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Drama
agrário
Na
terra firme, onde Ludjero nasceu e se criou, tropeçando
pra velhice, apareceu um comprador feroz, que não queria
ver ninguém ali. A barraca, de recobertura nova, as árvores
com os galhos bombeando de frutas, teriam de ser derrubadas. O
dono deu pouco tempo para a mudança.
Os moradores foram queixar-se ao delegado policial, que achou
graça. Queixa contra seu Cordeirão, que adquiriu
as terras e empreitou vinte machados para a transformação
daquele mato bruto em campo de gado! Embaraçar quem iria
trabalhar pelo progresso da localidade faminta, que, dentro em
pouco, teria leite, carne e pequenas criações! Demarcado
o lugar, queriam permanecer nos sítios, alegando que são
terras do governo. Não houve quem desse jeito. Nem interferência
manhosa do prefeito. Ludjero sairia mesmo, às carreiras,
sem indenização de nada, nem prazo para arrancar
a mandioca. Teve de desmanchar as roças ainda verdes e
dormir as derradeiras noites em desespero na barraca onde residira
tantos anos e lhe nasceram os filhos.
Aquelas mangueiras, laranjeiras, touceiras de açaí
de plantio – tudo crescera sob seus olhos, folha a folha,
garrancho a garrancho, como gente do mesmo sangue. Tinha vontade
de chorar e tocar fogo naquilo tudo. Os meninos comiam as frutas.
E agora? Para onde iriam, igarapé abaixo?
Só procurando as terras do governo. Não havia por
ali. Tudo fora demarcado pelo agrimensor e tinha dono. O compadre
Piauí, no estirão adiante, estava nas mesmas dificuldades.
Foi à sua barraca, em busca de conselho.
– Virei tudo e não achei adjutório. Temos
de arrumar os teréns e descer o igarapé, como pato
frechado, sem poder mais voar. Vamo pra ilha. É baixa,
mas é do governo e a gente vai viver em paz com Deus e
os homens...
– Pobre é salmoura de tripa. O pessoal foge. Só
padre agüenta e às vezes. Seu Tito Luís, depois
de muita conversa, botou o saldo da borracha em duas vacas pra
filhar. Botou no pasto do seu Belo Brandão com touro de
raça. Vieram uns bezerros. Seu Brandão mandou ferrar
a marca B. B. Ferrou também uma tirinha por baixo. Os de
tirinha eram do Tito. Um dia, foi tudo vendido. O pobre foi reclamar.
– Cale a boca. B. B. é marca do banco do governo.
É pra guerra. Ouviu tudo e não deu um pio.
– B. B. – Bicho besta do bom!
II
Ainda
tentaram nova queixa ao delegado. Levaram repreensão e
ameaça de xilindró, se persistissem na amolação
de ficar nas terras e com as terras dos outros.
Voltaram ao igarapé. Os curumins estavam com febre e tosse
de guariba. Não havia jeito. Filho de pobre é gente
ou é bicho? É bicho mesmo. E lá se foram
nos rumos da ilha, no rio grande. Chegaram. Ataram as redes nas
embaúbas, enquanto armavam o tapiri. Outros agricultores
também se mexiam, como bodes ao sol, na angústia
de sombra e de um pedaço de terra. O lago e o rio ainda
eram salvação, com peixes miúdos para tarrafear.
O barranco, cheio de canaranas, alagava, mas produzia no verão.
Não havendo enchente, tudo mais ou menos.
Eram uns seis, varridos da terra firme, em companhia de outros
pobres mais antigos. Pobre é pobre! Começaram a
luta. Nada como a terra alta, mas a ilha sempre servia.
A restinga poderia ser para as fruteiras, a casa de farinha para
todos. Havia uma coisa boa. O marreteiro passava ali mesmo, atracava,
comprava bananas e legumes, sem precisão de ir à
cidade.
Os curumins percorriam a praia, tiravam ovos de gaivotas e de
bichos-de-casco. Até os restos de um flutuante encalharam
no seco. O arigó e a filharada ali se atrelaram, como um
depósito de todos. Passavam a chuva, ouviam choros e iam
vivendo naquela maromba humana, em derradeira resistência
contra a miséria e o inverno.
