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ENTREVISTA
  Isaac Maciel

 

"Considerando o custo–benefício, o livro não
é tão caro como parece. Mesmo assim,
muita gente não pode comprá-lo

ascido em Olinda-PE, de família numerosa, Isaac Maciel é o terceiro de 12 irmãos. Poderia ter uma história de vida comum, semelhante à de milhões de brasileiros, sem tradição artística e marcada pela pobreza, mas venceu barreiras e desafios e, hoje, aos 47 anos, é empresário e um dos destaques do mercado editorial brasileiro, com a particularidade de produzir livros em Manaus, onde está estabelecido há duas décadas. Nesta entrevista, Isaac conta um pouco da história do livro no Amazonas, a história dos seus empreendimentos, além de falar de leitura, política e cultural local.

Da redação da Call


Call – Você é pernambucano, mas sua atuação empresarial está relacionada com a região amazônica. Em qual Estado está sua raiz?

Isaac Maciel – Eu nunca deixei de pertencer a terra onde nasci e vivi até os 20 anos. Muito do que sou vem das percepções e vivências daquela fase. Pernambuco é um Estado de tradição artística muito forte; sem dúvida, a raiz também está aí. Foi aqui em Manaus, porém, que eu vislumbrei condições objetivas para empreender um processo consistente no segmento do livro. Isso tem me absorvido de tal maneira que não consigo me identificar como "estrangeiro", onde quer que eu vá, sou amazonense.



Call
– Há 20 anos o senhor começou em Manaus a Livraria Valer, que se tornou referência na região, em se tratando do comércio de livros e do destaque dado à produção literária do Amazonas. Hoje, parte significativa da população não se interessa por livros, por leitura e não se importa com produção local. Como o senhor analisa isso?

Isaac – Não só eu, mas todos que se dedicam à produção do livro e sua distribuição cumprem a missão de difundir os benefícios que o conhecimento pode provocar na vida das pessoas, porém elas nem sempre sabem do que precisam saber e, se não sabem sobre isso, como irão se importar? Eu defendo a ampliação da discussão sobre a leitura na sociedade; penso que a feira de livros, que estava prevista para acontecer ainda este ano em Manaus, poderia ser uma boa oportunidade para ampliar esse debate.

Call – Pelo que compreendi, a produção literária local e seu consumo ocorrem entre pessoas de um grupo seleto, e a população não tem acesso a essa produção. É isso?

Isaac – O Estado do Amazonas tem índice de analfabetismo muito elevado; em muitas das suas cidades mais da metade da população não sabe ler, e dos que sabem, poucos lêem efetivamente. Isso reduz muito o consumo de livros de qualquer espécie. Mas essa situação melhorou significativamente nas últimas décadas, e, em Manaus, tem se ampliado o número de leitores para além do ciclo tradicional ao qual você se referiu. É uma progressão lenta e os nossos esforços são para que se amplie mais.

Call – Muitos falam da importância da leitura. Por que é tão difícil ampliar o número de leitores se há esse consenso em torno da leitura?

Isaac – Uma pessoa que não lê está condenada a uma existência insípida, corroída pela ignorância. A leitura é o caminho seguro para o conhecimento, afirmação de valores e princípios que fundamentam a vida e a subjetividade do ser humano. Mas não é atividade automática, exige competências do leitor; não é algo que dependa só da vontade, há etapas que exigem empenho e disciplina de quem quer se tornar um leitor eficaz. Recentemente eu conversei com o prefeito de uma das mais importantes cidades do Estado, que me procurou em busca de orientação para instalar bibliotecas em seu município. Disse-se preocupado com a ausência de livros ali, que aquilo era um absurdo e tudo mais... Antes que a conversa fosse encerrada eu perguntei qual havia sido o último livro lido por ele, a resposta demorou, mas quando veio foi de uma sinceridade surpreendente: Eu não consigo ler um livro inteiro, nunca consegui...

Call – Bibliotecas públicas em todos os municípios é a solução para democratizar o acesso à leitura?

