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Biografia
/ Bibliografia
Paulo
Jacob
Paulo
Herban Maciel Jacob nasceu em Manaus no dia 24 de fevereiro de 1921.
Na qualidade de juiz, trabalhou em cidades do interior: Itapiranga,
no Baixo Amazonas, e Canutama, no rio Purus. Essa experiência
foi fundamental para a construção de sua obra, toda
de caráter regionalista. Romance: Muralha verde (Manaus,
1964); Andirá (Manaus, 1965); Chuva branca, 4.º lugar
no Concurso Nacional Walmap de 1967 (Rio de Janeiro, 1968); Dos
ditos passados nos acercados do Cassianã, 2.º lugar
no Concurso Nacional Walmap de 1969 (Rio de Janeiro, 1969); Chãos
de Maíconã, menção honrosa no Concurso
Nacional Walmap de 1973 (Rio de Janeiro, 1974); Vila Rica das Queimadas
(Rio de Janeiro, 1976); Estirão de mundo (Rio de Janeiro,
1979); A Noite cobria o rio caminhando (Rio de Janeiro, 1983); O
Gaiola tirante rumo do rio da borracha (Rio de Janeiro, 1987); Um
Pedaço de lua caía na mata (Rio de Janeiro, 1990);
O Coração da mata, dos rios, dos igarapés e
dos igapós morrendo (Rio de Janeiro, 1991). Conto: Assim
contavam os velhos índios ianõnãmes (Rio de
Janeiro, 1995). Faleceu em Manaus no dia 9 de abril de 2003.
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Textos
Selecionados:
O
Pássaro japiim
Macurutama contava nas noites do Xamatá. Maíconã
gostava de escutar a história dos velhos. Esperava ansioso
Macurutama voltar do roçado. Ao entardecer, o velho chegava.
O jamaxi de mandioca carregado nas costas. Maíconã
sentado no chão, pedia ao rorrote (velho).
– Conte dos antigos, meu avô?
– Se ficar quieto, conto.
– Então conte logo!
– Não pode ser assim apressado. Cabeça de
velho é cansada, esquecida.
É, foi no invernoso, época de fruta na mata. As
árvores despejavam muito pajurá, piquiá,
uixi, mari, outras frutas.
– Se ponha quieto, meu neto. Se não quietar não
conto mais. Precisa saber bem dos antigos. Depois contar aos seus
filhos. Seus filhos contarem aos seus netos. Assim o acontecido
vai ficando na cabeça dos velhos.
– Estava espantando as mutucas. As bichas chupavam o meu
pé. Foi por isso ficar inquieto.
Ao tempo falado, a mata tinha poucos viventes. Mas existia um
bicho muito brabo. Bicho peludo, feio, do tamanho de um pau grande.
O Paratari comia gente igual a onça. O Anhacorãme
(Japiim gente) morava com a mulher Monhenhaoma e a sua mãe.
Viviam sossegados, felizes. Certa vez compareceu na barraca o
Paratari. Botou-se a enganar a mãe do Japiim.
– Espie ali, veja o tamanho da cobra!
Quando a tia velha olhou para o mato, o Paratari aproveitou. Bateu
com um cacete na cabeça da Monhenhaoma. Matou a mulher
do Japiim. Abriu a barriga dela, tirou de dentro o filho ainda
vivo. Pegou o menino, entregou à avó. A avó
criou o neto. Alimentava com peixe, carne, fruta, mel. Nas noites
de frio dormia com o Japiinzinho na rede. O menino cresceu, ficou
homem, forte. Queria saber aonde andava a mãe dele. A avó
então contou.
– Você não tem mãe, meu neto. Um bicho
feio chamado Paratari comeu sua mãe.
– E donde que mora esse bicho, minha avó?
– Por aí pelo mato, escondido no cerrado.
– Vou me vingar do Paratari. Matar esse bicho.
