Biografia / Bibliografia

ANTONIO BRANDÃO DE AMORIM

Nasceu em Manaus, no dia 7 de agosto de 1865. Coletou, desde os fins do século XIX, várias narrativas orais dos povos indígenas do rio Negro: tarianos, uananas, anaus, macuxis e barés. O resultado da pesquisa foi enfeixado
o volume póstumo Lendas em nheengatu e em português (Rio de Janeiro, 1928). Uma segunda edição fac-similada saiu em Manaus em 1987. Faleceu em Belém do Pará em 27 de outubro de 1926.

 

 

Textos Selecionados:

Origem do fogo

Logo no princípio do mundo, contam, não havia ainda fogo.
Toda a gente soube sem demora que havia alguma cousa que fazia gostosa nossa comida, que aquentava nosso corpo do frio.
Uma vez dois homens mariscadores dormiram sobre a pedra no meio do rio.
Em meio da noite caiu chuva, eles ficaram logo friorentos.
Daí a bocadinho, contam, sentiram calor gostoso chegar no seu corpo como vento, aí mesmo logo, contam, ninguém sabe como, dormiram, no meio desse calor.
Quando acordaram, antes da madrugada, cheiraram fumaça.
Quando embarcaram na canoa viram todos os peixes já encarquilhados!
Pegaram nos peixes, para ver se estavam podres, estavam todos cheirando bonito!
Experimentaram comer, acharam logo saboroso!
– Como então, disseram eles!
– Esta noite aqui mesmo havemos de ficar para vermos como foi para estes peixes ficarem assim!
Nesse dia pescaram peixe bem aqui, quando anoiteceu voltaram para cima daquela pedra, aí disseram:
– Agora vamos vigiar o que ontem de noite fez bonito o nosso peixe.
– Nós nos havemos de deitar, juntaremos nossas costas, um há de beliscar no outro para não dormirmos para ver o que queremos.
Logo aí mesmo, contam, se deitaram costa com costa, ficaram sem demora calados.
Em meio da noite caiu também chuva grande, passou depressa.
Frio, contam, os fazia tremer bastante.
Daí a bocadinho, contam, chegou já pelo corpo deles aquele calor gostoso.
Aqui começaram a beliscar-se para não dormirem no meio daquele calor gostoso.
Imediatamente, contam, corpo deles secou!
Daí a pedacinho viram já qualquer cousa clarear o cimo do rio!
Depois viram aparecer uma cabeça, vir devagar aparecendo um corpo de gente.
Diante de seus olhos por fim, contam, apareceu um moço que se sentou em cima da pedra, de seu corpo saía como fogo do Sol que logo aqueceu corpo deles.
Bonito, contam, esse moço!
Não tinha cueio.
Os mariscadores, contam, estavam com medo, corpo deles tremia.
Aí já mesmo, contam, ninguém sabe como, um desses mariscadores arrancou o cueio, atirou com ele nas costas desse moço.
O moço espantou-se, no mesmo instante pulou para o rio, aí desapareceu!
Só o cueio, contam, ficou luzindo em cima da pedra.
Os mariscadores correram logo para pegar no cueio que luzia, queimaram as mãos.
Correram, juntaram pedaços de pau para segurar o cueio, queimaram as mãos.
Então começaram logo juntando lenha para não deixar sumir o luzeiro.
Nisto, contam, jogaram porção de lenha em cima da Mãe do Quente.
Então, bem nesse momento também, se fez logo aquela branquidão!
Assim, contam, passaram a duração da noite fazendo essa Mãe do Quente reproduzir-se.
Já de manhã, contam, disseram:
– Agora vamos levar esta puçanga de frio para nossa terra!
– Ela aquenta nosso corpo como corpo de nossa mãe!
– Ela enxuga sangue do peixe para ficar gostoso!
– Ela come pau! De pau ela se faz!
– Tu a sustentarás de pau, eu remarei.
Assim fizeram.
Um foi no meio da canoa, dando de comer à Mãe do Quente, o outro foi remando na popa.
Anoiteceram um pouco acima da cidade, a gente dela viu logo aquele luzeiro, vindo de bubuia.
Todos aí ficaram logo espantados.
Uma parte deles dizia:
– Vocês vêem porventura aquele luzeiro que vem de bubuia?
– Acaso sabemos nós, estrela caiu do céu, vem agora suspensa por cima das águas!
Outros diziam:
– Acaso sabemos nós, Mãe-d’água vem de bubuia para nos comer!
– É melhor irmos buscar nossas frechas para a encontrarmos!
Enquanto assim eles falavam, os mariscadores encostaram, tocaram logo membi de mariscador.
As mulheres deles disseram imediatamente:
– Nossos maridos são esse luzeiro que chegou!
– Vamos já ver o que eles trazem!
Toda a gente, contam, desceu logo para o porto, quando aí chegaram Mãe do Quente já estava em terra.
Aí os mariscadores contaram tal e qual como tinham arranjado puçanga de frio.
Todos cercaram no mesmo instante Mãe do Quente.
Esse calor fez bonito o coração deles.
Aí o cabeça deles disse:
– Agora cada um de vocês há de levar para casa a Mãe do Quente para lhe dar de comer.
– Não a deixem sumir!
– Na outra Lua Nova havemos de ir procurar a Mãe desta puçanga do Frio.
– Há, eu sei, outras gentes embaixo da água, que têm todas as nossas cousas.
– Havemos de levar todas as nossas frechas, não vão eles brigar por causa da Puçanga do Frio.
As mulheres, contam, disseram logo:
– Nós também não ficamos!
– Façam também frecha para nós, para combatermos junto de vocês contra os donos da Puçanga do Frio.
– Porque, sabemos nós porventura se eles são muitos, bem depressa fariam voltar a Puçanga de Frio depois de a todos nós ter matado!
O tuixaua respondeu:
– Assim havemos de fazer.
Quando chegou a Lua Nova essa gente foi toda para aonde os mariscadores encontraram Mãe do Quente, quando aí chegaram ficaram na beira da terra grande.
Cada noite dois homens iam ficar em cima dessa pedra, aonde o moço dono da Puçanga do Frio aparecia de costume, para agarrá-lo.

