Biografia / Bibliografia

Álvaro Maia

Em Humaitá (AM), em 19 de fevereiro de 1893, nasceu Álvaro Botelho Maia, a quem o destino reservou a sorte de ser uma das importantes figuras políticas do Estado, em todos os tempos. Foi eleito governador do Amazonas em 1934. Mais tarde, com o Estado Novo de Getúlio Vargas, foi nomeado Interventor, cargo que exerceu até 1945. Faleceu como Senador da República no dia 4 de maio de 1969. Obras de ficção: Beiradão: romance (Manaus, 1958); Banco de canoa: cenas de rios e seringais do Amazonas (Manaus, 1963); Defumadores e porongas: pequenas estórias – ciclo da borracha – Amazonas (Manaus, 1966).

 

 

Textos Selecionados:

Drama agrário

Na terra firme, onde Ludjero nasceu e se criou, tropeçando pra velhice, apareceu um comprador feroz, que não queria ver ninguém ali. A barraca, de recobertura nova, as árvores com os galhos bombeando de frutas, teriam de ser derrubadas. O dono deu pouco tempo para a mudança.
Os moradores foram queixar-se ao delegado policial, que achou graça. Queixa contra seu Cordeirão, que adquiriu as terras e empreitou vinte machados para a transformação daquele mato bruto em campo de gado! Embaraçar quem iria trabalhar pelo progresso da localidade faminta, que, dentro em pouco, teria leite, carne e pequenas criações! Demarcado o lugar, queriam permanecer nos sítios, alegando que são terras do governo. Não houve quem desse jeito. Nem interferência manhosa do prefeito. Ludjero sairia mesmo, às carreiras, sem indenização de nada, nem prazo para arrancar a mandioca. Teve de desmanchar as roças ainda verdes e dormir as derradeiras noites em desespero na barraca onde residira tantos anos e lhe nasceram os filhos.
Aquelas mangueiras, laranjeiras, touceiras de açaí de plantio – tudo crescera sob seus olhos, folha a folha, garrancho a garrancho, como gente do mesmo sangue. Tinha vontade de chorar e tocar fogo naquilo tudo. Os meninos comiam as frutas. E agora? Para onde iriam, igarapé abaixo?
Só procurando as terras do governo. Não havia por ali. Tudo fora demarcado pelo agrimensor e tinha dono. O compadre Piauí, no estirão adiante, estava nas mesmas dificuldades. Foi à sua barraca, em busca de conselho.
– Virei tudo e não achei adjutório. Temos de arrumar os teréns e descer o igarapé, como pato frechado, sem poder mais voar. Vamo pra ilha. É baixa, mas é do governo e a gente vai viver em paz com Deus e os homens...
– Pobre é salmoura de tripa. O pessoal foge. Só padre agüenta e às vezes. Seu Tito Luís, depois de muita conversa, botou o saldo da borracha em duas vacas pra filhar. Botou no pasto do seu Belo Brandão com touro de raça. Vieram uns bezerros. Seu Brandão mandou ferrar a marca B. B. Ferrou também uma tirinha por baixo. Os de tirinha eram do Tito. Um dia, foi tudo vendido. O pobre foi reclamar.
– Cale a boca. B. B. é marca do banco do governo. É pra guerra. Ouviu tudo e não deu um pio.
– B. B. – Bicho besta do bom!

