Soneto
A um passarinho, quando o Autor sofria vexações
Passarinho, que logras docemente
Os prazeres da amável inocência,
Livre de que a culpada consciência
Te aflija como aflige ao delinqüente.
Fácil sustento, e sempre mui decente
Vestido te fornece a Providência;
Sem futuros prever, tua existência
É feliz, limitando-se ao presente.
Não assim, ai de mim! porque sofrendo
A fome, a sede, o frio, a enfermidade,
Sinto também do crime o peso horrendo.
Dos homens me rodeaa iniqüidade,
A calúnia me oprime; e, ao fim tremendo,
Me assusta uma espantosa eternidade.
(Obras)
Idílio
Ao Ilmo. e Exmo. Sr. Martinho de Souza e Albuquerque, Governador
e Capitão-
General do Estado do Pará, achando-se a banhos fora da
Capital
1.º
Um dia, que apressado
O manso gado trouxe ao seu aprisco,
Por poder sossegado
Ir banhar-me no rio, sem o risco
Da Onça tragadora
A cria vir roubar-me à mesma hora;
2.º
Quando já mergulhando,
téao centro m’entranhava,
Nas ondas
Ou sobre a água olhando
O delfim nadador arremedava;
E entanto o claro dia
C’os esforços da noite mal podia;
3.º
À
praia me recolho;
E, tomando o vestido, um murmurinho
Sinto da esquerda! olho:
É um bando de Ninfas, que o vizinho
Igarapé descendo,
Com pressa ao largo rio vem rompendo.
4.º
Queto me ponho a ouvi-las,
Por ver o que diziam, pois falando
Entre si vem: senti-las
Fácil me foi, mas eu vou duvidando
Que acertar possa o fio
Das cousas que diziam pelo rio.
5.º
“Vamos, ó Ninfas, vamos
“Render ao Maioral nossa homenagem.
“Parece que tardamos!
“Eia pois, avistemos a paragem,
“Onde o Chefe Subido
“Há dias, por doença, está detido.
6.º
“Estamos aqui juntas
“As Ninfas tutelares destes rios,
“E vem-nos adjuntas
“Muitas que os lagos têm por senhorios:
“Todas Martinho honremos,
“Façamos, Ninfas, tudo o que devemos.
7.º
“As ágoasmais sadias
“Para quin’alta enchente encaminhadas
“Sejam, e nestes dias,
“As flores junto ao banho amontoadas,
“Os ventos chamaremos,
“E que brandos respirem, lhes rouguemos”.
8.º
Umas assim diziam;
Porém outras, parando, concertavam
Os versos que traziam,
Em que o bom Maioral muito louvavam;
Aquelas afinando
Os retorcidos búzios, e cantando:
9.º
Já uma entoa, como
Havia o bom Martinho navegado
O Amazonas, e como
O Guamá, Tocantins há visitado,
E a mil rios distantes
Por ver e dar auxílio aos Habitantes!
10.º
Cantam outras Deidades,
Como fora com festas recebido;
E quantas saudades
Os povos de seus rios têm sentido
Depois; como se sente
A nova da moléstia impertinente.
11.º
Prometem logo aquelas,
Qu’em melhorando, ao Deus da Medicina
Têm de levar Capelas
Da branca sumaumeira, muito fina,
C’os ramos enlaçados
D’umiri por cheirosos procurados.
12.º
“Oxalá que depressa
“As Tutelares Deusas destes rios
“Cumpram sua promessa...”
Clamei então; mas ah! meus votos pios
As Ninfas assustaram!
Todas ao seu destino se apressaram.
(Ibidem)