Biografia / Bibliografia

Epitácio Neto

Epitácio de Alencar e Silva Neto nasceu no dia 12 de julho de 1973, em Manaus. Formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, foi articulista do jornal “Amazonas em Tempo”. Publicou seus primeiros contos em “O Muhra”, periódico literário editado pela Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas. Obra: O Livro negro: contos (Manaus, 1999).

 

 

Textos Selecionados:

A Metade arrancada de mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi.

Francisco Buarque de Holanda

Deitou-se cuidadosamente na cama para não acordar a esposa. As palavras do pastor Faris não saíam de sua cabeça. A sobrinha da esposa também não saía de sua cabeça. Dormiu.
A figura pálida da sobrinha se confundia com a expressão severa do pastor Faris. A menina parecia tomada por um espírito baixo. As mãozinhas de cinco anos cobriam o púbis angelical. Esfregavam. E a língua projetava-se para fora. Do outro lado, a menina sentava-se numa imensidão branca. Só os cabelos negros destacavam-se naquela alvura. E ele sentia ainda mais desejo.
Acordou tremendo. O demônio de cabelos compridos e rabo fino, flutuava sobre sua cama. Ele apertou os olhos, rezou baixinho e quando abriu os olhos o demônio não estava mais lá. Levantou-se e caminhou até a janela. A lua brilhando sozinha, no céu sem estrelas, e a gélida brisa noturna batendo em seu rosto o ajudaram a relaxar. Voltou para a cama e em decúbito dorsal ficou esperando o sono chegar. Dessa vez não sonhou. Nem sequer se mexeu na cama.
A manhã de sábado era sempre um alívio. Estando no culto o dia inteiro, ficava livre dos pensamentos malsãos que o perseguiam. Sai, demônio, sai, sai, sai, sai. As vozes dos irmãos ecoavam no Templo do Senhor e uma agradável sensação de segurança invadia-lhe o espírito. Agora, as tentações pareciam fáceis de resistir, seus pequenos furtos pareciam coisa do passado e a sobrinha, agora na aula de evangelização de Dona Zará, era apenas um anjo que alegrava o coração da família. Sai, demônio, sai, sai, sai, sai. Uma nuvem de fumaça tomou conta do palco, era o sinal de que o pastor Faris e seus ajudantes estavam chegando. Soaram as trombetas e, junto com o estrondar dos tímpanos do irmão Eliúde, surgiu o pastor Faris, já de microfone em punho.
Alegria, irmãos. Hoje é sábado, o sábado da ressurreição. Salve, Jesus. Aleluia, irmãos. O pastor Faris começou sua preleção enquanto ele se aprofundava em um turbilhão de recordações.
Lembrou de como levava uma vida de perdição e lembrou de dona Honorina, que morava ao lado de sua casa e era mãe-de-santo e disse, uma vez, que ele era filho de Ogum e por isso a sina dele era lutar a vida inteira. Primeiro contra suas más tendências, depois contra seu destino de mutilado. Quando resolveu mudar de vida, a primeira pessoa que procurou foi Mãe Honorina. Mãe Honorina disse que o caminho do bem era estreito e que nunca tinha visto ninguém, de carne como ele, alcançar vitória. Mas que ele tentasse, pois Ogum, que brigava dentro dele, também ia brigar fora.
Foi Mãe Honorina quem colocou o obé nas mãos dele no dia do primeiro sacrifício. A lâmina cortou fácil o pescoço da galinha e ele ainda podia lembrar do gosto levemente metálico da papa vermelha e do cheiro insuportável da borra da galinha escorrendo para o chão. E lembrou ainda com mais força da alegria que era a descida do orixá, que vinha dançando, celebrando a felicidade.
E enquanto o pastor Faris, em nome do Senhor, expulsava demônios e fazia maravilhas, ele lembrou da menina bonita que era a esposa quando a conheceu e teve saudade. E lembrou que aquele fora o motivo de ter abandonado Mãe Honorina, pois sua esposa não aceitava as práticas do candomblé. Ela ordenou, a macumba ou eu. E não adiantou ele dizer que não era macumba, nem lembrar do Velho Testamento e dos milhares de cordeiros que foram sacrificados para glorificar o Senhor. Ele deixou a velha ioruba. E, com medo de cair em pecado, começou a freqüentar as missas da paróquia de São Jorge. E lembrou da fascinação que a figura de São Jorge, montado em seu cavalo branco, exercia em sua personalidade. E lembrou, ainda, dos sonhos que tinha, em que ele era São Jorge e lutava com um demônio em forma de dragão e em forma de mulher. Com longos cabelos vermelhos, fartas tetas que balançavam durante o combate e um rabo que parecia a ponta dos cabelos, mas que era um rabo de verdade, constituído de músculos e ossos. E quando ele finalmente ia fazer o que nunca conseguira em sonho, quando sua espada fendia o ar em direção ao rabo do demônio-dragão-mulher, os tímpanos do irmão Eliúde o trouxeram de volta ao Templo do Senhor, a tempo de ouvir o pastor Faris repetir as palavras de São Mateus.
Mesmo meio perdido, leu junto com o pastor, na Bíblia que os Gideões Universais haviam distribuído de graça em todos os Templos do Senhor, que se tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E com essas palavras as trombetas soaram novamente e os tímpanos do irmão Eliúde estrondaram novamente e só então ele percebeu que já era noite e que tinha perdido a parte que mais gostava, que era a hora dos cânticos, porque eram alegres e lembravam que a fé no Senhor é um ato de alegria e deve trazer felicidade ao coração e paz ao espírito. E junto com todas as pessoas, inclusive a esposa que gostava muito dos cultos no Templo do Senhor, abriu a carteira, pegou todo o dinheiro e depositou ternamente na cestinha que um dos assistentes do pastor Faris lhe esticava. Depois ele levantou-se, com a mulher e com a sobrinha, que já tinha voltado da aula de evangelização, e foi para casa. Caminharam em silêncio.