II

Ainda tentaram nova queixa ao delegado. Levaram repreensão e ameaça de xilindró, se persistissem na amolação de ficar nas terras e com as terras dos outros.
Voltaram ao igarapé. Os curumins estavam com febre e tosse de guariba. Não havia jeito. Filho de pobre é gente ou é bicho? É bicho mesmo. E lá se foram nos rumos da ilha, no rio grande. Chegaram. Ataram as redes nas embaúbas, enquanto armavam o tapiri. Outros agricultores também se mexiam, como bodes ao sol, na angústia de sombra e de um pedaço de terra. O lago e o rio ainda eram salvação, com peixes miúdos para tarrafear. O barranco, cheio de canaranas, alagava, mas produzia no verão. Não havendo enchente, tudo mais ou menos.
Eram uns seis, varridos da terra firme, em companhia de outros pobres mais antigos. Pobre é pobre! Começaram a luta. Nada como a terra alta, mas a ilha sempre servia.
A restinga poderia ser para as fruteiras, a casa de farinha para todos. Havia uma coisa boa. O marreteiro passava ali mesmo, atracava, comprava bananas e legumes, sem precisão de ir à cidade.
Os curumins percorriam a praia, tiravam ovos de gaivotas e de bichos-de-casco. Até os restos de um flutuante encalharam no seco. O arigó e a filharada ali se atrelaram, como um depósito de todos. Passavam a chuva, ouviam choros e iam vivendo naquela maromba humana, em derradeira resistência contra a miséria e o inverno.
– Fugimo do sertão pro causa do sol; tamo penando aqui pro causa da água. Pobre não se agüenta em lugar algum...


III

Notícias favoráveis iam chegando para os pobres, que teriam mais garantia e proteção. Aí viriam alguns homens bons que dariam terras e ensinavam a plantar para melhor produção. Falavam em sementes, em lei agrária, em enxerto. Um alqueire valeria por três. Haveria também um lote para a capela, a escola, o cemitério, um pavilhão de esporte para todos. Os jornais tratavam das melhoras. O padre e os-da-cidade elogiavam. Viva!
Ora, certa noite, sob agulhadas de névoa, mugidos de vacas e bezerros acordaram o pessoal. Na certa, era marchante, que ali encostara à noite, medroso de temporal.
Os moradores de-cima apressaram-se em mandar avisar. A ilha fora comprada: o dono soltara o primeiro magote de bois para a engorda. Já tinham comido o milharal verde do Zé-Pimenta e amassado a juta da restinga. O capitão Soeiro comprara a ilha pra criação; dava trinta dias pra todos saírem, mas ia logo botando o gado. Não aceitava pedido de arrendamento, nem podia esperar.
Foram queixar-se na cidade. Quando voltaram, os bois caminhavam até dentro das barracas, sem faltar as roças, os legumes, as pimenteiras amassadas. Aquilo era modo de plantar e produzir melhor? Era a tal de lei agrária?
Terra firme tem dono. Vargem tem dono. Ilha tem dono. Para onde iria o pobre?
Zé Mulato dizia possuir sete filhos – três curumins e quatro velhos, os pais e os sogros. As casas dos outros não prestavam mais, porque eram curral de bezerros ou haviam sido derrubadas a machado.
Olhou pra parede de paxiúba bruta. Lá se via uma cruz de madeira, bem lavrada. Pertinho, pendurado pela braçadeira, um pau-de-fogo, que nunca errara uma capivara nos milharais...
– Meu São Benedito me salve da tentação!

(Defumadores e porongas)

Chico Piranha

No regresso da pescaria no igarapé do Maici, sombras já se derramavam pelas margens e o ventinho bom do entardecer mordia os homens, malhados pelas tarrafas e pelos mergulhos para desengatá-las dos paus. A canoa deslizava placidamente na correnteza. Juca Xexéu esgoelava e escamava as jatuaranas gordas. Quando aportassem à barraca, pouco teriam de esperar – pô-las na panela, na trempe, cozinhá-las e assá-las para a janta, ali mesmo no alpendre, antes da invasão dos carapanãs, que entram pelo nariz, naqueles pedaços encharcados de paranás, lagos e igapós.
A barriga roncava, mesmo que sapo-boi nos bamburrais. Não era para espantar. Estavam com o café da madrugada e um pouco de farinha. Esfaqueadas as seringueiras, nos golpes em VV, colhido e defumado o leite, as horas restantes foram empregadas em correrias nos bredos, atrás de vacas tresmalhadas. Amoitavam-se, enterravam-se nos lamaçais.
A barraca amarelava na ponta da ilha. Quando chegassem, Maria Rosa já acendera fogo para a caldeirada, regada a cheiro- verde, pimenta e cebolinha, apanhadas no casco velho do barranco. Era só o banho de cuia no cedro do porto. A canoa fora lavada; os consertos dos rasgões da tarrafa, pelas piranhas e sacais, seriam para a manhã seguinte, nas mãos hábeis de Maria Rosa. Dormiriam logo após a janta para acordar aí pelas duas da madrugada e reencetar os serviços nas estradas.
– Toca a buzina! Lá estão as moças do tabaquista. Correm para a beira. Mesmo que novilhas para o campo, quando percebem touro novo. Olha lá. Todas quatro farejando agrados. Até a velha anda de olho virado. E dizer que houve morte por gente assim, sempre de perna aberta. Pobre do Listrado! Morreu de facadas sem poder explicar porque não casava com a Liana, mais aceso que brasa de mulateiro...
Buzinadas estridularam nas brumas do anoitecer. Cães latiram, em correrias pelas beiradas. Logo em seguida, mulheres sacudiam a paisagem, em adeuses e vozes para a canoa.
– Cadê os peixes? Lembranças para Dona Rosa...
– Serão dadas!
Mais adiante, o pescador voltou à maldição, falando baixo.
– Você viu? Listrado no buraco! Perdeu a vida por ter provado essa ventrecha sem sal, cheia de varejeira, que é a Liana...

