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As
Sentinelas perdidas
– Desertou, tenente! Não há outra explicação
– cortou o ríspido coronel-comandante.
O gesto seguinte seria uma demonstração de enfado,
empurrando a parte escrita pelo oficial de dia. Esperava este
convencê-lo a mudar de opinião, logo após
o acesso intempestivo. Conhecia de sobra o gênio irascível
do superior. Alegou entre outras razões a boa conduta do
praça desaparecido.
– Abandonar o posto seria a última coisa que faria,
por isso deve de haver alguma outra explicação.
Não estou apossado de elementos concretos, mas pode ser
que as circunstâncias ajudem. O soldado estava em termos
de simpatia com todos, sobre isso não há dúvida.
– O senhor parece ter em mente alguma novidade? Se tem,
por que não desembucha? Será que desconfia de crime
premeditado ou algum incidente grave?
O tenente inspirou profundamente. Experimentado na caserna, não
alimentava ilusões acerca do estranho desaparecimento do
praça em serviço. Reuniu a soma total das suspeitas
correntes e concluiu pela necessidade inadiável de rigoroso
inquérito.
– Só circunstâncias, coronel. Eu não
cultivo animosidade, mas o dever me obriga a considerar certas
circunstâncias implicativas. Trata-se do soldado Candeias.
– Que há agora contra ele?
O coronel ficou alerta, esperando de vista erguida. As lentes
do pince-nez faiscaram. Questionava o rosto do oficial.
– Houve um atrito no alojamento, naquele dia. Furto de umas
chaves. Ocorre ser o praça Candeias um indivíduo
de péssimos antecedentes. Tem contra si um rol de repressões,
solitárias. É de ânimo turbulento e não
se corrige. Embora negue, foi o responsável pelo banzé
no botequim “Ao Alegria”.
O coronel estava visivelmente agastado. Há dois dias lidavam
com o caso sem que aparecesse qualquer expectativa de solução.
Só pistas frias.
– Qual é, finalmente, a posição desse
homem na história?
– Bem, alguns camaradas falam de ameaça de desforço
na pessoa do desaparecido, e eu me acho no dever de comunicar-lhe,
embora considere isso uma simples coincidência.
– Não deseja tirar conclusões definitivas,
é isso?
– Mais ou menos, senhor coronel.
– Pode tentar-se, senhor oficial, pode tentar-se. Não
custa nada tentá-lo. Vai ver que é capaz de dar
certo. Vai ver…
O coronel cruzou as mãos sobre a pasta de couro à
frente. Estava considerando a possibilidade de assassinato, depois
de admitida francamente a deserção. Resolveu subitamente:
– Não tenho tempo para cuidar do assunto. Ao senhor
fica afeto o caso, dou-lhe carta banca. Providencie imediatamente
a prisão desse indivíduo, em caráter…
já sabe como é. Vou avistar-me com sua excelência.
Era um processo sumário de descartar-se da presença
incômoda do oficial, subtrair-se à conversa que o
irritava. Sua excelência, sua excelência! Vivia a
falar de sua excelência, como se sua excelência se
interessasse por aquelas rugas. Sua excelência o governador
andava num mundo de interesse e preocupações mais
altos, rentabilidade e despachos, reuniões políticas
e outras complicações burocráticas, não
iria perder tempo com a deserção ou a morte de um
praça anônimo.
O oficial retirou-se disposto a encarar a situação,
ativar a marcha do inquérito, obrigar superior a interessar-se
pela vida da caserna.
