Biografia / Bibliografia

Umusi Pãrokumu e Tõramu Kehíri

O mito cosmogônico dos dessanas, habitantes do alto rio Negro, se encontra registrado pelos índios Umusi Pãrokumu (Firmiano Arantes Lana, nascido em São Gabriel da Cachoeira – AM) e Tõramu Kehíri (Luiz Gomes Lana, nascido em 25 de julho de 1945, também em São Gabriel da Cachoeira) no livro Antes o mundo não existia (São Paulo, 1980; 2.ª ed. rev. aum. São Gabriel da Cachoeira, 1995). As narrativas foram escritas por Luiz, com base nos relatos do pai.

 

 

Textos Selecionados:

 

O Mundo não existia

Origem do mundo e da humanidade
Primeira parte: Origem do mundo

No princípio o mundo não existia. As trevas cobriam tudo. Enquanto não havia nada, apareceu uma mulher por si mesma. Isso aconteceu no meio das trevas. Ela apareceu sustentando-se sobre o seu banco de quartzo branco. Enquanto estava aparecendo, ela cobriu-se com seus enfeites e fez como um quarto. Esse quarto chama-se Uhtãboho taribu, o “Quarto de Quartzo Branco”. Ela se chamava Yebá Buró, a “Avó do Mundo” ou, também, “Avó da Terra”.


Como ela apareceu

Havia coisas misteriosas para ela criar-se por si mesma. Havia seis coisas misteriosas: um banco de quartzo branco, uma forquilha para segurar o cigarro, uma cuia de ipadu, o suporte desta cuia de ipadu,1 uma cuia de farinha de tapioca e o suporte desta cuia. Sobre estas coisas misteriosas é que ela se transformou por si mesma. Por isso, ela se chama a “Não Criada”.
Foi ela que pensou sobre o futuro mundo, sobre os futuros seres. Depois de ter aparecido, ela começou a pensar como deveria ser o mundo. No seu Quarto de Quartzo Branco, ela comeu ipadu, fumou o cigarro e se pôs a pensar como deveria ser o mundo.

A Criação do Universo

Enquanto ela estava pensando no seu Quarto de Quartzo Branco, começou a se levantar algo, como se fosse um balão e, em cima dele, apareceu uma espécie de torre. Isso aconteceu com o seu pensamento. O balão, enquanto estava se levantando, envolveu a escuridão, de maneira que esta toda ficou dentro dele. O balão era o mundo. Não havia ainda luz. Só no quarto dela, no Quarto de Quartzo Branco, havia luz. Tendo feito isto, ela chamou o balão Umukowi’i, “Maloca do Universo”. Ela o chamou como se fosse uma grande maloca. Este é o nome que ainda hoje é o mais mencionado nas cerimônias.

