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O
Mundo não existia
Origem
do mundo e da humanidade
Primeira parte: Origem do mundo
No
princípio o mundo não existia. As trevas cobriam
tudo. Enquanto não havia nada, apareceu uma mulher por
si mesma. Isso aconteceu no meio das trevas. Ela apareceu sustentando-se
sobre o seu banco de quartzo branco. Enquanto estava aparecendo,
ela cobriu-se com seus enfeites e fez como um quarto. Esse quarto
chama-se Uhtãboho taribu, o “Quarto de Quartzo Branco”.
Ela se chamava Yebá Buró, a “Avó do
Mundo” ou, também, “Avó da Terra”.
Como ela apareceu
Havia
coisas misteriosas para ela criar-se por si mesma. Havia seis
coisas misteriosas: um banco de quartzo branco, uma forquilha
para segurar o cigarro, uma cuia de ipadu, o suporte desta cuia
de ipadu,1 uma cuia de farinha de tapioca e o suporte desta cuia.
Sobre estas coisas misteriosas é que ela se transformou
por si mesma. Por isso, ela se chama a “Não Criada”.
Foi ela que pensou sobre o futuro mundo, sobre os futuros seres.
Depois de ter aparecido, ela começou a pensar como deveria
ser o mundo. No seu Quarto de Quartzo Branco, ela comeu ipadu,
fumou o cigarro e se pôs a pensar como deveria ser o mundo.
A
Criação do Universo
Enquanto
ela estava pensando no seu Quarto de Quartzo Branco, começou
a se levantar algo, como se fosse um balão e, em cima dele,
apareceu uma espécie de torre. Isso aconteceu com o seu
pensamento. O balão, enquanto estava se levantando, envolveu
a escuridão, de maneira que esta toda ficou dentro dele.
O balão era o mundo. Não havia ainda luz. Só
no quarto dela, no Quarto de Quartzo Branco, havia luz. Tendo
feito isto, ela chamou o balão Umukowi’i, “Maloca
do Universo”. Ela o chamou como se fosse uma grande maloca.
Este é o nome que ainda hoje é o mais mencionado
nas cerimônias.
Os
Cinco trovões
Depois
ela pensou em colocar pessoas nesta grande Maloca do Universo.
Voltou a mascar ipadu e a fumar o cigarro. Todas essas coisas
eram especiais, não eram feitas como as de hoje. Ela tirou
então o ipadu da boca e o fez transformar-se em homens,
os “Avôs do Mundo” (Umukoñehkus%ma).
Eles eram Trovões. Esses Trovões eram chamados em
conjunto Uhtãbohowerimahsã, quer dizer os “Homens
de Quartzo Branco”, porque eles são eternos, eles
não são como nós. Isso ela fez no Quarto
de Quartzo Branco, no lugar onde apareceu. Em seguida, ela saudou
os homens por ela criados, chamando-os Umukosurã, isto
é, “Irmãos do Mundo”. Isto é,
os saudou como se fossem os seus irmãos. Eles responderam,
chamando-a Umukosurãñehkõ, “Tataravó
do Mundo”, quer dizer que ela era avó de todo ser
que existe no mundo.
Feito isso, ela deu a cada um deles um quarto nesta grande maloca
que é a Maloca do Mundo. Os Trovões eram cinco.
Nós os chamamos “Avôs do Mundo”. O primeiro,
como primogênito, recebeu o quarto de chefe. O segundo recebeu
o quarto da direita, acima do primeiro. O terceiro recebeu o quarto
no alto do “jirau do jabuti”, no lugar onde se costumava
guardar o casco de jabuti tocado nos dias especiais de dança.
Assim era também na Maloca do Mundo. O quarto Trovão
recebeu o quarto da esquerda, acima do primeiro e em frente ao
segundo quarto. Por fim, o quinto recebeu o quarto bem na entrada,
perto da porta, onde dormem os hóspedes.