II

O crime provocara revolta no beiradão. Listrado, assim apelidado pelo sinal sangüíneo no rosto, namorara Liana, pediu-a em casamento. Avançou demais, sem pensar nos 16 anos da cunhã, e foi pro Jaci. Lá arranjaria a vida nesses dias difíceis; voltaria ao Tambaqui com recursos; ficaria ou levaria Liana, embora fosse perigoso conduzir porquinha de leite para chiqueiro de muitos barrascos. A despedida foi na novena de São Sebastião – com tango e salvas no terreiro. Listrado corria de um lado para outro, servindo aluá e cachaça. A rapaziada suava nas danças, apertando os corpos quentes das damas. A harmônica e cavaquinho endoidavam os pares; até os velhos, que estavam fora entraram no furdunço, depois de meia-noite. O forró cheirava a oriza; fecundações proibidas vinham pelo ar, como o pólen dos taxizeiros. De quando em vez, camaradas se encantavam na escuridão; por trás da barraca, aproveitando o menor descuido, zinhas desapareciam no mato. “Iam apanhar cacaus”, na expressão brejeira dos sabidões.
Daí a três dias, novas despedidas. Listrado embarcaria no motor do Santiago, rumo a Porto Velho, onde se meteria num trem e, novamente, num motor de popa até o seringal, no Jaci-Paraná. Liana abraçou-o, sem mais novidade. Não desapareceu dos forrós e começaram a espalhar que não havia mais responsabilidades. Quando não há perigo, a macharada avança. E foi o que sucedeu, enquanto Listrado cortava seringa e curtia febrão no Alto. Queria descer com soldo para o casamento, cortando estradas de oito galões.
Mais tarde, chegou a notícia de que fora mordido por surucucu-de-fogo e enviado para “Cachuela Esperanza”, na Bolívia, à custa dos patrões. Fora mordido quando desencalhava uma balsa de borracha.
Regressou ao seringal, fortaleceu-se, engordou. Não escreveu mais. Quando escreveu, foi para dizer à Liana que não casava tão cedo. Teria sido intriga do pessoal do Tambaqui? Tinha nascido um curumim, cara do Listrado, com a mesma listra sangüínea no rosto. Aquilo ia acabar em barulho. Romper noivado de longe, depois de nascido o filho, a melhor prova! Vadiação de Liana no roçado e com gente de bordo poderia ser mentira. Por que não deixou Liana inteirinha, sem facilidades para os outros?
Ora, certa manhã de inverno, causou sensação o desembarque inesperado do Listrado na ponta-da-ilha. Estava realmente forte. Nem parecia o mesmo. Quando se despediu, ouviu da lancha do Território:
– Até a subida, Chico Piranha!
– Quem é Chico Piranha? perguntou um-de-terra.
– É o passageiro que desembarcou. É o seu nome no Jaci.
Ninguém ligou maior importância. Apelidaram-no assim por ter os dentes ponteados à lima, como de cutia. Vinha tomar a bênção aos pais, resolver certos casos e retornar ao seringal.
Mas os irmãos de Liana consideravam aquilo um desafio. Pediu a cunhantã, emprenhou e vinha ver a cara do cabritinho. É verdade que não visitava as barracas, vivia triste e fugia de encontros e festas. Não fosse o nascimento do curumim e ninguém comentaria o fato. “Honras de moças não chegam pros de casa”. Isso é conversa de sem-vergonhas.
Eles teriam uma satisfação de Listrado, junto do padre ou polícia, ou, então, nada resolvido.
– Não queremos conversa. Ou casa ou vai pra faca!