Outros estavam na beirada da terra grande, vigiavam durante a noite.
Assim, contam, passaram aí muitas luas.
O moço dono da Puçanga do Frio não apareceu.
Um dia esses dois mariscadores disseram:
– Como o dono da Mãe não quer aparecer, esta noite havemos de ir pescar piraíba de cima da laje.
Assim eles fizeram.
Com a noite foram para cima dessa laje, com eles foram também dois homens.
Aí deitaram logo na água a linha, junto deles deixaram a Puçanga do Frio, esses dois homens a nutriam.
À meia-noite já, contam, alguma cousa buliu nos anzóis.
Zih! contam, puxou, depois deixou.
Daí a bocadinho puxou de novo zih!
Quando já esticada a linha os mariscadores fizeram finca-pé.
Eles, contam, puxavam, não vinha, estava duro.
Alguma cousa, contam, estava aí, porque sacudia a linha.
Eles se puseram de pé para puxar, não andou.
Então aí, contam, chamaram a outra gente para puxar com eles.
Quantos homens estavam aí foram todos.
Todos puxaram, então já, contam, começou andar, quando chegou em cima da laje viram que embiara deles era um homem.
Aqueles dois mariscadores se baixaram para ver o seu rosto, viram logo que ele era aquele moço dono da Puçanga do Frio!
Pegaram corpo dele, era, contam, frio!
Todo mole, contam, era corpo dele, como da creança verde.
No mesmo momento o puxaram, contam, para a beira da Puçanga do Frio para se aquecer, aí ele abriu logo a boca, soprou luminoso!
Frio, contam, esse sopro que saiu da sua boca!
No mesmo momento, contam, Mãe do Quente começou secando corpo dele.
As mulheres, durante isso, atravessaram todas para junto deles, começaram logo espalhando Mãe do Quente perto dele.
Imediatamente endoidecidas elas ficaram, contam, diante da beleza do moço!
Umas lhe faziam perguntas, outras lhe pegapegavam pelo corpo.
Daí a bocadinho o corpo do moço, contam, já era duro!
Seu cabelo negro brilhabrilhava bonito, contam, diante dos olhos da gente!
Antes da manhã se enfaceirar já o moço, contam, se sentou.
Só estava ainda como endoudecido.
As mulheres, então, umas alisavam cabelo dele, limpavam do corpo dele o sujo da água.
Outras davam de comer à Mãe do Quente para bem depressa endurecer corpo dele.
Com o aparecer do Sol ele se pôs em pé, todas as mulheres ficaram logo alegres.
Quando Sol chegou no meio do céu o moço, contam, disse:
– Agora não deixem perder-se este Fogo!
– Porque com ele toda a gente há de aquecer-se!
– Toda a gente com ele tornará gostoso o seu comer!
– Eu o deixo em cima da terra em lugar da nossa Mãe do Quente.
– Assim vocês o façam.
– Agora vão já para a beirada, me deixem ficar só com o cabeça de vocês.
Toda a gente foi logo para a beirada.
Quando o moço ficou só com o cabeça dessa gente disse a ele:
– Tu és pajé.
– Tua sombra só se atrapalhou porque eu mesmo assim fiz.