Como disse antes, o mundo terminava em forma de torre. Na ponta
da torre, havia um sexto quarto onde estava um morcego enorme
que se parecia com um grande gavião. O lugar onde ele estava
chama-se “Funil do Alto” (Umus&doro), quer dizer
o “Fim (os confins) do Mundo”.
Cada um recebeu assim o seu quarto nesta grande Maloca do Mundo.
Estes mesmos quartos tornaram-se malocas, que se chamam Umukowi’iri
“Malocas do Mundo”. Cada Trovão ficou morando
em sua própria maloca. Ainda não havia luz no mundo.
Só nessas malocas havia luz, do mesmo modo como na maloca
de Yebá Buró. No resto do mundo tudo era ainda escuridão.
Segunda parte: Origem da humanidade
Como
fizeram a humanidade
Yebá
Buró disse aos Trovões:
– “Gerei vocês para criarem o mundo. Pensem
agora como fazer a luz, os rios e a futura humanidade”.
Eles responderam que assim fariam. Mas nada fizeram! Cada qual
ficou na sua própria maloca e nem se lembraram do que a
Avó do Mundo lhes havia pedido.
As malocas dos cinco Trovões tinham nomes. A do primeiro
chama-se Diáahpikõwi’i “Maloca de Leite”
e fica no sul. A do segundo chama-se Diágahsiruuhtãm%wi’i
“Maloca da Cachoeira da Casca” e fica no leste, em
Tunui cachoeira, no rio Içana. A maloca do terceiro chama-se
Umus&wi’i “Maloca de Cima” e fica no alto.
Esta é a que tinha as riquezas: diversos adornos usados
nas danças rituais. Todas estas coisas eram especiais,
“mágicas”. Tudo isto viria a formar a futura
humanidade. Foi ao terceiro Trovão que a Avó do
Mundo deu todas essas riquezas, assim como o poder de guardá-las.
A maloca do quarto Trovão chama-se Diápasarowi’i2
e fica no oeste, no rio Apaporis, na Colômbia. A maloca
do quinto chama-se Diádihpamahawi’i “Maloca
da Cabeceira” e fica no norte. O Trovão desta maloca
era o último e se chamava Abepõwehku “Anta
do Brinco do Sol”. Ele brilhava por si mesmo.
O mundo estava ainda escuro. Vendo que não cumpriram as
suas ordens, a Avó do Mundo disse:
– “Eu não mandei vocês ficarem parados!
Mandei-os fazerem a luz, os rios e a futura humanidade e vocês
não fizeram nada”.
Os rios, eles já haviam criado. Só lhes faltava
fazer a luz e a futura humanidade. Ouvindo isto, os Trovões
resolveram criar a futura humanidade. Realizaram então
um grande dabucuri das frutas da palmeira miriti3 com a participação
de Yebá Buró. Isto aconteceu na Maloca de Leite.
A Avó do Mundo, vendo o que eles iam fazer, veio para guiá-los.
Mas a bebida servida, o caapi4 era forte demais e, mesmo com a
ajuda de Yebá Buró, os Trovões não
conseguiram criar a futura humanidade. Um deles saiu da maloca
para tentar. Mas ele já estava tonto pela bebida e não
podia mais agüentar. Ele saiu vomitando pelo oeste. Aí
mesmo, o Trovão endureceu e transformou-se numa grande
montanha com todos os seus enfeites.
Vendo que não dava certo, a Avó do Mundo disse:
– “Esses não têm jeito mesmo, eles não
sabem fazer”.
E voltou outra vez para o lugar dela, na Maloca de Quartzo Branco,
ainda chamada Diámomesuriw’i, “Maloca dos Favos
de Mel”.
Como
apareceu um outro ser
Voltando
ao seu lugar, a Avó do Mundo disse:
– “Não está dando resultado”.
