:: CONTO ::


O ESCRITOR

* Por Marco Adolfs

        Desci a rua Saldanha Marinho carregando embaixo do braço o livro Látex, meu primeiro romance escrito e já em sua segunda impressão, com aquelas folhas soltas caindo do interior do volume. Não preciso dizer que eu também carregava um pequeno acesso de raiva, lutando contra a minha pífia paciência. Aquilo tinha sido demais. Meu objetivo era mostrar as condições nefastas do livro e pedir uma ajuda ao escritor M.S., no sentido de encontrar uma editora correta. Estava realmente chateado com aquela segunda edição malfadada, pensando na falta que faz uma boa revisão apurada e a tranqüilidade sem pressa. Mas, como era insistente, procurava, mais uma vez, a melhor saída para tudo aquilo ser resolvido. Pensei então que M.S., em sua vasta experiência de escritor consagrado por vários livros criteriosamente editados, poderia me fornecer uma luz. Contato prévio feito e boa vontade revelada, fui até onde o bardo se encontrava.
     
   --- Bom dia! --- disse ao recepcionista do edifício onde M.S. morava.
     
   --- O senhor deseja falar com quem?
     
   --- Com o senhor M.S..
     
   --- Ele está esperando o senhor?
     
   --- Sim.
     
   --- Um momento, vou telefonar pro apartamento dele.
     
   --- Obrigado.
     
   O prédio onde o escritor morava era uma construção antiga com uma movimentada galeria interna que atingia duas ruas: a Saldanha e a rua Barroso. Após a autorização para subir, entrei em um elevador tão antigo quanto o prédio. Assim que cheguei ao andar indicado, circulei por um estreito corredor até atingir uma porta bem no final. Apertei a campainha e esperei.
     
   Assim que a porta foi aberta, fixei o olhar naquele rosto encimado por óculos eternos e a desenvoltura de quem sempre gostou de objetividade. O escritor de renome, dramaturgo, cineasta, autor de vários romances e crítico cultural, estava vestido apenas com um calção e uma blusa estampada. O que contrariava a visão de todos os que lhe conheciam dos encontros literários, mas lhe proporcionava, segundo a minha ótica, um aspecto de sincero intelectual amazônico. M.S. disse algumas palavras de reconhecimento a minha pessoa e pediu educadamente para que eu entrasse.
     
   --- Estou ocupado tentando passar um e-mail para a minha editora, mas venha até aqui --- explicou, enquanto me levava por um estreito corredor até o seu escritório --- Mas, o que houve Marco? --- perguntou-me no caminho.
     
   --- É sobre este meu livro --- respondi. --- Trouxe-o para você dar a sua opinião sobre a porcaria que fizeram --- continuei. --- É uma edição horrivelmente impressa...Veja!... As folhas internas soltando!... Erros de digitação!... Nem ISBN tem! --- reclamei. E também gostaria que você me orientasse como sair dessa situação dignamente. Na verdade --- abri o jogo ---, eu gostaria que você me fornecesse o número do telefone do coordenador editorial da tua editora para que eu mande os originais desta “coisa” aqui e tenha a possibilidade de uma edição revista e melhorada.
     
   Ele sentou-se de frente para um computador, clicou no mouse e virou-se para pegar o livro. Olhou a capa e folheou rapidamente.
     
   --- Realmente, as folhas estão se soltando. E sem o ISBN o livro ainda é praticamente um original que pode ser editado.
     
   --- Pois é.
     
   --- Vamos lá para a sala, conversar melhor. O e-mail já foi.
     
   A sala do apartamento do escritor M.S., assim como o seu minúsculo escritório, abrigava estantes com centenas de livros e dezenas de filmes em DVD, além dos mais variados objetos recolhidos ou presenteados ao escritor ao longo de anos de labuta e envolvimento com as mais diversas situações culturais. Tendo como lazer preferido assistir a filmes antigos, a sala comportava um enorme telão que, quando puxado, transformava a sala de visitas em sala de cinema. Poltronas de variados tipos e tamanhos e quadros dos mais diversos temas e matizes disputavam o meu olhar de forma gritante
     
   --- Bom, M., vou lhe dar o telefone da minha coordenadora editorial, a A., da minha editora --- disse-me M.S., sem perder tempo. --- Você tem apenas que falar com ela, e aí montar uma estratégia para fazer chegar esses originais até lá --- fez observar. E esperar, meu amigo --- aconselhou.
     
   Ao despedir-me de M.S. e atingir a rua lá fora, percebendo que haveria de iniciar, em meu pretenso coração de escritor, uma nova esperança de ter e ver, finalmente, o meu livro “Látex” publicado e bem editado nacionalmente. Afinal, um escritor que se preze também tem que ousar romper a casca de um ovo. Seja ela de que tipo for.
     
   Quando cheguei em minha casa, fui direto ao telefone para entrar em contato com a tal editora A., amiga do escritor M.S.
     
   --- Alô!...Senhora A.!?
     
   --- Pois não.
     
   --- Eu sou escritor e também amigo do senhor M.S. --- me apresentei. --- Tenho os originais de um livro de minha autoria, que inclusive o M.S. leu, e eu gostaria que a senhora analisasse. Pode ser!?
     
   --- Claro! O senhor pode mandar os originais para o nosso endereço.
     
   --- Mas em quanto tempo eu vou ter uma resposta? Vocês devolvem os originais? Não seria mais fácil mandar um CD? --- falei num rompante.
     
   --- Olha, meu senhor --- começou a falar a coordenadora editorial ---, os originais são enviados a pareceristas e são também lidos por vários avaliadores da área literária. E asseguro ao senhor que após o tempo necessário, afinal são muitos os originais a serem lidos por essa equipe, nós lhe daremos uma resposta. Quanto ao CD, nós...
     
   ---... Sairia mais barato para nós todos --- interrompi bruscamente.
     
   ---... Sim --- titubeou a coordenadora editorial ---, mas ainda não temos... O senhor pense comigo... Se cada um desses milhares de escritores decidisse enviar um CD, e não os originais em papel...
     
   --- Sim...
     
   ---... Ninguém lê um livro no computador. Os originais precisam ser lidos em papel. Se fizéssemos isso, ficaríamos o dia inteiro copiando esses CDs, o senhor não acha? Depois de aceita a obra é que pedimos o CD para trabalharmos a diagramação.
     
   --- Não entendi muito bem essa lógica, mas respeito --- disse. --- Então vou mandar a minha cópia --- completei, tentando abreviar a ligação já que não havia jeito de mudanças.
     
   --- Pode mandar. E o CD só quando decidirmos a impressão --- completou.
     
   Desliguei o telefone e fui para o banheiro, tomar um banho de água fria, com o único intuito de não pensar em mais nada sobre o mundo das nossas editoras de literatura.

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.