– Fugimo do sertão pro causa do sol; tamo penando
aqui pro causa da água. Pobre não se agüenta
em lugar algum...
III
Notícias
favoráveis iam chegando para os pobres, que teriam mais
garantia e proteção. Aí viriam alguns homens
bons que dariam terras e ensinavam a plantar para melhor produção.
Falavam em sementes, em lei agrária, em enxerto. Um alqueire
valeria por três. Haveria também um lote para a capela,
a escola, o cemitério, um pavilhão de esporte para
todos. Os jornais tratavam das melhoras. O padre e os-da-cidade
elogiavam. Viva!
Ora, certa noite, sob agulhadas de névoa, mugidos de vacas
e bezerros acordaram o pessoal. Na certa, era marchante, que ali
encostara à noite, medroso de temporal.
Os moradores de-cima apressaram-se em mandar avisar. A ilha fora
comprada: o dono soltara o primeiro magote de bois para a engorda.
Já tinham comido o milharal verde do Zé-Pimenta
e amassado a juta da restinga. O capitão Soeiro comprara
a ilha pra criação; dava trinta dias pra todos saírem,
mas ia logo botando o gado. Não aceitava pedido de arrendamento,
nem podia esperar.
Foram queixar-se na cidade. Quando voltaram, os bois caminhavam
até dentro das barracas, sem faltar as roças, os
legumes, as pimenteiras amassadas. Aquilo era modo de plantar
e produzir melhor? Era a tal de lei agrária?
Terra firme tem dono. Vargem tem dono. Ilha tem dono. Para onde
iria o pobre?
Zé Mulato dizia possuir sete filhos – três
curumins e quatro velhos, os pais e os sogros. As casas dos outros
não prestavam mais, porque eram curral de bezerros ou haviam
sido derrubadas a machado.
Olhou pra parede de paxiúba bruta. Lá se via uma
cruz de madeira, bem lavrada. Pertinho, pendurado pela braçadeira,
um pau-de-fogo, que nunca errara uma capivara nos milharais...
– Meu São Benedito me salve da tentação!
(Defumadores
e porongas)
Chico
Piranha
No
regresso da pescaria no igarapé do Maici, sombras já
se derramavam pelas margens e o ventinho bom do entardecer mordia
os homens, malhados pelas tarrafas e pelos mergulhos para desengatá-las
dos paus. A canoa deslizava placidamente na correnteza. Juca Xexéu
esgoelava e escamava as jatuaranas gordas. Quando aportassem à
barraca, pouco teriam de esperar – pô-las na panela,
na trempe, cozinhá-las e assá-las para a janta,
ali mesmo no alpendre, antes da invasão dos carapanãs,
que entram pelo nariz, naqueles pedaços encharcados de
paranás, lagos e igapós.
A barriga roncava, mesmo que sapo-boi nos bamburrais. Não
era para espantar. Estavam com o café da madrugada e um
pouco de farinha. Esfaqueadas as seringueiras, nos golpes em VV,
colhido e defumado o leite, as horas restantes foram empregadas
em correrias nos bredos, atrás de vacas tresmalhadas. Amoitavam-se,
enterravam-se nos lamaçais.
A barraca amarelava na ponta da ilha. Quando chegassem, Maria
Rosa já acendera fogo para a caldeirada, regada a cheiro-
verde, pimenta e cebolinha, apanhadas no casco velho do barranco.
Era só o banho de cuia no cedro do porto. A canoa fora
lavada; os consertos dos rasgões da tarrafa, pelas piranhas
e sacais, seriam para a manhã seguinte, nas mãos
hábeis de Maria Rosa. Dormiriam logo após a janta
para acordar aí pelas duas da madrugada e reencetar os
serviços nas estradas.
– Toca a buzina! Lá estão as moças
do tabaquista. Correm para a beira. Mesmo que novilhas para o
campo, quando percebem touro novo. Olha lá. Todas quatro
farejando agrados. Até a velha anda de olho virado. E dizer
que houve morte por gente assim, sempre de perna aberta. Pobre
do Listrado! Morreu de facadas sem poder explicar porque não
casava com a Liana, mais aceso que brasa de mulateiro...