Isaac – Considerando o custo–benefício, o livro não é tão caro como parece. Mesmo assim, muita gente não pode comprá-lo. Bibliotecas públicas com bons livros são algo muito positivo; para quem gosta de ler é fantástico. Mas é preciso dizer que, para quem não dá importância à leitura, os livros nada representam. Infelizmente a maior parte da população está nesta segunda classificação.


Call – Recentemente o vice-governador Omar Aziz disse que testemunhou em algumas bibliotecas, de escolas públicas, livros que estão lá há muito tempo e que aparentam nunca ter sido lidos ou sequer manuseados. O que fazer nestes casos?

Isaac – O livro só ganha significado quando lido e interpretado. O fato narrado por Omar é mais comum do que possa parecer. Para quem não lê, livro não é importante. A escola é um foro altamente privilegiado para que o livro ganhe importância; escola que não consegue fazer do livro algo importante é porque falha em sua missão de ensinar. Nesse tipo de escola geralmente o gestor não lê, o professor não lê, o bibliotecário não lê e conseqüentemente o aluno também não lê.


Call – Por que numa cidade como Manaus, com a importância econômica que tem, há poucas livrarias?

Isaac – O comércio de livros em qualquer parte do território nacional é um desafio constante; é um negócio de vendas nem sempre rápidas e de retorno lento de capital. Em Manaus, este desafio se potencializa. Somos uma cidade isolada, com poucos leitores e a política pública de aquisição de livros segue um modelo equivocado, desconsiderando os livreiros e fornecedores locais.


Call – Mas o senhor é um editor entusiasmado, a evidência mais forte disso é o seu catálogo com quase 500 obras publicadas. O que lhe motiva a editar tanto, em um cenário tão incerto?

Isaac – A Editora Valer nasceu do meu entusiasmo em determinado momento de minha atividade livreira. Um plano de negócio por mais singelo que fosse desaconselharia empreender nesta área em Manaus. Eu ignorei a lógica e comecei editar; assim, como franco-atirador. O fato é que logo no início da "aventura" eu me associei ao professor de Literatura Tenório Telles, profundo conhecedor da literatura que se produz no Amazonas e igualmente sonhador. Desse encontro resultou um trabalho de seleção e resgate do que de melhor havia sido produzido em literatura em todos os tempos na região. Isso deu o norte da Editora; com o tempo o número de publicações foi crescendo e abrangendo, além de literatura, outras áreas importantes do conhecimento humano. O processo se tornou bastante interessante, necessário, porém continuou deficitário do ponto de vista econômico.


Call – A Editora começou em 1997. Não havia naquele momento outra editora comercial no Amazonas. Como se editava os livros e como eram os empreendimentos editoriais antes da Valer?

Isaac – Algumas experiências editoriais aconteceram em Manaus, quase todas sem expressividade. O registro mais significativo é o das Edições Governo do Estado, empreendida por Arthur Cézar Ferreira Reis, nos anos 60, usando como impressora a Gráfica Sérgio Cardoso. A iniciativa de Reis editou, em dois anos, mais de cem obras e terminou com a saída dele do Governo, portanto uma ação oficial. Quando a Valer começou a publicar, há pouco mais de uma década, os livros eram produzidos de forma artesanal, muitos deles tinham valor literário, mas a apresentação era sofrível. A Valer deu um tratamento profissional ao processo editorial, deflagrando, a partir daí, referências que passaram a guiar a maioria das publicações sérias no Estado.


Call – Há certo paradoxo. A Valer reeditou obras centenárias produzidas no Amazonas, mas o senhor afirma que o processo editorial é recente. Onde eram publicadas as edições originais dessas obras?

Isaac – A produção de livros em território nacional só ganhou forma após 13 de maio de 1808, com a instalação da Imprensa Régia. No Amazonas, a primeira "obra" conhecida foi a Muhuraida, de Henrique João Wilkens, publicada em Lisboa em 1819. Portanto, obra já tinha desde aí, mas produção gráfica data de algumas décadas e a produção editorial no sentido de editoria de livros é um processo muito recente.


