Biografia / Bibliografia

Thiago de Mello


Amadeu Thiago de Mello nasceu na cidade de Barreirinha, no
Amazonas, no dia 30 de março de 1926. Realizou seus estudos iniciais em
Manaus. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde cursou até o quarto ano
da Faculdade de Medicina. Perseguido pela ditadura militar que se implan-
tou no Brasil em 1964, viveu um longo período no exílio, permanecendo no
Chile até a derrubada do governo socialista de Salvador Allende. É membro
da Academia Amazonense de Letras. Principais obras poéticas: Silêncio e
palavra(Rio de Janeiro, 1951), Narciso cego (Rio de Janeiro, 1952), Vento
geral (Rio de Janeiro, 1960), Faz escuro, mas eu canto(Rio de Janeiro,
1965), A Canção do amor armado(Rio de Janeiro, 1966), Horóscopo para
os que estão vivos(Rio de Janeiro, 1966), Mormaço na floresta(Rio de
Janeiro, 1981), De Uma vez por todas(Rio de Janeiro, 1996); Num campo
de margaridas (Rio de Janeiro, 2004).

 

 

Silêncio e palavra

I
A couraça das palavras
protege nosso silêncio
e esconde aquilo que somos.
Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha

do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora de nossa boca.

II
Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)
Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.

E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta – humilde e pura –
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.
(Silêncio e palavra)

 

Estatutos do homem

Artigo 1
Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida
e que de mãos dadas
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo 2
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo 3
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo 4
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo 5
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo 6
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo 7
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo 8
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
sabendo que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo 9
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.
Artigo 10
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo 11
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo 12
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo 13
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

( Faz escuro, mas eu canto)

 

 
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