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Gabriel
Garcia esteve lá
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Por Marco Adolfs
A
primeira ação que seus familiares tomaram, assim
que Aureliano Figueira chegou de volta de sua longa viagem contando
aquelas estórias todas que havia presenciado, foi aconselharem
que ele procurasse um médico. A segunda, foi interná-lo
de vez numa clínica para tratamento psiquiátrico.
Pois quando naquele dia Aureliano entrou em sua casa, rude, barbado
e com o olhar ensandecido, relatando o que lhe acontecera quando
do seu sumiço da sua casa por dois meses e meio, todos
pareceram escutar atentamente o que dizia, embora já desconfiados
de que o homem, que já não era considerado normal
na cidade em que vivia, enlouquecera de vez. E quando Aureliano
não satisfeito por ter apenas os ouvidos domésticos
como platéia, passou a propalar aos quatro cantos do bairro
onde morava, indo de casa em casa, as suas estórias, não
só todos se preocuparam com a possível insanidade
do pobre coitado, como também trataram de proteger suas
crianças de um acesso de loucura mais descabido.
Agora,
deitado e sonolento naquela cama de uma enfermaria do Hospício
local, após ter tomado um forte antisiolítico para
se acalmar, o jornalista Aureliano Figueira recordava, como em
um sonho, todas aquelas coisas que haviam acontecido em sua vida
quando, a convite do hoje famoso e cultuado escritor Gabriel Garcia
Marques, foram, os dois, pisar o distante município de
Uari, então apenas uma cidadezinha com poucas ruas enlameadas
e casas mal ajambradas, localizada às margens de um lago
de águas negras e misteriosas. Aureliano lembrava então
de tudo, tim por tim; com Gabriel a seu lado, de quando esteve
lá. Os dois tentando descobrir a verdade em meio à
mentira e a fantasia em meio à realidade.
Tudo
começou quando eles amanheceram naquela cidadezinha do
interior da selva amazônica, um dia depois do término
da tal festa do Divino, quando Aureliano e Gabriel após
terem presenciado, em plena madrugada misteriosa, homens virando
boto e mulheres tendo ataques histéricos e a mergulharem
no lago para serem fecundadas pelos tais encantados, viram também,
eles mesmos, cadáveres saindo das profundezas da terra
para reclamar do que ainda estava pendente em seus corações
carcomidos e proclamar o que desejavam de melhorias para aquele
mundo corrupto do qual haviam se afastado temporariamente. Foi
a partir desses momentos que a possível loucura de Aureliano
se estabeleceu e os olhos de Gabriel se arregalaram. Principalmente
quando, naquela cidade perdida nos confins do mundo civilizado,
por esses motivos ditos sobrenaturais e inexplicáveis,
a voz da cidade, uma série de quatro alto-falantes postados
no centro de um terreno localizado bem em frente ao cemitério,
havia sido tomada por um outro locutor, de uma voz poderosa, tonitruante
e sobrenatural. Uma voz que apresentou-se dizendo:
---
“Amados irmãos de sangue! É chegada a hora
da verdade ser dita e propalada aos quatro cantos desta cidade
do pecado. É chegada a hora de o que foi escrito a milênios
se tornar verdade. Segundo as escrituras, aqui, em Uari, se dará
o começo do fim e o fim do começo. Chega de tanta
corrupção de corpos e almas. Nem todos dormiremos,
mas todos seremos transformados! Diz a Bíblia em I Coríntios,15...
Aureliano
Figueira, portanto, chegou em sua casa, naquele dia, contando
tudo isso e muito mais. Quanto ao jovem Gabriel Garcia Marques.
Bem; esse, como vocês já devem saber, escreveu vários
romances fantásticos, ganhou o prêmio Nobel de literatura
e, hoje, quando pode, passa os dias da festa do Divino no distante
e ainda incompreensível município de Uari localizado
em um dos lagos escondidos do alto Solimões no estado do
Amazonas. Tentando ainda entender tudo aquilo. Logo ele, que foi
um dos encantados por uma mulher de longos cabelos e de olhar
luminoso, que todos diziam sair das águas daquele lago
profundo em noites de lua cheia.
Um
brilho de chão na tua face (a Felicité & Domingas)
Ela
nunca gostara de estudar. Por isso trabalhava como doméstica
em casa de família. Fazia de tudo. Gostava de ver a casa
brilhando com a aprovação sistemática dos
patrões. Mais sua dedicação mais elaborada,
motivo de seu orgulho maior, era ver o enorme banheiro da casa
reluzindo de alvura e com aquele odor de limpeza absoluta que
toda água sanitária produz. O banheiro era a última
dependência da casa a ser limpa. Pouco antes dos patrões
chegaram com os filhos. E, para comprovar e aprovar a limpeza
diária que a empregada fazia, a patroa todo santo dia dizia
a mesma coisa, quando entrava: “Nossa Maria!...Existe um
brilho de chão na tua face!” Ela sorria e agradecia,
por escutar aquelas palavras “tão doces e incentivadoras”,
vindas da boca da patroa.
Há
anos que ela trabalhava naquela casa. Sentia-se um membro da família.
Com direito, todo natal, de participar da ceia natalina, embora
nunca tenha sentado à mesa junto com eles. Mas ela tinha
um quartinho ao lado da cozinha onde tinha uma cama, três
prateleiras e uma televisãozinha bem pequenininha onde
ela adorava acompanhar a novela das oito ou então, agora,
torcer pelos participantes do Big Brother. Às vezes, nos
domingos, quando os patrões lhe davam folga, para irem
eles todos ao Shopping, ela sentia-se a dona daquela casa. Arriscava
até receber uma vez ou outra, em seu quartinho, o zelador
Alfredinho. Tudo no maior silêncio e tensão. “Ele
era seu namorado”, pensava. Naqueles momentos sua face realmente
brilhava. E o brilho parecia vir diretamente de uma gaivota metálica
que girava pendurada no teto.
Pedaço
de carne
Quando
ela passou em frente a um açougue e viu aquele pedaço
de coxa de boi pendurado não pode deixar de pensar no que
o idiota de seu marido lhe dizia sempre: “Adoro apalpar
um bom pedaço de carne”. Dizia-lhe isso todas as
vezes em que lhe apalpava as ancas. E ela então sentia-se
como um pedaço de filé mal passado sendo devorada
por um glutão mal cheiroso. Até que resolveu mudar
tudo isso, e sair, todos os dias, para caminhar. O objetivo era
emagrecer e dar um chute bem dado no idiota do seu marido. “Ela
era bonita e não precisava mais passar por aquilo”,
pensou
Caminhou,
caminhou, suou, suou, até que emagreceu, colocou um vestido
vermelho bem insinuante e saiu para ir ao Shopping. Olhou as vitrines
e se viu olhada por um homem que lhe deu o devido valor. Deixou-se
levar por aquele desconhecido e quando disse para o marido que
iria sair de casa, tudo mudou em sua vida. O tempo então
passou. E ela, que por algum motivo desconhecido não havia
tido filhos, encheu-se de uma penca deles. Todos gordinhos e fofinhos.
Iguaizinhos a ela.
* Marco Adolfs
- Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor
e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo
documentários sobre temas regionais e sociais.
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