ENTREVISTA:    Abrahim Baze


O livro que conta a história do Luso Sporting Club


"Nenhum escritor é dono da verdade"

Por Tony Santos
Fotos: Heitor Lopes

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brahim Sena Baze nasceu em Manaus, Estado do Amazonas, em 27 de agosto de 1949, filho de Akil Ayub Baze e Jandira Sena Baze. Diretor do Instituto Cultural da Fundação Rede Amazônica, apresentador do Programa Literatura em Foco, acadêmico do curso de História da Uninorte. Nessa entrevista ele nos conta sobre suas obras literárias, seu novo livro, e curiosidades da época em que os portugueses chegaram a Manaus.

 

 

Tony Santos - Por que o senhor escolheu o Luso como peça desta obra?
Abrahim Baze – Na realidade, eu tenho dado minha contribuição para a região Norte como escritor recuperando a memória de algumas instituições, e em razão disso, fui convidado pela diretoria do Luso para executar este trabalho. Fiz uma pesquisa minuciosa, a qual durou quatro anos resultando neste livro com setecentas páginas.

Tony O que há de mais relevante nessa obra?
Abrahim - É uma das histórias mais belas dos clubes de Manaus. Eu diria que o Rio Negro tem uma história cultural, social e esportiva muito bonita. E o Luso faz parte deste contexto. O Luso criou uma banda de música, uma escola primária, uma escola de dança, criou um teatro. Os portugueses escreviam peças e no livro tem duas entre as várias que eu encontrei: uma de 1919 e outra de 1940.

Tony Como eram os negócios entre Belém e Manaus?
Abrahim - O Luso surge num momento em que a borracha, ou látex, estava em sua decadência, por isso, a minissérie "Amazônia", está em evidência. A partir de 1910, Manaus, Belém e o Acre sentiram essa retração: a queda da borracha e dos negócios.

Tony Fale um pouco sobre a era dos "jotas".
Abrahim - A era dos "jotas" foi um momento de pura casualidade. Eram muitas empresas com o nome de jota: JS Amorim, JG Araújo, JLeite. Muitos Josés e Joãos montando empresas. E isso acabou sendo uma curiosidade no livro. Aliás, a primeira pessoa que citou os jotas, foi o professor Samuel Benchimol.

Tony Ao chegar em Manaus, em que área os portugueses mais se destacaram?
Abrahim -
Nessa época Portugal vivia um momento político muito difícil e os portugueses estavam migrando para o mundo todo sonhando com uma nova vida. Por exemplo: Inglaterra, Alemanha e França. O Brasil foi uma dessas sintonias em razão do látex. Era o centro das atenções de vários países. E os portugueses chegaram aqui, trabalhando para outros portugueses.

Tony Como era o comércio?
Abrahim - Naquela época não havia o conceito de supermercado, eram as grandes mercearias, fortes como a "Casa Dias". Também tinham os bares, como o Bar do Armando, o Ká te quero e o Calçada Alta, que estão aí até hoje. Então, esses portugueses criaram uma divisão econômica porque os mais simples, mais humildes, criaram o Luso, e os portugueses mais ricos criaram a União Esportiva Portuguesa. Isso mostra o resultado da vontade desses portugueses mais simples. Já a União Esportiva, hoje tem sua sede alugada para um partido político, o clube praticamente não existe.

Tony E como está a situação do Luso hoje?
Abrahim - Está funcionando normalmente com sua sede campestre. A sede social está alugada para a universidade Uninorte.

Tony Não foi vendida para a Uninorte?
Abrahim - Não! Está alugada. E isso foi uma decisão da diretoria do Luso com a Faculdade Uninorte, que não me cabe aqui julgar. Ao meu ver, não havia mais condições de manter aquele prédio. Um local grande e cheio de problemas elétricos, de infiltração. Acredito que eles acertaram em alugar.

Tony Qual foi a importância da Banda do Luso?
Abrahim - Foi tão importante na época, que os diretores chegaram a contratar um maestro, que veio do Peru. A banda nasceu da vontade de um padre. Esse padre ajudou a comprar os instrumentos musicais que vinham da Europa, da Inglaterra. Esse foi um período muito fértil, inclusive com a criação de um corpo cênico, como eles chamam o teatro. Hoje esses instrumentos encontram-se no Museu do Luso, no Centro Cultural Luso Brasileiro. Também criaram as pastorinhas, que foram bastante expressivas, até 1960.

