Manaus é
uma cidade onde coisas estranhas podem acontecer naturalmente.
É só observar. È uma cidade que tem cafés,
restaurantes e até sexo a céu aberto. Uma cidade
que tem cachorros que atravessam educadamente passarelas e faixas
de pedestres; jacarés circulando próximo a edifícios
modernos; e camelôs vendendo tudo em até 3 vezes
sem juros no cartão. É só observar. E se
você observar melhor, verá, todos os dias, que uma
quantidade enorme de transeuntes prefere arriscar um atropelamento
na Djalma Batista, que fazer uma curva para passar por uma passarela
para o outro lado da rua. Esses deveriam seguir o exemplo do cachorro
sobre o qual falarei adiante.
Segundo
o Joaquim, um senhor de seus setenta e poucos anos, morador dessa
Manaus insólita, a cidade foi feita para ser um “interiorzão”,
mas como cresceu, “tá toda apertada e esquisita”.
A cidade
ainda tem um lugar, apelidado de Manaus Moderna, onde, segundo
o olhar atento do Joaquim, pela manhã e ao longo do dia,
vê-se trafegar várias dezenas de carrinhos de supermercados
e “aqueles carrinhos de pedreiros”, transportando
compras de feirantes e, pasmem, recipientes com salada de fruta
e mingau de banana prontas para o consumo... “Como aqueles
carrinhos foram parar na mão daquela gente, maninho!?”,
perguntou o Joaquim. “Só Deus sabe”, respondi
desconfiado. E como fica a vigilância sanitária?
“Não existe,maninho”, diz o Joaquim.
Mas deixem-me
esclarecer melhor, uma parte do que escrevi acima. A parte do
cachorro e a do jacaré.
Um dia desses,
estava caminhando perto do Millennium Center quando escutei uma
algazarra de moleques a jogarem pedras no poluído igarapé
ali perto. Fui me aproximando para ver melhor o que acontecia
e perguntei:
--- Que
está havendo?
--- Tá
vendo ali! --- respondeu um menino, apontando para o igarapé.
--- Três jacarés, ali, ali! --- completou, todo eufórico
pelo achado.
--- Aquele
maior deve ter uns dois metros --- observou outro moleque. ---
Está mais gordo que eu! --- completou, para riso dos demais.
Subi a extenuante
e quase sem calçadas Avenida Djalma Batista (Manaus é
uma cidade que, em alguns momentos, fica quase sem calçadas!),
ainda pensando no jacaré visto, quando, já na altura
da passarela do Amazonas Shopping resolvi olhar para cima para
observar os transeuntes. Foi quando me deparei com um cachorro
vira-latas malhado, atravessando a passarela, entrando no conjunto
Beverly Hills; e, já no sinal da Constantino Nery (tive
a preocupação de acompanhar até onde ia o
educado cachorro), atravessar na faixa de pedestres que vai até
o conjunto Tocantins, por lá sumindo.
Manaus é,
como já disse, uma cidade onde tudo é passível
de acontecer a céu aberto. Uma cidade onde, de repente,
ao passar pelo Largo de São Sebastião, você
pode ser surpreendido pelos acordes maravilhosos de uma sinfonia
de Mozart; ou então, na Praça dos Remédios,
ser surpreendido por milhares de DVDs piratas sendo vendidos,
sem que ninguém sequer se preocupe em disfarçar
as capas acintosamente pornográficas de algumas produções.
É sexo a céu aberto para qualquer um ver e rever.
Uma cidade
na qual, todos os dias, centenas de bancas de café brotam
como flores necessárias das manhãs; vendendo tapioca
com queijo regional e o famoso x-caboquinho, aquele sanduíche
com tucumã, para refestelo de milhares de clientes certos.
Uma atividade comercial, feita a céu aberto e à
revelia; no meio de esgotos e poluição.
Manaus é
uma cidade que tem prédio abandonado, mas organizadamente
ocupado, que abriga, pasmem, um músico oriundo da Amazônia
peruana com seu saxofone dourado, e que, todos os dias, lá
pelas cinco e meia da tarde, toca Carinhoso de Pixinguinha.
Com direito a crepúsculo vermelho-sangue no horizonte e
uísque on the rocks no copo. Juro que passei uma
tarde escutando esse músico notável em seu insólito
apartamento, enquanto fumava o meu charuto cubano.
Isso é
que o bom nesta cidade. O grau de resistência bem humorada
de seus moradores. É algo de notável vê-los
trafegando por ruas quase sem calçadas; a entrarem em ônibus
poluentes; e, quando chove, a tentarem o equilíbrio em
meio a uma enxurrada de lixo navegando por ruas de esgotos destampados
e entupidos.
Por isso
digo: o amazonense é antes de tudo um nobre e consegue
ser um dos povos mais simpáticos do mundo. E, justiça
seja feita, nos finais de semana ele ainda tem a possibilidade
de, em meio ao belíssimo Teatro Amazonas, à charmosa
Praça de São Sebastião e, em frente à
delicada Igreja do santo, ver um inesperado show internacional,
a céu aberto, como o do Frank Sinatra... júnior.