Os Cinco trovões

Depois ela pensou em colocar pessoas nesta grande Maloca do Universo. Voltou a mascar ipadu e a fumar o cigarro. Todas essas coisas eram especiais, não eram feitas como as de hoje. Ela tirou então o ipadu da boca e o fez transformar-se em homens, os “Avôs do Mundo” (Umukoñehkus%ma). Eles eram Trovões. Esses Trovões eram chamados em conjunto Uhtãbohowerimahsã, quer dizer os “Homens de Quartzo Branco”, porque eles são eternos, eles não são como nós. Isso ela fez no Quarto de Quartzo Branco, no lugar onde apareceu. Em seguida, ela saudou os homens por ela criados, chamando-os Umukosurã, isto é, “Irmãos do Mundo”. Isto é, os saudou como se fossem os seus irmãos. Eles responderam, chamando-a Umukosurãñehkõ, “Tataravó do Mundo”, quer dizer que ela era avó de todo ser que existe no mundo.
Feito isso, ela deu a cada um deles um quarto nesta grande maloca que é a Maloca do Mundo. Os Trovões eram cinco. Nós os chamamos “Avôs do Mundo”. O primeiro, como primogênito, recebeu o quarto de chefe. O segundo recebeu o quarto da direita, acima do primeiro. O terceiro recebeu o quarto no alto do “jirau do jabuti”, no lugar onde se costumava guardar o casco de jabuti tocado nos dias especiais de dança. Assim era também na Maloca do Mundo. O quarto Trovão recebeu o quarto da esquerda, acima do primeiro e em frente ao segundo quarto. Por fim, o quinto recebeu o quarto bem na entrada, perto da porta, onde dormem os hóspedes.
Como disse antes, o mundo terminava em forma de torre. Na ponta da torre, havia um sexto quarto onde estava um morcego enorme que se parecia com um grande gavião. O lugar onde ele estava chama-se “Funil do Alto” (Umus&doro), quer dizer o “Fim (os confins) do Mundo”.
Cada um recebeu assim o seu quarto nesta grande Maloca do Mundo. Estes mesmos quartos tornaram-se malocas, que se chamam Umukowi’iri “Malocas do Mundo”. Cada Trovão ficou morando em sua própria maloca. Ainda não havia luz no mundo. Só nessas malocas havia luz, do mesmo modo como na maloca de Yebá Buró. No resto do mundo tudo era ainda escuridão.


Segunda parte: Origem da humanidade

Como fizeram a humanidade

Yebá Buró disse aos Trovões:
– “Gerei vocês para criarem o mundo. Pensem agora como fazer a luz, os rios e a futura humanidade”. Eles responderam que assim fariam. Mas nada fizeram! Cada qual ficou na sua própria maloca e nem se lembraram do que a Avó do Mundo lhes havia pedido.
As malocas dos cinco Trovões tinham nomes. A do primeiro chama-se Diáahpikõwi’i “Maloca de Leite” e fica no sul. A do segundo chama-se Diágahsiruuhtãm%wi’i “Maloca da Cachoeira da Casca” e fica no leste, em Tunui cachoeira, no rio Içana. A maloca do terceiro chama-se Umus&wi’i “Maloca de Cima” e fica no alto. Esta é a que tinha as riquezas: diversos adornos usados nas danças rituais. Todas estas coisas eram especiais, “mágicas”. Tudo isto viria a formar a futura humanidade. Foi ao terceiro Trovão que a Avó do Mundo deu todas essas riquezas, assim como o poder de guardá-las. A maloca do quarto Trovão chama-se Diápasarowi’i2 e fica no oeste, no rio Apaporis, na Colômbia. A maloca do quinto chama-se Diádihpamahawi’i “Maloca da Cabeceira” e fica no norte. O Trovão desta maloca era o último e se chamava Abepõwehku “Anta do Brinco do Sol”. Ele brilhava por si mesmo.
O mundo estava ainda escuro. Vendo que não cumpriram as suas ordens, a Avó do Mundo disse:
– “Eu não mandei vocês ficarem parados! Mandei-os fazerem a luz, os rios e a futura humanidade e vocês não fizeram nada”.
Os rios, eles já haviam criado. Só lhes faltava fazer a luz e a futura humanidade. Ouvindo isto, os Trovões resolveram criar a futura humanidade. Realizaram então um grande dabucuri das frutas da palmeira miriti3 com a participação de Yebá Buró. Isto aconteceu na Maloca de Leite. A Avó do Mundo, vendo o que eles iam fazer, veio para guiá-los. Mas a bebida servida, o caapi4 era forte demais e, mesmo com a ajuda de Yebá Buró, os Trovões não conseguiram criar a futura humanidade. Um deles saiu da maloca para tentar. Mas ele já estava tonto pela bebida e não podia mais agüentar. Ele saiu vomitando pelo oeste. Aí mesmo, o Trovão endureceu e transformou-se numa grande montanha com todos os seus enfeites.
Vendo que não dava certo, a Avó do Mundo disse:
– “Esses não têm jeito mesmo, eles não sabem fazer”.
E voltou outra vez para o lugar dela, na Maloca de Quartzo Branco, ainda chamada Diámomesuriw’i, “Maloca dos Favos de Mel”.

