Tony
Santos – Como foi o início da sua
carreira de jornalista de esporte?
Carlos Zamith – Eu era
operador de som na Rádio Rio Mar e seu
dono, o “Charles Zamu”, mandava buscar
os programas de esportes gravados no Rio de Janeiro,
mas quando passava aqui já era completamente
desatualizado. Então sugeri que fizéssemos
uma resenha local; ele gostou da idéia.
Isso foi em 1955. A partir daí comecei
minha carreira como repórter esportivo.
Um tempo depois o Flaviano Limongi me convidou
para ser colaborador no jornal A Crítica.
Tony
– E como começou sua pesquisa sobre
futebol?
Zamith – As pessoas ligavam
muito, pedindo informações sobre
os campeões oficiais e outras coisas sobre
a história do futebol, mas ninguém
sabia responder. Foi quando eu percebi a necessidade
de fazer uma pesquisa. Comecei pelos nomes dos
clubes; não satisfeito, fui buscar os nomes
dos jogadores campeões, e, para completar
mais ainda, os jogadores que participavam da campanha
e os reservas. Então, em 1960, comecei
a escrever uma coluna de futebol no Jornal do
Commercio, chamei-a de “Baú Velho”
porque era só de fotos antigas, com o nome
dos jogadores. Continuei e só parei em
2007.
Tony
– O senhor já pensava em transformar
essa pesquisa em livro?
Zamith – Não. Eu
fui juntando as anotações que fiz
desde quando fui trabalhar no jornal A Crítica,
de 1981 até 2001. Foram 20 anos escrevendo
o “Baú Velho”, entre outras
matérias. Depois de tanta pesquisa, com
tanto material guardado, aí sim, resolvi
transformar em livro.
Tony
– E o senhor tem projeto para outro livro?
Zamith – Tenho sim. Inclusive,
quando eu escrevia a coluna “Baú
Velho”, no jornal, na mesma página
eu colocava um tópico de, no máximo,
20 linhas sobre as ruas de Manaus. É um
outro tipo de pesquisa, mas que eu continuo fazendo
até hoje. Uma biografia rápida de
cada rua e seu homenageado, e, também,
o vereador que deu o nome para aquela rua ou avenida.
Pois eu fico doente quando mudam o nome de uma
rua, principalmente aquelas que já são
conhecidas há mais de 40 anos.
Tony
– Na sua concepção qual foi
o melhor período do futebol regional?
Zamith – Eu prefiro dividir
em duas fases: a primeira foi nas décadas
de 30 a 40, e a segunda e melhor época
mesmo, foi de 1966 até 1980, porque, com
a fundação da FAF, idéia
do Flaviano Limongi, é que tivemos um período
áureo do futebol regional. O Limongi tinha
um jeito especial de cativar o público,
o estádio vivia cheio e às vezes
até faltava ingresso.

Tony
– Quais foram os ídolos do futebol
amazonense?
Zamith – Os ídolos
também tiveram suas fases. Por exemplo:
de 1930 a 1940, o melhor jogador de Manaus chamava-se
“Vidinho”, que jogava pela União
Esportiva e pelo Rio Negro. De 1940 a 1950 foi
a vez do “Paulo Onete”, que, sem exagero
nenhum, estava cinco anos à frente dos
seus companheiros, isso pela sua qualidade técnica.
Depois, de 1960 a 1970, veio o Edson Piola, um
artilheiro, centroavante do Fast Clube, que ainda
está vivo até hoje. Ele também
foi ídolo no Pará, jogou pelo Paysandu
e foi artilheiro e campeão.
Tony
– E o “Pepeta”?
Zamith – O Pepeta foi um
grande ponta-esquerda do Nacional, bicampeão
de 1968 e 1969. Só que ele parou cedo,
estava no auge de sua carreira quando parou de
jogar.
Tony
– Onde os jogos eram realizados?
Zamith – Nessa época
o estádio era a “Colina”, só
depois que foi inaugurado o Vivaldo Lima, em 1970.
Em 1971 começaram os jogos regionais.
Tony
– E como estão os estádios
hoje?
Zamith – Eu penso que com
os jogos na televisão os estádios
começaram a ficar vazios, o povo prefere
assistir futebol em casa, deitado no sofá,
ou tomando uma cerveja com os amigos. Recentemente
tivemos jogos clássicos como o Rio Negro
x Nacional, e venderam no máximo 2 mil
ingressos.
Tony
– Mas isso não seria uma falta de
estímulo dos organizadores?
Zamith – Também,
isso tudo contribui. Falta um marketing melhor
para nosso futebol atual. Em 1979, por exemplo,
um jogo no Vivaldo Lima entre o Rio Negro e Nacional
chegou a dar cerca de 40 mil pessoas.
Tony
– E como o senhor vê a atual situação
do futebol amazonense?
Zamith – É triste,
porque todos os domingos vou ao estádio,
em qualquer jogo. Mas fico triste em ver a falta
de público, falta de incentivo. Acho que
vai ser difícil recuperar aquela fase boa.
Tony
– O que o senhor acha do reverenciamento
dos amazonenses em relação aos times
de outros Estados como o Flamengo e o Vasco?
Zamith – Essa situação
eu vejo com muita tristeza. Recentemente saiu
um grupo de torcedores daqui da área para
ver o Flamengo jogar não sei com quem.
Você sai nas ruas e tem gente vendendo bandeiras
do Flamengo, do Vasco, e onde estão as
bandeiras dos times amazonenses? Valorizando o
que é nosso? E quando reclamamos para o
vendedor ele simplesmente diz: “Eu não
vendo porque ninguém compra”.
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O livro Baú Velho foi relançado
dia 16 de fevereiro de 2008
pela Editora Valer
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