Tony E o que eram as "Pastorinhas"?
Abrahim - As "Pastorinhas" era uma festa que acontecia na época de Natal, quando havia cânticos e representação cênica. Era praticamente um Auto de Natal.

Tony O senhor fundou alguns museus na cidade. Dentre eles, o Centro Cultural Luso Brasileiro do Amazonas, quais foram os outros museus?
Abrahim - Isso. Eu fundei cinco museus: O museu do Rio Negro, o da Beneficente Portuguesa, o museu do Luso, o museu da Rede Amazônica e o museu do Icbeu (Instituto Cultural Brasil e Estados Unidos). Depois, com o aluguel do Luso para a Uninorte, criamos o "Centro Cultural Luso Brasileiro", onde está o museu do Luso, o Consulado de Portugal, e agora, vamos recriar o Real Gabinete Português de Leitura que foi inaugurado em 1900 e extinto em 1905, cujas obras raras, eu resgatei todas. Hoje, todos esses museus estão funcionando.

 

Tony Por que essa relação tão forte com a cultura portuguêsa?
Abrahim - Na realidade eu sou descendente de árabe.  Mas tenho grandes amigos na comunidade portuguesa. Sou um profissional e cobro para fazer as minhas obras. Fui convidado para escrever o livro da Beneficente e acabei não cobrando, porque me tornei diretor e quem me levou para a comunidade há dez anos é o atual presidente da Beneficente Portuguesa, o comendador Alfredo Monteiro Vieira. Ele me convidou e eu comecei meu primeiro trabalho com os portugueses lá. Mas tarde, eu descobri que os mesmos que faziam filantropia na maçonaria eram os mesmos da Beneficente, os mesmos do Luso e os mesmos da Associação Comercial. Isso criou em mim uma tendência à pesquisa. Eu queria saber mais, fui pesquisando, produzindo e conseqüentemente, esses portugueses me projetaram na Europa. Hoje tenho 17 obras publicadas, sendo dois livros editados e publicados em Portugal.

Tony Quais são os seus livros usados nas universidades?
Abrahim - O meu livro da Beneficente faz parte de estudos na Universidade de Medicina do Porto, em Portugal, uma das mais antigas universidades de Medicina do mundo. Criamos inclusive, uma parceria cultural entre o museu da Universidade de Medicina do Porto com o museu da Universidade de Medicina de Manaus. Este livro de história da Beneficente é usado na Universidade Estadual do Amazonas no curso de Medicina e na Uninilton Lins, também no curso de Medicina.

Tony Quais são suas expectativas em relação a esse novo livro?
Abrahim - Eu entreguei simbolicamente um exemplar na reunião da diretoria do Luso. O livro recebeu críticas favoráveis e espero que esta obra seja mais uma contribuição para a sociedade. Claro, até porque nenhum escritor é dono da história e nem da verdade. Acredito que esse livro será importante fonte de pesquisa.

Tony Existe alguma idéia para um próximo livro?
Abrahim - Eu já estou trabalhando num resgate da Beneficente trazendo agora para a modernidade. Serão praticamente, duzentas a trezentas páginas, contando a evolução tecnológica desse hospital português. Como ele se instalou em Manaus, que na ocasião era simplesmente província do Amazonas, nascida quase na mesma época desse hospital, pois a província foi oficializada em 1852 e o hospital em 1873. Só por mera curiosidade, quem inaugurou o hospital da Beneficente, no dia 17 de dezembro de 1893 foi o governador Eduardo Ribeiro.

Tony Vamos falar um pouco sobre o Abrahim apresentador. Por que um programa sobre literatura?
Abrahim -
Na realidade, o "Literatura em Foco": eu não sou o pai da criança. Foi uma idéia do doutor Felipe Daou, e hoje são mais de quatrocentas horas de programação, oito anos de programa, com uma contribuição muito grande sobre a literatura da Amazônia. Eu já gravei no Pará, no Acre, em Rondônia, em Boa Vista, no Amapá, em Mato Grosso e agora estou indo para o Maranhão e para Tocantins. Sempre entrevistando escritores que contribuíram para a literatura e história da região Amazônica.

Tony Esplane sobre mais um ponto forte do livro...
Abrahim -
Basicamente é a história social do homem. Eu acredito que o livro resgata o homem. Ele que é o centro dessa história. Eu falo do Lusófono e do homem regional. O homem que faz tudo acontecer. Assim como eu falo de um simples funileiro que fazia a coleta do látex, também falo de um comendador, que foi um banqueiro em Manaus. No caso o comendador Antônio Mattos Areosa.

 

 
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