A sentinela dada como desertora havia sumido na madrugada do dia
dois de dezembro de 1890 em circunstâncias absolutamente
singulares. Nada se sabia dela, senão que rendera à
meia-noite. Só encontraram a Coblentz e o quepe abandonados
no mato, a pouca distância da beira do rio. O local era
ermo e agreste, podia favorecer tanto um crime como a fuga por
água. À época, o palácio do governo
ainda ocupava o prédio servido atualmente pela prefeitura
municipal. Do lado direito começava a rua Municipal nos
baixios lambidos pelo rio Negro. Denso matagal e arvoredo baixo
cobriam aquela região e os fundos do Palácio, razão
da guarda permanente. À noite tudo era lôbrego, deserto,
evitado. Nenhum movimento. O soldado desaparecido era o João
Quirino, que havia sido destacado para o lado do rio, enquanto
o suspeito, de nome João Candeias, atalaiava pelo lado
esquerdo do Palácio, na rua hoje denominada Bernardo Ramos,
antiga da Independência. As horas da rendição
coincidiram exatamente, mas Candeias voltara ao posto da guarda
depois de rendido, ausentando-se com licença do sargento
Boto sob o pretexto de tomar café no boteco do português
Alegria, regressando a tempo para o quarto. Submetido a cerrado
interrogatório, negou qualquer participação
no caso, ficando detido uma semana incomunicável na prisão
do Estado, próxima ao quartel. Então começaram
a surgir os rumores que deram origem a parte oficial do dia: velhas
rixas, discussões azedas, ameaças, trocas de insultos.
Perderam-se dias com interrogatórios, acareações.
Pesquisas infrutíferas pela cidade. O soldado desaparecido
não deixara rastro. Ninguém dele ouvira falar, nem
a família. Estavam as coisas nesse pé quando sucedeu
novo imprevisto. Outra deserção, aparentemente modelada
nos termos da primeira. Dessa vez tratava-se de engajado conhecido
no ambiente da caserna pela alcunha pouco recomendada de Sonolência.
O homem dormia como cavalo velho cansado. Era só encostar-se
em algo. Desapareceu mais cedo, às dez horas de uma noite
chuvosa, segundo os melhores cálculos. Alertado pela sua
costumeira hipnopatia, o cabo da guarda considerava de bom aviso
vigiá-lo de perto. Adiantou nada não. Idêntico
ao outro: encontraram a arma de espeque ajustado e o quepe abandonados
no matagal perto do rio.
– Deserção em massa! – bufava o coronel
espinhado. – Peguem esses malandros e chibata com eles!
E fica proibido, de agora por diante, encostar embarcação
ao lado do Palácio. Estou convencido de que a fuga se faz
em conivência com esses caboclos manhosos que operam no
porto, essas imundas galeotas de venda de cachaça e café.
Fiz ver a sua excelência que pode muito bem tratar-se de
manobra política. Os adversários estão procurando
desacreditar o governo de sua excelência. Sua excelência
deu-me carta branca para agir.
Infelizmente a opinião do coronel-comandante, não
encontrando receptividade no começo, justificou-se plenamente
no caso do soldado Bernardo Toscano. Foi o terceiro da série,
quatro meses depois. Forneceu mais combustível para acelerar
os aborrecimentos a muita gente. Ao coronel-comandante principalmente:
– É o exemplo! Pode crer-me, é o exemplo!
A indisciplina está minando o batalhão. Bêbados,
rixentos, desertores!
O terceiro caso ficou resolvido de maneira satisfatória,
embora não se tratasse de deserção caracterizada,
apenas abandono de posto. O soldado Toscano possuía certa
carionga na rua dos Inocentes, e como a noite fosse própria
a um colóquio amoroso, abandonou a guarda, escapulindo
sob a inspiração de João Candeias, como ficou
esclarecido no inquérito. Apanhado em flagrante e processado
na forma regimental. Essa nova versão de quebra da disciplina
serviu apenas para aliviar as preocupações do coronel-comandante.
Pelo sim pelo não os dois culpados foram trancafiados e
receberam algumas chibatadas, pelo costume. A guarda foi dobrada,
como medida de segurança. E não houve mais nenhum
caso de deserção.
Enquanto se vinham as autoridades civis e militares com o último
incidente, o processo de João Candeias ia chegando ao termo,
acrescido de novas acusações. Não escapou
do castigo. Detido, arranchado e na faxina permanente, apesar
dos protestos de inocência, suportou com calma bravura a
penalidade. Curiosa a transformação que se operara
nele: deixou de beber, de freqüentar espeluncas e evitava
inclusive qualquer tipo de companhia, mesmo a dos camaradas de
farda. Dava conta das tarefas com pontualidade e indiferente.
