Biografia / Bibliografia

Max Carphetier

Em Manaus, no dia 29 de abril de 1945, nasceu Max Carphentier Luiz da Costa. Bacharel em Direito, começou as atividades literárias como poeta, só depois se lançando na ficção. Pertence à Academia Amazonense de Letras, ao Clube da Madrugada, à União Brasileira de Escritores – AM e ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Livros de contos: Vitrais da busca, de 1978, e Nosso Senhor das Águas (O Cristo dos Igapós), de 1993. O último foi prefaciado por Dom Paulo Evaristo Arns.

 

 

Textos Selecionados:

Nhô Bento

Nhô Bento habitava entre palmeiras, escarpas do Maranhão. Velho e negro, as costas em arco, os anos passando em branco os seus cabelos, dócil e antiqüíssimo desenho de carvão vestindo trapos. O sertão enrugado na sua pele, a solidão dividida entre o casebre, a roça, a vaca Rosalba e o urubu costumeiro. Costumeiro sim, tinha a certeza de que era sempre o mesmo aquele urubu que o visitava de manhã e de tarde, pousando no galho da laranjeira retorcida.
Tarde ressonando nos olhos das espigas. Poucos olhos. Flores de mandacaru para a mortalha das derradeiras chuvas. O bafo de Rosalba cheirando à poeira do raríssimo capim. Rosalba só ossos. Não tinha leite, mas amamentava a solidão de nhô, tetas estorricadas podendo mais contra a morte que o leite das três cabras perdidas. Em Rosalba, pois, sua última companhia, o que lhe restara de mundo, a humanidade de patas, mas com olhos bons. Olhos que o entendem.

Tirou a água da cacimba (a mesma quantidade de água, o peso cada vez maior) e olhou o urubu. Ele quer os olhos de Rosalba, quer suas vísceras; anseia pela morte de uma vaca. Infelizmente, pensava nhô, ele conseguirá o que quer, e não vai demorar muito: não adianta atirar sabugos de milho contra este azar, e eu não terei forças para enterrar Rosalba, coitada: acho que ela não vai durar mais dois dias.
Passou a mão entre os chifres da vaca e deu-lhe de beber. Os olhos de Rosalba estavam ficando cada vez mais distantes, e, ao fitá-los, também alguma coisa esvaía-se dentro dele, como se a vida do animal fosse a sua própria vida, de tal forma que às vezes acreditava que os restos de sua existência eram sustentados pelos ossos de Rosalba.
Deitou na rede, olhando as espigas ferverem no caldeirão. Esse urubu acabará com Rosalba. Morta ela, morto eu. Não tenho mais para quem viver. O resto da roça acabará com a seca.
Noite. As folhas do babaçu mais próximo fracionando o luar em sombras agitadas. Sombras dançando a cantiga dos sapos. Vento borrifando luar por entre as frestas. As mesmas lembranças: a mulher morrendo de febre, o filho apodrecendo no xilindró da cidade. Entre as imagens, o conforto de estar Rosalba ali perto clareando tudo. Um clarão de ossos sobre o seu passado. Atentou bem os ouvidos. Durante aquela noite em claro ainda não ouvira um ruído qualquer da vaca nas folhagens. Seria o vozerio do vento que o impedia de ouvi-la? Da porta poderia ver seu vulto, mas a rede o prendia como o visgo ao passarinho, não permitindo às suas pernas fracas o mínimo esforço. Manhãzinha iria vê-la, dar-lhe de beber. Continuava a pensar. Seis anos de solidão, desde que dona Maria, patroa gorda e retirante, fora para o sul, deixando-lhe o pedaço de terra. A terra e a vaca. A terra com as espigas; a vaca com seu poder ruminante contra a solidão, animal salvando dias e, mesmo sem leite, sustentando os trapos de sua vida, que nem só de leite e espigas vive o homem. Sobre a testa de Rosalba, quando a acariciava, fizera desfilar todas as suas esperanças passadas e mortas, e ela de tal maneira parecia entendê-lo que era como se fosse a sua memória. Às vezes pensava que a vaca era anterior a tudo em sua vida, o seu anjo da guarda. Anjo bom, de chifres pontiagudos, que o urubu rondava. Dias e dias passando a mão no seu pêlo, espantando os mosquitos. Rosalba apenas olhava, e seu olhar era melhor do que os daquela gente toda que passara por sua vida, um olhar de mãe, um pêlo através do qual podia tocar a sua juventude de negro, juventude agreste e sofrida como a pele retesada sobre os ossos. O vento parou nas folhas do babaçu.
Depois de meio-dia, o urubu pousou no galho da laranjeira retorcida. Rosalba levantou os olhos. Urubu e vaca se fitaram numa comunicação tão plena, que o silêncio do sertão cantou nas pedras e parou o movimento das palmeiras. A porta do casebre, estranhamente, ainda não se abrira até aquela hora. Dentro, uma rede prendia um corpo como o visgo a um passarinho. Rosalba fitou longe o fim do campo. O urubu bateu asas e partiu. Uma calma de morte ardeu na tarde.

(Vitrais da busca)

O morcego

Conta-se na aldeia de um morcego órfão que habitava a torre de marfim da antiga ermida. Poucas pessoas conseguiram vê-lo de dia. Costumeiramente, pendurava-se no cimo da torre e chupava a nuvem mais sangüínea do poente. Era a alma penada, diziam, do magérrimo pároco lascivo que, entre o adro e a sentina, sacrificara as meninas mais rosadas do colégio. Depois que foi encontrado morto, nu, com o membro estrangulado pela corda do incensório, ninguém mais apareceu na Igreja. Mulheres piedosas resgataram as imagens, excomungaram o lugar, e ainda hoje o povo persigna-se ao passar defronte do velho santuário ou quando ouvem contar da última aparição do morcego, vale dizer, da alma perdida do padre Belzequim. Foi numa noite de inverno, junho findo, há muitos anos. As foices da colheita brilhavam aos relâmpagos do norte. Pelas estradas molhadas, o vento arrancava lama e jogava contra as vidraças e, como um lobo, uivando pelas frestas, descabelava as chamas das lareiras. Súbito ouviu-se o duradouro estrondo de um grunhido milenar. Longe, para as bandas da igreja, gigantescas asas negras, envoltas em tétrica luz branca e intensíssima, agitaram-se no céu por instantes e explodiram em centenas de pedaços. Os fragmentos ninguém nunca encontrou. Mas os anciãos da aldeia asseguram que, manhã cedinho, as quatro noivas do mês, contando horrores, apareceram prenhas de nove meses e caducas.

(Ibidem)

 
| Fechar |