| |
Frutas Coloridas
* Por Marco Adolfs

menina deveria ter uns treze anos de idade. Não mais que isso. Carregava no rosto maquiado um olhar de peixe morto que perscrutava as mesas vizinhas com uma indiferença gélida. Sob os olhos, seus cabelos desciam em franjas laterais semi-coloridas de vermelho. Outros iguais a ela estavam ao seu redor. Meninos e meninas de olhares lânguidos; emocionalmente tentando um controle de suas aparências e vidas. Conectados em comunidades de novas vidas do mundo.
De repente, os olhos da menina fixaram-se em um casal que comia sanduíches de pernil e tomava um copo gigante de Coca-cola. Em seu íntimo, ela sentiu vontade de vomitar ao ver aquilo. Olhou então para o teto transparente da praça de alimentação, na esperança impossível de ver uma nuvem. Nada. Seus amigos conversavam assuntos que ela já sabia de cor. Olhou ao redor e quase teve certeza de que todos eles pareciam pertencer a um pomar de frutas coloridas. Lembrava de um conto lido pela sua professora de português.
Ela, então, olhou para a ponta de seu tênis All Star. Tentou falar alguma coisa. Mas, seu desejo agora era de ficar calada. Em seu íntimo, cultivava a vontade de morrer logo e acabar de vez com tudo aquilo. Mas, tinha essa idade da incerteza e da esperança no mundo. Mesmo daquele jeito tão fragmentado. Filha de pais quase sempre ausentes. Vivendo em uma casa de classe média. Não tinha irmão, mas muitos amigos emocionalmente ligados no desejo de um mundo melhor.
--- Hoje passei a manhã toda vendo desenho animado na televisão, enquanto comia um monte de pipoca com Coca-cola --- comentou. --- E vocês?
--- Humm....Conectei-me a manhã inteira --- falou um outro.
--- Hoje tem uma festa pra gente ir.
--- Humm...Tá legal!
Malditas guloseimas que a faziam engordar. Na escola, nada de mais interessante ela via naquelas aulas chatas ministradas por professores idiotas. Pensava que aqueles professores todos eram uns otários perdendo tempo. Estudava só para passar. Gostava mesmo era de aparecer no Shopping, aos sábados. Vestida com aquelas roupas pretas e cor-de-rosa e com parte de seu cabelo vermelho, preso por uma tiara de bolinhas. Na sobrancelha, piercings. Nos lábios, mais piercings e batom escuro. Às vezes, ela até ria de alguma bobagem dita no grupo.
--- Somos ovelhas negras dessa sociedade que nos discrimina como se fossemos marginais --- comentou Petrowyk, o líder daquela comunidade Emo.
--- Não me importo com o que eles pensam! --- disse Pinto de Luxo, abrindo um sorriso andrógino.
Ela riu, pensando em como sentia o grupo todo... “Frutas caídas... Coloridas de sonhos... Navegando na Internet atrás de músicas emocionalmente carregadas em letras de amor...”
--- Legal essa tua munhequeira... Onde cê comprou? --- perguntou Petrowyk.
Ela, então, se levantou para olhar-se no espelho que havia ali perto e conferir o seu visual. Até que gostava daquelas roupas imitando personagens de desenho animado. Cheia daquelas pulseiras de bolinhas. A saia em xadrez e o cinto com tachinhas. E todos aqueles amigos ali fora, esperando por uma palavra sua. Sentiu que precisava demonstrar carinho. Por menor que fosse. Mas, sentia-se tão só. Foi quando apareceu Netinha. Pequenina Netinha. Sua melhor amiga para assuntos de confidências sentimentais.
--- Que foi fofinha? Tá triste? --- perguntou Netinha, retirando-lhe de seus devaneios. Os olhos pequeninos recobertos com rímel e os cabelos negros ajustados lateralmente por cima das orelhas como se fosse um capacete.
--- Não sei o que acontece, mas, sinto-me como se flutuasse em flocos de pensamentos. --- ela respondeu.
--- Quer um pirulito pra chupar!? Tô com um monte, aqui. Pega, toma um!
Ela pegou o pirulito e imediatamente desenrolou o papel. Colocou-o na boca e ficou chupando silenciosamente.
--- Tá apaixonada? --- perguntou Netinha. --- É algum da comunidade?
Ela olhou para Netinha, sem responder.
--- Vem cá...vamos sair daqui --- disse finalmente.
As duas, então, circularam pelos corredores do Shopping. Estavam de mãos dadas. Foram para um canto do estacionamento onde ninguém poderia vê-las.
--- Me dá um beijo? --- ela pediu.
Netinha sorriu, e disse.
--- Dou. Dou sim.
--- Mas, dessa vez eu quero na boca --- ela pediu, sorrindo. --- Com essa língua doce --- observou.
Terminado o beijo, as duas voltaram seus olhos para o céu. Nuvens vermelhas, de um pôr-do-sol de dia quente, pareciam latejar no horizonte. Um vazio, preenchido de uma esperança fútil, perpassava as suas almas. A letra da música de uma banda emotional hardcore começou a brotar de suas bocas. Em uníssono, e ainda cantando os novos tempos, saíram do estacionamento do Shopping. As mãos entrelaçadas uniam aqueles corpos em um equilíbrio de vontades.
* Marco Adolfs
- Formado em jornalismo, é roteirista, escritor, produtor
e diretor. Atualmente trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo
documentários sobre temas regionais e sociais.
|