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Maibi
Uma
figura alentada e bruta, com a bocaça mascarada pela franja
da bigodeira ruça, dizia a outra personagem, chupada, esfanicada
de sezões e mau passadio, com uns raros pêlos duros
nos cantos dos lábios e no queixo prognato:
– Então, o negócio está feito... estamos
entendidos. Você nada me deve e deixa a Maibi com o Sérgio.
– Sim senhor, respondeu o escanzelado, retendo um suspiro.
Pronunciava-se este diálogo junto ao balcão, no
armazém, entre o tenente Marciano, dono do Soledade, e
um seu freguês, o Sabino da Maibi. Quando a operação
hedionda finalizou assim, de uma assentada, entre os dois homens,
o sol descambava mordendo o friso verde-negro da mata, e a luz
de fora filtrava-se por entre as brechas das paxiúbas mal
ajustadas, no barracão, como se coada fosse por entre as
barras férreas de um calabouço, guardando dois réprobos.
Mas, que negócio fora afinal firmado? O Sabino devia ao
patrão sete contos e duzentos, que a tanto montava a adição
das parcelas de dívidas de quatro anos atrás, e
cedia a mulher a um outro freguês do seringal, o Sérgio,
que por sua vez assumia a responsabilidade de saldar essa dívida.
O mais comum dos arranjos comerciais, essa transferência
de débito, com o assentimento do credor, por saldo de contas.
A troca interessava ao patrão, que ficava mais seguro com
o Sérgio, rapaz afamado como trabalhador insigne. E o Sabino
iria labutar com ânimo, na esperança, agora bem realizável,
de tirar saldo no fim do ano. Com a mulher, a sua peia maior também
tinha desaparecido: os sete contos e tanto, que neles pensar era
se lançar pela certa num deplorável estado de desalento.
Compreendia o Sabino que, em companhia da esposa, por mais que
trabalhasse, nunca pagaria a dívida crescente e escravo
se tornava. O débito era um par de machos...
“Tirar saldo” é a obsessão do trabalhador,
no seringal. E como não ser assim, se o saldo é
a liberdade? O regime da indústria seringueira tem sido
abominável. Instituiu-se o trabalho com a escravidão
branca! Incidente à parte na civilização
nacional, determinaram-no as circunstâncias de uma exploração
sem lei. O código surgiu mesmo nas contingências
da luta. Não por intimações de uma autoridade,
que não existia; mas por acordo tácito entre todos.
Demais, fora preciso organizar, em plena selva aquilo de que o
pensamento social do país, focado na Rua do Ouvidor, não
a cogitara nunca. Dir-se-ia uma nação de malandrins,
um país de cocagne; jamais se sentiu a necessidade de dar
ordem ao trabalho, como se este a ninguém preocupasse.
Incrível dizer-se – foram seringueiros que golpearam
a lei fundamental da nação livre! Porquanto aconteceu
então, ante condições especialíssimas
o que se houvera seguido espontaneamente não bastava. Um
seringal, em fim de contas, não era a estância de
gado, nem a fazenda de café, nem o engenho de cana. O que
satisfazia na campanha do Rio Grande, no oeste de São Paulo,
no interior de Pernambuco, não era suficiente no Madeira,
no Purus, no Juruá. Desde logo o que a legislação
não previu, a indústria nascente fundou. Não
era o exercício de simples crueldade; mas o resultado dos
interesses do capital que instituíra a sua própria
defesa. Lógico, pelo menos fatal. Os estatutos da nova
sociedade, que quis viver, receberam esta base: não poder
o seringueiro abandonar o seringal, sem estar quite para com o
patrão.
Por isso, em muitas ocasiões, dera ao Sabino o ímpeto
de sacudir fora o balde de leite, cruzar os braços na estrada,
nela ficando hirto, até a morte sobrevir; outras vezes,
pensara em correr os riscos de roubar uma canoa e fugir para Manaus...
Chegar de sua terra, no insólito desejo de fortuna, para
estabelecer-se um dia no Sitiá, com o campo de panasco
e uns novilhos e cabras; e, em troca, ali ficar no estranho deserto
alagadiço de um fundão do Amazonas, comido de “praga”,
e a cair de sezões! Com a situação, que se
lhe oferecia, de solvado o seu pobre coração renascia.
