ENTREVISTA
   Carlos Machado
 
Manaus, Janeiro de 2007

Balada de uma retina sul-americana

"Gosto de usar a foto literária
para que o leitor
possa ter a liberdade de imaginar"

Por Tony Santos
Fotos: Heitor Lopes

__________________________________________________

le é compositor, letrista, músico e autor de dois livros de contos: “A voz do outro” (2004) e “Nós da província: diálogo com o carbono” (2005), publicados pela 7Letras. Gravou dois CDs com a banda SadTheory, o primeiro “The Lady and the Torch” pelo selo paulistano Megahard e o segundo, “A Madrigal of Sorrow” pela Die Hard. Nessa entrevista Carlos fala de seu novo livro e das viagens que inspiraram sua obra.

 

 

Tony Santos – Como surgiu a idéia de escrever esse livro?
Carlos Machado Embora eu tenha resolvido começar a fazer algumas anotações durante uma viagem que fiz, e que resultou na idéia do livro, esta é uma obra de ficção. Nem todos os lugares que eu descrevi estavam ou está como é retratado no texto. Durante a viagem ou no carro mesmo eu ia escrevendo algumas coisas.

Tony – Quem fez parte dessa viagem?
Carlos – Eu, dois amigos e um primo. Fomos de carro, um roteiro praticamente programado. Tinha apenas um mês para fazer essa viagem, então estipulamos as capitais que íamos visitar. Ficamos em hotéis simples, porém confortáveis. No meio da viagem ficou algo meio indefinido, mas, Montevidéu e Santiago faziam parte do roteiro.

Tony – Porque colocar Curitiba sempre em comparação com outras partes do continente?
CarlosA proposta é essa: mostrar o que Curitiba tem de contraste com outros locais.

Tony – No livro o senhor destaca Chico Buarque, Noel Rosa, Lenine e outros cantores. Eles fazem parte do seu gosto musical?
CarlosUma coisa que eu gosto de fazer é misturar cinema, literatura e música. Você pode observar que no texto existe a idéia da mudança de ângulos, como uma mudança de câmera, as músicas entram como se fosse uma trilha. O livro ficou parecido com um roteiro e as músicas são muito importantes como pano de fundo.

Tony – Então o senhor pretende levar essa história para os cinemas?
CarlosNa realidade eu quero passar essa idéia das imagens na literatura mesmo. Mas, se acontecesse de transformar num filme, seria ótimo. (risos)

Tony – Este seu livro seria um homenagem à cidade de Curitiba?
CarlosNão. Na realidade, Curitiba está sempre em meus livros, é como se fosse um personagem que vai se transformando. Em cada livro um olhar, uma forma de comparar um novo lugar com o modelo do que me agrada em Curitiba, e, quando eu chego das viagens Curitiba já não é mais a mesma. Sempre uso Curitiba como meu modelo.

Tony – Em alguns trechos o senhor cita o uso de câmera fotográfica. Mas, por que não usou fotos ou ilustrações?
CarlosBom, a idéia é esta: usar a foto literária para que o leitor possa ter liberdade de imaginar as cenas.

Tony – O senhor compara os lugares quentes por onde passou com o frio curitibano. Como está sendo sua passagem por Manaus?
CarlosMuito quente! A cidade é bonita, as pessoas são agradáveis. Se não fosse tão quente receberia até mais turistas. Eu sempre estou citando em meus livros as cidades por onde passo, e Manaus, provavelmente fará parte do meu próximo trabalho.

Tony – Como escritor qual sua visão sobre a Cultura no País?
CarlosEu acredito que não existe um artista que esteja ao mesmo tempo em todos os canais midiáticos. Na realidade estão em busca de portas e selos alternativos. Os músicos, por exemplo, estão em busca de gravadoras mais simples, com um trabalho mais barato. Os escritores atrás de editoras mais receptíveis. A minha editora, não é tão grande, mas possui qualidade. A questão é o consumidor aceitar o que tem de bom ou de ruim, o que estão lançando na Internet, nas gravadoras, temos de aprender a selecionar e interpretar.

Tony – O senhor já pensou em lançar um e-book?
CarlosJá pensei, mas não gosto muito. Sou um romântico e ainda acredito no livro impresso. Mesmo que seja de contos eu ainda prefiro lançar no papel.


Tony – Em sua visão de cantor, o senhor concorda com as músicas que são distribuídas na Internet e fazem sucesso antes de estarem num CD?
CarlosNo Paraná um jornalista fez certo comentário: "...hoje em dia todo mundo virou músico, todo mundo virou escritor, basta fazer ou comprar e lançar na Internet". Eu acho ótimo. Todo mundo tem o direito de tentar, depende do público em aceitar ou não.


Tony – Em sua opinião baixar o preço dos livros ajuda na formação de novos leitores?
CarlosNão. O leitor quando não tem dinheiro vai à biblioteca pública, vai à casa de um amigo. Corre atrás.

Tony – O que o senhor acha que poderia ser feito para melhorar o incentivo à leitura?
CarlosVeja o exemplo do sucesso do Harry Potter: quando eu dava aula para turmas do ensino médio, alguns alunos levavam esse livro para a escola e ficavam lendo no intervalo. Por ser uma leitura fácil, torna-se agradável. Em seguida, talvez a maioria deles passasse a ler textos mais complexos. Mas não dá pra colocar uma criança para começar lendo logo um Machado de Assis.

Tony – O senhor tem idéia de um tipo de leitor específico para o seu livro?
CarlosEu não quis fazer uma coisa muito acadêmica, nem fiz com muitas páginas. Prefiro que seja um livro agradável de ler. Isso para mim é o mais importante.

Carlos Machado é curitibano, 29 anos, formado em Letras pela UFPR, pós-graduado em administração escolar pela FAE, foi professor de literatura brasileira e língua inglesa no colégio Bom Jesus em Curitiba.

 

 
Entrevistas e matérias anteriores: