Biografia / Bibliografia

Mário Ypiranga Monteiro

Em Manaus, no dia 23 de janeiro de 1909, nasceu Mário Ypiranga Monteiro. Em 1927 começou suas atividades literárias como poeta e contista. Foi professor de Literatura Portuguesa na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Amazonas. Pertence a inúmeras instituições culturais, destacando-se a Academia Amazonense de Letras, da qual chegou a ser presidente. Possui diversas obras no campo do folclore, da história e dos estudos literários. Publicou inúmeros contos nas revistas “O Malho”, “Fon-fon”, “Fru-fru” e em jornais de Manaus e de Petrópolis.

 

 

Textos Selecionados:

 

As Sentinelas perdidas

– Desertou, tenente! Não há outra explicação – cortou o ríspido coronel-comandante.
O gesto seguinte seria uma demonstração de enfado, empurrando a parte escrita pelo oficial de dia. Esperava este convencê-lo a mudar de opinião, logo após o acesso intempestivo. Conhecia de sobra o gênio irascível do superior. Alegou entre outras razões a boa conduta do praça desaparecido.
– Abandonar o posto seria a última coisa que faria, por isso deve de haver alguma outra explicação. Não estou apossado de elementos concretos, mas pode ser que as circunstâncias ajudem. O soldado estava em termos de simpatia com todos, sobre isso não há dúvida.
– O senhor parece ter em mente alguma novidade? Se tem, por que não desembucha? Será que desconfia de crime premeditado ou algum incidente grave?
O tenente inspirou profundamente. Experimentado na caserna, não alimentava ilusões acerca do estranho desaparecimento do praça em serviço. Reuniu a soma total das suspeitas correntes e concluiu pela necessidade inadiável de rigoroso inquérito.
– Só circunstâncias, coronel. Eu não cultivo animosidade, mas o dever me obriga a considerar certas circunstâncias implicativas. Trata-se do soldado Candeias.
– Que há agora contra ele?
O coronel ficou alerta, esperando de vista erguida. As lentes do pince-nez faiscaram. Questionava o rosto do oficial.
– Houve um atrito no alojamento, naquele dia. Furto de umas chaves. Ocorre ser o praça Candeias um indivíduo de péssimos antecedentes. Tem contra si um rol de repressões, solitárias. É de ânimo turbulento e não se corrige. Embora negue, foi o responsável pelo banzé no botequim “Ao Alegria”.
O coronel estava visivelmente agastado. Há dois dias lidavam com o caso sem que aparecesse qualquer expectativa de solução. Só pistas frias.
– Qual é, finalmente, a posição desse homem na história?
– Bem, alguns camaradas falam de ameaça de desforço na pessoa do desaparecido, e eu me acho no dever de comunicar-lhe, embora considere isso uma simples coincidência.
– Não deseja tirar conclusões definitivas, é isso?
– Mais ou menos, senhor coronel.
– Pode tentar-se, senhor oficial, pode tentar-se. Não custa nada tentá-lo. Vai ver que é capaz de dar certo. Vai ver…
O coronel cruzou as mãos sobre a pasta de couro à frente. Estava considerando a possibilidade de assassinato, depois de admitida francamente a deserção. Resolveu subitamente:
– Não tenho tempo para cuidar do assunto. Ao senhor fica afeto o caso, dou-lhe carta banca. Providencie imediatamente a prisão desse indivíduo, em caráter… já sabe como é. Vou avistar-me com sua excelência.
Era um processo sumário de descartar-se da presença incômoda do oficial, subtrair-se à conversa que o irritava. Sua excelência, sua excelência! Vivia a falar de sua excelência, como se sua excelência se interessasse por aquelas rugas. Sua excelência o governador andava num mundo de interesse e preocupações mais altos, rentabilidade e despachos, reuniões políticas e outras complicações burocráticas, não iria perder tempo com a deserção ou a morte de um praça anônimo.
O oficial retirou-se disposto a encarar a situação, ativar a marcha do inquérito, obrigar superior a interessar-se pela vida da caserna.
