Zemaria Pinto


José Maria Pinto de Figueiredo, poeta e crítico literário, nasceu em
Santarém, no Pará, no dia 6 de maio de 1957. Fixou-se em Manaus, onde
realizou seus estudos. É formado em Economia pela Universidade Federal do
Amazonas. Poeta de sólida formação literária, foi professor de Literatura
Brasileira na Universidade Federal do Amazonas. É editor do jornal poético
“O Fingidor”. Com sua obra divulgada esparsamente, publicou seu primeiro
livro de poemas, Corpoenigma: haicais, em 1994. Os outros três livros são:
Fragmentos de silêncio (Manaus, 1996), Música para surdos (Manaus,
2001) e Dabacuri (Manaus, 2004).

 

 

 

exercício n.º 5]

(para o Alcides Werk)

Trago nas mãos a lâmina dos anos
que passaram por mim tragando sonhos:
sementes de um passado sem memória,
inúteis fragmentos de silêncio.
As velhas alegrias disfarçadas
tatuam sombras em meu rosto pálido.
Sorrio amargo, o limo transparente
refletido nos dentes amarelos.
Meus olhos baços já não sonham luzes
sob o cantar monótono do vento:
palavras surdas nos meus lábios cegos.

Antúrios se renovam no meu peito
e de meus braços pendem sensitivas.
Nos pés carrego o peso desses sonhos.

(Fragmentos de silêncio)

 

Advertência

Uma poética do devaneio
IV
Deve o poema ser lento
gerado célula a célula,

como um corpo que se forma,
um bicho que se transforma;

ou como fosse a laranja,
que se faz de casca e gomos;

em cada gomo milhares
de pequenas bolsas-lágrimas;

e somem-se ainda os átomos
do líquido que a enforma,

até a conclusão óbvia:
toda laranja é um poema.

Toda a vida é um poema?
Toda coisa é um não-poema?

Mas uma coisa se muda
em poema: se transmuda.

Poemacoisa: poesia;
poemobjeto é outra coisa.

Um poema é um poema,
apenas e tão-somente.

(Música para surdos)

 

 
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