Haveria de voltar à sua terra, se Deus quisesse!
Bem tempo fazia que deixara o baixo Amazonas, primeira etapa de
seu êxodo de condenado. Lá trabalhara três
anos sem vantagem. Afora um pouco de “tapuru”, a seringa
era “fraca”, “itaúba”. No lago
do Castanho, casara-se com aquela cabocla, linda cunhã,
enguiço núbil, tentação que lhe chegara
para atrapalhar a vida, pois, se tivesse vindo sozinho, nessa
época, labutar no alto, na seringa, estaria certamente
a essas horas, no seu querido Ceará. Era verdade que, em
companhia da Maibi, mais doce lhe correra a existência...
Contudo, tinha sido um atropelo. Conseguira desenvencilhar-se,
mas ganhando; tinha saudade, porém, da “danada”
cabocla. Ah! os olhos dela, tingidos no sumo do pajurá;
o andar miúdo e ligeiro de um maçarico; ah! os seus
cabelos do negror da polpa de mutum “fava”; o vulto
roliço... As carícias ardentes da moça iriam
agora aplicar-se em outro... Nos braços de outro ela se
arrebataria em juras e suspiros... Fora-lhe bem duro apartar-se;
mas “era o jeito”. E o seringueiro procurava abafar
pensamentos que o incomodavam...
O certo é que, ao sair do armazém, a sensação
do Sabino foi a de desafrontado de carregosa canga.
O dia, um domingo de março, era de movimento no barracão;
os fregueses das barracas do seringal vinham em visita e a negócios.
Escasseavam a farinha-d’água, o pirarucu e o jabá,
mas o “vapor da casa” estava para chegar com o aviamento.
E a gente afluía, insofrida, a buscar mantimentos, e curiosa
de uns “brabos” que o vapor traria; mas, no fundo,
convergida pelas exigências irrevogáveis da sociabilidade,
cada vez mais intensas no regime de isolamento que os devorava.
Ao anoitecer, grande número de fregueses enchia a sala
maior do barracão, para a “rocega”. A gaita
começava a soar nos soluçosos bemóis de uma
valsa ronceira. E então, aqueles homens, no meio dos quais
havia apenas duas mulheres, se agarraram aos pares, desabalando-se
a dançar sobre o soalho flácido e ondulado das paxiúbas.
Um “farol de gás” se prendia ao pendural das
tesouras, no travejamento quase perdido no fumo envolvente do
tabaco. Cessada a música, era o rumor alto de conversa
e risadas, até que a harmônica incansável
e fanhosa gemesse novos compassos.
Tarde da noite, a uma observação do tenente: “basta
por hoje, rapaziada!” a sala se esvaziara. Os seringueiros
demandaram os pousos. O barracão ficara acaçapado
e tétrico, mais negro ainda na noite onde fuzilava, entreluzindo,
o pequenino diamante azul de uma única estrela abandonada.
A primeira cara que o Marciano viu, pela manhã seguinte,
foi a do Sabino. O patrão disparou logo:
– Está arrependido? Se quiser, pode ir para outro
seringal; não me desgosta. Se deseja ficar, também
pode... Não proíbo... Faça o que entender.
O Sabino declarou que não se havia arrependido; não
metia o pé atrás, e que queria trabalhar, mas em
“colocação, no centro”. Tencionava ficar
na do Paulino, que morrera, havia quatro dias passados, picado
por uma tucanabóia. A estrada de dois “frascos”
e meio não era grande cousa, mas sempre influía.
Demais, contava que “seu” tenente lhe aviasse todo
o pedido. Não era muito: uma tarrafa, um par de calças
de zuarte, pílulas “carapanã” e “taurinas”,
caixas de bala, a farinha e o pirarucu; cousas que um homem degradado
naqueles mundos não podia prescindir. Deveria então
começar a roçar a estrada? Na semana que entrava,
queria estar “sangrando as madeiras”...
O tenente assentia com desusada benevolência:
– Pois sim! Pois sim!... Há de se arranjar tudo...
O “Rio Yaco” chegará por estes dias...