O oficial-ajudante Conrado, em conversa informal com o coronel-comandante,
mostrava-se perplexo e inconvencível:
– Ou esse homem é inocente como a pomba do Espírito
Santo ou está tramando escafeder.
– Então olho nele, tenente! Olho nele! Cesteiro que
faz um cesto faz cento, assim haja cipó e tempo.
Dali por diante a situação piorou para o suspeito.
Vigiado de perto, destacado para todo o serviço pesado,
o João Candeias vivia a modo de brejeira: empurrado de
um lado e recusado por outro. Um dia em que um simpatizante de
sua urucubaca tocou no assunto, João Candeias falou:
– Juro pela salvação da minha alma como não
tenho nada com o peixe. Se eles fugiram devem estar bem longe,
e eu dou graças a Deus por isso. O João Quirino
tem parentes no Anamã. O outro não sei nada dele
mesmo, nada! Não matei ninguém, minha consciência
está sãzinha.
– Soco, seu aquele! Todo mundo tá estranhando o teu
modo, parente. Deixaste de beber, de contar farroncas. Que se
passa mais tu, é remorso?
– Remorso nada, seu! A gente um dia se aborrece dessa merda
e cria juízo. Eu quero subir de posto, não vou ficar
toda vida de pré. Me meteram nessa história pro
mode da cachaça...
Quando se esperava que estivesse tudo solucionado, combatida a
epidemia de deserções, aconteceu. De maneira brutal
e inesperada, à noite, numa dessas noites feias de chuva.
O governador havia autorizado a iluminação da área
deserta ao lado e no fundo do Palácio. Mato abatido por
inspiração e espontânea deliberação
do faxina Candeias. Tudo limpo, larga perspectiva dominada pelas
janelas traseiras e laterais. O grito da sentinela não
era de alarme. Era um pavoroso apelo que movimentou imediatamente
os dois soldados que primeiro o ouviram. À luz precária
do foco de luz, sob a chuva ficaram imobilizados pelo terror.
A sentinela estava se debatendo asfixiada nas roscas constritoras
de monstruosa sucuri, sem qualquer capacidade de defesa. Viam
os dois homens naquela atmosfera de pesadelo os olhos arregalados
da vítima rolando saltado, o rosto transfigurando-se pela
dor, pela agonia e pelo terror. Quepe e armas abandonados. O soldado
João Candeias foi o único que reagiu logo. Apanhou
a arma e disparou várias vezes, errando. Então o
anspeçada Floriano, mais resoluto, acudiu com a baioneta,
varando a cabeça da maíua. Mesmo ferida, estorcegando,
a cobra não largou a presa. As escamas úmidas coruscavam
sinistramente à luz vacilante do foco. Os tiros alertaram
todo o corpo da guarda e com pouco uma multidão de soldados
estava empenhada em desfazer a espiral. A sentinela respirava
malmente e não resistiu, parecia um frangalho, um molambo,
com os ossos do tórax partidos. A avaliação
da tragédia, o imenso vozerio
causado
naquela noite e nas horas seguintes levou o soldado João
Candeias à presença do coronel-comandante:
– Permiti que um camarada fosse arrastado e devorado pela
sucuriaçu. Nunca pensei que aquela morte fosse o começo
da série. Quando ocorreu a segunda, tive medo e instei
a sentinela para que fosse distrair-se. Eu fiquei no posto, alerta,
mais nada vi. Não pude entretanto evitar a segunda morte.
Durante esses dias todos tenho tido pesadelos horríveis:
vejo meu camarada laçado e estupidamente arrastado para
o fundo d’água. Estava escuro naquela primeira noite,
mas eu sabia o que significava aquilo. Corri apavorado. Nós
estávamos discutindo sobre mulher. Não procedi corretamente,
deixei-me vencer pelo medo pânico. Acontece que eu não
encontraria uma justificativa para estar àquela hora em
conversa com a sentinela, quando eu mesmo abandonara o posto.
Se eu me revelasse estaria perdido, ninguém me daria crédito
por causa dos meus antecedentes. Mas o remorso me afligiu todo
esse tempo.
(In:
Jornal Cultura, out., 1982)