Pensou então em criar um outro ser que pudesse seguir as
suas ordens. Tomou ipadu, fumou cigarro e pensou como deveria
ser. Enquanto estava pensando, da fumaça mesmo formou-se
um ser misterioso que não tinha corpo. Era um ser que não
se podia tocar, nem ver. Yebá Buró pegou então
o seu pari de defesa (wereimikaru) e nele o envolveu. Ela estava
agindo como as mulheres quando dão à luz. Depois
de tê-lo pego com o seu pari, ela o saudou, dizendo Umukosurãpanami
“Bisneto do Mundo”, ao qual ele respondeu Umukosurãñehkõ
“Tataravó do Mundo”. Isto ela fez no Quarto
de Quartzo Branco.
O nome dele era Yebá Gõãm%, quer dizer o
“Demiurgo da Terra (ou do Mundo)”. A Avó do
Mundo disse-lhe:
– “Eu mandei os Trovões do Mundo fazerem as
camadas da terra, fazerem a futura humanidade, mas eles não
souberam fazê-lo. Faça-o você. Eu hei de guiá-lo”.
Ele
respondeu que iria fazer. Aceitou a ordem de Yebá Buró.
De lá mesmo, do Quarto de Quartzo Branco, onde havia aparecido,
ele levantou o seu bastão cerimonial que se chama em dessana
yewãigõã “osso de pajé”
e o fez subir até o cume da Torre do Mundo. Era a força
dele que subia. Ali, ele parou.
A
Criação do Sol
A
Avó do Mundo, vendo que o bastão estava erguido,
cumpriu a sua palavra de guiar o seu bisneto. Ela enfeitou a ponta
do bastão com penas amarradas, enfeites próprios
deste bastão, masculinos e femininos, e esse adorno ficou
brilhando de diversas cores: branco, azul, verde, amarelo. Enfeitou-o
ainda com um tipo de brincos ou pingentes, de feição
masculina e feminina. Ela fez isso no cume da Torre do Mundo.
Com esses enfeites, a ponta do bastão ficou brilhando.
Aí, transformou-se, assumindo um rosto humano. E deu luz
onde havia escuridão até os confins do mundo. Era
Abe, o Sol que acabava de ser criado. Assim apareceu o Sol. O
Sol gira por si mesmo. Na astronomia dos Antigos estes já
sabiam que o Sol girava por si mesmo. Isso é a criação
do Sol. Feito isso, Yebá Buró cobriu o Sol com um
tapume de penugem de arara (mahãweayuhsu).
A
Criação da Terra
Vendo
o trabalho do Bisneto do Mundo, os Trovões ficaram enciumados,
comentando entre si:
– “Nós que somos Homens de Quartzo Branco,
nós que fomos os primeiros a ser criados, não conseguimos
fazer isto! Como é que este aparecido, este espírito
que não tem corpo, como é que ele consegue fazer
isto? Faremos de sorte que ele não conseguirá!”
Por inveja, queriam destruir o trabalho dele. Só Umukoñehk%
não teve inveja do trabalho do Bisneto do Mundo, isto é,
o terceiro Trovão. Amansou então os seus irmãos
com o alimento deles que era ipadu e cigarro. Somente disso é
que eles viviam! Comendo ipadu, fumando cigarro, eles se amansaram,
não ficaram mais com inveja e não incomodaram mais
o trabalho do Bisneto do Mundo.
Esse bastão não era como o de nossos dias: ele era
especial, invisível. Todas as coisas nesta época
eram invisíveis: a gente não podia vê-las
nem tocá-las. Desde o princípio dessa história,
todos os materiais eram invisíveis: o ipadu, o cigarro,
o bastão cerimonial e todas as outras coisas que eu citei
eram invisíveis.
Neste bastão, chamado “osso de pajé”,
ele subiu até a maloca do terceiro Trovão. Antes
de subir, porém, ele criou vários paris: o pari
de urucu de miriti (nemohsãimikaru), o pari de frutas pequenas
de miriti (nemuhtãr&imikaru), o pari de miriti meio
amarelo (nebohoimikaru), o pari de talos de caraná (ñap%duhkaimikaru).