Como apareceu um outro ser

Voltando ao seu lugar, a Avó do Mundo disse:
– “Não está dando resultado”.
Pensou então em criar um outro ser que pudesse seguir as suas ordens. Tomou ipadu, fumou cigarro e pensou como deveria ser. Enquanto estava pensando, da fumaça mesmo formou-se um ser misterioso que não tinha corpo. Era um ser que não se podia tocar, nem ver. Yebá Buró pegou então o seu pari de defesa (wereimikaru) e nele o envolveu. Ela estava agindo como as mulheres quando dão à luz. Depois de tê-lo pego com o seu pari, ela o saudou, dizendo Umukosurãpanami “Bisneto do Mundo”, ao qual ele respondeu Umukosurãñehkõ “Tataravó do Mundo”. Isto ela fez no Quarto de Quartzo Branco.
O nome dele era Yebá Gõãm%, quer dizer o “Demiurgo da Terra (ou do Mundo)”. A Avó do Mundo disse-lhe:
– “Eu mandei os Trovões do Mundo fazerem as camadas da terra, fazerem a futura humanidade, mas eles não souberam fazê-lo. Faça-o você. Eu hei de guiá-lo”.

Ele respondeu que iria fazer. Aceitou a ordem de Yebá Buró. De lá mesmo, do Quarto de Quartzo Branco, onde havia aparecido, ele levantou o seu bastão cerimonial que se chama em dessana yewãigõã “osso de pajé” e o fez subir até o cume da Torre do Mundo. Era a força dele que subia. Ali, ele parou.

A Criação do Sol

A Avó do Mundo, vendo que o bastão estava erguido, cumpriu a sua palavra de guiar o seu bisneto. Ela enfeitou a ponta do bastão com penas amarradas, enfeites próprios deste bastão, masculinos e femininos, e esse adorno ficou brilhando de diversas cores: branco, azul, verde, amarelo. Enfeitou-o ainda com um tipo de brincos ou pingentes, de feição masculina e feminina. Ela fez isso no cume da Torre do Mundo. Com esses enfeites, a ponta do bastão ficou brilhando. Aí, transformou-se, assumindo um rosto humano. E deu luz onde havia escuridão até os confins do mundo. Era Abe, o Sol que acabava de ser criado. Assim apareceu o Sol. O Sol gira por si mesmo. Na astronomia dos Antigos estes já sabiam que o Sol girava por si mesmo. Isso é a criação do Sol. Feito isso, Yebá Buró cobriu o Sol com um tapume de penugem de arara (mahãweayuhsu).

