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A
Metade arrancada de mim
Oh,
pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi.
Francisco
Buarque de Holanda
Deitou-se
cuidadosamente na cama para não acordar a esposa. As palavras
do pastor Faris não saíam de sua cabeça.
A sobrinha da esposa também não saía de sua
cabeça. Dormiu.
A figura pálida da sobrinha se confundia com a expressão
severa do pastor Faris. A menina parecia tomada por um espírito
baixo. As mãozinhas de cinco anos cobriam o púbis
angelical. Esfregavam. E a língua projetava-se para fora.
Do outro lado, a menina sentava-se numa imensidão branca.
Só os cabelos negros destacavam-se naquela alvura. E ele
sentia ainda mais desejo.
Acordou tremendo. O demônio de cabelos compridos e rabo
fino, flutuava sobre sua cama. Ele apertou os olhos, rezou baixinho
e quando abriu os olhos o demônio não estava mais
lá. Levantou-se e caminhou até a janela. A lua brilhando
sozinha, no céu sem estrelas, e a gélida brisa noturna
batendo em seu rosto o ajudaram a relaxar. Voltou para a cama
e em decúbito dorsal ficou esperando o sono chegar. Dessa
vez não sonhou. Nem sequer se mexeu na cama.
A manhã de sábado era sempre um alívio. Estando
no culto o dia inteiro, ficava livre dos pensamentos malsãos
que o perseguiam. Sai, demônio, sai, sai, sai, sai. As vozes
dos irmãos ecoavam no Templo do Senhor e uma agradável
sensação de segurança invadia-lhe o espírito.
Agora, as tentações pareciam fáceis de resistir,
seus pequenos furtos pareciam coisa do passado e a sobrinha, agora
na aula de evangelização de Dona Zará, era
apenas um anjo que alegrava o coração da família.
Sai, demônio, sai, sai, sai, sai. Uma nuvem de fumaça
tomou conta do palco, era o sinal de que o pastor Faris e seus
ajudantes estavam chegando. Soaram as trombetas e, junto com o
estrondar dos tímpanos do irmão Eliúde, surgiu
o pastor Faris, já de microfone em punho.
Alegria, irmãos. Hoje é sábado, o sábado
da ressurreição. Salve, Jesus. Aleluia, irmãos.
O pastor Faris começou sua preleção enquanto
ele se aprofundava em um turbilhão de recordações.
Lembrou de como levava uma vida de perdição e lembrou
de dona Honorina, que morava ao lado de sua casa e era mãe-de-santo
e disse, uma vez, que ele era filho de Ogum e por isso a sina
dele era lutar a vida inteira. Primeiro contra suas más
tendências, depois contra seu destino de mutilado. Quando
resolveu mudar de vida, a primeira pessoa que procurou foi Mãe
Honorina. Mãe Honorina disse que o caminho do bem era estreito
e que nunca tinha visto ninguém, de carne como ele, alcançar
vitória. Mas que ele tentasse, pois Ogum, que brigava dentro
dele, também ia brigar fora.
Foi Mãe Honorina quem colocou o obé nas mãos
dele no dia do primeiro sacrifício. A lâmina cortou
fácil o pescoço da galinha e ele ainda podia lembrar
do gosto levemente metálico da papa vermelha e do cheiro
insuportável da borra da galinha escorrendo para o chão.
E lembrou ainda com mais força da alegria que era a descida
do orixá, que vinha dançando, celebrando a felicidade.
E enquanto o pastor Faris, em nome do Senhor, expulsava demônios
e fazia maravilhas, ele lembrou da menina bonita que era a esposa
quando a conheceu e teve saudade. E lembrou que aquele fora o
motivo de ter abandonado Mãe Honorina, pois sua esposa
não aceitava as práticas do candomblé. Ela
ordenou, a macumba ou eu. E não adiantou ele dizer que
não era macumba, nem lembrar do Velho Testamento e dos
milhares de cordeiros que foram sacrificados para glorificar o
Senhor. Ele deixou a velha ioruba. E, com medo de cair em pecado,
começou a freqüentar as missas da paróquia
de São Jorge. E lembrou da fascinação que
a figura de São Jorge, montado em seu cavalo branco, exercia
em sua personalidade. E lembrou, ainda, dos sonhos que tinha,
em que ele era São Jorge e lutava com um demônio
em forma de dragão e em forma de mulher. Com longos cabelos
vermelhos, fartas tetas que balançavam durante o combate
e um rabo que parecia a ponta dos cabelos, mas que era um rabo
de verdade, constituído de músculos e ossos. E quando
ele finalmente ia fazer o que nunca conseguira em sonho, quando
sua espada fendia o ar em direção ao rabo do demônio-dragão-mulher,
os tímpanos do irmão Eliúde o trouxeram de
volta ao Templo do Senhor, a tempo de ouvir o pastor Faris repetir
as palavras de São Mateus.