Sustentando-se em cima desses paris que ele criara, ele subiu
no espaço.
Enquanto isso, Yebá Buró tirou do seio esquerdo
sementes de tabaco, grãozinhos minúsculos, e os
espalhou em cima dos paris. Depois tirou leite, também
do seio esquerdo, que ela derramou por cima dessas esteiras. A
semente de tabaco era para formar a terra, e o leite, para adubá-la.
O Bisneto do Mundo estava subindo para a Maloca de Cima, cortando
e dividindo o espaço em várias camadas. O mundo
foi assim dividido em andares (ou graus) sobrepostos, como o ninho
da caba está dividido em vários níveis. O
Sol feito por eles já estava iluminando todos esses níveis.
Ele estava em cima, bem no alto. Se ele estivesse perto de nós,
ele nos queimaria a todos! Portanto, o mundo ficou dividido em
graus, em andares sobrepostos como disse antes. O quarto da Avó
do Mundo ficou debaixo de todos esses graus: é o primeiro
quarto ou “Quarto de Quartzo Branco” (Uhtãbohotaribu).
O segundo quarto, acima do primeiro, chama-se “Quarto de
Pedras Velhas” (Uhtãbuhutaribu). Não se sabe
exatamente o que nele existe. O terceiro andar chama-se “Quarto
de Tabatinga Amarela” (Bahsibohotaribu). É nesse
nível que vivemos nós, assim como toda a humanidade.
O quarto andar chama-se “Firmamento” ou “Andar
dos Brincos do Sol” (Abepõtaribu). É este
grau que os Antigos chamavam “Nível dos Santos”
ou, ainda, “Nível dos Demiurgos”. Isso é
a história dos Antigos. Os velhos desse tempo, fazendo
comparações com a religião católica,
dizem que o Bisneto do Mundo deve estar lá agora. Este,
que foi criado por Yebá Buró no Quarto de Quartzo
Branco, não tinha corpo. Era espírito. A religião
católica diz que Deus é um espírito que não
tem corpo. A este trecho, meu pai, que está contando, está
comparando as histórias dos Antigos com a religião
católica. Dizem que neste nível é que deve
estar Umukoñehk%, o Bisneto do Mundo, o nosso Demiurgo
eterno. Acima deste nível está a Maloca de Cima,
a do terceiro Trovão. Este é o guardião dos
enfeites de penas e dos diversos adornos que os Antigos usavam
para as danças. O Bisneto do Mundo, criando as camadas
da terra, estava subindo no espaço, dirigindo-se para a
maloca do terceiro Trovão, porque a Avó do Mundo
lhe havia dado a ordem de ir lá pedir os enfeites de penas
que viriam a ser a futura humanidade.
Quando chegou à maloca do terceiro Trovão, encontrou-a
fechada. A maloca era toda de quartzo branco, inclusive a porta,
e ninguém podia entrar. Chegando lá, Umukoñehk%
começou a acalmar tudo e só então abriu a
porta. Se não tivesse feito assim, ele seria morto. No
momento em que ele abriu a porta, apareceu Umukomahs% Boreka,
o chefe dos Dessana. Boreka era como o irmão do Bisneto
do Mundo. Ingressaram juntos na maloca. Ao entrar, o Bisneto do
Mundo exclamou: “Sów!” É uma saudação
de quem chega ao dono da maloca. E continuou dizendo:
– “Umukoñehk%re mahsãkarimahs%”,
isto é, “Eu sou o homem que veio visitar o Avô
do Mundo”.
O terceiro Trovão respondeu:
– “Sim, Bisneto do Mundo!”
Ele respondeu do fundo da maloca, não veio até a
porta para saudá-los. Em primeiro lugar veio o seu cigarro,
a seguir o ipadu e, em terceiro lugar, o ipadu feito com tapioca.