Com efeito, uma semana depois, o vapor atracava ao Soledade, no
alvoroço da gente insofrida em aguardá-lo. Muitas
horas levou a despejar carga. Algumas reses foram atiradas do
portaló para a água, onde caíram, nadando
expeditas para a terra. Caixas, paneiros, fardos e garrafões
passavam pela prancha, atropeladamente, como se fossem baldeados
por contrabandistas em pânico. Numa agitada faina, tudo
se amontoava em terra, a fim de ser transportado ao armazém,
a não ser o gado disperso, que aparava os brotos, espontando
as canaranas na beira.
Com o carregamento desembarcara o pessoal, que o guarda-livros
fora buscar ao Ceará. Umas vinte cabeças, gente
do Crato e de Carateús. Os agenciados tinham sido, no porto
de Camocim, cinqüenta ao todo. Mas uns haviam fugido no Pará,
outros em Manaus e cinco haviam “dado o prego” com
as febres.
“Oh! canalha safada!” tal a frase que o empregado
entremeava, a cada passo, aludindo aos engajados, no relatar facundo,
ao Marciano, os trâmites da missão de que fora incumbido.
Um subprefeito, em Manaus, a quem dera queixa, ninguém
mandara ao encalço dos homens foragidos no Mocó...
Estava toda a campanha amaldiçoada em trinta contos. O
guarda-livros culpava também do desastre da expedição
à “casa aviadora”, porque esta demorara em
Belém a partida do navio, e o gerente tinha “quebrado
o corpo”, recusando-se a adiantar os “borós”
para acudir ao sustento do pessoal...
O momento chegou, em plena noite, que o “Rio Yaco”,
estrepitoso do vapor vomitado pelo tubo de descarga, recolhida
a prancha, desamarrados os cabos, largou brandamente do barranco.
Um apito roncante de “sereia” ecoou sinistro, ululando
no ermo.
Após o berro da despedida do “gaiola”, a vida
no Soledade seguiu o curso normal. Da célula central –
o barracão, irradiavam outras células – as
barracas, no sistema orgânico dessa fraca e fundamental
urdidura, que cobre léguas quadradas com o trabalho de
alguns homens apenas. Pelos varadouros e igarapés, os aviamentos
parciais eram transportados pelos “fregueses do toco”,
em jamaxis ou canoas.
Marciano, antes da dispersão dos novos fregueses, os reunira
na vasta sala do Soledade e lhes dirigira uma fala. Exigia trabalho
e freguês com saldo. Isto de gente devendo, não era
com ele. Não queria saber de histórias, queria borracha!
E, desprezando escrúpulos e cuidados na conservação
da riqueza florestal, com que a boa Natureza lhe presenteara,
resumia brutalmente, na homilia, o programa absurdo da sua exploração:
“Quem for tatu que cave; quem for macaco que trepe”.
Explicava esse lema bizarro. Não se opunha que as seringueiras
fossem lavradas das raízes aos galhos, num decreto de extinção
formal. Construíssem mutás: arapucas desengonçadas,
grosseiros andaimes para atingir, em faixa mais alta, os vasos
captores da goma preciosa; ou empregassem o “arrocho”:
medonho apertão, dia a dia constringido, para que o tronco,
esganado no garrote, ressumasse até as fezes a seiva valiosíssima.
Um máximo de produto, mesmo à custa do aniquilamento
das árvores, exigia o patrão, na formidável
ignorância que, generalizada, liquidaria a principal riqueza
da bacia amazônica, estancando-a na sua fonte.
Ao fim dessas recomendações imperiosas de crime
ou inconsciência, os “brabos” foram se estabelecer,
às pressas, nas estradas recém-abertas pelo “mateiro”,
na última invernia.
A lufa-lufa de “meter gente nas colocações”
cessou por fim. Iniciara-se o ramerrão do “fábrico”.
Até o termo da safra, entrava mês, saía mês,
o tenente, na ponte do Soledade, ou sentado na varanda, tranqüilizado
de fortuna por um gordo saldo no Prusse, mas, calculando a conta
de lucros e de perdas provável, consumia charutos caros,
passando os olhos pelos jornais, ou pervagando-os pelas margens
do rio em debruns uniformes de oiranas insípidas.
O barracão do Soledade dominava em mangrulho a chateza
da veiga circundante. E, como se uma grandiosa relha de charrua
tivesse tentado aradar a planície, a água refundava
o sulco fertilizante, num augusto lavrar para as searas de Pã...