– Para que te deixaria eu ver antes de mim o que eu mesmo teria de dizer-te?
– Ouve agora.
– O Sol, dono desse Fogo que agora mesmo deixei na mão de vocês, mandou mudar os costumes de todas as gentes da terra por costumes novos.
– Nesta Lua nova aparecerá no meio de nós quem terá de mostrar a vontade do Sol.
– Como só os homens é que tem de saber da vontade do Sol, é bom mandar ainda as mulheres para a cidade, para cuidarem do Fogo para ele não desaparecer.
– Os homens ficarão todos.
– Não digas nada ainda a ninguém do que conversamos.
– Agora vamos para a beirada, vou aí mostrar como a gente faz gostosa a comida.
Eles foram logo.
As mulheres cercaram então esse moço, perguntaram:
– Filho da Água, conta-nos aonde é a tua terra!
– Lá a gente é muita será?
– A gente lá como é?
– Quem é teu pai?
– Quem é tua mãe?
– Como é teu nome?
O moço, contam, disse:
– Minha terra é o rio.
– Lá tem gente porção.
– Gente de lá é como daqui.
– Meu pai é um peixe.
– Minha mãe também.
– Meu nome não tenho.
No meio desta conversa apareceram aqueles dois mariscadores com uma piraíba.
O moço cortou um pedaço dela, depois disse:
– Vejam como a gente faz para a comida ficar gostosa.
Logo aí mesmo assou no fogo o pedaço de piraíba, imediatamente cheiraram bonito.
Depois disse para o cabeça dessa gente:
– Vem, senta-te aqui junto de mim para comer.
Aí já, contam, ele beliscou um pedaço, fê-lo comer.
Gostoso, imediatamente, o tuixaua sentiu!
Depois o moço a toda a gente fez do mesmo modo, também gostoso, contam, acharam.
Já então ele disse de novo:
– Ensinei agora a maneira de gente fazer comida, por isso façam-no vocês com suas mãos.
No mesmo instante cada um dessa gente tirou um pedaço de piraíba, assou, depois comeu.
Quando já de noite disse o tuixaua às mulheres:
– Como agora nosso coração já voltou para seu logar por sabermos quem é o Dono do Fogo, voltem amanhã para casa fazer caxiri deanteiro de nós.
– No meio da outra Lua quero fazer festa grande para este moço por nos ter dado o Fogo.
– Nós ficamos por aqui mesmo para juntar nossa comida.
As mulheres em meio da sua alegria responderam:
– Pois sim; não deixem nosso Dono do Fogo sumir-se!
– Cada uma de nós quer dançar com ele a festa de Ceucy.
Daí a bocadinho cada uma delas fez fogo de si para ele não se perder.
Antes do dia se enfaceirar, as mulheres desceram de rio abaixo no meio de sua alegria.
Pouco a pouco, contam, risada delas sumiu d’água abaixo.
Em todas as canoas, contam, se via luminoso o Fogo.
Quando já de manhã os homens viram aquela laje aonde tinham pescado aquele moço, fazer-se já em ilha grande.
Ninguém disse nada.
Aqueles dois mariscadores atravessaram logo para a ilha para pescar, quando encostaram nela sentiram a terra ainda quente.

