Biografia / Bibliografia

Paulino de Brito

Paulino de Almeida Brito nasceu em Manaus em 9 de abril de 1858. Radicou-se em Belém e formou-se em Direito na famosa Faculdade do Recife. Faleceu na capital do Pará no dia 16 de setembro de 1919. Obras de ficção: O Homem das serenatas, romance em folhetins publicado no “Diário de Belém”; Contos (Belém, 1892); Novos contos; Histórias e aventuras (Belém, 1902).

 

 

Textos Selecionados:

 

O Japiim


Conto amazônico
Ouvindo a melodia “Mocking Bird”

A vasta baía dilatava-se a perder de vista, a trechos cintilante ou fosca, conforme era o pedaço de céu que se espelhava nela, um verdadeiro céu paraense, aqui límpido, ali carregado de nuvens, numa parte azul sereno, noutra plúmbeo de borrasca, mais além mosqueado, mais aquém marchetado, e belo em toda esta incongruência que não permite, às pessoas pouco familiarizadas com ele, estabelecer uma previsão razoável sobre o bom ou o mau tempo.
Dias antes uma trovoada, como dizem os habitantes do lugar, havia por ali passado, convulsionando a floresta e semeando a povoação de destroços. A nossa natureza, porém, mesmo nos seus raros momentos de cólera, é benigna; é mãe que se zanga, ralha e castiga os filhos, mas não os trucida em massa, sem piedade. Os destroços não passaram de árvores arrancadas pelo vento ou prostradas pelo raio, canoas emborcadas no porto, tetos de palha e de telha arremessados a grande distância, algumas paredes danificadas. Perda de vida nenhuma, que constasse. Uma ninharia, como se vê, à vista dos cataclismos que ocorrem em outras regiões, às vezes com freqüência, vitimando populações inteiras.
Se se disser que existe no mundo uma região abençoada onde nunca há frio nem calor que mate, onde não há inundações, nem secas nem terremotos, nem vulcões nem geada, nem saraiva, nem tufões, nenhum desconcerto, enfim, da natureza, que possa merecer o qualificativo de flagelo ou calamidade, há de parecer que os habitantes desse lugar estarão satisfeitíssimos com a terra que lhes coube em partilha e agradecerão todos os dias ao Criador, com transporte, um sinal tão evidente da sua liberalidade.
Pois, senhores, esse eldorado existe, e os seus habitantes não estão contentes, porque o calor incomoda durante algumas horas do dia, e há febres palustres nos lugares alagadiços. É de notar que eles, por sua parte, trataram de corrigir a natureza cobrindo-se de lã por causa do calor, e usando do mínimo de precauções contra os miasmas dos pântanos, que em algumas localidades são conservados com um cuidado religioso como se fossem viveiros de crocodilos sagrados das margens do Nilo. É a proclamação, um tanto excêntrica, do princípio homeopático: Similia similibus curantur.
Mas, deixemos de divagações, e vamos ao conto. Era de tarde, o sol ainda queimava; um moço, de espingarda ao ombro, vinha contornando o caminho, aberto no alto, ao longo da ribanceira, e em cuja margem as casas e cabanas estavam semeadas aqui e ali, sem ordem nem alinhamento, com as frentes voltadas para o rio.
O nosso caçador não fora feliz. Três ou quatro horas de pesquisas pelo mato só lhe haviam proporcionado uma farta provisão de carrapichos. Deve-se confessar que o resultado era menos devido à falta de caça do que à de caçador. O polvarinho esvaziara-se em... salvas.
Algum tanto contrariado, faminto e sedento, o rapaz sentara-se sobre o dorso de um gigantesco cutitiribazeiro que a ventania tinha derrubado por terra, arrancando-o, na fúria, com as grossas e fundas raízes, que, de um lado, ficaram a descoberto, esgarçando em grande extensão o solo sob o qual se enredavam.
– Maldito calor! Com os diabos! Não se pode viver aqui! Isto não é terra!
O leitor vai pensar, à vista da exclamação, que o moço era groenlandês ou escandinavo. Puro engano: era paraense da gema, porém acabava de passar dois anos em São Paulo, e já não podia compreender como é possível a vida no Pará, respirando um ambiente de frágua! como ele dizia. O pai, nessas ocasiões, costumava ponderar que nos meses de dezembro, janeiro e outros, a Paulicéia é muito mais quente que o Pará, onde o calor não é sufocante como ali, e mitiga-se pelas noites e manhãs sempre deliciosamente temperadas, e pelo sopro refrigerante dos ventos alísios. Mas contra fatos não valem argumentos: o moço sentia-se derreter, sentia-se ir ficando em torresmo, e o pior é que até o viço e formosura, que ele trouxera, ao voltar nédio e rosado das plagas do sul, ia afanando-se diariamente às rudezas do clima nativo.