Call – No início dessa entrevista o senhor disse que uma feira de livros estava prevista para este ano em Manaus. Haverá a feira?

Isaac – A Câmara Amazonense do Livro e Leitura, que é uma entidade formada por livreiros, editores, distribuidores de livros e setores vinculados à leitura, tem muito interesse na realização de uma feira nos moldes das que acontecem nas melhores cidades do mundo. No Brasil a mais famosa é a de São Paulo e, no Norte, a de Belém, que já está na décima edição. Nessas feiras não ocorrem apenas a exposição de livros. Ali, a leitura, o saber, a informação e os debates em torno do livro, como elemento importante para o desenvolvimento da cultura e da educação, estão em toda parte. Nenhuma comunidade é a mesma após a realização de um evento desses; ele movimenta e envolve as pessoas e deixa um saldo muito positivo para a sociedade. Desde 2005, o Governo do Estado promete apoiar a realização da feira de livros, mas não consegue efetivar tal apoio. No último dia 10 de maio, o próprio governador Eduardo Braga, no Palácio do Governo, num encontro com escritores, segmento editorial, secretários de Estado, entre outros, afirmou que teremos uma grande feira de livros ainda este ano. Mas eu acredito que dificilmente teremos a feira ainda em 2008.


Call – Por quê?

Isaac – Eduardo Braga disse querer mais que uma feira. O Estado, segundo ele, precisa de um programa de ação, capaz de mudar o quadro em que se encontra o ensino público, a educação e o interesse das pessoas, especialmente os estudantes e professores, para com a leitura. Desafiou a todos que estavam ali reivindicando a feira, que apresentassem propostas com a finalidade de formatar tal projeto e aí a feira seria uma ação dentro desse programa. Braga está certo, mas um programa como o governador quer leva tempo para ser formatado.

 


Call – O senhor acredita que a preocupação do governador é pertinente?

Isaac – Não é a qualidade da educação a responsável pelo índice de não leitura, e também não é a falta de leitura responsável pela qualidade da educação, segundo a professora Jeanete Beauchamp, especialista em Leitura e mestra em Educação pela PUC-SP. Há muitos outros fatores que devem ser considerados nesta questão. Eu endosso a opinião dela.



Call – Há algum estudo para tornar a Valer nacional? Digo publicar livros sobre outras regiões, ampliar os temas, distribuir os livros em todo país, como fazem normalmente as outras editoras.

Isaac – São muitas perguntas, mas tentarei responder: O mercado editorial do país vive um momento de mudanças significativas, as maiores e melhores editoras estão sendo compradas por grupos editoriais estrangeiros. Outras estão se juntando em blocos, editoras tradicionais estão sumindo, a política editorial está deixando de lado aspectos individuais da cultura local para seguir uma linha globalizada. Neste processo, sobram alguns nichos: a produção regional é um deles, e nós temos uma produção intelectual de valor aqui na região, produção tecida ao longo das décadas e aumentada significativamente nos últimos anos. Vamos fortalecer ainda mais o nosso foco em editar autores que produzem na Amazônia. O que muda é a distribuição, estamos investindo num ousado projeto de distribuição a partir de São Paulo, mas isto se anunciará em breve.


Call – Sei que trabalhar com o segmento artístico é muito difícil, é um meio repleto de sutilezas. O senhor sente esta dificuldade com os escritores?

Isaac – É uma experiência enriquecedora conviver com figuras de destaque da cultura regional, como Thiago de Mello, Márcio Souza, Luiz Bacellar, Marcos Frederico, Robério Braga, Astrid Cabral, Aldisio Figueiras, Zemaria Pinto, entre outros; são mais de 200 autores. Sem citar leitores fiéis e eventuais, produtores culturais, políticas da área, vaidades que se confundem com talento e tudo o mais, porém não consigo me ver longe desse meio, se tornou um hábito, uma necessidade.

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