:: CRÔNICA ::



Manaus insólita

* Por Marco Adolfs

         Manaus é uma cidade onde coisas estranhas podem acontecer naturalmente. É só observar. È uma cidade que tem cafés, restaurantes e até sexo a céu aberto. Uma cidade que tem cachorros que atravessam educadamente passarelas e faixas de pedestres; jacarés circulando próximo a edifícios modernos; e camelôs vendendo tudo em até 3 vezes sem juros no cartão. É só observar. E se você observar melhor, verá, todos os dias, que uma quantidade enorme de transeuntes prefere arriscar um atropelamento na Djalma Batista, que fazer uma curva para passar por uma passarela para o outro lado da rua. Esses deveriam seguir o exemplo do cachorro sobre o qual falarei adiante.
         Segundo o Joaquim, um senhor de seus setenta e poucos anos, morador dessa Manaus insólita, a cidade foi feita para ser um “interiorzão”, mas como cresceu, “tá toda apertada e esquisita”.
         A cidade ainda tem um lugar, apelidado de Manaus Moderna, onde, segundo o olhar atento do Joaquim, pela manhã e ao longo do dia, vê-se trafegar várias dezenas de carrinhos de supermercados e “aqueles carrinhos de pedreiros”, transportando compras de feirantes e, pasmem, recipientes com salada de fruta e mingau de banana prontas para o consumo... “Como aqueles carrinhos foram parar na mão daquela gente, maninho!?”, perguntou o Joaquim. “Só Deus sabe”, respondi desconfiado. E como fica a vigilância sanitária? “Não existe,maninho”, diz o Joaquim.
         Mas deixem-me esclarecer melhor, uma parte do que escrevi acima. A parte do cachorro e a do jacaré.
         Um dia desses, estava caminhando perto do Millennium Center quando escutei uma algazarra de moleques a jogarem pedras no poluído igarapé ali perto. Fui me aproximando para ver melhor o que acontecia e perguntei:
         --- Que está havendo?
         --- Tá vendo ali! --- respondeu um menino, apontando para o igarapé. --- Três jacarés, ali, ali! --- completou, todo eufórico pelo achado.
         --- Aquele maior deve ter uns dois metros --- observou outro moleque. --- Está mais gordo que eu! --- completou, para riso dos demais.
         Subi a extenuante e quase sem calçadas Avenida Djalma Batista (Manaus é uma cidade que, em alguns momentos, fica quase sem calçadas!), ainda pensando no jacaré visto, quando, já na altura da passarela do Amazonas Shopping resolvi olhar para cima para observar os transeuntes. Foi quando me deparei com um cachorro vira-latas malhado, atravessando a passarela, entrando no conjunto Beverly Hills; e, já no sinal da Constantino Nery (tive a preocupação de acompanhar até onde ia o educado cachorro), atravessar na faixa de pedestres que vai até o conjunto Tocantins, por lá sumindo.
         Manaus é, como já disse, uma cidade onde tudo é passível de acontecer a céu aberto. Uma cidade onde, de repente, ao passar pelo Largo de São Sebastião, você pode ser surpreendido pelos acordes maravilhosos de uma sinfonia de Mozart; ou então, na Praça dos Remédios, ser surpreendido por milhares de DVDs piratas sendo vendidos, sem que ninguém sequer se preocupe em disfarçar as capas acintosamente pornográficas de algumas produções. É sexo a céu aberto para qualquer um ver e rever.
         Uma cidade na qual, todos os dias, centenas de bancas de café brotam como flores necessárias das manhãs; vendendo tapioca com queijo regional e o famoso x-caboquinho, aquele sanduíche com tucumã, para refestelo de milhares de clientes certos. Uma atividade comercial, feita a céu aberto e à revelia; no meio de esgotos e poluição.
         Manaus é uma cidade que tem prédio abandonado, mas organizadamente ocupado, que abriga, pasmem, um músico oriundo da Amazônia peruana com seu saxofone dourado, e que, todos os dias, lá pelas cinco e meia da tarde, toca Carinhoso de Pixinguinha. Com direito a crepúsculo vermelho-sangue no horizonte e uísque on the rocks no copo. Juro que passei uma tarde escutando esse músico notável em seu insólito apartamento, enquanto fumava o meu charuto cubano.
         Isso é que o bom nesta cidade. O grau de resistência bem humorada de seus moradores. É algo de notável vê-los trafegando por ruas quase sem calçadas; a entrarem em ônibus poluentes; e, quando chove, a tentarem o equilíbrio em meio a uma enxurrada de lixo navegando por ruas de esgotos destampados e entupidos.
         Por isso digo: o amazonense é antes de tudo um nobre e consegue ser um dos povos mais simpáticos do mundo. E, justiça seja feita, nos finais de semana ele ainda tem a possibilidade de, em meio ao belíssimo Teatro Amazonas, à charmosa Praça de São Sebastião e, em frente à delicada Igreja do santo, ver um inesperado show internacional, a céu aberto, como o do Frank Sinatra... júnior.

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.

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