A mata pintava-se de um mesmo verde-veroneso; o céu embebia-se
de aguada azul da Prússia; as horas escorriam na lentura
de um óleo denso, dessangrando por fino sangradouro; o
sol rojava-se diariamente pelos seus paços imperiais, num
servilismo de escravo...
Foi durante uma tarde vazia, fúlgida e vagarosa, que o
Marciano divisou certa canoa dobrando a curva do remanso, de rumo
ao barracão. Da margem oposta ela atravessou, dando ondulações
em viés à túnica lisa e cinzenta do rio.
Na proa, o remador amiudava, sôfrego, as remadas. Mal encostando
a embarcação, ele saltara em terra. Era o Sérgio,
que vinha pálido, visivelmente comovido. Acercando-se do
patrão, contou-lhe que aproveitara uns dias de chuva, nos
quais não pudera “cortar”, para fazer a viagem
ao “centro”; mas que ao voltar, não encontrara
mais em casa a Maibi. A cabocla desaparecera; só deixara
uma anágua no baú de marupá. Estava farto
de procurar... iria até a extrema de baixo, indagando...
chegaria mesmo ao Umarizal. E o Sérgio, devastado de indignação
e angústia, desceu precipitadamente a escada da ponte.
O tenente, com o seu pretendido faro de antiga autoridade policial
em São João de Uruburetama, lembrou-se do Sabino.
Quem saberia se o cearense, enciumado, não dera sumiço
à rapariga? Ocorreu-lhe mandar ao centro um homem de confiança
ver se lá encontrava o indiciado e, à sorrelfa,
bispava alguma coisa...
Sentado num banco, na cozinha, o Zé Magro cortava e recortava
o rolo de “Acará”, cantarolando em surdina:
Migo,
migo, migo, migo
Este molho de tabaco,
Que fumo de tico em tico
E masco de taco em taco,
quando
ouviu que o chamavam. Acudiu pronto, cessando o trauteio. Recebidas
as ordens e instruções do Tenente, tomou do rifle
e partiu.
De um pulo atravessou o campo, transpôs a “estiva”
e afundou na mata, desaparecendo pelo “travessão”.
Um pouco mais tarde, o “próprio” de sobre-rolda
topava com o Sabino, que saía da boca da estrada. Este
vestia uma camisa sórdida, calças trapejando nos
pés metidos em sapatas de borracha; e tinha a cabeça
rebuçada na chita do mosquiteiro. Aparelhava-o o terçado
enfiado na cinta, nas mãos o machadinho e o balde; pendido
ao flanco um pequeno saco e o rifle atravessado nas costas. O
uniforme traduzia a miséria e o arriscado do ofício.
Entabularam conversa.
– Bom-dia hoje?... Leite muito, hein?... indagou o Zé
Magro.
Sabino respondeu-lhe, dominando a custo a comoção
que o abatia:
–
Nem por isto... E, esforçando-se por se acalmar: –
botei “uma madeira em pique”, pau monstro, “apaideguado”...
E boa que admira... É para doze tigelas. Só ela
dá um “frasco”. Eu não via o diabo.
Passava junto e não dava com a bruta... E no entanto estava
logo depois da boca da primeira “manga”.
O outro, surpreso da serenidade do Sabino, resmoneou desconcertado,
referindo-se ao capricho costumeiro da “mãe da seringueira”,
que escondia as árvores. E, para disfarçar a espionagem,
revelou-se curioso:
– Bem queria ver esse pau... se é o que você
diz!
– Pois vá, replicou o Sabino. Há de se admirar,
e você, apesar de não ser nenhum “brabo”,
nunca viu coisa igual. Fica logo ao pé de um açacuzeiro,
depois de um cerrado de “unhas-de-gato” e jurarás...
– Está bom, deixe-me espiar. E o Zé Magro
foi endireitando para o maciço da mata onde, mesmo por
detrás do “defumador”, desembocava a estrada.