O moço com o tuixaua subiram pela beirada do rio, foram conversar longe da outra gente.
Um dia antes da Lua, contam, o moço disse ao tuixaua:
– Amanhã, quando o dia se sumir, há de chegar o filho do Sol, é ele quem traz os Costumes Novos.
– Ele há de vir com fumaça do céu, descerá mesmo nesta ilha, aonde eu fiz aparecer o Fogo.
– Aí mesmo ele contará todos os Costumes Novos, mostrará também instrumentos bonitos que têm de ser somente nossos.
– Por isso, para tua gente não se espantar quando o Filho do Sol chegar, é bom contares para eles tudo o que te disse agora.
O tuixaua assim logo fez.
Esses homens, contam, sentiram logo triste o coração.
O outro dia chegou.
Com a tarde atravessaram todos para essa ilha nova.
Quando já de noite eles começaram ouvindo longe para as bandas do céu a voz de instrumentos.
Bonito, contam, vinha essa voz.
Essa gente, contam, segurava bem a respiração para ouvir a voz dos instrumentos.
Daí a bocadinho eles ouviram, contam, já pertinho.
No meio dum vento grande, contam, vinha o som.
Daí a bocadinho eles viram dois vultos descendo.
Aí então, contam, aquele moço correu para aquela laje aonde o tinham pescado, gritou:
– Eh!... Eh!... Eh!...
Depois, guiri!... guiri!... guiri!... soou, abalou a terra de verdade.
Aí então, o Filho do Sol desceu com a sombra de sua mãe junto dele, aí ficaram calados.
Daí a bocadinho já, contam, todos ouviram uma voz dizer assim:
– Filhos do Sangue do Céu, o Sol já mandou a vocês o Fogo antes de mim!
– Trago agora os Costumes dele para Costumes de vocês homens.
– Todos cuidarão das mulheres para fazer delas gente boa.
– Ela há de ter grande o coração, não será curiosa, saberá guardar segredo, não quererá provar o que não é para ela.
– Amanhã de noite eu mostrarei os instrumentos do Sol que somente os homens podem ver.
– Então direi tudo o que toda a gente tem de fazer.
Assim somente ele disse.
Todos estavam mudos no meio de silêncio grande.
Eles sentiam seu coração amassar-se.
Quando o dia começou avermelhar-se uma friagem grande veio, fez dormir toda essa gente, quando acordaram o Sol já tinha passado o meio do céu.
Do outro lado eles viram aquele moço dono do Fogo e o outro pintando pedra.
Toda essa gente não saiu da ilha.
Coração deles estava cheio de medo.
Aqueles moços, depois de pintar pedra, foram para o mato.
Na ponta da ilha toda a gente viu estar sentada uma moça bonita como a Lua.
Ela olhava direito o rio d’água abaixo.
Cabelo dela voava com o vento, a sombra da negrura dele deveras brilhabrilhava deante dos olhos de todos.
Um dos moços dentre essa gente, contam, disse:
– Vejo todos nós tristes, que temos nós?
– Penso que aquele moço que nós pescamos nos quer endoidecer.
– Quando já na nossa terra estivemos duma vez todos tristes?
– Nossas mulheres contavam alguma cousa de gostoso para ouvirmos, nós também fazíamos o mesmo.
– Agora, por que é nosso rosto como de quem quer chorar?
– Que é que está fazendo assim para nós?
O cabeça deles, contam, disse:
– Cala-te, aprende a esperar.
– Tu ainda és muito moço, teu coração ainda não sabe esperar, só quer brincar, não se lembra do que é feio, tudo é bonito para ele.
– Depressa te esqueceste do que viste.
– Por isso cala, és creança ainda!
Quando já queria anoitecer, contam, eles ouviram o soar dos instrumentos para as bandas do mato.
Então já, contam, essa gente sentiu um pouco sossegado o coração.
Tuixaua deles disse então:
– Vamos ouvir os Costumes Novos.
Eles atravessaram logo para onde estavam soando os instrumentos, quando aí chegaram disse o Filho do Sol:
– Calem-se!
– Vou ensinar agora para vocês os Costumes do Sol e seus instrumentos:
Aí já, contam, ele disse:
– Há de ser assim, assim, assim.
Depois de contar os Costumes Novos ele tirou de dentro de um pacará os enfeites com que hoje em dia se dança, disse, contam:
– Esta figura já está ali na pedra.
– Esta outra, é a mesma que está junto dela.
– Esta, aquela outra.
Assim, contam, ele se foi preparando, quando acabou sacudiu os braços, no mesmo instante seus ossos começaram cantando bonito.