A sentinela dada como desertora havia sumido na madrugada do dia dois de dezembro de 1890 em circunstâncias absolutamente singulares. Nada se sabia dela, senão que rendera à meia-noite. Só encontraram a Coblentz e o quepe abandonados no mato, a pouca distância da beira do rio. O local era ermo e agreste, podia favorecer tanto um crime como a fuga por água. À época, o palácio do governo ainda ocupava o prédio servido atualmente pela prefeitura municipal. Do lado direito começava a rua Municipal nos baixios lambidos pelo rio Negro. Denso matagal e arvoredo baixo cobriam aquela região e os fundos do Palácio, razão da guarda permanente. À noite tudo era lôbrego, deserto, evitado. Nenhum movimento. O soldado desaparecido era o João Quirino, que havia sido destacado para o lado do rio, enquanto o suspeito, de nome João Candeias, atalaiava pelo lado esquerdo do Palácio, na rua hoje denominada Bernardo Ramos, antiga da Independência. As horas da rendição coincidiram exatamente, mas Candeias voltara ao posto da guarda depois de rendido, ausentando-se com licença do sargento Boto sob o pretexto de tomar café no boteco do português Alegria, regressando a tempo para o quarto. Submetido a cerrado interrogatório, negou qualquer participação no caso, ficando detido uma semana incomunicável na prisão do Estado, próxima ao quartel. Então começaram a surgir os rumores que deram origem a parte oficial do dia: velhas rixas, discussões azedas, ameaças, trocas de insultos.
Perderam-se dias com interrogatórios, acareações. Pesquisas infrutíferas pela cidade. O soldado desaparecido não deixara rastro. Ninguém dele ouvira falar, nem a família. Estavam as coisas nesse pé quando sucedeu novo imprevisto. Outra deserção, aparentemente modelada nos termos da primeira. Dessa vez tratava-se de engajado conhecido no ambiente da caserna pela alcunha pouco recomendada de Sonolência. O homem dormia como cavalo velho cansado. Era só encostar-se em algo. Desapareceu mais cedo, às dez horas de uma noite chuvosa, segundo os melhores cálculos. Alertado pela sua costumeira hipnopatia, o cabo da guarda considerava de bom aviso vigiá-lo de perto. Adiantou nada não. Idêntico ao outro: encontraram a arma de espeque ajustado e o quepe abandonados no matagal perto do rio.
– Deserção em massa! – bufava o coronel espinhado. – Peguem esses malandros e chibata com eles! E fica proibido, de agora por diante, encostar embarcação ao lado do Palácio. Estou convencido de que a fuga se faz em conivência com esses caboclos manhosos que operam no porto, essas imundas galeotas de venda de cachaça e café. Fiz ver a sua excelência que pode muito bem tratar-se de manobra política. Os adversários estão procurando desacreditar o governo de sua excelência. Sua excelência deu-me carta branca para agir.
Infelizmente a opinião do coronel-comandante, não encontrando receptividade no começo, justificou-se plenamente no caso do soldado Bernardo Toscano. Foi o terceiro da série, quatro meses depois. Forneceu mais combustível para acelerar os aborrecimentos a muita gente. Ao coronel-comandante principalmente:
– É o exemplo! Pode crer-me, é o exemplo! A indisciplina está minando o batalhão. Bêbados, rixentos, desertores!
O terceiro caso ficou resolvido de maneira satisfatória, embora não se tratasse de deserção caracterizada, apenas abandono de posto. O soldado Toscano possuía certa carionga na rua dos Inocentes, e como a noite fosse própria a um colóquio amoroso, abandonou a guarda, escapulindo sob a inspiração de João Candeias, como ficou esclarecido no inquérito. Apanhado em flagrante e processado na forma regimental. Essa nova versão de quebra da disciplina serviu apenas para aliviar as preocupações do coronel-comandante. Pelo sim pelo não os dois culpados foram trancafiados e receberam algumas chibatadas, pelo costume. A guarda foi dobrada, como medida de segurança. E não houve mais nenhum caso de deserção.
