ENTREVISTA
   Carlos Zamith

 

Baú Velho, a história do futebol amazonense

Todos os domingos vou ao estádio,
em qualquer jogo. Mas fico triste em ver
a falta de público, falta de incentivo

por Tony Santos
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uem visita a casa de Zamith, logo percebe que ali mora um apaixonado por futebol: são vários quadros na parede com fotos de jogadores que marcaram época em Manaus. Jornalista esportivo há mais de cinco décadas, ele começou sua carreira na rádio Rio Mar e foi se especializando no assunto. Partindo dos anseios do público, Zamith sentiu a necessidade de fazer pesquisas sobre tudo relacionado ao futebol amazonense, o que resultou no livro Baú Velho, lançado em 1999, e agora relançado pela Editora Valer. Nessa entrevista ele nos fala de sua trajetória como repórter esportivo e diz como vê a atual situação do futebol em nosso Estado.

 

Tony Santos – Como foi o início da sua carreira de jornalista de esporte?
Carlos Zamith – Eu era operador de som na Rádio Rio Mar e seu dono, o “Charles Zamu”, mandava buscar os programas de esportes gravados no Rio de Janeiro, mas quando passava aqui já era completamente desatualizado. Então sugeri que fizéssemos uma resenha local; ele gostou da idéia. Isso foi em 1955. A partir daí comecei minha carreira como repórter esportivo. Um tempo depois o Flaviano Limongi me convidou para ser colaborador no jornal A Crítica.

Tony – E como começou sua pesquisa sobre futebol?
Zamith – As pessoas ligavam muito, pedindo informações sobre os campeões oficiais e outras coisas sobre a história do futebol, mas ninguém sabia responder. Foi quando eu percebi a necessidade de fazer uma pesquisa. Comecei pelos nomes dos clubes; não satisfeito, fui buscar os nomes dos jogadores campeões, e, para completar mais ainda, os jogadores que participavam da campanha e os reservas. Então, em 1960, comecei a escrever uma coluna de futebol no Jornal do Commercio, chamei-a de “Baú Velho” porque era só de fotos antigas, com o nome dos jogadores. Continuei e só parei em 2007.

Tony – O senhor já pensava em transformar essa pesquisa em livro?
Zamith – Não. Eu fui juntando as anotações que fiz desde quando fui trabalhar no jornal A Crítica, de 1981 até 2001. Foram 20 anos escrevendo o “Baú Velho”, entre outras matérias. Depois de tanta pesquisa, com tanto material guardado, aí sim, resolvi transformar em livro.

Tony – E o senhor tem projeto para outro livro?
Zamith – Tenho sim. Inclusive, quando eu escrevia a coluna “Baú Velho”, no jornal, na mesma página eu colocava um tópico de, no máximo, 20 linhas sobre as ruas de Manaus. É um outro tipo de pesquisa, mas que eu continuo fazendo até hoje. Uma biografia rápida de cada rua e seu homenageado, e, também, o vereador que deu o nome para aquela rua ou avenida. Pois eu fico doente quando mudam o nome de uma rua, principalmente aquelas que já são conhecidas há mais de 40 anos.

Tony – Na sua concepção qual foi o melhor período do futebol regional?
Zamith – Eu prefiro dividir em duas fases: a primeira foi nas décadas de 30 a 40, e a segunda e melhor época mesmo, foi de 1966 até 1980, porque, com a fundação da FAF, idéia do Flaviano Limongi, é que tivemos um período áureo do futebol regional. O Limongi tinha um jeito especial de cativar o público, o estádio vivia cheio e às vezes até faltava ingresso.

Tony – Quais foram os ídolos do futebol amazonense?
Zamith – Os ídolos também tiveram suas fases. Por exemplo: de 1930 a 1940, o melhor jogador de Manaus chamava-se “Vidinho”, que jogava pela União Esportiva e pelo Rio Negro. De 1940 a 1950 foi a vez do “Paulo Onete”, que, sem exagero nenhum, estava cinco anos à frente dos seus companheiros, isso pela sua qualidade técnica. Depois, de 1960 a 1970, veio o Edson Piola, um artilheiro, centroavante do Fast Clube, que ainda está vivo até hoje. Ele também foi ídolo no Pará, jogou pelo Paysandu e foi artilheiro e campeão.

Tony – E o “Pepeta”?
Zamith – O Pepeta foi um grande ponta-esquerda do Nacional, bicampeão de 1968 e 1969. Só que ele parou cedo, estava no auge de sua carreira quando parou de jogar.

Tony – Onde os jogos eram realizados?
Zamith – Nessa época o estádio era a “Colina”, só depois que foi inaugurado o Vivaldo Lima, em 1970. Em 1971 começaram os jogos regionais.

Tony – E como estão os estádios hoje?
Zamith – Eu penso que com os jogos na televisão os estádios começaram a ficar vazios, o povo prefere assistir futebol em casa, deitado no sofá, ou tomando uma cerveja com os amigos. Recentemente tivemos jogos clássicos como o Rio Negro x Nacional, e venderam no máximo 2 mil ingressos.

Tony – Mas isso não seria uma falta de estímulo dos organizadores?
Zamith – Também, isso tudo contribui. Falta um marketing melhor para nosso futebol atual. Em 1979, por exemplo, um jogo no Vivaldo Lima entre o Rio Negro e Nacional chegou a dar cerca de 40 mil pessoas.

Tony – E como o senhor vê a atual situação do futebol amazonense?
Zamith – É triste, porque todos os domingos vou ao estádio, em qualquer jogo. Mas fico triste em ver a falta de público, falta de incentivo. Acho que vai ser difícil recuperar aquela fase boa.

Tony – O que o senhor acha do reverenciamento dos amazonenses em relação aos times de outros Estados como o Flamengo e o Vasco?
Zamith – Essa situação eu vejo com muita tristeza. Recentemente saiu um grupo de torcedores daqui da área para ver o Flamengo jogar não sei com quem. Você sai nas ruas e tem gente vendendo bandeiras do Flamengo, do Vasco, e onde estão as bandeiras dos times amazonenses? Valorizando o que é nosso? E quando reclamamos para o vendedor ele simplesmente diz: “Eu não vendo porque ninguém compra”.
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O livro Baú Velho foi relançado
dia 16 de fevereiro de 2008
pela Editora Valer



 

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