:: CRÔNICA ::


...na Rua Barroso...

* Por Marco Adolfs

      Estava subindo a Guilherme Moreira, vindo da Rua Miranda Leão, e já estava na altura da nossa esquecida Biblioteca Pública, na Rua Barroso, quando topei com o presidente da Academia Amazonense de Letras, o professor Braga. Eu carregava um exemplar do meu livro Fé e Fogo, pensando, com os meus botões que, escritor, hoje, virou quase um político das letras; ou, um palestrante itinerante carregado de orações. Mas, tudo isso faz parte, pois um dedo de prosa, sobre prosa ou poesia, é necessário.
      Coincidentemente, como falei, encontrei-me com o presidente do local onde os imortais da Literatura Amazonense recebem guarida. Até aí, tudo bem. O difícil foi que eu e o senhor José Braga mal tivemos tempo e espaço para nos cumprimentarmos, tal a estreiteza da calçada e os inúmeros camelôs ao redor. O deus Mercúrio, sempre presente, embora envolvido em trapos.
      Aqui paro e reflito sobre o seguinte: um dedo de prosa é quase impossível de se levar, hoje em dia, nas ruas de Manaus.
      Antigamente tinha-se tempo e espaço. Hoje, estamos espremidos pelas pessoas apressadas e aparentemente sem respeito que vivem nas ruas dessa capital do mormaço como se estivessem numa Babilônia dos últimos tempos. E parar para conversar sobre literatura e livros editados --- em meio àquelas bancas de camelôs com seus negócios privados, à fumaça dos inúmeros veículos e ao barulho das casas de som ---, é uma enorme impossibilidade. Deus me livre disso.
      E não é só a possibilidade de uma conversa amena e culta em algum canto de rua que está a morrer, e sim, arrisco pensar, a própria literatura. Já que a esquecida Biblioteca Pública, ali à frente, parecia um enorme arquivo morto com os escritores sendo levados no roldão do esquecimento continuado. Aí pensei: se a literatura corre o risco de morrer, com ela irão os homens nobres. E então, o novo homem, sem a alma bem cultivada e com o seu riso sarcástico de comerciante perspicaz, ocupará as ruas. Já ocupa. E deixa o seu lixo e a sua insanidade por onde quer que passe. Lembrei então --- por um processo associativo daqueles que também sofrem dessas calamidades na capital do mormaço ---, do escritor M. S.
      Desviei então a rota e, pensando no caos e com o meu livro Fé e Fogo na mão, resolvi ir visitá-lo. Quem sabe, ali, naquele edifício antigo onde o escritor morava, talvez eu pudesse parar para conversar sobre literatura. Especialmente sobre o romance Fé e Fogo.
      Aproximei-me então da nova portaria eletrônica do velho prédio e o porteiro ligou para o apartamento do M.S. Após a autorização de praxe, subi por aquele mesmo elevador de sempre.
      Uma das coisas que mais me impressionam em um prédio antigo, são os elevadores e corredores. Há algo de um passado que permaneceu parado enquanto entramos e caminhamos por eles. Como se ali, há qualquer momento, pudéssemos encontrar um fantasma sorridente.
      Apertei a campainha e esperei.
      --- Tudo bem --- disse o escritor, cumprimentando-me.
      A sala de vistas do apartamento do escritor M.S. é algo deveras impressionante. Como um espaço que não é grande pode comportar tanta coisa por metro quadrado? E as paredes!? Tão repletas de quadros que se pode até pensar ser um segmento do museu do Louvre.
      Sentei em uma poltrona de espaldar alto e design antigo que mais parecia saída de algum filme francês de época e mostrei-lhe de supetão o meu livro.
      --- Olha aqui --- disse, entregando-lhe o volume. --- Saiu --- completei. A editora Brasiliense gostou e editou.
      Conversamos ainda um bom tempo sobre a edição, sobre as editoras e sobre a divulgação que todos nós, os escritores e as editoras, temos por obrigação fazer.
      Após me despedir, desci pelo elevador pensando em como era complexo esse mundo da literatura.
      Mas, quando retornei àquelas calçadas, percebi que, mais complexo ainda, era o caótico espaço urbano do centro da cidade de Manaus.

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.