Biografia / Bibliografia

Barbosa Rodrigues

João Barboza Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro em 22 de junho de 1842. Veio para a Amazônia, por designação de D. Pedro II, para pesquisas etnográficas, antropológicas, geográficas, geológicas e botânicas. O início de sua viagem para Manaus aconteceu em 1872 e na região o naturalista se demorou por dezoito anos. Chefiou a expedição que conseguiu a pacificação dos índios Crichanãs, conhecidos pelos brancos como Jauaperis. Dentre os inúmeros trabalhos que publicou, em diversos ramos do conhecimento, está a Poranduba amazonense, inserida nos Anais da Biblioteca Nacional, volume XIV, de 1890. Faleceu no Rio de Janeiro em 6 de março de 1909.

 

 

Textos Selecionados:

O Curupira e o caçador

Um caçador perdeu-se no mato e lá ficou. Chegando debaixo de uma grande árvore, dormiu.1
Ouviu gritar. O Curupira bateu nas sapopemas2 das árvores e gritou; tornou a gritar cada vez mais perto. Depois ouviu gritar ainda mais perto, já junto a si. Chegou o Curupira junto dele, assentou-se e começou a conversar.
– Como estás, meu neto?
– Sempre bom, meu avô e como você passa?
– Sempre bem também.
– Ah! meu avô! Eu perdi-me de casa.
– É possível, meu neto? Tua casa não é longe. Quando vieste de casa?
– Ontem, meu avô.
Continuaram a conversar.
– Ah! meu neto! Eu estou com fome.
– Eu também tenho fome. Nada comi ainda hoje.
– Meu neto, eu quero comer.
– Eu também.
– Meu neto, tu me dás a tua mão para eu comer?
– Aqui está, meu avô.
Cortou a mão de um macaco, que tinha trazido da caça da tarde daquele dia, e lha deu. Pegou nela e comeu.
– Meu neto, a tua mão é gostosa, eu quero comer a outra.
– Aqui está, meu avô.
Pegou e comeu logo.
– Ah! meu neto! É bem gostosa a tua mão. Tu me dás também teu pé para eu comer?
– Aqui está, meu avô.
Cortou o pé do macaco e lho deu.
– Aí está, meu avô.
Logo o Curupira pegou nele e comeu.
– Ah! meu neto! É gostoso o teu pé!
– É possível isso, meu avô?
Depois pediu-lhe também o coração.
– Ah! meu neto! Eu quero também o teu coração.
– Deveras, meu avô? Aqui está.
Tirou logo o coração do macaco e lhe deu.
O Curupira pegou e comeu logo o coração do macaco. Depois ele pediu o coração do avô.
– Agora eu também quero o teu coração.
Antes que o Curupira lhe pedisse outra coisa, pediu-lhe o coração.
– É possível, meu neto? Então dá-me a tua faca.
– Aqui está a minha faca.
Tomou imediatamente a faca, feriu-se, caiu e morreu. Aí ficou e ele foi-se embora.
– É bem feito que morresse.
Foi-se logo embora. Passado um ano lembrou-se.
– Vou agora ver o Curupira que morreu, para lhe tirar os dentes verdes para remédio; já deve estar podre, vou lhe tirar os ossos para bico de frechas. Foi-se logo embora. Chegando aí achou os ossos já brancos, e foi tirá-los com o machado que levou.
– Agora, com o machado, eu tiro os dentes.
Bateu logo com o machado nos dentes. Ele ressuscitou e assentou-se. O homem assustou-se bem.
– Ah! meu neto! Estou com sede, quero água.
– Deveras?
Urinou logo no chapéu.
– Aqui está água para você, meu avô.
– Acordei agora bom, mas não sei em que ponto estávamos quando dormi. O que era, meu neto?
– Não sei.
– Agora vamos, meu neto. O que queres tu, meu neto?
– Não sei.
– Eu te dou uma frecha para tu matares caça.
– Dizes bem, meu avô.
– Então vamos.
– Vamos.
Foram para o mato e aí ele deu a frecha.
– Agora tu tens uma frecha para caçar; queres ir-te embora?
– Quero ir.
– Sabes, porventura, onde é a tua casa?
– Não.
– Então eu vou contigo para tua casa.
– Bem, meu avô, então vamos.
Chegaram perto de casa.
– Agora, meu neto, eu vou me embora e te deixo. Quando tu quiseres, já sabes onde eu estou. Quando quiseres vai ter comigo. Sabes? adeus! Desta frecha só tu sabes o jeito, não a leves para casa, não contes a ninguém, nem à tua mulher. Só tu sabes caçar com ela. Esta frecha é uma cobra surucucu; para matar a caça não precisa arco, basta jogá-la. Eu conto para tu saberes que ela te deixará. Bem, adeus!
– Adeus, meu avô! Agora quando eu for passear irei ter contigo.
– Bem, meu neto, eu estou sempre aí.
Depois ficou um caçador feliz; matava muito, enquanto que os outros não. Ninguém sabia como ele caçava. Diziam:
– Como é isso? Ele mata pássaro, mata caça;3 como nós então não matamos?
– Não sei.
– Nós vamos para o mato, caçamos e não matamos; ele vai e depressa chega, quando menos se espera.
Outros diziam:
– O que será então? Vamos então vigiar como ele mata a caça.
– Vamos mandar dous meninos vigiar.
– Vamos.
Foram logo vigiar. Quando ele foi para o mato foram atrás. Foram escondidos vigiar, viram tirar a sua frecha do galho da árvore e logo foram vigiar como ele matava com a frecha.
– Já vimos onde estava a frecha, com certeza já vimos.
Vigiaram-no. Achou logo um pássaro voando. Viram depois atirar atrás a frecha e ir ver o pássaro que estava morto no chão com a frecha ao pé.
– É assim! Já sabemos agora como ele mata caça.
Voltaram:
– Amanhã viremos para experimentar a sua frecha e ver como ele mata caça.
De manhã foram lá. Acharam a frecha; tiraram-na; experimentaram logo num pássaro que estava voando; atiraram; a frecha voou e voltou frechando um deles, que chegou a cair, morrendo logo o menino. O outro voltou e contou: “Morreu meu companheiro”.
– De que morreu?
– Mordido pela cobra.
– Vamos ver.
Foram-no buscar e trouxeram o cadáver.
O dono da frecha foi buscá-la para ir à caça, mas chegando não a achou mais.
– Por onde perdeu-se minha frecha? Voltou talvez a ter com o seu dono. Agora sim, não tenho mais minha frecha! que se perca! Talvez eles a achassem; por isso já ela voltou. Talvez a frecha voltasse e fosse ter com o Curupira.
Não tardou em saber que acharam a sua frecha; que a experimentaram; que o menino foi mordido pela cobra, que morreu e que por isso ela foi ter com o Curupira.
– Foi bem feito! quem mandou bulir nela? Pensavam que era uma frecha à toa, quando era uma cobra. Assim fizeram perder-se a minha frecha, que não volta mais para mim.
Por isso o menino foi-se embora para outra terra, e fugiu com os outros parentes, que por terem medo se mudaram desse lugar.

(Poranduba amazonense)

 
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