:: CONTO ::
 


Saiu sorrindo

* por Marco Adolfs

        Ela ria naturalmente nervosa e mostrando todos os dentes cariados, enquanto contava a sua estória.
        --- Matei sim. E depois fugi. Lembro até hoje como tudo aconteceu. O homem não prestava doutor. Mas eu amava ele, sabe. Ele apareceu assim, do nada. Eu era muito novinha. Me prometeu tudo e me conquistou.
        --- Como ele era? --- perguntou-lhe o delegado.
        --- Um homem bonito, sabe. Mas muito safado. Comi o pão que o diabo amassou na mão dele.
        --- Como a senhora conheceu ele?
        --- Foi numa festa. Ele se aproximou e nos beijamos. Aí, no outro dia, dotô, eu resolvi sair de casa.
        O escrivão traqueteava tudo isso em uma velha máquina de datilografia que ainda existia naquele lugar.
        E ela continuava:
        ---... Tinha dezessete anos de idade, dotô. Abandonei minha mãe e família por aquele homem. Ele era bonito, sabe. Muito bonito e safado. Trabalhava em uma fábrica. Era gerente, sabe. Disse que ganhava bem e que poderia me dar de tudo. Aí eu fui. Saí de minha cidadezinha com apenas uma maleta pequena na mão. Ele havia me dito que tinha uma casa e tal. Mas, quando cheguei lá não era nada do que eu pensava. Mas eu o amava. Amava muito, sabe. Mas olha, na primeira noite depois que ele tirou a minha virgindade, assim que saiu de dentro de mim ele disse...“você não vale nada!”. O senhor já viu só um homem lhe dizer isso?? Não! O senhor não sabe. Ele ainda me disse horrores, dotô. Então chorei arrependida por ter abandonado tudo por aquele homem. Por ter abandonada a minha mãezinha, sabe. Mas eu o amava. Ele era muito bonito. Mas acho que ele era doente. Tinha uns ataques sem mais nem menos. Era muito agressivo. Sei também que trabalhava muito e tinha muito dinheiro. Eu trabalhava em uma loja e saí. Mas eu cansei de apanhar dele. Me maltratava muito esse homem. Muitas vezes ele desaparecia, passava diiiiaas, longe de mim. E quando aparecia, era morto de bêbado. E ainda cheirando a mulher.
        --- Me fale do crime --- cortou o delegado, procurando se ater aos fatos acareados.
        Pois é dotô... O crime... Um dia ele levou essa mulher para dentro de nossa casa. Essa dita cuja, dotô.
        --- E a senhora então resolveu se vingar?
        --- Eu tinha muita raiva dele. Mas amava aquele homem. Só resolvi fazer alguma coisa dessas depois que fiquei sabendo que ele tava me passando pra trás com aquela vadia. Aí me deu um ódio! Fiquei cega. Eu queria era matar os dois.
        --- Mas você só matou a menina.
        --- Sei.
        --- Como foi que aconteceu?... A senhora teve ajuda, não?
        --- Eu não me arrependo de ter feito o que fiz, não, dotô delegado. Depois que aquele homem me arranjou o revólver eu não pensei duas vezes. Sabia atirar e resolvi que...
        ---... Quem é esse homem que lhe arranjou a arma?
        --- Um motorista de táxi que conheci em um bar. Na noite anterior. Eu tinha saído para ir beber, sabe. Encher a cara. E me entregar ao primeiro homem que encontrasse. Tudo porque eu soube dele com a outra. Queria me vingar daquele cretino. Eu estava disposta a tudo, sabe dotô. Aí encontrei esse cara. Ele resolveu que iria me ajudar.
        --- Onde ele está?
        --- Não sei. Fugiu pelo rio.
        --- E como foi o crime? Conte em detalhes o que aconteceu naquela noite!?
        --- Ele, o motorista de táxi, me emprestou então o revólver e ficou esperando dentro do carro. Eu entrei bem devagar. Sabia que ela estava ali. Quando cheguei perto da cozinha vi benzinho as pernas dela. Aquelas pernas da maldita. Aí eu entrei na cozinha e atirei sem ver nada. Lembro que primeiro atingi as pernas. Ela caiu. Aí eu me aproximei e descarreguei o resto das balas na cabeça da bandida. Mas eu saí sorrindo, sabe doutor. Com a alma lavada.
        --- Onde foi parar a arma do crime?
        --- Joguei no rio.
        O delegado então coçou a cabeça e perguntou-lhe.
        --- Então a senhora não se arrepende do que fez?
        --- Nem um pouquinho. Essa mulher tava me afrontando. Começou como empregada da casa e depois queria virar patroa. A vagabunda ia para dentro de casa. Para o nosso quarto! Onde já se viu isso, dotô!? Eu lembro da primeira vez que vi a dona dentro do quarto com ele. Eu entrei em casa. Tava vindo da casa de uma amiga e assim que entrei escutei uns barulhos; uns gemidos, sabe? Eles estavam deitados na cama. Fazendo amor dotô! Vi benzinho ela por cima dele. Aí me desesperei e resolvi matar aquela miserável.
        --- A senhora vai ser presa, julgada e condenada --- afirmou o delegado.
        --- Que seja dotô! --- ela respondeu.
        --- Levem ela! --- ordenou o delegado.
        Ela se levantou, olhou para o delegado e disse:
        --- Não me arrependo de nada, dotô.
        E saiu da sala, sorrindo.

(Conto do livro “Ovelhas Negras No Escuro”)

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.