ENTREVISTA     Nilton Carlos - Sesc
 
Manaus, fevereiro de 2007

Entretenimento & cultura
é a palavra de ordem do Sesc


" O povo não costuma ir ao teatro. Mas, não é que ele não goste, é que ele não conhece. Se ele não teve acesso, não pode gostar"

Por: Tony Santos
Fotos: divulgação

m 1946, o Brasil passava por um processo de democratização e, com isso, as forças políticas e sociais buscavam seu espaço de liberdade proporcionado pelos novos tempos. Em meio a essa tempestade de ideologias, as lideranças do comércio, indústria e agricultura reuniram-se em Teresópolis, na primeira Conferência das Classes Produtoras (Conclap), e aprovaram a "Carta da Paz Social", surgindo então o conceito de serviço social custeado pelo empresariado. No mesmo ano, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o Decreto de Lei n.º 9.853, autorizando a Confederação Nacional do Comércio a criar o Serviço Social do Comércio (Sesc). Hoje, presente em todas as capitais do País, oferece aos seus associados (comerciários) e a comunidade (usuários) creche, educação infantil, ensino fundamental, educação de jovens e adultos, medicina, cinema, teatro, música, artes plásticas, dança, biblioteca, esporte e assistência especializada. Só no ano de 2002, aproximadamente 3,6 milhões de pessoas se beneficiaram da ação social do Sesc, abrangendo, também, as populações das periferias e cidades de pequeno e médio porte, por meio de parcerias com o poder público e empresas privadas. Respeitando, não só o desejo do simples entretenimento, procurado pelos associados, mas também contribuindo com atividades que levem a população a usufruir do lazer cultural com qualidade e reflexão. Para isso, o teatro, a música, as artes plásticas, a dança e o cinema são as linguagens artísticas que o Sesc prioriza em seus eventos. E é sobre estes eventos que o senhor Nilton Carlos, líder do Setor de Cultura e de Projetos Culturais do Sesc, fala nessa entrevista especial para o site da Call.

 

 

Tony Santos – Dos projetos em nível nacional, quais estão programados para acontecer em Manaus neste ano de 2007?
Nilton CarlosVários projetos do Sesc irão acontecer em Manaus, para começar, tem o Projeto Sonora Brasil, trabalhando com grupos musicais que não estão na mídia. E neste ano, o grupo escolhido foi o "Raízes Caboclas", o primeiro grupo que vai sair de Manaus para circular em várias capitais do País por meio desse projeto. Esses grupos, antes de se apresentarem, fazem uma pesquisa na área da música, para no decorrer do concerto, irem explicando aos expectadores a pesquisa musical que realizaram, contando a história do grupo e batendo um papo descontraído com o público, fazendo do evento uma ação formadora de platéias.

Tony Como o senhor se refere à ação formadora de platéias?
Nilton Bom! Muitas pessoas vão a um espetáculo ou concerto musical, assistem até o final e saem do evento sem nenhuma conclusão formada. No projeto Sonora Brasil a platéia aprende a ouvir e entender a música Popular Brasileira com uma visão crítica. O espetáculo é para informar e formar também. E esses grupos não fazem parte da Indústria Cultural, não estão na mídia. Ano passado, por exemplo, trouxemos o grupo Filhos da Pitangueira, lá do Recôncavo Baiano, e trabalhamos com as raízes africanas. Toda a pesquisa do grupo estava ligada a essa raiz musical que formou a música brasileira. O projeto leva o grupo escolhido para mais de quarenta cidades no Brasil inteiro.

Tony Fale sobre alguns projetos locais do Sesc para esse ano.
Nilton Dentre os projetos locais do Sesc, temos o Projeto Dramaturgia, no qual é escolhido um ator de fora, com grande experiência, para trabalhar as leituras dramáticas com os atores, escritores e diretores locais. Uma troca de idéias, de experiências e este ano vamos montar um Banco de Texto para que estes atores tenham um espaço para ensaiar seus espetáculos, discutir alguma coisa na área de teatro. Também pretendemos retomar o curso de teatro para crianças, jovens e adultos. Aliás, o Tesc (Grupo de Teatro Experimental do Sesc) está a todo vapor com o Márcio Souza, recebendo a visita de alunos de escolas públicas para assistir aos nossos espetáculos por meio da Secretaria Municipal de Educação e da Secretaria Estadual, chegando a receber mais de 900 alunos das escolas em torno do centro, como do Colégio Brasileiro, Estadual, etc. São cinco dias de espetáculo, nos horários da tarde e noite. A intenção é que eles venham e entendam o processo educativo da linguagem teatral. Sempre fazemos uma leitura antes de iniciar o espetáculo.