III

Rezava-se novamente em homenagem a São Sebastião, no Paraná do Jenipapo. O padre ia encerrar o novenário e seria festa do arromba. Já desembarcara com o saco de seringa e lia o Breviário. Suspendia a leitura, de quando em quando, espantava as mutucas.
Pescadores, seringueiros, roceiros haviam dado esmolas para a noite final do Santo. Ninguém faltava, nem mesmo crianças e velhos. Haveria missa, casamentos, batizados, comunhões. Todos teriam de comparecer. Nem se evitariam rodadas de cachaça e garrafas escondidas à beira do mato.
Listrado também compareceria. Aproveitaria para ver Liana e o curumim. Intermediários ajustaram o encontro na casa de farinha, perto do forno. Seria um encontro em segredo. E como segredo naquele barulho?
Os irmãos foram avisados. Aproximaram-se da casa do forno. Listrado e Liana entreolharam-se. Quem teria denunciado? Agora, era ir para frente.
– Peço licença a vocês, disse Listrado. Quero uma conversa com a Liana. Só nós dois...
– Nada de conversa. A conversa é entre todos, seu sacana!
– Deixem que eu explique. Vocês estão bebos...
– Bebos nada! Explicação é na ponta da faca. Ou vamo logo pros pés do padre...
– Assim à força não vou...
Vai, não vai, empurra pra lá e pra cá. Um grito, de repente:
– Vocês me matarão sem me ouvir!
Correram todos pra desapartar. Já era tarde. Listrado arfava, caído na prensa de mandioca, botando sangue do peito e da garganta. Não falava mais, apontando as próprias roupas.
– Está faltando ar. Tragam velas e chamem o padre. Tragam um lençol também. Tirem a roupa do pobre!
Despiram-no. As mãos, em gestos desesperados, escorriam pelo ventre ferido. Deixaram-no todos e, já sem remédio, viram, paralisados e indignados, a causa do rompimento do noivado. Tinham sido extirpados, em cirurgia bárbara, os troféus masculinos do Listrado, deixando apenas cicatrizes grotescas.
Recordaram, na intensidade de um relâmpago, a enfermidade no Jaci, o internamento no hospital boliviano. Listrado sacrificou-se em pleno trabalho, arrojando-se às águas para safar a balsa, enganchada nos araçazais. A piranha negra, feroz e veloz, com os dentes em navalha, castrara-o sumariamente, desaparecendo com a isca sangrenta. Listrado soltou um gemido, como um uivo de morte, e subiu a jangada. Recuperou a vida. Mas perdeu o encanto da vida. Envergonhado, temendo o ridículo, não falava sobre o caso, que se espalhou no seringal. Transformou-se no Chico Piranha. Não era vítima isolada. Havia outras, imoladas pelas piranhas vorazes.
Não se conformavam os seus amigos do Tambaqui.
– Como podia casar? E com quê? E por que não deixaram falar? Como casar um homem que não é homem? Taí Listrado no buraco, entre os tapurus; os assassinos nos forrós. Liana deu pra vadia. Não escolhe preto nem branco, menino nem velho. Rede de arrastão, doida de tanto pegar machos. Até o promotor e o delegado vêm visitar o tabaquista. Quando chegam, os irmãos vão pescar. Têm medo de júri e cadeia, e se defendem com as manas. Tanta safadeza por morcego sujo, esfregado pelos de casa. Mesmo que boca vermelha de bacu de tanto comer urtiga e jitirana das beiradas.
– Tamo chegando. Dá mais uma buzinada. Cuidado com a proa no cocho da mandioca!

(Banco de canoa)

 
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