A noite de sono, ao contrário da anterior, foi calma. Só aquele maldito demônio que insistia em ficar flutuando sobre sua cabeça. Mas ele estava protegido. Dormiu e sonhou.
Sonhava com a pequena sobrinha que, apesar de não ter nada de anormal, excitava-lhe a imaginação e a libido. E no sonho a menina vestia-se de anjo e aquilo o deixava ainda mais excitado. Quando atacava a menina, Mãe Honorina aparecia na sua frente e repetia sem parar que o caminho do bem era estreito.
E quando despertou daquele sonho, percebeu que não estava em sua cama mas em pé diante da menina que dormia. E seu pênis, a denunciar sua devassidão, latejava para fora do pijama.
Ele saiu correndo para os fundos da casa, tomado de confusão e de desejo, e começou a se masturbar. Enquanto fazia aquilo, voltaram-lhe à mente as palavras de São Mateus e ele, no paroxismo de seu prazer, lembrou-se de todas as vezes que evitara filhos em sua mulher e lembrou-se, também, de Onã e de como ele fora punido por aquele hábito. Mas a lembrança do próprio pecado só acelerou o seu prazer. E quando terminou, as palavras de São Mateus ainda explodiam em suas têmporas e foi naquele dia que ele teve a idéia. Passou o resto da noite procurando a velha faca de sacrifícios. Só descansou quando a encontrou.
A esposa o achou dormindo no depósito de cacarecos mas, como já estivesse acostumada com o comportamento estranho do marido, resolveu não acordá-lo. Notou no pijama a marca seca do sêmen desperdiçado e, lá no fundo, sentiu saudades dos primeiros anos de casamento. Embora não fizesse muito tempo, parecia que fazia. Ela lembrou de como o marido a procurava com freqüência. Ela chegou até a reclamar que não estava acostumada, mas quando ele começou a se desinteressar ela sentiu saudade. Quis conversar mas teve vergonha e achou melhor começar a acompanhar o marido aos cultos da Igreja Batista, que ele gostava tanto. Talvez rezando com ele conseguisse voltar a amar com ele. E foi com essa intenção sexual que passou a freqüentar os cultos e a aprender as músicas e a quase gostar dos rituais. E quando ele resolveu mudar para a igreja Templo do Senhor, ela achou uma boa idéia e percebeu que ele estava mais alegre e até amaram algumas vezes e ela gostou muito e pensou que tudo fosse voltar ao normal, mas não voltou. E até mesmo ela, que não simpatizava com aquele negócio de religião, se divertia nos cultos do Templo do Senhor. Ria-se do marido dizendo que a alegria e as músicas e os exorcismos eram manifestações de alegria e louvor ao Senhor. E voltando ao depósito de cacarecos, vendo a marca de sêmen no pijama do marido, teve ganas de pegar-lhe o pênis e ordenhá-lo, como ordenhava as cabras da infância, mas achou melhor fazer o café, que já era hora, e voltou para a cozinha tendo o cuidado de fechar a porta sem fazer barulho.
O calor abafado do depósito fez com que ele acordasse. Sua mente agora rodava em baixa rotação e o pensamento havia voltado à fase normal. A iluminação da noite anterior havia acalmado seu espírito. Agora era só pôr em prática os mandamentos do Senhor.
Começou a colecionar o material necessário para construir a pequena guilhotina, que ele havia visto durante a iluminação. O velho obé enferrujado serviria de lâmina. O ferro de passar roupa seria o peso. Com a marreta e o bico de gás começou a forjar uma peça em forma de L, de cerca de 30 centímetros de base e l metro de altura. Constituía-se de duas barras inteiriças e boleadas de ferro, unidas por uma base de madeira que servia para manter o conjunto em pé e era também o receptáculo do sacrifício.
Foi o bispo-chefe o responsável por ele ter aprendido um ofício de verdade. O bispo dizia que quando sobreviesse o final dos tempos não ia ter computador, nem máquinas e que só os que soubessem obrar com as próprias mãos teriam alguma chance de sobreviver. E, por isso, o bispo fazia questão que todos aprendessem um ofício. Ele escolheu a arte da metalurgia, porque exigia sensibilidade e ainda servia como exercício físico.
A Igreja Batista surgiu como uma graça do Senhor para tirá-lo da tristeza e do peso das missas na paróquia de São Jorge. Embora a figura do santo o envolvesse, ele sentia falta da alegria descontraída do ilê de Mãe Honorina. Foi quando passou, sem querer, mas guiado pela mão do Senhor, na frente da Igreja Batista, do bispo Josias. O conjunto tocava alto um pop evangélico e os fiéis dançavam e se sacudiam, como no ilê de Mãe Honorina. Em poucas semanas já estava integrado ao novo grupo e não queria mais trocar de igreja, pois gostava das lições do pastor embora não durassem mais que duas horas.
E foi lembrando do seu tempo de Batista que ele encaixou a lâmina da velha faca no cabo de plástico do ferro de passar roupas. Ajustou-a de maneira que descesse de viés. E, com a ajuda de parafusos e pregos e madeira, fixou o conjunto nos trilhos verticais. Lubrificando as partes e testando o engenho, ficou satisfeito com seu trabalho.
Quando saiu do quartinho a luz do sol doeu em seus olhos e com as palavras de São Mateus na cabeça foi tomar banho. No caminho, olhou para a sobrinha que brincava com o jato forte da mangueira no quintal e teve medo de perder o controle. Entrou em casa e seduziu a esposa para um banho.

