:: CONTO ::
 


O Encontro

* Por Marco Adolfs

          ...Caminhou por toda a extensão da avenida Eduardo Ribeiro, passou pela praça do Congresso e alcançou a rua Ramos Ferreira. Aproximava-se da livraria Valer como que atraído por um imã. “O paraíso é algo parecido com uma livraria”, ele pensou nessa frase de Borges, enquanto abria a porta de vidro.
          Ao entrar, deu de cara com o poeta Anísio Lessa equilibrando perigosamente sua gordura em uma fina bengala. Aproximando-se lentamente do poeta para cumprimentá-lo, percebeu que o mesmo estava absorto em um livro de um outro poeta, o italiano Eugenio Montale.
          --- Olá! Meu caro poeta desaparecido!
          Anísio virou-se em sua direção sorrindo.
          --- Oh! Quanto tempo!
          Ele sorriu de volta e se abraçaram.
          --- É essa nossa vida em meio às letras e com o tempo passando ---           comentou.
          --- É isso mesmo, amigo --- disse Anísio, com uma voz fraca e aparentando cansaço. --- Mas também andei adoentado --- continuou. Tudo mudou de uma hora para outra. Agora fico preso em casa, lá, naquele meu cubículo que tu conheces bem. Passo as horas escrevendo e navegando na internet. Essa é a minha mobilidade agora. Estou aqui de teimoso. E vendo se encontro alguma coisa nova. Conheces Montale, não!?
          --- Sei...Sim, conheço.
          --- Todos deveriam ler Montale --- disse Anísio, passando a mão gorda pela capa do livro. --- Escute só isso --- continuou Anísio, abrindo o livro em determinada página para ler um trecho pinçado ---, “Não busques abrigo na sombra desse bosque de verdura; qual o falcão que mergulha como um raio na canícula; é hora de deixar quieto o caniçal sonolento e de observar as formas da vida que se esboroa...” Lindo, não!?
          --- É sim --- ele concordou, pensativo. --- E é o que nós, escritores e poetas, fazemos...Observar as formas da vida --- completou.
          --- É isso...Mas, e você? O que estás fazendo? --- perguntou-lhe Anísio.
          --- Escrevo, ainda.
          O poeta deu um leve sorriso.
          --- Droga de vida maravilhosa essa de sermos escravos da arte da escrita! --- comentou.
          --- Uma fuga que é um encontro --- ele observou.
          --- Vamos sentar ali --- convidou Anísio, apontando para uma pequena mesa localizada a um canto. --- Minha cabeça voa em frágeis pernas sacrificadas --- concluiu, pesaroso.
          --- Meu amigo, nossa arte depende da nossa cabeça --- ele disse, assim que sentaram.
          Anísio, com a voz mansa e cadenciada de sempre, completou.
          --- E precisamos do restante de nossos corpos preparados para a arte. Vivemos da visão do que temos nas ruas, nos rostos, na natureza; de tudo que nos cerca. Temos que ser andarilhos nos espaços e caçadores de gestos e atos. E eu agora me arrasto ao encontro da morte.
          Ele ficou pensando naquelas frases ditas.
          ---...Veja os grandes poetas como o Eugenio Montale --- continuou o poeta, retirando-lhe de seus pensamentos ---, que transfiguram o simples em monumental e o real em expressão natural dos anseios da alma. O Eugênio encontrou um sentido formal ao que passava pelos seus sentidos. Esse é o mundo do escritor e do poeta. Nós sabemos disso, não é irmão!?
          --- E também acho que somos profetas --- ele fez observar. --- Devemos construir com palavras as ações de nossas premonições e ficções. E nisso, antevemos muita coisa.
          O gordo semblante do poeta Anísio Lessa pareceu iluminar-se naquele instante. Dirigiu-se então ao expositor dos últimos lançamentos e pegou um título a esmo para folhear. Ficaram ali, em silêncio, um bom tempo Folheando e lendo os livros.