A Criação da Terra

Vendo o trabalho do Bisneto do Mundo, os Trovões ficaram enciumados, comentando entre si:
– “Nós que somos Homens de Quartzo Branco, nós que fomos os primeiros a ser criados, não conseguimos fazer isto! Como é que este aparecido, este espírito que não tem corpo, como é que ele consegue fazer isto? Faremos de sorte que ele não conseguirá!”
Por inveja, queriam destruir o trabalho dele. Só Umukoñehk% não teve inveja do trabalho do Bisneto do Mundo, isto é, o terceiro Trovão. Amansou então os seus irmãos com o alimento deles que era ipadu e cigarro. Somente disso é que eles viviam! Comendo ipadu, fumando cigarro, eles se amansaram, não ficaram mais com inveja e não incomodaram mais o trabalho do Bisneto do Mundo.
Esse bastão não era como o de nossos dias: ele era especial, invisível. Todas as coisas nesta época eram invisíveis: a gente não podia vê-las nem tocá-las. Desde o princípio dessa história, todos os materiais eram invisíveis: o ipadu, o cigarro, o bastão cerimonial e todas as outras coisas que eu citei eram invisíveis.
Neste bastão, chamado “osso de pajé”, ele subiu até a maloca do terceiro Trovão. Antes de subir, porém, ele criou vários paris: o pari de urucu de miriti (nemohsãimikaru), o pari de frutas pequenas de miriti (nemuhtãr&imikaru), o pari de miriti meio amarelo (nebohoimikaru), o pari de talos de caraná (ñap%duhkaimikaru). Sustentando-se em cima desses paris que ele criara, ele subiu no espaço.
Enquanto isso, Yebá Buró tirou do seio esquerdo sementes de tabaco, grãozinhos minúsculos, e os espalhou em cima dos paris. Depois tirou leite, também do seio esquerdo, que ela derramou por cima dessas esteiras. A semente de tabaco era para formar a terra, e o leite, para adubá-la.
O Bisneto do Mundo estava subindo para a Maloca de Cima, cortando e dividindo o espaço em várias camadas. O mundo foi assim dividido em andares (ou graus) sobrepostos, como o ninho da caba está dividido em vários níveis. O Sol feito por eles já estava iluminando todos esses níveis. Ele estava em cima, bem no alto. Se ele estivesse perto de nós, ele nos queimaria a todos! Portanto, o mundo ficou dividido em graus, em andares sobrepostos como disse antes. O quarto da Avó do Mundo ficou debaixo de todos esses graus: é o primeiro quarto ou “Quarto de Quartzo Branco” (Uhtãbohotaribu). O segundo quarto, acima do primeiro, chama-se “Quarto de Pedras Velhas” (Uhtãbuhutaribu). Não se sabe exatamente o que nele existe. O terceiro andar chama-se “Quarto de Tabatinga Amarela” (Bahsibohotaribu). É nesse nível que vivemos nós, assim como toda a humanidade. O quarto andar chama-se “Firmamento” ou “Andar dos Brincos do Sol” (Abepõtaribu). É este grau que os Antigos chamavam “Nível dos Santos” ou, ainda, “Nível dos Demiurgos”. Isso é a história dos Antigos. Os velhos desse tempo, fazendo comparações com a religião católica, dizem que o Bisneto do Mundo deve estar lá agora. Este, que foi criado por Yebá Buró no Quarto de Quartzo Branco, não tinha corpo. Era espírito. A religião católica diz que Deus é um espírito que não tem corpo. A este trecho, meu pai, que está contando, está comparando as histórias dos Antigos com a religião católica. Dizem que neste nível é que deve estar Umukoñehk%, o Bisneto do Mundo, o nosso Demiurgo eterno. Acima deste nível está a Maloca de Cima, a do terceiro Trovão. Este é o guardião dos enfeites de penas e dos diversos adornos que os Antigos usavam para as danças. O Bisneto do Mundo, criando as camadas da terra, estava subindo no espaço, dirigindo-se para a maloca do terceiro Trovão, porque a Avó do Mundo lhe havia dado a ordem de ir lá pedir os enfeites de penas que viriam a ser a futura humanidade.
Quando chegou à maloca do terceiro Trovão, encontrou-a fechada. A maloca era toda de quartzo branco, inclusive a porta, e ninguém podia entrar. Chegando lá, Umukoñehk% começou a acalmar tudo e só então abriu a porta. Se não tivesse feito assim, ele seria morto. No momento em que ele abriu a porta, apareceu Umukomahs% Boreka, o chefe dos Dessana. Boreka era como o irmão do Bisneto do Mundo. Ingressaram juntos na maloca. Ao entrar, o Bisneto do Mundo exclamou: “Sów!” É uma saudação de quem chega ao dono da maloca. E continuou dizendo:
– “Umukoñehk%re mahsãkarimahs%”, isto é, “Eu sou o homem que veio visitar o Avô do Mundo”.
O terceiro Trovão respondeu:
– “Sim, Bisneto do Mundo!”
Ele respondeu do fundo da maloca, não veio até a porta para saudá-los. Em primeiro lugar veio o seu cigarro, a seguir o ipadu e, em terceiro lugar, o ipadu feito com tapioca. Essas coisas vieram por si mesmas para cumprimentar o Bisneto do Mundo. Vieram uma por uma, chegaram à presença dele, pararam um pouco e voltaram ao quarto do Trovão.

