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Bandido!
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Por Marco Adolfs
É madrugada e o frio
parece ter afastado todos os seres humanos das ruas. Menos um.
---“Bandido, canalha,
estúpido!”
Em sua cabeça ainda
reverberam essas palavras e o choro dela. Mas, ele não se importa
muito com isso. Não carrega nenhum sentimento de culpa. “Deveria
ter dado logo um tiro”, pensava. Havia chegado com a cabeça
transtornada e ela reclamara. A resposta veio imediata: um soco na cara.
“Quem mandou ela me encher o saco?”, pensou. Ele sabe que
é um bandido e um canalha. Depois de uma série de socos
e pontapés, ele pegou o revólver e encostou o cano na
garganta da mulher. Ameaçou atirar. Mas resolveu deixar pra lá.
Guardou o revólver de volta e saiu novamente. Tomou uma sopa
na esquina e pegou o último ônibus que voltava para o centro
da cidade. Sabia que, lá, na zona do baixo meretrício,
havia um bar que não fechava nunca, com putas prontas para recebê-lo.
--- “Pau que nasce
torto, morre torto”.
Sempre escutou essas e outras
palavras, vindas das inúmeras bocas de sua família.
--- “Esse menino é
esquisito; anormal”, diziam.
Então ele cresceu
assim. Com o sentimento de diferença que os outros lhes dedicavam.
Só pelo simples fato de que gostava de certas brincadeiras; era
silencioso e, de vez em quando, batia nos outros meninos da redondeza.
Gostava de brigar. Os vizinhos reclamavam. Ele então apanhava
de cinturão ou chinelo e ficava de castigo em uma cadeira. Mas
isso tudo só aumentava a sua revolta. Mas sempre foi assim. E
mais ainda depois que cresceu e ganhou o mundo. Gostava de brigar, mesmo.
Gostava de caçar umas vítimas. Gostava de ver o medo em
seus olhos. Proporcionava-lhe uma sensação de poder.
--- “Um canalhinha
da pior espécie...Ovelha negra da família”, passaram
a dizer os que o conheciam.
O pai morreu de alcoolismo
quando ele tinha quatorze anos e a mãe acabou enlouquecendo e
sendo internada em um hospício. Ele então passou a ser
criado por uns tios. Pior não poderia acontecer. Os tios velhos,
coitados, não sabiam controlar aquele rapaz.
--- “Tão agressivo
e cheio de independência”.
Estudar, ele nunca gostou.
Trabalhar, nem pensava. O que fazer? Ele acabou então, com quinze
anos de idade, por sair de casa. Fugiu. Andou pelas ruas como um maltrapilho
e terminou sendo adotado por outros que viviam na mesma situação.
Gostou daquela vida e nunca mais ninguém se preocupou com ele.
Cresceu nas ruas da liberdade e do crime. Arranjando um bico aqui e
outro acolá. Mas gostava mesmo era de enganar a todos para poder
sobreviver.
--- “É estivador”.
Passou a trabalhar no porto,
carregando mercadorias dos barcos para os armazéns e dos armazéns
para os barcos. De vez em quando, roubava alguma mercadoria e revendia
para um receptador. Conheceu uma coroa que passou a lhe sustentar a
vida de quase vagabundo que gostava de levar. Viveu um tempo com ela,
mas logo a vida nas ruas o chamou de volta.
--- “Bandido!”.
Passou então a ter
lucro nos roubos que fazia. Caixas e mais caixas de produtos. Andava
sempre com dinheiro. Dava para os gastos com bebidas e prostitutas.
--- “Drogado”.
Foi quando então conheceu
as bocas-de-fumo e, logo, os pontos de venda de cocaína.
--- “Soldado do Tráfico!”
Mais dinheiro. Mais prostitutas. Mais tudo. Inclusive brigas e tiros.
Ficou naquela. Certa noite ele se deu mal. Foi em uma briga de bar.
O sujeito, quando sentiu que estava na pior, quebrou uma garrafa e partiu
para cima dele. Um olho furado. Tinha vinte e três anos quando
isso aconteceu. Passou então a usar um tapa-olho negro que lhe
reforçava mais ainda mais um ar sinistro.
Mas, naquela noite fria,
quando o ônibus parou no terminal central, ele desceu cambaleante
e livre de tudo. Até desses pensamentos. Andou um pouquinho mais
e lembrou que ainda tinha, em um dos bolsos de sua calça, um
papelote de cocaína. Resolveu dar uma fungada ali mesmo, para
reanimar suas forças exauridas pelo álcool. Abriu o saquinho,
esparramou o pó na palma de sua mão esquerda e, ajeitou
com os dedos polegar e indicador, deixando uma carreira pronta. Depois,
com os mesmos dedos juntos no início da carreira, aproximou a
sua narina direita e começou a aspirar. “Um tiro na cabeça”.
Suas narinas se dilataram, ele comprimiu os olhos e lacrimejou. Sentiu
seu cérebro se descompassando e o coração acelerando
seus batimentos cardíacos. Uma nova vida expulsando o veneno
de suas veias. Uma onda subindo-lhe pela alma. A luz verde de um farol
de trânsito sinalizou que ele poderia ir adiante. E ele, ao perceber
a coincidência, sorriu. Um calor esquentava seus músculos.
Um cachorro vira-latas dormia pacificamente, enroscado embaixo de uma
marquise, quando recebeu, da parte dele, um potente chute no dorso e
correu desesperado e amedrontado, ganindo pela noite adentro. Ele não
se conteve e soltou uma estrondosa gargalhada. Atravessou então
uma rua e sumiu, dobrando por uma esquina. “Um bandido, sim”.
(Conto do livro “Ovelhas Negras No Escuro”)
* Marco
Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor,
produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo
documentários sobre temas regionais e sociais. |