exercício
n.º 5]
(para o Alcides Werk)
Trago nas mãos a lâmina dos anos
que passaram por mim tragando sonhos:
sementes de um passado sem memória,
inúteis fragmentos de silêncio.
As velhas alegrias disfarçadas
tatuam sombras em meu rosto pálido.
Sorrio amargo, o limo transparente
refletido nos dentes amarelos.
Meus olhos baços já não sonham luzes
sob o cantar monótono do vento:
palavras surdas nos meus lábios cegos.
Antúrios
se renovam no meu peito
e de meus braços pendem sensitivas.
Nos pés carrego o peso desses sonhos.
(Fragmentos
de silêncio)
Advertência
Uma poética do devaneio
IV
Deve o poema ser lento
gerado célula a célula,
como um corpo que se forma,
um bicho que se transforma;
ou como fosse a laranja,
que se faz de casca e gomos;
em cada gomo milhares
de pequenas bolsas-lágrimas;
e somem-se ainda os átomos
do líquido que a enforma,
até a conclusão óbvia:
toda laranja é um poema.
Toda a vida é um poema?
Toda coisa é um não-poema?
Mas uma coisa se muda
em poema: se transmuda.
Poemacoisa: poesia;
poemobjeto é outra coisa.
Um poema é um poema,
apenas e tão-somente.
(Música para surdos)