Nesse momento aquele moço que eles tinham pescado apareceu com porção de instrumentos, deu-os ao Filho do Sol.
O Filho do Sol disse:
– Vocês vêem será este instrumento?
– Este será? Este será? Este, este, este...
Disse o nome de todos, aí então chamou o tuixaua, deu-lhe um instrumento, disse:
– Tu ficas com o cabeça dos instrumentos.
Ele os mandou logo, contam, tocar, os instrumentos por si foram cantando.
Bonito, contam, eles soavam.
Já para de manhã ele disse:
– Vocês já têm agora os Costumes Novos.
– Quem for sem juízo para contar às mulheres este segredo morrerá imediatamente.
– Onde eu estiver saberei logo quem estraga meu caminho.
Aí mesmo já, contam, ele voou para a ilha, tomou sua Mãe, voou com ela para o Aiari.
Antes da manhã aquele moço que eles tinham pescado disse:
– Como o dia já se enfaceira, escondam nossos instrumentos dentro do rio.
Assim logo eles fizeram.
Como já sabiam os Costumes Novos o cabeça dessa gente disse:
– Agora vamos embora para nossa terra dançar um pouco com as nossas mulheres, do contrário podem elas ficar zangadas conosco.
– Tu, moço, vais conosco.
O moço, contam, disse:
– Acho as tuas mulheres muito sem juízo.
– Assim mesmo irei, eu me farei de inocente para as mulheres pensarem que eu sou tolo.
O tuixaua, contam, respondeu:
– Já sabemos de certeza a maneira de agradar às mulheres, não ouviste será o que nos disse o Filho do Sol?
O moço, contam, respondeu:
– Ah! Seria bonito nós todos ouvirmos nosso coração por um só!
– Estes sabem adoçar sua boca para enganar as mulheres.
– Aqueles não, ficam logo sem saber dia, contam no meio de sua doudice o que têm no coração.
– Os olhos da mulher alvoroçam a gente.
– Seu falar endoidece.
– Eu não.
– Mulher pode adoçar-se para mim, pode mesmo agradar-me, meus olhos não os viro para ela, estão para o outro lado.
– Está tua gente com os Costumes Novos.
Com o Sol no meio do céu eles desceram de rio abaixo, com a noite do outro dia chegaram.
As mulheres correram logo para o porto, perguntaperguntaram:
– Onde está o moço Dono do Fogo?
Quando o viram no jacumá disseram:
– Ali mesmo está ele!
– Sai já, vamos hoje dançar a festa da cutia, tu tocarás.
O moço não olhou para elas, estava olhando a sua sombra no rio.
Quando ele saiu as mulheres o rodearam logo, disseram:
– Como és bonito!
– Teus olhos brilhabrilharam como Sol!
– Teu cabelo é negro como noite!
– Teu corpo é direito como palmeira!
– Tua voz é alegre como voz de tentém!
– Tu hás de dançar comigo!
As mulheres assim falavam a ele, ele não ouvia, olhando para o céu.
Daí a momentos, contam, já o tuixaua disse:
– Moço, que estás fazendo?
– Desde hoje estou esperando por ti.
O moço respondeu:
– Estou vendo ainda Seucy.
– Ela parece está do céu rindo de nós!
Eles saíram logo para casa.
Aí já disse o tuixaua:
– Agora moço, vamos dançar.
– Kaxiri, paiauaru, vinho de macuari têm para fazer gostoso nosso coração.
– Por isso nós dois havemos de ser o cabeça da festa.
O moço, contam, respondeu:
– Aonde eu me criei não vi como gente dança.
– Por isso tu hás de dançar ainda para eu ver, depois então irei para junto de ti.
O tuixaua respondeu:
– Pois sim, assim há de ser.
Aí mesmo tuixaua levantou-se com a membi de cutia, foi para o meio da casa para começar a festa.
O moço foi sentar-se no canto.
Todos os homens estavam já na casa da festa, mulher não havia nenhuma.
Uma por uma se tinham elas ido sentando por junto do moço.
Elas procuravam a maneira do fazer falar este moço, ele não fazia mais do que estar calado.
Elas, contam, diziam:
– Moço, todas nós desta terra te queremos bem.
– Vês alguém será de nós dançando agora com o nosso tuixaua?
– Por tua causa estamos aqui.
Outras, contam, diziam:
– Moço bonito, vamos já dançar.
– Não nos queres será?
O moço não respondeu, tinha adormecido enquanto as mulheres falavam!
Então, contam, as mulheres disseram já:
– Vamos alegrar seu coração para ele não estar dormindo.
– Vamo-nos dar a ele!