Sabino, que ficou atentando no espião, mal este desaparecera,
tomou a própria cabeça entre as mãos e sacudia-se
todo, oirado em paroxismos epilépticos. Andava para um
lado e para o outro, ia, voltava, levando as mãos ao peito
como para arrancar uma víscera de dentro, e puxava os cabelos,
enlaçando soluços a rugidos. Parecia investir para
a estrada a chamar alguém; depois, como que arrependido,
corria até o aceiro da floresta, atolava-se no chavascal
próximo... Produzia a impressão de que fosse ameaçado
por um açoite de fogo, e o perseguidor instrumento sinistro
chegasse a alcançar a vítima, fazendo-a saltar e
volver-se, fugindo ao contato espicaçante dos látegos.
Enquanto isso, o Zé Magro seguia pensativo e suspicaz à
cata da seringueira fenomenal. A estrada frondejada é apenas
um trilho, em busca das árvores a cortar. Mas, quase sempre
a linha poligonal mantém a orientação que
a fecha sobre si mesma. Por vezes dispartem dela outros polígonos
menores: as “voltas”, ou simples linhas: as “mangas”;
mas sempre o seu traço total é o de um carreiro,
enrodilhando a centena de “madeiras” a explorar. O
seringueiro no “fábrico” percorre-a às
pressas. Vai muitas vezes mesmo antes que amanheça, então
à luz do “farol” ou lamparina, embutindo as
tigelinhas sob o golpe pequeno e em diagonal, na devida “arreação”;
voltará imediatamente nas mesmas pegadas a fim de recolher
no balde o leite das tigelas. Manhã alta chega o seringueiro
estropeado; e tem ainda de defumar o látex d’olhos
castigados ao fumo acre dos cocos, que ardem embaixo do “boião”.
No hábito do serviço, o Zé Magro seguia a
passos rápidos, mal notara o açacuzeiro no cerrado
de cipós, e já se quedava aterrado diante o espetáculo
imprevisto e singular. Uma mulher, completamente despida, estava
amarrada a certa seringueira. Não se lhe via bem a face
na moldura lustrosa, em jorro negro e denso, dos cabelos fartos.
O Zé Magro acercou-se, tremendo, a examinar a realidade
terrível; na crucificada reconheceu, estupefacto, a mulher
do Sabino e do Sérgio.
Atado com uns pedaços de ambécima à “madeira”
da estrada, o corpo acanelado da cabocla adornava bizarramente
a planta que lhe servia de estranho pelourinho. Era como uma extravagante
orquídea, carnosa e trigueira, nascida ao pé da
árvore fatídica. Sobre os seios túrgidos,
sobre o ventre arqueado, nas pernas rijas, tinha sido profundamente
embutida na carne, modelada em argila baça, uma dúzia
de tigelas. Devia o sangue da mulher enchê-las e por elas
transbordar, regando as raízes do poste vivo que sustinha
a morta. Nos recipientes o leite estava coalhado – um sernambi
vermelho...
Tinha esse espetáculo de flagício inédito
a grandeza emocional e harmoniosa de imenso símbolo pagão,
com a aparência de holocausto cruento oferecido a uma divindade
babilônica, desconhecida e terrível. É que,
imolada na árvore, essa mulher representava a terra...
O martírio de Maibi, com a sua vida a escoar-se nas tigelinhas
do seringueiro, seria ainda assim bem menor que o do Amazonas,
oferecendo-se em pasto de uma indústria que o esgota. A
vingança do seringueiro, com intenção diversa,
esculpira a imagem imponente e flagrante de sua sacrificadora
exploração. Havia uma auréola de oblação
nesse cadáver, que se diria representar, em miniatura um
crime maior, não cometido pelo Amor, em coração
desvairado, mas pela Ambição coletiva de milhares
d’almas endoidecidas na cobiça universal.
Precipitado, o Zé Magro voltou, e, quando apareceu na boca
da estrada, quem o visse não o reconheceria. A comoção
dera uma pátina ao bronze mate de seu rosto. Olhou em torno.
Tomando do rifle, aperrou-o, e em sinal de socorro fez fogo várias
vezes seguidamente. A mata dormente, ao meio-dia cálido,
não despedia o menor murmúrio. Parecia, de imóvel,
marmorizada numa hipnose. O Zé Magro olhou mais detidamente
em volta. Ansiado, não se conteve, bramiu: “Sabino!
Eh! Sabino...”
Só o grito áspero de um cauré acudiu ao chamado.
“Sabino... Sabino!...”
E ao novo apelo mais fremente nem o malvado gavião respondeu
mais.
(Inferno
verde)