No banheiro eles fizeram amor. Ele pensava na sobrinha e ela pensava que tudo talvez voltasse ao normal. Ele pensava no tempo em que andava com as outras e ela não pensava mais em nada, porque a agonia do gozo já se aproximava e foi tão forte que ela teve medo de morrer. Depois, pensando melhor, viu que morrer ali, fazendo amor, seria a melhor maneira de morrer. A única coisa que ela não percebeu foi aquele demônio flutuando sobre os dois. Ele não deu a menor importância para o bicho e foram para o quarto e se amaram até anoitecer. Ela gostou do ardume entre as pernas e dormiu agarrada ao marido. Ele não dormiu.
De madrugada, ele levantou-se. Não estranhou a ausência do demônio, pois havia vencido a tentação e iria provar que amava o Senhor acima de todas as coisas. Como dizia o pastor Faris na primeira vez que ele assistira um culto no Templo do Senhor.
Fora atraído pelas notícias das maravilhas que o Senhor obrava através das mãos do pastor Faris. E ficou tão maravilhado que imediatamente converteu-se e passou a ouvir, todos os dias, o sermão de quatro horas do pastor Faris. E passou a depositar seu dinheiro nas cestinhas que lhe eram esticadas e a depositar seus pedidos na arca da Nova Aliança, que ficava à esquerda do altar e era toda iluminada. E foi depois de entrar para o Templo do Senhor que ele começou a ter visões do demônio e a ser tentado. Coisas que só aumentavam a sua certeza de estar no caminho certo. E quando falou com o pastor Faris sobre as visões, o pastor disse que era natural e que o caminho do céu é cheio de espinhos e o caminho do inferno é cheio de rosas. Mas disse que ia ajudá-lo a vencer as tentações e lhe mostrou uma pequena cruz, vinda da Terra Santa, e disse que ele só precisaria pagar o preço de custo da importação. Desde então ele não tirou mais a cruz do pescoço.

E foi apertando com força a cruz da Terra Santa que entrou no depósito, arrumou o engenho sobre uma bancada, abaixou a calça e posicionou-se, colocando o pênis sobre a base de madeira. Pensou na sobrinha, na esposa, em Mãe Honorina, no pastor Faris. Segurou os pinos que mantinham o peso suspenso. Depois de um segundo de hesitação, puxou-os. Nada sentiu. Uma euforia incontrolável invadiu-lhe a mente sem, contudo, afetar-lhe os movimentos. Pegou o langanho amputado de si, atirou-o para longe e saiu lentamente à procura de ajuda.

(O Livro negro)

 
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