O moço sentiu qualquer cousa bulir nele, acordou, viu logo o que era, bem que pulou para lá, disse:
– Que querem de mim, mulheres sem juízo?
– Então assim é será que gente dança na terra de vocês?
– Saiam de junto de mim, não quero maneira de dançar de vocês!
Aí já também o tuixaua tinha descansado, ele veio logo ter com o moço, disse:
– Já viste será como gente dança por aqui?
O moço respondeu:
– Tuas mulheres não me deixaram olhar para lá, onde estavam dançando.
– Estavam grosso aqui, pouco faltou para me forçarem!
– Por isso, para elas não me estragarem, já vou-me embora de vocês ter com o Filho do Sol.
– Deixa ainda chupar teu cigarro.
Ele, contam, puxou duas baforadas de fumaça, tornou a dar o cigarro ao tuixaua, disse:
– Vigia bem os moços.
– Repara de que maneira são tuas mulheres, pouco faltou para me forçarem.
Aí já mesmo, contam, ele saiu para fora, começou subindo para o céu, quando chegou em cima partiu direito para o Aiari.
As mulheres, quando o viram subir para o céu, gritaram:
– Volta, moço! vamos dançar somente esta noite!
– Volta! Volta!
Quando o moço se sumiu elas choraram.
O tuixaua então disse já:
– Agora a gente de outras terras há de saber que as mulheres daqui não têm vergonha!
– Aquele moço que foi agora mesmo há de contar por outras terras!

– Amanhã eu vou dizer a vocês mulheres os Costumes Novos que o Filho do Sol tinha deixado para elas.

 
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