Tony E quais são os projetos locais direcionados para a música?
Nilton Estamos com o “Musical da Esquina”, um projeto bem interessante, que acontece sempre no finalzinho da tarde, quando alguns comerciários começam a sair das lojas. Escolhemos uma esquina e levamos um cantor, um ator ou um pequeno grupo de teatro para fazer uma mostra rápida do seu trabalho. Isso funciona também como um estímulo para que o público vá ao Sesc para ver outros espetáculos.

Tony E no teatro?
Nilton No teatro temos o "Palco Giratório", que tem a mesma proposta do “Sonora Brasil”: diversão e informação. Também é um projeto do circuito nacional e está completando dez anos. Concretizou-se como uma das ações mais importantes do Sesc realizada na área das artes cênicas. Aliás, durante este ano, em Manaus, vamos receber quatro espetáculos do "Palco Giratório". A proposta principal é mostrar grupos de teatro que não estão na mídia, mas que têm grande importância para a formação cultural. É feita uma curadoria com representantes em cada Estado e esses curadores escolhem o espetáculo de cada região.
O grupo de teatro escolhido vai circular por várias cidades do País e fazer oficina com atores e a comunidade em geral. Apresentando seu espetáculo, sempre com um bate-papo no final.

Tony O Sesc tem projetos de cinema?
Nilton Temos o projeto "A escola vai ao cinema", que também é do departamento nacional e visa possibilitar o acesso dos estudantes ao cinema e o conhecimento da linguagem, privilegiando principalmente as produções nacionais. A proposta do projeto não é somente passar o filme, mas também discutir sobre a temática. Tanto que para cada filme apresentado existe uma pasta com os roteiros, curiosidades sobre o diretor, o histórico do filme, a sinopse etc. Essas pastas vão para as escolas, os professores escolhem os filmes que vão assistir, voltam ao Sesc, discutem e fazem um desdobramento nas escolas. Até 2006, estávamos atendendo apenas a cidade de Manacapuru, mas este ano queremos trazer para Manaus. A proposta é de também fazer oficinas de cinema com professores e alunos, como no ano passado, que tivemos a oficina e depois duas exposições de animação, filmes dos professores e filmes dos alunos.

Tony É através desse projeto que o Tesc vai se apresentar em São Paulo?
Nilton O Tesc vai fazer uma temporada em São Paulo e, provavelmente, no Rio de Janeiro. Mas isso é outra proposta, tão importante quanto. Mesmo porque o Tesc foi premiado várias vezes ano passado, por exemplo, no Festival de Rezende com o “Max Na Zona”, tendo como destaque o ator Roger. E agora, novamente, o Tesc vem se destacando no cenário nacional, no Sudeste, onde há um maior movimento cultural.

Tony Como foi a receptividade da Feira de Livros do Sesc em 2006?
Nilton Foi muito boa. Os livreiros ficaram muito satisfeitos com as vendas. Tivemos boas promoções, apesar de sabermos que o livro ainda é um produto muito caro. As pessoas têm vontade de comprar, mas temos um número muito pequeno de pessoas com o acesso à leitura. Mas, esperamos que haja realmente uma verdadeira política cultural no País para que essas pessoas tenham acesso não só a leitura, mas também a cultura geral.

Tony Como surgiu a Feira de Livros do Sesc?
Nilton A Feira de Livros do Sesc começou com a idéia de promover a literatura infantil, na década de 80, com um projeto nacional, quando houve um “boom” da literatura infantil no País surgindo muita coisa boa. Aqui em Manaus, começamos a Feira em 1986. A partir de 2002, fizemos uma avaliação nacional e o foco passou a ser também para jovens e adultos. Isso porque aquelas crianças que participaram das “Feiras de livros infantis” do Sesc, logo no início, hoje são jovens e adultos. No total, foram praticamente 17 anos fazendo Feira de Livros Infantis e algumas pessoas ainda acham que a Feira é só de livros infantis. Mas, a coisa mudou, temos livros sobre temas variados e para todas as faixas etárias.

Tony Quais são as expectativas para a Feira em 2007?
Nilton Em 2006, a participação e a receptividade foi muito boa, tanto pela participação dos empresários livreiros, quanto do público que compareceu mesmo. E em 2007, queremos fazer melhor ainda. Por isso já estamos verificando quais as atividades e oficinas que serão realizadas, além dos escritores que vamos trazer. Nós já trouxemos muita gente boa como a Astrid Cabral, que mora no Rio de Janeiro; o Roger Melo, escritor de Literatura Infantil; o Antonio Torres, o Daniel Mundurucu. E este ano, gostaríamos de trazer o Milton Hatoum. Um amazonense que recebeu vários prêmios em 2006, o Prêmio Jabuti novamente, uma premiação merecida e até motivo de muito orgulho para nós manauaras, saber que temos um filho da terra sendo escritor de tamanha magnitude. Sei que também temos outros muito bons como o Márcio Souza, o Thiago de Mello, o Luiz Bacellar, porém, o Milton está nessa fase badalada e por morar distante, uma de nossas propostas é trazê-lo esse ano para a Feira de Livros.

