Desci
a rua Saldanha Marinho carregando embaixo do braço o livro
Látex, meu primeiro romance escrito e já em sua
segunda impressão, com aquelas folhas soltas caindo do
interior do volume. Não preciso dizer que eu também
carregava um pequeno acesso de raiva, lutando contra a minha pífia
paciência. Aquilo tinha sido demais. Meu objetivo era mostrar
as condições nefastas do livro e pedir uma ajuda
ao escritor M.S., no sentido de encontrar uma editora correta.
Estava realmente chateado com aquela segunda edição
malfadada, pensando na falta que faz uma boa revisão apurada
e a tranqüilidade sem pressa. Mas, como era insistente, procurava,
mais uma vez, a melhor saída para tudo aquilo ser resolvido.
Pensei então que M.S., em sua vasta experiência de
escritor consagrado por vários livros criteriosamente editados,
poderia me fornecer uma luz. Contato prévio feito e boa
vontade revelada, fui até onde o bardo se encontrava.
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Bom dia! --- disse ao recepcionista do edifício onde M.S.
morava.
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O senhor deseja falar com quem?
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Com o senhor M.S..
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Ele está esperando o senhor?
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Sim.
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Um momento, vou telefonar pro apartamento dele.
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Obrigado.
O
prédio onde o escritor morava era uma construção
antiga com uma movimentada galeria interna que atingia duas ruas:
a Saldanha e a rua Barroso. Após a autorização
para subir, entrei em um elevador tão antigo quanto o prédio.
Assim que cheguei ao andar indicado, circulei por um estreito
corredor até atingir uma porta bem no final. Apertei a
campainha e esperei.
Assim
que a porta foi aberta, fixei o olhar naquele rosto encimado por
óculos eternos e a desenvoltura de quem sempre gostou de
objetividade. O escritor de renome, dramaturgo, cineasta, autor
de vários romances e crítico cultural, estava vestido
apenas com um calção e uma blusa estampada. O que
contrariava a visão de todos os que lhe conheciam dos encontros
literários, mas lhe proporcionava, segundo a minha ótica,
um aspecto de sincero intelectual amazônico. M.S. disse
algumas palavras de reconhecimento a minha pessoa e pediu educadamente
para que eu entrasse.
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Estou ocupado tentando passar um e-mail para a minha editora,
mas venha até aqui --- explicou, enquanto me levava por
um estreito corredor até o seu escritório --- Mas,
o que houve Marco? --- perguntou-me no caminho.
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É sobre este meu livro --- respondi. --- Trouxe-o para
você dar a sua opinião sobre a porcaria que fizeram
--- continuei. --- É uma edição horrivelmente
impressa...Veja!... As folhas internas soltando!... Erros de digitação!...
Nem ISBN tem! --- reclamei. E também gostaria que você
me orientasse como sair dessa situação dignamente.
Na verdade --- abri o jogo ---, eu gostaria que você me
fornecesse o número do telefone do coordenador editorial
da tua editora para que eu mande os originais desta “coisa”
aqui e tenha a possibilidade de uma edição revista
e melhorada.
Ele
sentou-se de frente para um computador, clicou no mouse e virou-se
para pegar o livro. Olhou a capa e folheou rapidamente.
---
Realmente, as folhas estão se soltando. E sem o ISBN o
livro ainda é praticamente um original que pode ser editado.
---
Pois é.
---
Vamos lá para a sala, conversar melhor. O e-mail já
foi.
A
sala do apartamento do escritor M.S., assim como o seu minúsculo
escritório, abrigava estantes com centenas de livros e
dezenas de filmes em DVD, além dos mais variados objetos
recolhidos ou presenteados ao escritor ao longo de anos de labuta
e envolvimento com as mais diversas situações culturais.
Tendo como lazer preferido assistir a filmes antigos, a sala comportava
um enorme telão que, quando puxado, transformava a sala
de visitas em sala de cinema. Poltronas de variados tipos e tamanhos
e quadros dos mais diversos temas e matizes disputavam o meu olhar
de forma gritante
---
Bom, M., vou lhe dar o telefone da minha coordenadora editorial,
a A., da minha editora --- disse-me M.S., sem perder tempo. ---
Você tem apenas que falar com ela, e aí montar uma
estratégia para fazer chegar esses originais até
lá --- fez observar. E esperar, meu amigo --- aconselhou.
Ao
despedir-me de M.S. e atingir a rua lá fora, percebendo
que haveria de iniciar, em meu pretenso coração
de escritor, uma nova esperança de ter e ver, finalmente,
o meu livro “Látex” publicado e bem editado
nacionalmente. Afinal, um escritor que se preze também
tem que ousar romper a casca de um ovo. Seja ela de que tipo for.
Quando
cheguei em minha casa, fui direto ao telefone para entrar em contato
com a tal editora A., amiga do escritor M.S.
---
Alô!...Senhora A.!?
---
Pois não.
---
Eu sou escritor e também amigo do senhor M.S. --- me apresentei.
--- Tenho os originais de um livro de minha autoria, que inclusive
o M.S. leu, e eu gostaria que a senhora analisasse. Pode ser!?
---
Claro! O senhor pode mandar os originais para o nosso endereço.
---
Mas em quanto tempo eu vou ter uma resposta? Vocês devolvem
os originais? Não seria mais fácil mandar um CD?
--- falei num rompante.
---
Olha, meu senhor --- começou a falar a coordenadora editorial
---, os originais são enviados a pareceristas e são
também lidos por vários avaliadores da área
literária. E asseguro ao senhor que após o tempo
necessário, afinal são muitos os originais a serem
lidos por essa equipe, nós lhe daremos uma resposta. Quanto
ao CD, nós...
---...
Sairia mais barato para nós todos --- interrompi bruscamente.
---...
Sim --- titubeou a coordenadora editorial ---, mas ainda não
temos... O senhor pense comigo... Se cada um desses milhares de
escritores decidisse enviar um CD, e não os originais em
papel...
---
Sim...
---...
Ninguém lê um livro no computador. Os originais precisam
ser lidos em papel. Se fizéssemos isso, ficaríamos
o dia inteiro copiando esses CDs, o senhor não acha? Depois
de aceita a obra é que pedimos o CD para trabalharmos a
diagramação.
---
Não entendi muito bem essa lógica, mas respeito
--- disse. --- Então vou mandar a minha cópia ---
completei, tentando abreviar a ligação já
que não havia jeito de mudanças.
---
Pode mandar. E o CD só quando decidirmos a impressão
--- completou.
Desliguei
o telefone e fui para o banheiro, tomar um banho de água
fria, com o único intuito de não pensar em mais
nada sobre o mundo das nossas editoras de literatura.