Como apareceu a humanidade

Depois que voltaram o cigarro e o ipadu, Umukosurãpanami ficou olhando. Viu muitas riquezas: penas e diversos adornos dos Antigos. A maloca do Trovão lhe pareceu como se fosse um museu! Enquanto ele estava olhando, o Trovão veio cumprimentá-lo. O Bisneto do Mundo disse-lhe então:
– “Eu vim aqui porque Yebá Buró me mandou pedir-lhe as suas riquezas, ó Avô do Mundo. Por isso é que eu vim aqui!”
O Trovão respondeu:
– “Muito bem, meu Bisneto! Eu tenho aqui as riquezas que você quer!”
Dito isto, desceu ao seu quarto, pegou um pari usado como defesa do quarto de chefe e voltou para perto do Bisneto do Mundo. Estendeu então o pari no chão e, com a mão, apertou a sua barriga. Saíram-lhe então pela boca as diversas riquezas que caíram sobre o pari. Eram acangataras e outros enfeites de penas, colares com pedra de quartzo, colares de dentes de onça, placas peitorais, forquilhas para segurar o cigarro. Ele fez isto na vista do Bisneto do Mundo. Quando acabou de despejar tudo, o Trovão disse:
– “Eis as riquezas, meu Bisneto! Quando voltar lá, você faça assim mesmo!”
E ensinou-lhe os ritos que deveria realizar.
No mesmo instante, todas as riquezas se transformaram em gente. Eram homens e mulheres que encheram a maloca do terceiro Trovão. Deram uma volta dentro da maloca e tornaram a transformar-se em riquezas. Essas riquezas viriam a ser a futura humanidade. O Trovão disse então:
– “Procedam dessa forma quando forem colocar as Malocas de Transformação para criar a futura humanidade”.
E colocou todas as riquezas na mão do Bisneto do Mundo. No pátio da maloca do terceiro Trovão havia um pé de ipadu. O Trovão disse, mostrando-o:
– “Aí está um pé de ipadu. Tirem cada um de vocês uma folha nova e engulam-na. Quando sentirem dor de barriga, acendam o seu turi,5 deixem cair as cinzas do turi dentro de uma cuia de água e, depois, bebam esta água. E tratem de vomitar num só buraco no rio”.
Tiraram então a folha de ipadu e a engoliram. Quando começaram a sentir dor de barriga, eles fizeram como lhes fora dito. Ao vomitar, aí mesmo, apareceram duas mulheres. O seu vômito era como um parto e, dele, surgiram as primeiras mulheres. O Bisneto do Mundo disse ao seu irmão Boreka:
– “Puxe-as para fora da água!”
Umukomahs% Boreka pegou então as duas mulheres pela mão e puxou-as para fora da água, chamando-as “Minhas filhas!” Levaram-nas para a maloca do terceiro Trovão para mostrá-las. O Avô do Mundo disse:
– “Muito bem! Fazei assim!”
Ele viu que fizeram as coisas direito. O terceiro Trovão disse a Umukosurãpanami:
– “Eu também vou com vocês levar as minhas riquezas”. Prometeu ir com eles para ajudar a formar a futura humanidade. Feito isso, o Bisneto do Mundo voltou para o Quarto de Quartzo Branco, onde ele tinha aparecido, com todas as riquezas que havia encontrado no alto e que o terceiro Trovão lhe dera.
Depois ele subiu à superfície da terra para formar a humanidade. Levantou-se num grande lago chamado Diáahpikõdihtaru, isto é, “Lago de Leite”, que deve ser o Oceano. Enquanto ele vinha subindo, o terceiro Trovão desceu neste grande lago na forma de uma jibóia gigantesca. A cabeça da cobra se parecia com a proa de uma lancha. Para eles, parecia um grande navio a vapor que se chama Pam%r&gahsiru, isto é, “Canoa da Futura Humanidade” ou “Canoa de Transformação”.
