Estava subindo a Guilherme
Moreira, vindo da Rua Miranda Leão, e já estava
na altura da nossa esquecida Biblioteca Pública, na Rua
Barroso, quando topei com o presidente da Academia Amazonense
de Letras, o professor Braga. Eu carregava um exemplar do meu
livro Fé e Fogo, pensando, com os meus botões que,
escritor, hoje, virou quase um político das letras; ou,
um palestrante itinerante carregado de orações.
Mas, tudo isso faz parte, pois um dedo de prosa, sobre prosa ou
poesia, é necessário.
Coincidentemente, como falei,
encontrei-me com o presidente do local onde os imortais da Literatura
Amazonense recebem guarida. Até aí, tudo bem. O
difícil foi que eu e o senhor José Braga mal tivemos
tempo e espaço para nos cumprimentarmos, tal a estreiteza
da calçada e os inúmeros camelôs ao redor.
O deus Mercúrio, sempre presente, embora envolvido em trapos.
Aqui paro e reflito sobre
o seguinte: um dedo de prosa é quase impossível
de se levar, hoje em dia, nas ruas de Manaus.
Antigamente tinha-se tempo
e espaço. Hoje, estamos espremidos pelas pessoas apressadas
e aparentemente sem respeito que vivem nas ruas dessa capital
do mormaço como se estivessem numa Babilônia dos
últimos tempos. E parar para conversar sobre literatura
e livros editados --- em meio àquelas bancas de camelôs
com seus negócios privados, à fumaça dos
inúmeros veículos e ao barulho das casas de som
---, é uma enorme impossibilidade. Deus me livre disso.
E não é só
a possibilidade de uma conversa amena e culta em algum canto de
rua que está a morrer, e sim, arrisco pensar, a própria
literatura. Já que a esquecida Biblioteca Pública,
ali à frente, parecia um enorme arquivo morto com os escritores
sendo levados no roldão do esquecimento continuado. Aí
pensei: se a literatura corre o risco de morrer, com ela irão
os homens nobres. E então, o novo homem, sem a alma bem
cultivada e com o seu riso sarcástico de comerciante perspicaz,
ocupará as ruas. Já ocupa. E deixa o seu lixo e
a sua insanidade por onde quer que passe. Lembrei então
--- por um processo associativo daqueles que também sofrem
dessas calamidades na capital do mormaço ---, do escritor
M. S.
Desviei então a rota
e, pensando no caos e com o meu livro Fé e Fogo na mão,
resolvi ir visitá-lo. Quem sabe, ali, naquele edifício
antigo onde o escritor morava, talvez eu pudesse parar para conversar
sobre literatura. Especialmente sobre o romance Fé e Fogo.
Aproximei-me então
da nova portaria eletrônica do velho prédio e o porteiro
ligou para o apartamento do M.S. Após a autorização
de praxe, subi por aquele mesmo elevador de sempre.
Uma das coisas que mais me
impressionam em um prédio antigo, são os elevadores
e corredores. Há algo de um passado que permaneceu parado
enquanto entramos e caminhamos por eles. Como se ali, há
qualquer momento, pudéssemos encontrar um fantasma sorridente.
Apertei a campainha e esperei.
--- Tudo bem --- disse o escritor,
cumprimentando-me.
A sala de vistas do apartamento
do escritor M.S. é algo deveras impressionante. Como um
espaço que não é grande pode comportar tanta
coisa por metro quadrado? E as paredes!? Tão repletas de
quadros que se pode até pensar ser um segmento do museu
do Louvre.
Sentei em uma poltrona de
espaldar alto e design antigo que mais parecia saída de
algum filme francês de época e mostrei-lhe de supetão
o meu livro.
--- Olha aqui --- disse, entregando-lhe
o volume. --- Saiu --- completei. A editora Brasiliense gostou
e editou.
Conversamos ainda um bom tempo
sobre a edição, sobre as editoras e sobre a divulgação
que todos nós, os escritores e as editoras, temos por obrigação
fazer.
Após me despedir, desci
pelo elevador pensando em como era complexo esse mundo da literatura.
Mas, quando retornei àquelas
calçadas, percebi que, mais complexo ainda, era o caótico
espaço urbano do centro da cidade de Manaus.