Mas o bicho era muito grande, tinha muita força. Não
sabia como se vingar. Não era como esse Japiim agora. Anhacorãmeríuê
(Japiim gente) que falava igual a índio. Um dia uma alma
veio dizer a Japiim em sonho. Sei de um lugar onde encontrar uma
arma para matar o Paratari. Arma poderosa que vai ajudar os índios
ianõnãmes. O lugar é distante. Subindo serras,
descendo serras. Paiêquêue, paiêquêue
(longe, longe) naquelas alturas de terras. Tem uma coisa, precisa
saber voar. O Japiim como era bicho sabido, inteligente, resolveu
fazer uma asa. Matou um gavião-real, um maguari, tirou
as penas. Preparou uma asa bem grande. Trepou numa árvore,
jogou-se. Na primeira vez quase morre da queda. Depois aprendeu
a voar igual a urubu. Foi logo falar com a avó.
– Eu vou embora. Eu vou voando. Minha avó, você
me espera aqui no toco da sapopema. Um dia eu volto.
– Meu neto vai andar nas asas do vento, nas asas do maguari?
– Fiz uma coisa de voar com pena de gavião e pena
de maguari.
A velha avó do Japiim começou a chorar.
– Meu neto vai cair! Vai morrer, se acabar!
Foi falar com a tia Onça. Contou que o neto ia voar para
longe. A tia Onça também achou que o Japiim ia morrer.
Mas o bicho gente não morreu. Dez luas se passaram da viagem
do Japiim. Um dia a velha avó estava sentada no toco de
uma árvore. Escutou longe um bater na sapopema. Riu alegre,
falou sozinha.
– Meu neto vem vindo de caminho, certeza disso.
O Paratari também escutou. Correu à casa do Japiim.
A avó disfarçou querendo enganar o bicho.
– Sente aqui, meu tio. Deve estar cansado de andar na mata.
– O que você quer comigo, velha rabugenta?
– É que a tia Onça ainda ontem perguntou por
você. Onde andava?
– Mas não faz dias que encontrei a tia Onça.
Estava até comendo uma capivara podre.
O Japiim chegou. Pousou logo aí no terreiro da barraca.
Trazia arco, flecha. Queria vencer o Paratari. Flecha de taboca
com a ponta bem afilada. Igual como ensinou o noporebe (alma)
em sonho. Nessa ocasião encontrou o bicho. Foi logo ameaçando.
– Agora eu vou matar você, Paratari. Você matou
minha mãe quando eu era menino.
O Paratari começou a rir. O bocão enorme aberto.
Naqueles ha, ha, ha de avacalhações ao Japiim. A
barriga grande do bicho chega balançava de rir.
– Com esse tamainho querendo me matar. Ora, vá crescer
mais um pouco, seu nanico!
O Japiim zangou-se. Vergou o arco de pupunheira com muita força.
Flechou direto no coração do Paratari. Foi assim,
os velhos contavam. O Japiim casou-se, teve muitos filhos. Daí
nasceram os ianõnãmes. Índios sabidos, inteligentes,
porque nascidos do Japiim. Pássaro ladino, sabido. Faz
ninhos grandes, bonitos, bem tecidos. Imita todos os outros pássaros.
Assim contava meu pai, meu avô, os velhos da tribo também.
(Assim
contavam os velhos índios ianõnãmes)
O
Iuaríuê, o jacaré gente,
era o dono do fogo
– Abra bem os ouvidos, escute para depois contar aos outros
quando for velho. Ensinar aos netos, aos mais novos.
– Você sabe muitas histórias dos antigos, tio
Macurutama?
– Aprendi com os velhos, os velhos ensinavam. E velho guerreiro
ianõnãme não mente.
O Iuaríuê (o Jacaré gente) era dono do fogo.
Escondia, não dava a ninguém. Os ianõnãmes,
ao tempo, comiam cru. Matavam a caça, o peixe, tiravam
o bucho, comiam. Só o Iuá (o jacaré) comia
as coisas assadas. E o Jacaré era gente naqueles passados
muito longe. Guardava o fogo escondido na boca. A língua
até encolheu, ficou ondulada por causa do fogo. O Jacaré
gente procurava falar pouco. Vivia quase sempre de carriquecomaon
(boca fechada). Moravam na mesma casa com o Iuaríuê
(Jacaré gente), o Texonríuê (Beija-flor grande,
gente), o Xiamboríuê (o Japó gente), o Iorocotoraríuê
(Tanguripará gente) e o Torromãmoríuê
(Beija-flor pequeno, gente). Mas só o esperto Jacaré
comia as coisas assadas. Comia tarde da noite, escondido dos outros.