Enquanto se vinham as autoridades civis e militares com o último incidente, o processo de João Candeias ia chegando ao termo, acrescido de novas acusações. Não escapou do castigo. Detido, arranchado e na faxina permanente, apesar dos protestos de inocência, suportou com calma bravura a penalidade. Curiosa a transformação que se operara nele: deixou de beber, de freqüentar espeluncas e evitava inclusive qualquer tipo de companhia, mesmo a dos camaradas de farda. Dava conta das tarefas com pontualidade e indiferente. O oficial-ajudante Conrado, em conversa informal com o coronel-comandante, mostrava-se perplexo e inconvencível:
– Ou esse homem é inocente como a pomba do Espírito Santo ou está tramando escafeder.
– Então olho nele, tenente! Olho nele! Cesteiro que faz um cesto faz cento, assim haja cipó e tempo.
Dali por diante a situação piorou para o suspeito. Vigiado de perto, destacado para todo o serviço pesado, o João Candeias vivia a modo de brejeira: empurrado de um lado e recusado por outro. Um dia em que um simpatizante de sua urucubaca tocou no assunto, João Candeias falou:
– Juro pela salvação da minha alma como não tenho nada com o peixe. Se eles fugiram devem estar bem longe, e eu dou graças a Deus por isso. O João Quirino tem parentes no Anamã. O outro não sei nada dele mesmo, nada! Não matei ninguém, minha consciência está sãzinha.
– Soco, seu aquele! Todo mundo tá estranhando o teu modo, parente. Deixaste de beber, de contar farroncas. Que se passa mais tu, é remorso?
– Remorso nada, seu! A gente um dia se aborrece dessa merda e cria juízo. Eu quero subir de posto, não vou ficar toda vida de pré. Me meteram nessa história pro mode da cachaça...
Quando se esperava que estivesse tudo solucionado, combatida a epidemia de deserções, aconteceu. De maneira brutal e inesperada, à noite, numa dessas noites feias de chuva. O governador havia autorizado a iluminação da área deserta ao lado e no fundo do Palácio. Mato abatido por inspiração e espontânea deliberação do faxina Candeias. Tudo limpo, larga perspectiva dominada pelas janelas traseiras e laterais. O grito da sentinela não era de alarme. Era um pavoroso apelo que movimentou imediatamente os dois soldados que primeiro o ouviram. À luz precária do foco de luz, sob a chuva ficaram imobilizados pelo terror. A sentinela estava se debatendo asfixiada nas roscas constritoras de monstruosa sucuri, sem qualquer capacidade de defesa. Viam os dois homens naquela atmosfera de pesadelo os olhos arregalados da vítima rolando saltado, o rosto transfigurando-se pela dor, pela agonia e pelo terror. Quepe e armas abandonados. O soldado João Candeias foi o único que reagiu logo. Apanhou a arma e disparou várias vezes, errando. Então o anspeçada Floriano, mais resoluto, acudiu com a baioneta, varando a cabeça da maíua. Mesmo ferida, estorcegando, a cobra não largou a presa. As escamas úmidas coruscavam sinistramente à luz vacilante do foco. Os tiros alertaram todo o corpo da guarda e com pouco uma multidão de soldados estava empenhada em desfazer a espiral. A sentinela respirava malmente e não resistiu, parecia um frangalho, um molambo, com os ossos do tórax partidos. A avaliação da tragédia, o imenso vozerio

causado naquela noite e nas horas seguintes levou o soldado João Candeias à presença do coronel-comandante:
– Permiti que um camarada fosse arrastado e devorado pela sucuriaçu. Nunca pensei que aquela morte fosse o começo da série. Quando ocorreu a segunda, tive medo e instei a sentinela para que fosse distrair-se. Eu fiquei no posto, alerta, mais nada vi. Não pude entretanto evitar a segunda morte. Durante esses dias todos tenho tido pesadelos horríveis: vejo meu camarada laçado e estupidamente arrastado para o fundo d’água. Estava escuro naquela primeira noite, mas eu sabia o que significava aquilo. Corri apavorado. Nós estávamos discutindo sobre mulher. Não procedi corretamente, deixei-me vencer pelo medo pânico. Acontece que eu não encontraria uma justificativa para estar àquela hora em conversa com a sentinela, quando eu mesmo abandonara o posto. Se eu me revelasse estaria perdido, ninguém me daria crédito por causa dos meus antecedentes. Mas o remorso me afligiu todo esse tempo.

(In: Jornal Cultura, out., 1982)

 
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