Saudades
À
minha família
Saudades tenho da terra
Dessa terra em que nasci;
Saudades – tenho da vida
Da vida que lá vivi.
Saudades – tenho dos bosques
Desses bosques e florestas,
Onde o gentio dorme as tardes
As horas mornas das sestas.
Saudades – tenho das tardes
– Saudades que trazem prantos
Em que ao longe o Amazonas
Gemia os seus tristes cantos.
Saudades – tenho das brisas
Que ao luar – pelo arvoredo –
Passam
tristes soluçando...
E soluçando em segredo...
Saudades tenho das alvas
Das alvas praias d’areia,
Aonde em noite estrelada
Sorrindo brinca a sereia.
Saudades de meus amigos
Meus amigos verdadeiros;
Saudades de meus prazeres
Meus prazeres derradeiros.
Saudades de minhas manas
De minhas manas queridas;
De meus manos com quem tinha
Minhas dores repartidas.
Saudades
tenho de tudo
De tudo – como ninguém –
Mas me ferem mais doridas
– De meu pai e minha mãe...
(Nuvens medrosas)
O
Descrente
Que mais queres? De ti aborrecido
Procuro a solidão.
Lá mesmo vais levar a meus ouvidos
O rir da multidão!
Eu
desprezo-te, mundo, e tu me buscas!
Mil vezes maldição!
Já não creio em teus risos mentirosos
Roubaste-me a ilusão.
Vai-te,
vai-te me deixa – sinto o gelo
Crestar-me o coração.
Foste tu quem mo deste, pois outrora
Ardia qual volcão.
Nem
futuro mais tenho, o atiraste
Em triste escuridão.
Meteoro brilhante que surgindo
Perdeu-se n’amplidão.
Vai-te
mundo enganoso – sou descrente
Oh! me sorriste em vão.
Não quero teu sorriso que é mentido
É rir de perdição.
Fui
cego em te seguir – compreendeu-te
Bem tarde o coração.
Mas forças inda tenho para dar-te
Desprezo e maldição.
(Nevoeiros)