Mesmo meio perdido, leu junto com o pastor, na Bíblia que
os Gideões Universais haviam distribuído de graça
em todos os Templos do Senhor, que se tua mão direita te
escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é
melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu
corpo lançado no inferno. E com essas palavras as trombetas
soaram novamente e os tímpanos do irmão Eliúde
estrondaram novamente e só então ele percebeu que
já era noite e que tinha perdido a parte que mais gostava,
que era a hora dos cânticos, porque eram alegres e lembravam
que a fé no Senhor é um ato de alegria e deve trazer
felicidade ao coração e paz ao espírito.
E junto com todas as pessoas, inclusive a esposa que gostava muito
dos cultos no Templo do Senhor, abriu a carteira, pegou todo o
dinheiro e depositou ternamente na cestinha que um dos assistentes
do pastor Faris lhe esticava. Depois ele levantou-se, com a mulher
e com a sobrinha, que já tinha voltado da aula de evangelização,
e foi para casa. Caminharam em silêncio.
A noite de sono, ao contrário da anterior, foi calma. Só
aquele maldito demônio que insistia em ficar flutuando sobre
sua cabeça. Mas ele estava protegido. Dormiu e sonhou.
Sonhava com a pequena sobrinha que, apesar de não ter nada
de anormal, excitava-lhe a imaginação e a libido.
E no sonho a menina vestia-se de anjo e aquilo o deixava ainda
mais excitado. Quando atacava a menina, Mãe Honorina aparecia
na sua frente e repetia sem parar que o caminho do bem era estreito.
E quando despertou daquele sonho, percebeu que não estava
em sua cama mas em pé diante da menina que dormia. E seu
pênis, a denunciar sua devassidão, latejava para
fora do pijama.
Ele saiu correndo para os fundos da casa, tomado de confusão
e de desejo, e começou a se masturbar. Enquanto fazia aquilo,
voltaram-lhe à mente as palavras de São Mateus e
ele, no paroxismo de seu prazer, lembrou-se de todas as vezes
que evitara filhos em sua mulher e lembrou-se, também,
de Onã e de como ele fora punido por aquele hábito.
Mas a lembrança do próprio pecado só acelerou
o seu prazer. E quando terminou, as palavras de São Mateus
ainda explodiam em suas têmporas e foi naquele dia que ele
teve a idéia. Passou o resto da noite procurando a velha
faca de sacrifícios. Só descansou quando a encontrou.
A esposa o achou dormindo no depósito de cacarecos mas,
como já estivesse acostumada com o comportamento estranho
do marido, resolveu não acordá-lo. Notou no pijama
a marca seca do sêmen desperdiçado e, lá no
fundo, sentiu saudades dos primeiros anos de casamento. Embora
não fizesse muito tempo, parecia que fazia. Ela lembrou
de como o marido a procurava com freqüência. Ela chegou
até a reclamar que não estava acostumada, mas quando
ele começou a se desinteressar ela sentiu saudade. Quis
conversar mas teve vergonha e achou melhor começar a acompanhar
o marido aos cultos da Igreja Batista, que ele gostava tanto.
Talvez rezando com ele conseguisse voltar a amar com ele. E foi
com essa intenção sexual que passou a freqüentar
os cultos e a aprender as músicas e a quase gostar dos
rituais. E quando ele resolveu mudar para a igreja Templo do Senhor,
ela achou uma boa idéia e percebeu que ele estava mais
alegre e até amaram algumas vezes e ela gostou muito e
pensou que tudo fosse voltar ao normal, mas não voltou.
E até mesmo ela, que não simpatizava com aquele
negócio de religião, se divertia nos cultos do Templo
do Senhor. Ria-se do marido dizendo que a alegria e as músicas
e os exorcismos eram manifestações de alegria e
louvor ao Senhor. E voltando ao depósito de cacarecos,
vendo a marca de sêmen no pijama do marido, teve ganas de
pegar-lhe o pênis e ordenhá-lo, como ordenhava as
cabras da infância, mas achou melhor fazer o café,
que já era hora, e voltou para a cozinha tendo o cuidado
de fechar a porta sem fazer barulho.
O calor abafado do depósito fez com que ele acordasse.
Sua mente agora rodava em baixa rotação e o pensamento
havia voltado à fase normal. A iluminação
da noite anterior havia acalmado seu espírito. Agora era
só pôr em prática os mandamentos do Senhor.
