Biografia / Bibliografia

Benjamin Sanches

Nasceu em Manaus, no dia 21 de abril de 1915, o poeta e contista Benjamin Sanches de Oliveira. Faleceu na mesma cidade no ano de 1978. Obra de ficção: o outro e outros contos, 1963. É de se registrar que, nessa obra, o autor escreveu exclusivamente com minúsculas (inclusive o título) e alinhou os parágrafos pela direita. Respeitamos sua vontade, procedendo da mesma forma.

 

 

Textos Selecionados:

o tartaruga

depois de entregar-se por muito tempo à água, voltou a terra onde com a matemática dos olhos procurava descobrir os lugares onde os tracajás haviam enterrado os seus ovos e, isto, os homens da ciência sabiam menos que ele. a prática fizera-o mestre no
buscar os ninhos camuflados no igual do branco da areia.

a praia, descendo da densa mata devoluta, serpenteava no rumo do rio onde um enorme jacaré, num peso de montanha, dilatou o vazio para dar duas rabanadas, e, em vôo submerso atingiu o mo-lhado da margem e ficou olhando-o com um olhar famélico. era um inimigo que não ficara de vir, embora ter, ele, admitido, sempre, a possibilidade daquela indesejável presença. via o espírito da fome rondando as suas carnes. sentiu-se quase prisioneiro. na posição em que ficara, a fera, dominava, realmente, a única saída. o seu casco, que havia deixado na beira, estava a dois passos do anfíbio, cujas patas velozes arranhavam o chão num chi-chi manhoso, preparan-
do-se para a furiosa investida.

as suas pernas que nunca dançaram de alegria, bailavam, agora, dentro da calça no assombro de ser estraçalhado pelo chocalhar daquelas mandíbulas maiores que o seu corpo descascado pelo quente da tarde. ele já havia vivido toda a idade do crescimento e não conseguira ir além dos cinco palmos. parecia que os ventos sopraram, sempre, a sua vida de cima para baixo. tinha isto, como uma pobreza envergonhada, da sua condição de homem. a natureza
havia-o prejudicado na distribuição dos tamanhos.

quando conseguiu sair daquelas circunvoluções do susto e voltar ao estado de medo consciente, não quis dar tudo como perdido, embora tivesse que passar por um fininho tubo da vida. segurou-se a ele como quem agarrasse um objeto que ia perder para sempre, e, no esforço de renascer daquela quase morte intempestiva, enfiou a cabeça em desabalada carreira, internando-se no grosso da mata. uma chuva, cujo turbilhão de água mais parecia ser de cimento e ferro, desabava retorcida com a noite, tornando-a intensamente escura. os filtros da sua carne começaram, lentamente, a dar passagem ao frio a caminho dos seus ossos. numa noite clara, poderia varar o longe e alcançar a vila em três horas de regular caminhada, mas, o escuro tomara altura e não deixava à amostra, nem um astro que o orientasse. para caminhar seria imprescindível algum rastro de luz desembo-
cando das trevas.


astro
rastro
vasto


o pio dos pássaros e o barulhar da chuva fundiam-se com os esturros das feras e num só grito, cortava o vasto verde, que não
se apagava da sua memória.

verde vasto verde
dia verde
noite verde
grito verde
pio verde
verdeverdeverde

sentiu necessidade de resguardar-se e tateando com os pés na terra encharcada caminhou alguns passos entre a tiririca que lhe cortava a pele, até conseguir abraçar-se à perna de uma árvore e subiu até a primeira forquilha. ali, poderia passar a noite, incomodamente, é verdade, mas suspenso do perigo que rastejava no escuro. as suas carnes mergulhadas no grosso da chuva viviam minutos de horror, em meio àquela combinação de sons perversos e imprevistos, que iam despojando-o, aos poucos, de sua coragem. de quando em quando abandonava a cabeça num cochilo e acordava descendo no espanto. precavendo-se de uma queda desastrada, desafivelou o cinturão e com ele, procurou envolver barriga e forquilha. não conse-
guiu nesta, subiu para outra mais fina e amarrou-se.

aforquilhado dentro do molhado da noite, ouvindo, medrosamente, os berros dos afiados dentes e o cochichar das raízes, não obstante, acontecia de longe em longe, lembrar-se do seu casco, na preocupação que a água da chuva empurrasse praia afora, levando a farinha e a rapadura que na manhã próxima, roeriam a fome
que já roía o seu estômago.

o tempo espichando-se demorava a soltar a sua condição de noite e, ele, esperando resignadamente que a manhã viesse libertá-lo, rosnou um sono de chumbo e sonhou que passeava elegantemente pela praça da igreja, onde aos domingos à tarde, as mocinhas mais gostosas da vila desfilavam exibindo apuro e beleza. embalando-se na miragem, via que todas o olhavam com olhos gulosos, e uma delas, não suportando refrear a gulodice, aproximou-se e beija-lhe os lábios com seriedade e paixão. ele não sabia o porquê e preferiu não fazer perguntas. era um novo amanhecer no seu mundo. a sua alegria refletia-se nas paredes e até no chão enxuto. de mãos dadas, saíram caminhando sob as vistas de centenas de pupilas espantadas. espantadas porque todos sabiam que jurara nunca amar, quando na seresta para a primeira conquista,
deram-lhe um banho de bacio.

