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Nhô
Bento
Nhô Bento habitava entre palmeiras, escarpas do Maranhão.
Velho e negro, as costas em arco, os anos passando em branco os
seus cabelos, dócil e antiqüíssimo desenho
de carvão vestindo trapos. O sertão enrugado na
sua pele, a solidão dividida entre o casebre, a roça,
a vaca Rosalba e o urubu costumeiro. Costumeiro sim, tinha a certeza
de que era sempre o mesmo aquele urubu que o visitava de manhã
e de tarde, pousando no galho da laranjeira retorcida.
Tarde ressonando nos olhos das espigas. Poucos olhos. Flores de
mandacaru para a mortalha das derradeiras chuvas. O bafo de Rosalba
cheirando à poeira do raríssimo capim. Rosalba só
ossos. Não tinha leite, mas amamentava a solidão
de nhô, tetas estorricadas podendo mais contra a morte que
o leite das três cabras perdidas. Em Rosalba, pois, sua
última companhia, o que lhe restara de mundo, a humanidade
de patas, mas com olhos bons. Olhos que o entendem.
Tirou
a água da cacimba (a mesma quantidade de água, o
peso cada vez maior) e olhou o urubu. Ele quer os olhos de Rosalba,
quer suas vísceras; anseia pela morte de uma vaca. Infelizmente,
pensava nhô, ele conseguirá o que quer, e não
vai demorar muito: não adianta atirar sabugos de milho
contra este azar, e eu não terei forças para enterrar
Rosalba, coitada: acho que ela não vai durar mais dois
dias.
Passou a mão entre os chifres da vaca e deu-lhe de beber.
Os olhos de Rosalba estavam ficando cada vez mais distantes, e,
ao fitá-los, também alguma coisa esvaía-se
dentro dele, como se a vida do animal fosse a sua própria
vida, de tal forma que às vezes acreditava que os restos
de sua existência eram sustentados pelos ossos de Rosalba.
Deitou na rede, olhando as espigas ferverem no caldeirão.
Esse urubu acabará com Rosalba. Morta ela, morto eu. Não
tenho mais para quem viver. O resto da roça acabará
com a seca.
Noite. As folhas do babaçu mais próximo fracionando
o luar em sombras agitadas. Sombras dançando a cantiga
dos sapos. Vento borrifando luar por entre as frestas. As mesmas
lembranças: a mulher morrendo de febre, o filho apodrecendo
no xilindró da cidade. Entre as imagens, o conforto de
estar Rosalba ali perto clareando tudo. Um clarão de ossos
sobre o seu passado. Atentou bem os ouvidos. Durante aquela noite
em claro ainda não ouvira um ruído qualquer da vaca
nas folhagens. Seria o vozerio do vento que o impedia de ouvi-la?
Da porta poderia ver seu vulto, mas a rede o prendia como o visgo
ao passarinho, não permitindo às suas pernas fracas
o mínimo esforço. Manhãzinha iria vê-la,
dar-lhe de beber. Continuava a pensar. Seis anos de solidão,
desde que dona Maria, patroa gorda e retirante, fora para o sul,
deixando-lhe o pedaço de terra. A terra e a vaca. A terra
com as espigas; a vaca com seu poder ruminante contra a solidão,
animal salvando dias e, mesmo sem leite, sustentando os trapos
de sua vida, que nem só de leite e espigas vive o homem.
Sobre a testa de Rosalba, quando a acariciava, fizera desfilar
todas as suas esperanças passadas e mortas, e ela de tal
maneira parecia entendê-lo que era como se fosse a sua memória.
Às vezes pensava que a vaca era anterior a tudo em sua
vida, o seu anjo da guarda. Anjo bom, de chifres pontiagudos,
que o urubu rondava. Dias e dias passando a mão no seu
pêlo, espantando os mosquitos. Rosalba apenas olhava, e
seu olhar era melhor do que os daquela gente toda que passara
por sua vida, um olhar de mãe, um pêlo através
do qual podia tocar a sua juventude de negro, juventude agreste
e sofrida como a pele retesada sobre os ossos. O vento parou nas
folhas do babaçu.
Depois de meio-dia, o urubu pousou no galho da laranjeira retorcida.
Rosalba levantou os olhos. Urubu e vaca se fitaram numa comunicação
tão plena, que o silêncio do sertão cantou
nas pedras e parou o movimento das palmeiras. A porta do casebre,
estranhamente, ainda não se abrira até aquela hora.
Dentro, uma rede prendia um corpo como o visgo a um passarinho.
Rosalba fitou longe o fim do campo. O urubu bateu asas e partiu.
Uma calma de morte ardeu na tarde.
(Vitrais
da busca)
O
morcego
Conta-se na aldeia de um morcego órfão que habitava
a torre de marfim da antiga ermida. Poucas pessoas conseguiram
vê-lo de dia. Costumeiramente, pendurava-se no cimo da torre
e chupava a nuvem mais sangüínea do poente. Era a
alma penada, diziam, do magérrimo pároco lascivo
que, entre o adro e a sentina, sacrificara as meninas mais rosadas
do colégio. Depois que foi encontrado morto, nu, com o
membro estrangulado pela corda do incensório, ninguém
mais apareceu na Igreja. Mulheres piedosas resgataram as imagens,
excomungaram o lugar, e ainda hoje o povo persigna-se ao passar
defronte do velho santuário ou quando ouvem contar da última
aparição do morcego, vale dizer, da alma perdida
do padre Belzequim. Foi numa noite de inverno, junho findo, há
muitos anos. As foices da colheita brilhavam aos relâmpagos
do norte. Pelas estradas molhadas, o vento arrancava lama e jogava
contra as vidraças e, como um lobo, uivando pelas frestas,
descabelava as chamas das lareiras. Súbito ouviu-se o duradouro
estrondo de um grunhido milenar. Longe, para as bandas da igreja,
gigantescas asas negras, envoltas em tétrica luz branca
e intensíssima, agitaram-se no céu por instantes
e explodiram em centenas de pedaços. Os fragmentos ninguém
nunca encontrou. Mas os anciãos da aldeia asseguram que,
manhã cedinho, as quatro noivas do mês, contando
horrores, apareceram prenhas de nove meses e caducas.
(Ibidem)