Começou a colecionar o material necessário para
construir a pequena guilhotina, que ele havia visto durante a
iluminação. O velho obé enferrujado serviria
de lâmina. O ferro de passar roupa seria o peso. Com a marreta
e o bico de gás começou a forjar uma peça
em forma de L, de cerca de 30 centímetros de base e l metro
de altura. Constituía-se de duas barras inteiriças
e boleadas de ferro, unidas por uma base de madeira que servia
para manter o conjunto em pé e era também o receptáculo
do sacrifício.
Foi o bispo-chefe o responsável por ele ter aprendido um
ofício de verdade. O bispo dizia que quando sobreviesse
o final dos tempos não ia ter computador, nem máquinas
e que só os que soubessem obrar com as próprias
mãos teriam alguma chance de sobreviver. E, por isso, o
bispo fazia questão que todos aprendessem um ofício.
Ele escolheu a arte da metalurgia, porque exigia sensibilidade
e ainda servia como exercício físico.
A Igreja Batista surgiu como uma graça do Senhor para tirá-lo
da tristeza e do peso das missas na paróquia de São
Jorge. Embora a figura do santo o envolvesse, ele sentia falta
da alegria descontraída do ilê de Mãe Honorina.
Foi quando passou, sem querer, mas guiado pela mão do Senhor,
na frente da Igreja Batista, do bispo Josias. O conjunto tocava
alto um pop evangélico e os fiéis dançavam
e se sacudiam, como no ilê de Mãe Honorina. Em poucas
semanas já estava integrado ao novo grupo e não
queria mais trocar de igreja, pois gostava das lições
do pastor embora não durassem mais que duas horas.
E foi lembrando do seu tempo de Batista que ele encaixou a lâmina
da velha faca no cabo de plástico do ferro de passar roupas.
Ajustou-a de maneira que descesse de viés. E, com a ajuda
de parafusos e pregos e madeira, fixou o conjunto nos trilhos
verticais. Lubrificando as partes e testando o engenho, ficou
satisfeito com seu trabalho.
Quando saiu do quartinho a luz do sol doeu em seus olhos e com
as palavras de São Mateus na cabeça foi tomar banho.
No caminho, olhou para a sobrinha que brincava com o jato forte
da mangueira no quintal e teve medo de perder o controle. Entrou
em casa e seduziu a esposa para um banho.
No
banheiro eles fizeram amor. Ele pensava na sobrinha e ela pensava
que tudo talvez voltasse ao normal. Ele pensava no tempo em que
andava com as outras e ela não pensava mais em nada, porque
a agonia do gozo já se aproximava e foi tão forte
que ela teve medo de morrer. Depois, pensando melhor, viu que
morrer ali, fazendo amor, seria a melhor maneira de morrer. A
única coisa que ela não percebeu foi aquele demônio
flutuando sobre os dois. Ele não deu a menor importância
para o bicho e foram para o quarto e se amaram até anoitecer.
Ela gostou do ardume entre as pernas e dormiu agarrada ao marido.
Ele não dormiu.
De madrugada, ele levantou-se. Não estranhou a ausência
do demônio, pois havia vencido a tentação
e iria provar que amava o Senhor acima de todas as coisas. Como
dizia o pastor Faris na primeira vez que ele assistira um culto
no Templo do Senhor.
Fora atraído pelas notícias das maravilhas que o
Senhor obrava através das mãos do pastor Faris.
E ficou tão maravilhado que imediatamente converteu-se
e passou a ouvir, todos os dias, o sermão de quatro horas
do pastor Faris. E passou a depositar seu dinheiro nas cestinhas
que lhe eram esticadas e a depositar seus pedidos na arca da Nova
Aliança, que ficava à esquerda do altar e era toda
iluminada. E foi depois de entrar para o Templo do Senhor que
ele começou a ter visões do demônio e a ser
tentado. Coisas que só aumentavam a sua certeza de estar
no caminho certo. E quando falou com o pastor Faris sobre as visões,
o pastor disse que era natural e que o caminho do céu é
cheio de espinhos e o caminho do inferno é cheio de rosas.
Mas disse que ia ajudá-lo a vencer as tentações
e lhe mostrou uma pequena cruz, vinda da Terra Santa, e disse
que ele só precisaria pagar o preço de custo da
importação. Desde então ele não tirou
mais a cruz do pescoço.
E
foi apertando com força a cruz da Terra Santa que entrou
no depósito, arrumou o engenho sobre uma bancada, abaixou
a calça e posicionou-se, colocando o pênis sobre
a base de madeira. Pensou na sobrinha, na esposa, em Mãe
Honorina, no pastor Faris. Segurou os pinos que mantinham o peso
suspenso. Depois de um segundo de hesitação, puxou-os.
Nada sentiu. Uma euforia incontrolável invadiu-lhe a mente
sem, contudo, afetar-lhe os movimentos. Pegou o langanho amputado
de si, atirou-o para longe e saiu lentamente à procura
de ajuda.
(O
Livro negro)