Encarapitado sobre o dorso do cutitiribazeiro, enxugou a fronte orvalhada de suor, e lançando o olhar em torno, avistou, a pequena distância, uma cabana silenciosa, e das mais humildes: um tijupá, como ali dizem.
Bem quereria pedir uma cuia d’água fresca, mas quedou-se indeciso.
Uma gralhada enorme sobre a sua cabeça atraiu-lhe a atenção. Reparou só então nas ramarias altíssimas de um colosso que se elevava a poucos passos, literalmente cobertas de ninhos de japiins.
Tinha ainda dois tiros. Pôs a arma à cara, sem fazer pontaria e disparou, na direção das ramas, onde o passaredo fazia descuidosa e petulantemente a sua patuscada.
Com o estampido, os japiins levantaram vôo, em grande alarido. Da cabana próxima surgiram, como por encanto, três cães de aspecto famélico, ladrando furiosamente sobre as magras pernas bambeantes.
Atrás deles fez também a sua aparição uma velha cabocla, de rosto humilde e alegre, mas nesta ocasião visivelmente assustado.
– Branco, não chama desgraça! Não mata japiim, branco!
O moço, meio admirado, meio confuso, olhou em torno, para ver o destroço que tinha feito nas pobres aves: felizmente, só havia no chão folhas secas. Não caluniemos, porém, o atirador; desta vez ao menos, que ele disparou sem pontaria, podia ter acertado; mas a fina escumilha, provavelmente, não alcançou as alturas em que os zombadores pássaros faziam a sua interessante algazarra.
Tendo adquirido a certeza de que nenhum japiim fora vitimado, o caçador exclamou alegremente:
– Esteja tranqüila, tia Antônia! Eu não quis matar os seus xerimbabos, quis divertir-me somente com o susto deles!
Satisfeita com o resultado negativo do tiro, e sem querer entrar no exame, que seria talvez escabroso, das intenções com que fora feito o disparo, a cabocla escancarou o semblante num largo sorriso:
– ’Stá bom, branco! ’Stá bom!
– Você sabe o que eu queria agora, tia Antônia?
– Não, branco.
– Era uma cuia d’água fresca para beber.
A boa velha fez sinal com a mão ao moço, para que a acompanhasse. O fato de a tratar familiarmente por tia Antônia, incutira-lhe toda confiança. Convém advertir que o rapaz a conhecia perfeitamente, de longa data, quando por aquelas paragens, ainda menino, andava a balar passarinhos com a sua longa zarabatana. Muitos anos, porém, levara ausente nos estudos, e a tia Antônia estava bem longe de supor que o belo rapagão de hoje fosse o mesmo peralta de outrora que, ao passar pela sua cabana, em falta de passarinhos não deixava de balar-lhe as galinhas e os pintos no terreiro. Estabelecera-se, em conseqüência dessas diabruras, uma certa animosidade entre a velha cabocla e o filho do tenente-coronel Salustiano, e isso explica por que o moço, acompanhando-a até a cabana, depois do incidente do tiro, nenhum empenho tinha em dar-se a conhecer.
Conforme o costume da terra, foi introduzido pelos fundos da casa, constituídos por uma varandinha toda aberta, acumulando entre várias funções a de cozinha.
O beiral era tão baixo que o moço teve de inclinar a cabeça para entrar. Os cães agora festejavam-no, como a pessoa conhecida, assentando-lhe as patas sujas sobre as calças. A varanda se mostrava asseadinha que era um gosto. O chão de terra batida estava cuidadosamente areado e varrido. Enorme rede, como se usa no Pará, estava armada entre uma escápula e um esteio; no chão, um paneiro de açaí, já pela metade, descansava junto a um alguidar, onde a roxa bebida, coada através das palhas da peneira, exalava um perfume delicioso de folhas verdes trituradas.
O moço encostou a espingarda a um canto, sentou-se na rede sem cerimônia, atirou o chapéu para cima de um jirau, e disse:
– Olhe, tia Antônia! Depois da água, você me arranja um pouco de açaí, sim?
