Servidão
Humana na Selva
O
Aviamento e o Barracão nos Seringais da Amazônia

Por
Tony Santos
o período áureo da borracha no Amazonas, de
1870 a 1912, Manaus e Belém tiveram acesso a tecnologias
que outras cidades do sul não possuíam, como
luz elétrica, sistema de água encanada, bondes
elétricos, avenidas construídas sobre igarapés
aterrados, edifícios imponentes, além de diversos
palacetes luxuosos, como o requintado Teatro Amazonas, o Palácio
do Governo e o Mercado Municipal.
Enquanto Manaus e Belém experimentavam a euforia econômica
e cultural, um grupo vivia à margem da sociedade, eram
os seringueiros, que passavam a maior parte do seu tempo no
meio da selva colhendo o látex. É sobre esse
grupo, seu contexto econômico e social que o professor
Carlos Corrêa Teixeira discorre no livro Servidão
Humana na Selva.
A
obra é um estudo histórico e sociológico
dos seringais, estreitamente relacionada ao período
da produção da borracha, como também
à sua decadência. “O seringal constituía
uma formação social singular, uma unidade própria,
em que os seringueiros experimentavam uma forma peculiar de
convivência”, explica Teixeira.
“Era necessário conservar o látex na selva,
durante um mês ou mais, até chegar ao barracão.
Os próprios seringueiros descobriram técnicas
de coagulação do látex, uma delas feita
com resinas da "gameleira", evitando que respirassem
a fumaça, o que ocorria quando o tratamento do látex
era feito pelo processo tradicional de queima de côcos,
a exemplo do babaçu, que também é usado
na fabricação de óleo comestível”,
conta.
Vida social
A vida no meio da selva não era fácil. Não
havia uma alimentação adequada. Sem frutas e
sem verduras, as doenças eram freqüentes nesses
grupos de desbravadores, principalmente o “beribéri”,
que atinge o sistema nervoso, provocado pela falta de vitamina
B.
“Os grupos de seringueiros eram formados por nordestinos,
homens de origem humilde, em sua grande maioria solteiros,
e estes, vivendo como "brabos" isolados na mata,
no entanto, tinham seus momentos de diversão. Na falta
de mulheres, em noites de festa, eles bebiam e dançavam
com seus próprios companheiros. Essa dança ficou
conhecida como a “dança dos valetes" ou
"dança dos cavernas”, comenta.
Biopirataria
Nessa época, naturalmente articulada com a economia
mundial, a Amazônia
extrativista chamava a atenção do exterior,
chegando a produzir 43 mil toneladas de borracha em 1912,
e na Europa o preço do produto atingiu níveis
elevados. Mas a partir dessa data houve um desequilíbrio.
O inglês Henry Wickham levou sementes da seringueira
para o Jardim de Kew, em Londres, posteriormente transferidas
para a Malásia. “Lá a produção
racionalizada e com o emprego de mão-de-obra barata,
resultou numa capacidade de produção extraordinária,
tornando impraticável continuar a produção
e a comercialização na Amazônia. Essas
ações de Wickham podem ter sido os primeiros
sinais de biopirataria, “a pirataria do colonialismo“,
resultando na decadência da borracha”, finaliza.
O látex
Espécie de leite extraído da
seringueira, árvore típica da Amazônia,
onde existia em abundância.
Quando seus caules são feridos, sai à secreção
esbranquiçada e ao ter contato com o exterior passa
por uma oxidação, naturalmente cicatrizando
o tecido lesado.
Ao ser exposto no ar por um período de 12 a 24 horas,
sofre coagulação espontânea, formando
o polímero que é a borracha.
Serviço
Livro:
Servidão Humana na Selva é voltado
para o público leitor no campo das ciências sociais
e humanas, além de interessados em pesquisar a vida
social e econômica de nossa região.
Lançamento:
Dia 30 de agosto, às 10h, na Livraria Valer.