Essas coisas vieram por si mesmas para cumprimentar o Bisneto
do Mundo. Vieram uma por uma, chegaram à presença
dele, pararam um pouco e voltaram ao quarto do Trovão.
Como
apareceu a humanidade
Depois
que voltaram o cigarro e o ipadu, Umukosurãpanami ficou
olhando. Viu muitas riquezas: penas e diversos adornos dos Antigos.
A maloca do Trovão lhe pareceu como se fosse um museu!
Enquanto ele estava olhando, o Trovão veio cumprimentá-lo.
O Bisneto do Mundo disse-lhe então:
– “Eu vim aqui porque Yebá Buró me mandou
pedir-lhe as suas riquezas, ó Avô do Mundo. Por isso
é que eu vim aqui!”
O Trovão respondeu:
– “Muito bem, meu Bisneto! Eu tenho aqui as riquezas
que você quer!”
Dito isto, desceu ao seu quarto, pegou um pari usado como defesa
do quarto de chefe e voltou para perto do Bisneto do Mundo. Estendeu
então o pari no chão e, com a mão, apertou
a sua barriga. Saíram-lhe então pela boca as diversas
riquezas que caíram sobre o pari. Eram acangataras e outros
enfeites de penas, colares com pedra de quartzo, colares de dentes
de onça, placas peitorais, forquilhas para segurar o cigarro.
Ele fez isto na vista do Bisneto do Mundo. Quando acabou de despejar
tudo, o Trovão disse:
– “Eis as riquezas, meu Bisneto! Quando voltar lá,
você faça assim mesmo!”
E ensinou-lhe os ritos que deveria realizar.
No mesmo instante, todas as riquezas se transformaram em gente.
Eram homens e mulheres que encheram a maloca do terceiro Trovão.
Deram uma volta dentro da maloca e tornaram a transformar-se em
riquezas. Essas riquezas viriam a ser a futura humanidade. O Trovão
disse então:
– “Procedam dessa forma quando forem colocar as Malocas
de Transformação para criar a futura humanidade”.
E colocou todas as riquezas na mão do Bisneto do Mundo.
No pátio da maloca do terceiro Trovão havia um pé
de ipadu. O Trovão disse, mostrando-o:
– “Aí está um pé de ipadu. Tirem
cada um de vocês uma folha nova e engulam-na. Quando sentirem
dor de barriga, acendam o seu turi,5 deixem cair as cinzas do
turi dentro de uma cuia de água e, depois, bebam esta água.
E tratem de vomitar num só buraco no rio”.
Tiraram então a folha de ipadu e a engoliram. Quando começaram
a sentir dor de barriga, eles fizeram como lhes fora dito. Ao
vomitar, aí mesmo, apareceram duas mulheres. O seu vômito
era como um parto e, dele, surgiram as primeiras mulheres. O Bisneto
do Mundo disse ao seu irmão Boreka:
– “Puxe-as para fora da água!”
Umukomahs% Boreka pegou então as duas mulheres pela mão
e puxou-as para fora da água, chamando-as “Minhas
filhas!” Levaram-nas para a maloca do terceiro Trovão
para mostrá-las. O Avô do Mundo disse:
– “Muito bem! Fazei assim!”
Ele viu que fizeram as coisas direito. O terceiro Trovão
disse a Umukosurãpanami:
– “Eu também vou com vocês levar as minhas
riquezas”. Prometeu ir com eles para ajudar a formar a futura
humanidade. Feito isso, o Bisneto do Mundo voltou para o Quarto
de Quartzo Branco, onde ele tinha aparecido, com todas as riquezas
que havia encontrado no alto e que o terceiro Trovão lhe
dera.
Depois ele subiu à superfície da terra para formar
a humanidade. Levantou-se num grande lago chamado Diáahpikõdihtaru,
isto é, “Lago de Leite”, que deve ser o Oceano.