agora, estava suadinho de fé, e procurava com os dedos arrumar os cabelos, quando de súbito, num estrondo metálico que varreu o ar, o apelido, impiedosamente abalroou o seu ouvido: – tartarUUUUga! – todo o ódio do mundo apareceu na sua cara. naquele momento odiou até as rosas. sentiu vontade de fazer mil coisas de uma vez. queria morder. queria rasgar. queria matar. sim. sentiu desejo quase irresistível de matar. a sua alma ficou, por muito tempo, galopando na mais brutal raiva do mundo. pensou que seria melhor desmanchar com a vida, o único meio para se livrar daquela alcunha. não mais poderia engolir aquele epíteto humorístico que o havia enchido até por fora da roupa. todos, desapiedadamente, o chamavam de tartaruga. nunca presumira que o seu nome de cartório desaparecesse tão completamente. nunca mais ouvira pronunciá-lo. todos o chamavam de tartaruga.
diziam-lhe até com os olhos: tartaruga, somente tartaruga.

era o ridículo do apelido, que o obrigava a embarcar naquele pequeno casco de itaúba preta e isolar-se o dia todo, depois de remar para as praias distantes e desertas, cuja beleza mansa e
perigosa ainda não aprendera a dominar.

agora, mais enfurecido que nunca, tomou posição para desaparecer de uma vez por todas, quando sentiu o braço da moça doce e gentil cingir-lhe a barriga, não o deixando se afastar e sussurrando o seu nome, com os lábios quentes roçando a sua orelha – jorgitinho. foi assim que a ouviu chamar, amorosamente, o diminutivo do seu nome. estremeceu dentro da cadeia do abraço e tudo se fez claro quando acordou preso à forquilha. mas, mesmo assim, sentiu-se feliz por se encontrar entre feras e bem longe dos
humanos. humanos? não! jorgito nunca os considerou como tais.

(o outro e outros contos)

o miolo

Toda vez que a alma retorcia-se na dor, os padioleiros procuravam a todo custo equilibrar a maca. foi um sacrifício conduzi-la à sala de operação. as enfermeiras substituíam a roupa melada de suor, sangue e terra, pela branca esterilizada do hospital, enquanto o médico examinava o ferimento. não havia tempo para o processo de identificação. a ficha ficaria em branco até a deflo-
ração do espírito.

– teremos que operar, o golpe é profundo e é de natureza grave.

aquelas palavras tiveram um sentido de ordem e ordem expressa. os seus auxiliares movimentavam-se com maior rapidez e os
panos alvos passaram a recruzar a sala ao som do retinir do aço.

– um, dois... cinco... e perdeu-se no mundo do anestésico. o bisturi, em dedos ágeis, fez crescer o furo quase um palmo e as compressas tingiam-se de sangue novo. a lâmina do punhal havia varado o lombo do corpo e, depois de penetrar entre as costelas do miolo, perfurou-lhe a base do pulmão direito. fora a graveza daquela estocada que a fizera tombar sob a estrutura. minutos após, quando serenaram os ânimos, destacaram-na do corpo e
trouxeram-na para o hospital.

na enfermaria o clorofórmio vai esvaindo-se e, pouco a pouco, os golpes começam a comichar, transformando-se em leves dores
que, morosamente, ajudam a ressurgir a fulguração do espírito.

recorda-se que era o miolo, e, o miolo, a alma dele. os chifres, ornados com flores e dois bem ajeitados laços de fita, traçavam espirais que se enroscavam no bolor da noite, em movimentos cadenciados, que se evaporavam e desciam, mansamente, para uma pausa de vírgula. recobrando o fôlego, subiam num furor de
cólera, deixando o rabo passar bem rente ao chão.

o veludo alvonegro acolchoava a armação de ripas, vazia de estrume, que, a passos lentos, era levada pelos pés da alma. a estrela da testa, ora descia, ora erguia-se dentro da bola de luz formada por uma dezena de tochas, queimando o querosene e abrindo a passagem onde se acotovelava toda aquela gente, cujas avelhantadas canções, aplicadas no novo tempo, saíam cozinhadas
de calor para se resfriarem na neblina da noite.

o amor ao bicho gritava: bôôôi!

ali estava o centro dos mundos seus, deixando transparecer as emoções sentidas e incompreendidas. era vê-los arrebentando a noite, numa caravana de toadas de barulho e ruídos estranhos, no rolar de vozes que o tempo cobrira de fuligem. o dizer do canto dava o anonimato de serpentes de fogo com as quais lutavam sem
as ver nem escutar.

na molhadura das vestes caminhavam mastigando a noite. somente ela de mulher. até a catirina era homem, homem-mulher
do chico-tira-língua.

todos sempre quiseram ser o que estavam sendo naquela explosão anual do depósito de suas memórias e pensavam que os outros não mais existissem. de olhos incendidos, encapelavam-se de subúrbio para subúrbio, sem nenhum encontro marcado e, de
quando em quando, a toada de desafio mordia o espaço:

se tem medo sai da frente
eu pisei e torno a pisar

pisarei no boi valente
que meu rumo atravessar.

sem pressenti-lo, caminhavam para o saco da luta. era a psicologia da massa carregando, na música, os brincantes, para se arriscarem no divertimento que os jogava fora de si mesmos, dentro da fúria que soprava os penachos dos índios e o arminho da seda dos vaqueiros. pareciam abrir uma vala no escuro da hora,
para sepultarem os seus prazeres.

êêêh boi.

o globo de som salta para o ar, enquanto outra esfera de luz navega no preto, devorando a distância num doido festim fatal. misturam-se luzes e vozes dos bandos embriagados no gargalhar da orgia, do amor e ódio inconscientes, iniciando a sagração inútil
do gládio.

êêêh boi.

por baixo, a alma mortal e, ao derredor a gente boa e obreira, transformando-se em feras devorando feras, para, no escorrer da realidade da luta, rangendo os dentes e fervendo no crime atroz,
ferir a carne que a terra espera num desejo demoníaco.

êêêh boi. êêêh boi.

e a febre queimando a carne da alma.

(Ibidem)

 
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