo,
destina R$ 1 milhão para a produção de um filme
e não dá praticamente nada para o mercado editorial.
Se você colocar isso numa escala proporcional, para o livro
é menos. Não consigo entender como pessoas tão
inteligentes conseguem viver nesta indigência que é
o mercado editorial. Mesmo assim, vou seguir neste caminho. E, se
Deus quiser, tudo vai ficar melhor. Sempre acredito e penso “agora
vai melhorar”. Acho que é porque quando estou mobilizada,
quando estou emocionada o que eu quero é escrever.
Panorama
Editorial – O fato de você ter vivido
em Pernambuco moldou esta sua vocação para os livros?
Aliás, o que acontece com os pernambucanos, assim como com
os gaúchos e mineiros, que parecem ter uma ligação
atávica com a literatura?
Adriana
– É uma loucura e uma coisa que me pergunto muito.
Adoro o Paulo Mendes Campos e toda aquela geração
de mineiros. O que é Murilo Mendes, um poeta que eu amo e
você não encontra em lugar nenhum do mundo? Ariano
Suassuna teve em vida um reconhecimento, mas e o Murilo Mendes?
Tem, ainda, pessoas das quais você nunca ouviu falar, e provavelmente
nunca vai ouvir, que eu conheci em Recife, que me ensinaram a escrever:
meu professor de literatura, o meu chefe numa agência de publicidade.
João
– Fala-se muito da tradição oral, da coisa da
colonização européia, que trouxe os contadores
de histórias, os trovadores, e que, por sua vez, gerou a
literatura de cordel. Em certo nível é literatura
popular, mas em outro é também o verbo. A Máquina
fala muito disso, tem parentesco com esta tradição
oral. É uma coisa moderna, contemporânea, mas que vem
desde sempre.
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*
Entrevista publicada na revista Panorama Editorial (Câmara
Brasileira do Livro), ano II, nº16 |