Buzinadas estridularam nas brumas do anoitecer. Cães latiram,
em correrias pelas beiradas. Logo em seguida, mulheres sacudiam
a paisagem, em adeuses e vozes para a canoa.
– Cadê os peixes? Lembranças para Dona Rosa...
– Serão dadas!
Mais adiante, o pescador voltou à maldição,
falando baixo.
– Você viu? Listrado no buraco! Perdeu a vida por
ter provado essa ventrecha sem sal, cheia de varejeira, que é
a Liana...
II
O
crime provocara revolta no beiradão. Listrado, assim apelidado
pelo sinal sangüíneo no rosto, namorara Liana, pediu-a
em casamento. Avançou demais, sem pensar nos 16 anos da
cunhã, e foi pro Jaci. Lá arranjaria a vida nesses
dias difíceis; voltaria ao Tambaqui com recursos; ficaria
ou levaria Liana, embora fosse perigoso conduzir porquinha de
leite para chiqueiro de muitos barrascos. A despedida foi na novena
de São Sebastião – com tango e salvas no terreiro.
Listrado corria de um lado para outro, servindo aluá e
cachaça. A rapaziada suava nas danças, apertando
os corpos quentes das damas. A harmônica e cavaquinho endoidavam
os pares; até os velhos, que estavam fora entraram no furdunço,
depois de meia-noite. O forró cheirava a oriza; fecundações
proibidas vinham pelo ar, como o pólen dos taxizeiros.
De quando em vez, camaradas se encantavam na escuridão;
por trás da barraca, aproveitando o menor descuido, zinhas
desapareciam no mato. “Iam apanhar cacaus”, na expressão
brejeira dos sabidões.
Daí a três dias, novas despedidas. Listrado embarcaria
no motor do Santiago, rumo a Porto Velho, onde se meteria num
trem e, novamente, num motor de popa até o seringal, no
Jaci-Paraná. Liana abraçou-o, sem mais novidade.
Não desapareceu dos forrós e começaram a
espalhar que não havia mais responsabilidades. Quando não
há perigo, a macharada avança. E foi o que sucedeu,
enquanto Listrado cortava seringa e curtia febrão no Alto.
Queria descer com soldo para o casamento, cortando estradas de
oito galões.
Mais tarde, chegou a notícia de que fora mordido por surucucu-de-fogo
e enviado para “Cachuela Esperanza”, na Bolívia,
à custa dos patrões. Fora mordido quando desencalhava
uma balsa de borracha.
Regressou ao seringal, fortaleceu-se, engordou. Não escreveu
mais. Quando escreveu, foi para dizer à Liana que não
casava tão cedo. Teria sido intriga do pessoal do Tambaqui?
Tinha nascido um curumim, cara do Listrado, com a mesma listra
sangüínea no rosto. Aquilo ia acabar em barulho. Romper
noivado de longe, depois de nascido o filho, a melhor prova! Vadiação
de Liana no roçado e com gente de bordo poderia ser mentira.
Por que não deixou Liana inteirinha, sem facilidades para
os outros?
Ora, certa manhã de inverno, causou sensação
o desembarque inesperado do Listrado na ponta-da-ilha. Estava
realmente forte. Nem parecia o mesmo. Quando se despediu, ouviu
da lancha do Território:
– Até a subida, Chico Piranha!
– Quem é Chico Piranha? perguntou um-de-terra.
– É o passageiro que desembarcou. É o seu
nome no Jaci.
Ninguém ligou maior importância. Apelidaram-no assim
por ter os dentes ponteados à lima, como de cutia. Vinha
tomar a bênção aos pais, resolver certos casos
e retornar ao seringal.
Mas os irmãos de Liana consideravam aquilo um desafio.
Pediu a cunhantã, emprenhou e vinha ver a cara do cabritinho.