          Em dado instante, percebeu que o gordo poeta tentava se levantar e ele então aproximou-se para ajudá-lo.
          --- Tem um lugarzinho aqui perto da igreja de São Sebastião muito bom para se ficar e conversar melhor --- o poeta sugeriu. --- Vamos até lá, essa hora não deve ter ninguém --- continuou, já mais equilibrado em sua bengala. Vou pagar o livro e já saímos.
          --- Tá bom.
          Sairam da livraria e subiram a rua Ramos Ferreira, andando e conversando lentamente. Ao atingirem a esquina da rua Tapajós, começaram a caminhar no sentido da confluência com a rua Monsenhor Coutinho.
          --- É logo ali, na esquina com a 10 de Julho; uma loja com lanchonete muito boa --- disse o poeta.
          --- Já fui lá algumas vezes --- observou. --- Gosto de tomar o cafezinho com leite que eles servem e de comer um pedaço de bolo Luís Felipe --- completou. E tudo isso olhando para a Praça de São Sebastião e os seus pombos. Uma imagem maravilhosa.
          --- Ah! Maravilhoso é esse bolo --- disse o poeta. --- Mas não posso mais comer doces por causa da bendita da minha diabete.
          Ao entrarem na lanchonete, uma mistura de loja de artigos artesanais com lugar de encontros de intelectuais e turistas ocasionais, procuraram uma mesa de canto com vista para a praça. Dois turistas sorviam silenciosamente seus cafés em uma mesa vizinha. Imitando o bar cubano La Bodeguita del Medio, centenas de frases e autógrafos enchiam as paredes da lanchonete.
          --- Esse é o nosso La Bodeguita de Havana --- comentou o poeta, rindo.
          Ele também sorriu.
          --- Bem pequenininho e sem o drink especial--- comentou, ironizando. --- Mas não deixa de ser uma boa idéia turística --- alinhavou logo em seguida.
          --- Mas e os teus escritos? Como anda a coisa toda? --- perguntou o poeta, mudando de assunto.
          --- Escrevo em meio às dúvidas em ver um dia tudo isso editado em livro --- respondeu.
          --- Mas é assim mesmo meu caro --- contemporizou Anísio. --- O caminho é árduo --- disse ainda. Tens que continuar até encontrar o porto. Procure participar de alguns concursos literários, que ajudam muito o escritor iniciante. Lembro bem de quando também tentava ver as minhas poesias publicadas. Todos nós, aqui nesta terrinha, naquele tempo, tivemos os nossos livros publicado, a duras penas, pela imprensa oficial. Depois...
          --- ...Você ganhou o prêmio Jabuti e isso alavancou a tua carreira --- ele cortou, resumindo o restante da informação que sabia de antemão que iria sair. --- Isso ajuda, realmente, um livro a ser comercializado --- finalizou.
          --- Tente mandar os originais para algumas editoras novas --- aconselhou o poeta. --- E não esqueça, invista na revisão e no corte --- continuou. Escrever é cortar as adiposidades. Mas faça a sua parte, escreva. E, paciência.
          A tarde caía lentamente na cidade. Os pombos da praça do Largo de São Sebastião faziam suas revoadas de todos os dias, alheios aos dramas e vaidades humanas. O sino da igreja ali perto soou suas badaladas mecânicas de sempre, proporcionando, por breves instantes, um ar de melancolia ultrapassada aos corações sensíveis. No bar do Armando, os primeiros freqüentadores se posicionavam, na esperança de que as cervejas geladas aliviassem os seus corações. A cúpula multicolorida e patriótica do enorme teatro ainda brilhava sob os últimos e derradeiros raios de sol quando o poeta e o prosador retomaram os seus caminhos de vida. Para eles, havia ainda muito sobre o que escrever.
                                        

                                        (Parte, editada, de um livro sendo escrito)

* Marco Adolfs - Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre temas regionais e sociais.