Enquanto ele vinha subindo, o terceiro Trovão desceu neste
grande lago na forma de uma jibóia gigantesca. A cabeça
da cobra se parecia com a proa de uma lancha. Para eles, parecia
um grande navio a vapor que se chama Pam%r&gahsiru, isto é,
“Canoa da Futura Humanidade” ou “Canoa de Transformação”.
Umukosurãpanami e Umukomahs% Boreka, o chefe dos Dessana,
vieram como comandantes dessa cobra-canoa. Chegaram à maloca
do primeiro Trovão, no Lago de Leite. Entraram e agiram
segundo as instruções de Umukoñehk%. Aí,
repetiu-se o que havia acontecido na Maloca de Cima: os enfeites
tornaram-se pessoas que fizeram um desfile. Deram uma volta dentro
da maloca e, depois, voltaram a ser enfeites.
Esta Maloca de Leite está na beira de um grande lago que
se chama Lago de Leite, ou seja, o lago de onde surgiu a futura
humanidade. As malocas da beira do Rio de Leite (Diáahpikõ)
foram colocadas pelo Bisneto do Mundo junto com Boreka. Essas
malocas chamam-se Pam%r&wi’ri “Malocas de Transformação”.
Na frente deste grande lago, na frente da Maloca de Leite, ao
seu lado direito, há uma outra maloca que se chama Wihõwi’i
“Maloca de Paricá”.6 Esta maloca foi feita
por Umukomahs% Boreka ao surgir com seu irmão nesse grande
lago. Foi ele que pensou criar esta grande maloca. Esta maloca
é de paricá. Boreka ia se tornar um grande pajé,
por isso é que ele a criou, mesmo vindo com seu irmão.
Por essa razão, a Maloca de Paricá é dele.
Como disse antes, tendo entrado na Maloca de Leite, ele fez como
o Avô do Mundo lhe tinha ensinado na Maloca de Cima. Ao
sair desta maloca, o Bisneto do Mundo embarcou de novo com as
riquezas na grande embarcação. Esta grande embarcação
era o terceiro Trovão mesmo, que vinha trazendo as riquezas
que viriam a ser a futura humanidade. Umukosurãpanami veio
de pé, na proa da embarcação, com o seu bastão
cerimonial. Umukomahs% Boreka estava no centro, dentro da embarcação.
Os dois eram chefes dessa grande Canoa de Transformação,
trazendo as riquezas. Eles subiram pelo lado esquerdo do lago
criando Malocas de Transformação. Ao chegarem a
uma maloca, eles encostavam, saíam da embarcação
levando as riquezas e faziam as suas cerimônias. E, em cada
maloca, acontecia a mesma coisa: as riquezas transformavam-se
em pessoas, com corpo humano, e estavam crescendo.
As primeiras malocas estão na beira do Lago de Leite, em
cima da Maloca de Leite. As outras malocas estão localizadas
no grande rio que é o Rio de Leite (Ahpikomau), outras
estão nas costas do Brasil, no rio Amazonas, no rio Negro,
no rio Uaupés e, por fim, no rio Tiquié. De um certo
ponto, baixaram outra vez, e continuaram subindo pelo rio Uaupés
até a saída por terra em Ipanoré.
Subindo acima da Maloca de Leite, a Canoa de Transformação
chegou à maloca que se chama Diásorowi’i “Maloca
do Redemoinho”. Aí, ela encostou e os dois fizeram
uma cerimônia com as riquezas. Esta maloca foi criada por
Umukosurãpanami e por Umukomahs% Boreka. Subindo acima
desta maloca, eles colocaram uma maloca que se chama Diábarirawi’i
“Maloca dos que Engatinham”. A futura humanidade tornava-se
gente e crescia maloca por maloca, assim como a criancinha cresce
ano por ano. Assim mesmo acontecia com eles.
(Antes
o mundo não existia)