É verdade que não visitava as barracas, vivia triste
e fugia de encontros e festas. Não fosse o nascimento do
curumim e ninguém comentaria o fato. “Honras de moças
não chegam pros de casa”. Isso é conversa
de sem-vergonhas.
Eles teriam uma satisfação de Listrado, junto do
padre ou polícia, ou, então, nada resolvido.
– Não queremos conversa. Ou casa ou vai pra faca!
III
Rezava-se
novamente em homenagem a São Sebastião, no Paraná
do Jenipapo. O padre ia encerrar o novenário e seria festa
do arromba. Já desembarcara com o saco de seringa e lia
o Breviário. Suspendia a leitura, de quando em quando,
espantava as mutucas.
Pescadores, seringueiros, roceiros haviam dado esmolas para a
noite final do Santo. Ninguém faltava, nem mesmo crianças
e velhos. Haveria missa, casamentos, batizados, comunhões.
Todos teriam de comparecer. Nem se evitariam rodadas de cachaça
e garrafas escondidas à beira do mato.
Listrado também compareceria. Aproveitaria para ver Liana
e o curumim. Intermediários ajustaram o encontro na casa
de farinha, perto do forno. Seria um encontro em segredo. E como
segredo naquele barulho?
Os irmãos foram avisados. Aproximaram-se da casa do forno.
Listrado e Liana entreolharam-se. Quem teria denunciado? Agora,
era ir para frente.
– Peço licença a vocês, disse Listrado.
Quero uma conversa com a Liana. Só nós dois...
– Nada de conversa. A conversa é entre todos, seu
sacana!
– Deixem que eu explique. Vocês estão bebos...
– Bebos nada! Explicação é na ponta
da faca. Ou vamo logo pros pés do padre...
– Assim à força não vou...
Vai, não vai, empurra pra lá e pra cá. Um
grito, de repente:
– Vocês me matarão sem me ouvir!
Correram todos pra desapartar. Já era tarde. Listrado arfava,
caído na prensa de mandioca, botando sangue do peito e
da garganta. Não falava mais, apontando as próprias
roupas.
– Está faltando ar. Tragam velas e chamem o padre.
Tragam um lençol também. Tirem a roupa do pobre!
Despiram-no. As mãos, em gestos desesperados, escorriam
pelo ventre ferido. Deixaram-no todos e, já sem remédio,
viram, paralisados e indignados, a causa do rompimento do noivado.
Tinham sido extirpados, em cirurgia bárbara, os troféus
masculinos do Listrado, deixando apenas cicatrizes grotescas.
Recordaram, na intensidade de um relâmpago, a enfermidade
no Jaci, o internamento no hospital boliviano. Listrado sacrificou-se
em pleno trabalho, arrojando-se às águas para safar
a balsa, enganchada nos araçazais. A piranha negra, feroz
e veloz, com os dentes em navalha, castrara-o sumariamente, desaparecendo
com a isca sangrenta. Listrado soltou um gemido, como um uivo
de morte, e subiu a jangada. Recuperou a vida. Mas perdeu o encanto
da vida. Envergonhado, temendo o ridículo, não falava
sobre o caso, que se espalhou no seringal. Transformou-se no Chico
Piranha. Não era vítima isolada. Havia outras, imoladas
pelas piranhas vorazes.
Não se conformavam os seus amigos do Tambaqui.
– Como podia casar? E com quê? E por que não
deixaram falar? Como casar um homem que não é homem?
Taí Listrado no buraco, entre os tapurus; os assassinos
nos forrós. Liana deu pra vadia. Não escolhe preto
nem branco, menino nem velho. Rede de arrastão, doida de
tanto pegar machos. Até o promotor e o delegado vêm
visitar o tabaquista. Quando chegam, os irmãos vão
pescar. Têm medo de júri e cadeia, e se defendem
com as manas. Tanta safadeza por morcego sujo, esfregado pelos
de casa. Mesmo que boca vermelha de bacu de tanto comer urtiga
e jitirana das beiradas.
– Tamo chegando. Dá mais uma buzinada. Cuidado com
a proa no cocho da mandioca!
(Banco
de canoa)