Tem
duas coisas que deixam um escritor doente: falta de tempo para
escrever e texto mal revisado. Não ter tempo para escrever
é alguma coisa parecida com um aborto provocado ou um coito
interrompido. Frustra o nascimento do prazer. E texto mal revisado,
com erros de ortografia ou gramática, é como um
espelho quebrado ou a existência de uma ferida a mutilar.
Um dia desses levei um livro muito bem
impresso --- papel e capa excelentes; diagramação
ordenada e texto aparentemente correto --- para um escritor amigo
meu autografar. Antes de escrever e assinar a sua dedicatória,
com um semblante tenso e preocupado, me alertou para os erros
que haviam saído naquela edição.
Foi quando percebi que essa frustração
do escritor é como a do goleiro na hora do pênalti.
Aquele pênalti que ele só não defendeu porque
pulou um milionésimo de segundos atrasado.
O escritor é aquele ser
solitário e empedernido que sempre acha que a Bíblia
é fichinha perante o que ele pretende fazer. Se tem um
ser humano extremamente zeloso e vaidoso de sua cria, esse é
o escritor. E goleiro não pode errar, não é
verdade!?
Venho refletindo sobre o que anda acontecendo
na literatura. Para o escritor, a literatura virou um espetáculo
de futebol com partidas fracas e pênaltis mal defendidos.
Sendo o escritor como aquele goleiro que fica vendo tudo acontecer
em campo e que quase nunca tem culpa pelas faltas cometidas. Mas
goleiro só deve ter pressa --- já que fica a maior
parte do tempo parado --- quando a bola vem em sua direção.
E não o contrário. Tem que defender o gol. Ah! Isso
tem. Como o escritor tem que defender a sua glória. Bem,
isso pode ser até discutível.
Mas vamos em frente.
O tempo do goleiro é o da
espera. E a sua conquista é o pulo do gato com as mãos
entranhadas na bola. Se tudo der certo ele evita o gol; senão,
sai vaiado e culpado. O tempo do escritor também é
o da espera. E se tudo der certo ele faz um bom livro. Se não,
fica decepcionado com a impressão final.
E tem mais uma coisa. A literatura
já teve os seus bons tempos de mansidão, hoje o
que prevalece é a pressão. Quanto mais, melhor.
Mas, o que é mais acaba por ser menos. Tem que se ter cuidado
em ser prolixo, senão vai-se pro lixo!
A Nélida Pinon, uma de nossas
escritoras, que se fosse goleiro teria agarrado bastantes pênaltis,
disse certa feita que são necessários mais ou menos
20 anos de muita leitura e exercício da escrita para alguém
poder se tornar um escritor. Fico pensando então quanto
tempo de editoração correta deve um escritor ter!
Dizem que goleiro é como vinho,
só fica mais apurado com o tempo. E escritor? Qual o seu
tempo de apuração, deixando de lado o que a Nélida
escreveu?
Justamente o tempo da escrita, ou melhor, do
treino com bolas exaustivamente chutadas na direção
do gol. É quando então o escritor encontra o seu
timing.
Mas que ele não se iluda,
a bola não para nunca de vir em sua direção.
Às vezes ele pega; às vezes, não. O que importa
é que se esforce para defender.
Já disse um outro escritor, que
escrever é cortar as adiposidades. Ou trocando em miúdos,
cortar o que é desnecessário. Ele falou corretamente.
A sua poesia, graças aos cortes, é tão perfeita
quanto um pênalti bem defendido.
Mas, se escritores estão
nascendo em centenas de milhares de campos, falta apurar os treinos
e as defesas para se evitar os gols. Senão a partida torna-se
medíocre.
O pior futebol é aquele
no qual os dois times faturam doze gols de cada lado. É
partida que diverte, mas é apenas uma pelada. Sem o brilhantismo
das dificuldades de um belo treinamento ou uma bela partida, o
goleiro, ou guarda-metas, não pega mais nada. E passa o
tempo todo buscando a bola nos fundos da rede e a levar o time
inteiro ao prejuízo.