Dentro em breve o nosso amigo, com uma cuia de respeitável tamanho entre os dedos, ao ranger cadenciado da escápula atormentada por um contínuo e furioso vaivém, sorvia com delícia, pelas bordas mesmo do vaso, em falta de colher, a bebida indígena que a hospitalidade generosa e nunca desmentida do caboclo amazônico lhe proporcionava à saciedade.
– Ora, diga-me cá, tia Antônia: por que matar o japiim chama desgraça?
– Porque o japiim é alma penada... e alma penada deve penar até o fim.
O moço já esperava por uma tolice.
– Quem foi que lhe contou isso, tia?
– Minha avó, que Deus haja, era quem nos contava.
– Pois bem, me conte, como a sua avó lhe contava.
– Ora, branco! Eu lá sei... já faz tanto tempo...
– Qual, história, tia Antônia! Você sabe muito bem.
– Não sei... não sei já...
– Pois olhe: eu queria saber, para não matar os japiins. Mas como você não quer me contar a história, hei de fazer uma mortandade neles.
– Não diga isso, branco!
– Pois então conte a história. Vamos lá: estou escutando! Mas conte tal qual a sua avó lhe contava; faça de conta que é ela quem está falando.
– Este branco!... exclamou a velha, rindo complacentemente. Vou ver se me lembro. A minha avó contava assim:
“Tupã tem a sua cabana tecida de nuvens, no alto de uma árvore alta.
“Esta árvore dá umas flores, que nós chamamos estrelas, e são flores que nunca murcham.
“O sol e a lua são os frutos desta árvore.
“Tupã e os que com ele moram comem todos os anos estes frutos; os frutos renascem no dia seguinte, porque Tupã assim o quer.
“Tupã, lá do alto, vê tudo, e tem pena da gente. Quando a terra está seca, ele sacode a grande árvore, e cai a chuva.
“Porque as folhas da grande árvore estão sempre cobertas de orvalho, e este orvalho renasce, porque Tupã assim o quer.
“O iapi era o xerimbabo de Tupã. Nós chamamos japiim, mas o nome é iapi.
“Quando Tupã estava triste, vinha o iapi, pousava num ramo, junto à orelha de Tupã, e cantava. Tupã dormia ao som do canto e, quando acordava, estava alegre. E o céu todo se iluminava, com a alegria de Tupã.
“Houve um tempo em que todos os homens estavam afligidos, e diziam: Tupã, leva-nos daqui, deixa-nos subir à grande árvore. Tem pena de nós, Tupã!
“Tupã chamou o iapi, e disse-lhe: Desce, vai cantar aos ouvidos dos que existem na terra, para que eles se consolem, e não digam que Tupã não se compadece deles.
“O iapi desceu. Cantava, e todas as aves emudeciam para o escutar. E enquanto ele esteve na terra a cantar, a onça não se lembrou da presa, o jacaré não se lembrou da água, a cobra não tinha veneno debaixo da língua, o curupira não batia a sapopema, nem perdia no mato os caçadores. A mãe-d’água saiu das suas grutas encantadas. A cobra-grande saiu do leito do grande rio. E o homem dizia: “Ó Tupã! Dá-nos o iapi, e deixa-nos viver eternamente”!
“Uma noite, a Lua de Tupã, já meio devorada, arrastava os cabelos brancos por sobre a praia.
“Tudo estava tão bonito, que o sabiá, por primeiro, levantou o seu canto, exaltando a glória de Tupã. Depois do sabiá cantou a patativa, cantou o tentém, cantou a saracura, cantaram todas as aves da terra.
“O iapi as ouviu, e encheu-se de soberba. – Que canto feio é o vosso! disse ele. E começou a arremedá-los por escárnio.
“Corridos de vergonha, os pobrezinhos escondiam as cabecinhas debaixo das asas, e diziam: Tupã, tu vês tudo!
“E o iapi cada vez mais os escarnecia.
“Mas Tupã ouviu o grito deles, no alto do céu, porque aborrece a soberba.
“E Tupã disse ao iapi: Como escarneceste as avezinhas que me saudavam, e trocaste o belo canto que te dei, por um feio arremedo, não voltarás mais à árvore que dá flores de estrelas, nem lembrarás mais a música que te ensinei, enquanto eu não tiver devorado todas as luas, e não der por findo o teu castigo.
“Desde esse dia o iapi, que nós chamamos japiim, procura lembrar aquela música, com que alegrava Tupã, e fazia os homens felizes. Luta, chora, mas não o consegue. Sem o querer, cada vez que tenta recordar o seu canto, arremeda os cantos dos outros, que cheios de raiva o perseguem.

 
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