Umukosurãpanami e Umukomahs% Boreka, o chefe dos Dessana, vieram como comandantes dessa cobra-canoa. Chegaram à maloca do primeiro Trovão, no Lago de Leite. Entraram e agiram segundo as instruções de Umukoñehk%. Aí, repetiu-se o que havia acontecido na Maloca de Cima: os enfeites tornaram-se pessoas que fizeram um desfile. Deram uma volta dentro da maloca e, depois, voltaram a ser enfeites.
Esta Maloca de Leite está na beira de um grande lago que se chama Lago de Leite, ou seja, o lago de onde surgiu a futura humanidade. As malocas da beira do Rio de Leite (Diáahpikõ) foram colocadas pelo Bisneto do Mundo junto com Boreka. Essas malocas chamam-se Pam%r&wi’ri “Malocas de Transformação”.
Na frente deste grande lago, na frente da Maloca de Leite, ao seu lado direito, há uma outra maloca que se chama Wihõwi’i “Maloca de Paricá”.6 Esta maloca foi feita por Umukomahs% Boreka ao surgir com seu irmão nesse grande lago. Foi ele que pensou criar esta grande maloca. Esta maloca é de paricá. Boreka ia se tornar um grande pajé, por isso é que ele a criou, mesmo vindo com seu irmão. Por essa razão, a Maloca de Paricá é dele.
Como disse antes, tendo entrado na Maloca de Leite, ele fez como o Avô do Mundo lhe tinha ensinado na Maloca de Cima. Ao sair desta maloca, o Bisneto do Mundo embarcou de novo com as riquezas na grande embarcação. Esta grande embarcação era o terceiro Trovão mesmo, que vinha trazendo as riquezas que viriam a ser a futura humanidade. Umukosurãpanami veio de pé, na proa da embarcação, com o seu bastão cerimonial. Umukomahs% Boreka estava no centro, dentro da embarcação. Os dois eram chefes dessa grande Canoa de Transformação, trazendo as riquezas. Eles subiram pelo lado esquerdo do lago criando Malocas de Transformação. Ao chegarem a uma maloca, eles encostavam, saíam da embarcação levando as riquezas e faziam as suas cerimônias. E, em cada maloca, acontecia a mesma coisa: as riquezas transformavam-se em pessoas, com corpo humano, e estavam crescendo.
As primeiras malocas estão na beira do Lago de Leite, em cima da Maloca de Leite. As outras malocas estão localizadas no grande rio que é o Rio de Leite (Ahpikomau), outras estão nas costas do Brasil, no rio Amazonas, no rio Negro, no rio Uaupés e, por fim, no rio Tiquié. De um certo ponto, baixaram outra vez, e continuaram subindo pelo rio Uaupés até a saída por terra em Ipanoré.
Subindo acima da Maloca de Leite, a Canoa de Transformação chegou à maloca que se chama Diásorowi’i “Maloca do Redemoinho”. Aí, ela encostou e os dois fizeram uma cerimônia com as riquezas. Esta maloca foi criada por Umukosurãpanami e por Umukomahs% Boreka. Subindo acima desta maloca, eles colocaram uma maloca que se chama Diábarirawi’i “Maloca dos que Engatinham”. A futura humanidade tornava-se gente e crescia maloca por maloca, assim como a criancinha cresce ano por ano. Assim mesmo acontecia com eles.

(Antes o mundo não existia)

 
| Fechar |