Quase não mexia a boca para os companheiros não
descobrirem que estava comendo. Um dia os amigos do Jacaré
gente desconfiaram. Aproveitaram a saída dele, começaram
a conversar.
– Mas vigie bem que o tio Jacaré está nos
enganando.
– Por que diz isso? Desconfiar do nosso tio tão bonzinho.
– O tio Jacaré só come escondido, quando a
noite vai bem tarde. Quando os nossos companheiros já estão
todos dormindo.
– Então vamos enganar o tio Jacaré. Acabar
com a safadeza dele com a gente.
– Da verdade, companheiros! Quando o tio chegar do mato,
a gente vai fazer graça. O tio Jacaré vai rir. Abre
a boca, o fogo cai.
– Você engana o Jacaré Torromãmo (beija-flor).
Faz cócegas no nariz dele. O tio vai rir, abrir a boca,
a gente pega o safado.
Ficaram quietos, calados aguardando a chegada do Jacaré.
Estava longe caçando. Tinha levado até casca de
uapu (mato que serve para ter sorte). Queria ser feliz na caça
e na pesca. Não demorou muito o Iuaríuê (Jacaré
gente) chegou do mato. Como vinha cansado, deitou-se na rede.
Os companheiros gracejavam, contavam histórias de rir.
O Jacaré aí caladão, amuado. O Beija-Flor
maior voava fazendo vento no nariz do bicho. Fazia coceira, caçoava
do tio. O Jacaré zangadão, se embalando na rede,
a boca fechada. Nem ligava as brincadeiras dos companheiros. O
Torromãmoríuê (Beija-flor pequeno, gente)
tocava as penas no nariz do Jacaré. O bicho caladão,
a cara fechada, não ria nada. Não queria dar o fogo
para os outros. O Beija-Florzinho meteu a ponta da asa dentro
do nariz do Jacaré. Foi então assim que o bicho
achou graça. Escancarou o bocão, rá... rá...
rá... rá... O Tanguripará disso aproveitou.
Roubou o fogo da boca do Jacaré, voou. Como voava baixo,
tinha o vôo curto, entregou o fogo ao Xiambó (japó,
pássaro). O Japó logo levou o fogo lá para
o alto de um pau. Fora do alcance do Jacaré. O bicho gritava
brabo, zangado, batia o rabo querendo pegar os companheiros.
– O fogo era meu! Eu achei, vocês me tomaram!
O Jacaré chega espumava de brabo. Berrava na maior zanga.
– Só queria bater o rabo num de vocês. Eu matava
na hora.
O Anhacorãmeríuê (Japiim gente) que era mais
saliente, atrevido, disse ao Jacaré.
– Você não presta, você é sovina,
meu tio. Escondia o fogo não querendo dar aos outros.
– Mas o fogo era meu. Eu achei, escondi. Queimei até
a língua por causa disso.
Os bichos aí, rindo da zanga do Jacaré. E o coitado
do Tanguripará foi o que mais sofreu. Por causa da queimadura
do fogo, até hoje tem o bico vermelho. Foi desde esse tempo,
o conhecimento do fogo. Os ianõnãmes começaram
a comer assado. Que antes, peixe, carne, tudo era cru. O Jacaré
gente com vergonha de ter mentido, resolveu ensinar como fazer
o fogo.
– Se por acaso o fogo apagar, vocês procurem na mata
casca de porroroá (cacaueiro). Casca de cacaueiro bem seca.
Esfregar a casca num âmago de pau bem forte, liso. Esfregar,
esfregar, vai aquentando, acaba largando luz. Começa num
pouco de clareado, igual piscado de vaga-lume. Com alguns assoprados,
o fogo cresce, alastra nos paus.
Foi assim que os velhos falaram do aparecimento do fogo. Hum,
hum, hum, como verdade, os antigos contavam assim.
(Ibidem)
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