Tony Como é a participação dos empresários nas ações do Sesc?
Nilton O Sesc é mantido pelo empresariado do comércio, a partir de uma contribuição percentual arrecadada nas empresas e que são revertidas em ações socioculturais. Nós acabamos cobrando em algumas atividades, mas se você observar, o que é pago nem sempre cobre os custos. Então podemos ver que a instituição realmente trabalha com a possibilidade de promover o acesso à educação, ao esporte, às artes, ao lazer e ao turismo, dando sua contribuição social. E essa contribuição do empresariado é revestida em ações para beneficiar o seu colaborador, que é o comerciário.

Tony E como é a participação do comerciário nas atividades do Sesc?
Nilton É boa, principalmente no balneário ou nas ações do Sesc indo até o comerciário. Porém este ano, queremos aumentar a participação do comerciário interessado em vir para nossas atividades culturais.

Tony Mas em Manaus, ir ao balneário faz parte da cultura. Porém, é muito difícil ver pessoas indo ao teatro.
Nilton É verdade. Mas, isso é uma questão cultural mesmo. O povo não costuma ir ao teatro, mas não é que ele não goste, é que ele não conhece. Se ele não teve acesso, não pode gostar. Tudo aquilo que você nunca experimentou você não pode opinar, fica difícil de entender um texto, uma peça, uma música clássica, etc. Mas é preciso, sim, fazer com que essas pessoas entendam os significados e a importância da arte e participem mais dos nossos eventos culturais, ter no comerciário amazonense um público que goste de arte e cultura, assim como acontece em outras capitais do País.

Tony O Sesc tem uma oficina de novos talentos?
Nilton Sim. Um dos nossos destaques sempre foram os cursos. Inclusive, neste mês, vamos iniciar a "Oficina de Teatro" para crianças de 7 a 12 anos. As matrículas já estão abertas e as aulas serão sempre aos sábados. Outro projeto que teve destaque em Manaus e revelou muitos talentos locais foi o nosso "Festival de Calouros".  Em sua 27ª edição, revelou artistas que hoje são conhecidos no cenário musical, como o Serginho Queiroz, Arlindo Júnior, a Nely Miranda, o Salomão. E esses que citei foram os destaques que tiraram em primeiro lugar. Mas, mesmo os que tiraram em segundo ou terceiro lugar, têm feito sucesso na cidade. O Eduardo Barbosa, por exemplo, participou do Festival de Calouros do Sesc e hoje está com uma banda fazendo shows na cidade. E isso é muito gratificante para nós do Sesc, onde as pessoas participam e fazem sucesso, no teatro isso também acontece. A Rosa Malagueta, por exemplo, começou no Sesc e hoje é bastante reconhecida por seu trabalho como atriz.

Tony Então os principais destaques do Sesc são a música e o teatro?
Nilton Posso dizer que são os mais significativos. Na dança tivemos alguns, mas nosso ponto forte é a música e o teatro. O "Carrapicho", por exemplo, surgiu aqui no Sesc, é um destaque na música local, nacional e já foi até mundial.

Tony Em Manaus, qual o balanço que o senhor pode fazer das ações culturais do Sesc?
Nilton O Sesc tem um papel muito importante no processo da cultura local. Durante muito tempo foi o Sesc que direcionou a cultura de Manaus. Até mesmo pessoas que hoje estão na Secretaria de Cultura do Estado passaram pelo Sesc, vivenciaram alguma coisa conosco. Durante todo esse tempo buscamos possibilitar ao comerciário o encontro com a cultura e neste ano também vamos levar movimentos artísticos aos bairros carentes.

Tony Que movimentos são esses?
Nilton Estamos com o projeto "Teatro nos Bairros", cujo objetivo é levar o teatro para as comunidades carentes, aquelas pessoas que não têm condições de vir ao centro. Vamos dar uma orientação do que é o teatro, fazer um trabalho de base e até formar um grupo de platéias na comunidade. Em breve, estaremos com a nossa Orquestra de Câmara, também. Outro grande movimento cultural vai acontecer durante dez dias do próximo mês de maio, com o projeto "Aldeia Amazonas", o qual faz parte do "Palco Giratório" apresentando dança e teatro. Serão dois grupos que virão de fora, além dos grupos locais, apresentando-se no Sesc e fazendo intervenções em vários pontos da cidade.

Tony Então a proposta principal do Sesc é fazer o social com diversão e educação?
Nilton Sim. Até porque está dentro das nossas diretrizes, das nossas ações, trabalhar e educar por meio das nossas expressões, o teatro, a dança e a música. Contribuindo para que as pessoas estejam se formando e se informando ao mesmo tempo.

* Nilton Carlos é líder do setor de Cultura do Sesc Manaus

 
 
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